{"id":8439,"date":"2021-10-26T14:55:39","date_gmt":"2021-10-26T17:55:39","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=8439"},"modified":"2021-10-26T14:55:41","modified_gmt":"2021-10-26T17:55:41","slug":"precisamos-salvar-a-casa-de-caio-fernando-abreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=8439","title":{"rendered":"Precisamos salvar a casa de Caio Fernando Abreu"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A casa onde morava o escritor Caio Fernando Abreu, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, corre, mais uma vez, o risco de deixar de existir. Vazio, o im\u00f3vel est\u00e1 sendo <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/seguranca\/noticia\/2021\/10\/antiga-casa-de-caio-fernando-abreu-na-capital-foi-arrombada-duas-vezes-em-tres-dias-ckv5mkn3g0039017f6qjl1mv0.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">depredado<\/a> na parte externa por ladr\u00f5es. O futuro do im\u00f3vel, no entanto, pode ser ainda pior do que apenas os furtos cometidos ao longo dos \u00faltimos dias. J\u00e1 que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que a casa, localizada na rua Oscar Bittencourt, foi vendida para uma construtora, assim como outra moradia vizinha. Dessa forma, parece ser iminente a derrubada de um espa\u00e7o de mem\u00f3ria afetiva e liter\u00e1ria de um dos maiores escritores brasileiros da atualidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Algo ainda pode ser feito?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em 2010, quando a antiga resid\u00eancia de Caio F. foi posta \u00e0 venda, iniciou-se a campanha <a href=\"http:\/\/salveacasadocaiofernandoabreu.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Salve a Casa do Caio Fernando Abreu<\/a>. O movimento, apesar de ter sido expressivo e importante, acabou n\u00e3o atingindo seu objetivo: transformar o lugar em um centro cultural para celebrar o escritor. Na \u00e9poca, virou a casa de uma fam\u00edlia, que procurou preservar, \u00e0 sua maneira, a hist\u00f3ria do c\u00e9lebre ex-morador.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Mem\u00f3ria afetiva e liter\u00e1ria em risco<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Uma d\u00e9cada depois, o risco \u00e9 ainda maior. Isto porque a demoli\u00e7\u00e3o \u00e9 o destino padr\u00e3o de casas adquiridas por construtoras. Por\u00e9m, ser\u00e1 padr\u00e3o e banal o passado que envolve esse im\u00f3vel? Apesar de o sobrado, em estilo espanhol, n\u00e3o ser uma refer\u00eancia em termos arquitet\u00f4nicos, acredito que merece ser salvo por outros motivos. Como se sabe, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">o conceito de patrim\u00f4nio hist\u00f3rico ultrapassa a quest\u00e3o material. \u00c9 Mem\u00f3ria, \u00e9 Hist\u00f3ria, \u00e9 Cultura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, a casa foi imortalizada na escrita do autor, em especial no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Pequenas Epifanias<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Era a resid\u00eancia de sua fam\u00edlia h\u00e1 muito tempo e foi para onde retornou, em 1994, quando teve o diagn\u00f3stico de HIV confirmado. Nesse local, Caio redescobriu-se. Ali, tornou-se jardineiro e sua paix\u00e3o por flores viraram pujantes textos sobre a luta pela vida, como em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A morte dos girass\u00f3is<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201c[&#8230;] tenho aprendido muito com o jardim. Os girass\u00f3is, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, f\u00e1ceis, at\u00e9 um pouco brutas.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Pois n\u00e3o s\u00e3o. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, carac\u00f3is do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia p\u00e1! L\u00e1 est\u00e1 o bot\u00e3ozinho todo catita, parece que j\u00e1 vai abrir.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Mas leva tempo, ele tamb\u00e9m, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um m\u00eas no ver\u00e3o, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e v\u00e1rios girass\u00f3is estavam quebrados. Fiquei uma fera.\u201d<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Neste <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Vtm0DN9mBZs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">v\u00eddeo<\/a>, \u00e9 poss\u00edvel ver a casa de Caio F. antes da reforma promovida pelo propriet\u00e1rio mais recente do im\u00f3vel.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Luta pela mem\u00f3ria<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Porto Alegre \u00e9 uma cidade que enfrenta in\u00fameros problemas. Entre eles, a dificuldade de preservar espa\u00e7os de mem\u00f3ria. Ainda h\u00e1 tempo para lutarmos pela cria\u00e7\u00e3o de um local que possa abrigar n\u00e3o apenas homenagens ao escritor, mas ser um centro de cultura no bairro Menino Deus, \u00e1rea da capital ga\u00facha cada vez mais carente de atrativos nesse sentido. Aos admiradores de Caio, ressalto que considero sua import\u00e2ncia maior do que a casa onde viveu. Mas acredito que Porto Alegre merece um local para celebrar o autor e sua obra.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">\u00c9 poss\u00edvel preservar?<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Certamente, se houver interesse da construtora, ainda h\u00e1 possibilidade de se impedir a demoli\u00e7\u00e3o do sobrado. Sem d\u00favida, seria um diferencial essa atitude da empresa, ao se tornar uma apoiadora da Arte. Em termos pr\u00e1ticos, a preserva\u00e7\u00e3o poderia ser parcial &#8211; a avalia\u00e7\u00e3o desta viabilidade deixo aos t\u00e9cnicos da \u00e1rea &#8211; ou total. Tamb\u00e9m sugiro que, ao inv\u00e9s de um novo espa\u00e7o, a casa de Caio F. abrigue alguma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica da \u00e1rea cultural que esteja em funcionamento em im\u00f3vel alugado. Exemplo disso \u00e9 o Instituto Estadual do Livro, conforme me informa o amigo e historiador Jo\u00e3o de Los Santos. De qualquer forma, a ideia est\u00e1 lan\u00e7ada e espero n\u00e3o estar sozinha nesse desejo de preserva\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Caio Fernando Abreu e sua import\u00e2ncia liter\u00e1ria<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O escritor da paix\u00e3o, como uma vez foi chamado por Lygia Fagundes Telles, teve seus primeiros livros publicados em 1970. S\u00e3o eles: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Invent\u00e1rio do ir-remedi\u00e1vel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Limite branco<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Roda de fogo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (antologia com outros escritores do Rio Grande do Sul). Cinquenta e um anos depois, o autor segue com leitores fi\u00e9is, mesmo que sua partida precoce tenha ocorrido no j\u00e1 distante <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/22-anos-sem-caio-fernando-abreu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1996<\/a>. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ga\u00facho de Santiago do Boqueir\u00e3o, morador de Porto Alegre, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, com passagens pela Europa, a obra do autor \u00e9 considerada por especialistas como universal e com evidente qualidade est\u00e9tica. Seu maior sucesso editorial foi<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Morangos Mofados,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> mas sua escrita \u00e9 mais diversa e rica do que somente os contos pelos quais \u00e9 geralmente lembrado. Ao longo da vida, Caio escreveu romances, textos teatrais, cr\u00f4nicas e poemas. Seu legado ganhou novos leitores nas redes sociais e demonstra a atualidade das tem\u00e1ticas abordadas, como a solid\u00e3o urbana.\u00a0<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\">Obras de Caio Fernando Abreu, por data de lan\u00e7amento:<\/h4>\n<ul style=\"text-align: justify\">\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Limite branco <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1970)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Invent\u00e1rio do irremedi\u00e1ve<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">l (1970)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">O ovo apunhalado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1975)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Pedras de Calcut\u00e1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1977)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Morangos mofados <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1982)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Tri\u00e2ngulo das \u00e1guas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1983)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Os drag\u00f5es n\u00e3o conhecem o para\u00edso <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(1988)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">As frangas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1988)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">A maldi\u00e7\u00e3o do Vale Negro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1988)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Onde andar\u00e1 Dulce Veiga?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1990)<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Ovelhas negras<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (1995)<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Livros lan\u00e7ados ap\u00f3s a morte de Caio<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">1996 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">&#8211; Pequenas Epifanias<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">1996<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; Estranhos estrangeiros<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">1997 &#8211; <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Teatro completo<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">2002 &#8211;\u00a0 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Caio Fernando Abreu: cartas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, com organiza\u00e7\u00e3o de Italo Moriconi<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">2005-6 &#8211; Tr\u00eas volumes da s\u00e9rie <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Caio 3D,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> sele\u00e7\u00e3o da obra das d\u00e9cadas de 1970, 1980 e 1990, com alguns textos in\u00e9ditos<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">2009 &#8211; <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Para Sempre Teu Caio F<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.,<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> cartas, conversas,<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400\">mem\u00f3rias de Caio Fernando Abreu, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">de Paula Dip<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">2012 &#8211;\u00a0 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A vida gritando nos cantos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, sele\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas in\u00e9ditas, e de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, organiza\u00e7\u00e3o de Let\u00edcia Chaplin e M\u00e1rcia de Lima e Silva<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">2018 &#8211;\u00a0 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Contos Completos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Caio Fernando Abreu<\/span><\/p>\n<p><em>Imagem: Sandra La Porta<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":5,"featured_media":8440,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[188,2620],"class_list":["post-8439","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-voos-literarios","tag-caio-fernando-abreu","tag-salve-a-casa-do-caio-fernando-abreu"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8439","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8439"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8439\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8440"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8439"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8439"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8439"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}