{"id":818,"date":"2017-02-23T15:15:25","date_gmt":"2017-02-23T18:15:25","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=818"},"modified":"2017-02-24T10:36:51","modified_gmt":"2017-02-24T13:36:51","slug":"uma-farsa-criada-para-perseguir-ativistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=818","title":{"rendered":"Uma farsa criada para perseguir ativistas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 exagero afirmar que o ano de 2013 foi um ano decisivo na minha vida. Naquela \u00e9poca trabalhava como rep\u00f3rter e foi nesta condi\u00e7\u00e3o que acompanhei todas as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram conta de Porto Alegre, no lastro de uma revolta popular que revirou o Brasil e amedrontou a casta pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As jornadas de junho fizeram parte do meu amadurecimento pol\u00edtico. Foi com a juventude nas ruas em 2013 que fortaleci minha consci\u00eancia de militante LGBT, percebendo que algo novo estava sendo gestado naquele momento. Conheci muita gente, me aproximei de coletivos e movimentos. Fui tomado por aquela atmosfera incontrol\u00e1vel e potente.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Nem o realismo m\u00e1gico de Gabriel Garcia M\u00e1rquez conseguiria ser t\u00e3o criativo na inven\u00e7\u00e3o de uma cr\u00f4nica fant\u00e1stica como essa montada pela pol\u00edcia ga\u00facha, com a cumplicidade do Minist\u00e9rio P\u00fablico e a anu\u00eancia do Judici\u00e1rio&#8221;<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas este texto \u00e9 mais do que um exerc\u00edcio de nostalgia. \u00c9 uma necessidade. No dia 21 de fevereiro <a href=\"http:\/\/esquerdaonline.com.br\/2017\/02\/03\/bloco-de-lutas-no-banco-dos-reus-mais-um-capitulo-da-perseguicao-politica-no-rs\/\" target=\"_blank\">iniciaram-se as audi\u00eancias<\/a> de um processo que se arrasta desde 2013 contra seis ativistas que participaram das jornadas de junho: Matheus Gomes, Rodrigo Brizolla, Lucas Mar\u00f3stica, Gilian Cidade, Alfeu Neto e Vicente Mertz. Trata-se de uma farsa jur\u00eddica. Nem o realismo m\u00e1gico de Gabriel Garcia M\u00e1rquez conseguiria ser t\u00e3o criativo na inven\u00e7\u00e3o de uma cr\u00f4nica fant\u00e1stica como essa montada pela pol\u00edcia ga\u00facha, com a cumplicidade do Minist\u00e9rio P\u00fablico e a anu\u00eancia do Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes jovens n\u00e3o est\u00e3o sendo acusados por acaso. Todos faziam parte da organiza\u00e7\u00e3o do Bloco de Lutas pelo Transporte P\u00fablico, esfor\u00e7o de diversos coletivos e entidades que se unem em torno de uma pauta comum para mobilizar a sociedade porto-alegrense por um transporte 100% p\u00fablico e de qualidade. Foram selecionados pelo Estado para servir de exemplo a todos os manifestantes, numa tentativa\u00a0de rebaixar os movimentos sociais a algo semelhante a uma quadrilha perante a opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As acusa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os seis militantes s\u00e3o acusados de liderar depreda\u00e7\u00f5es e saques. A acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada no depoimento de uma pessoa desconhecida, que disse ter roubado dois secadores de cabelo a mando do Bloco de Lutas. Uma piada de mau gosto. Como se o levante juvenil e popular de 2013 tivesse ido \u00e0s ruas do Brasil inteiro para roubar secadores. Mas a trama fica mais interessante quando verificamos as outras testemunhas que embasam a a\u00e7\u00e3o: um policial militar e o jornalista Voltaire Santos que, na \u00e9poca, trabalhava na R\u00e1dio Ga\u00facha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rep\u00f3rter em quest\u00e3o se infiltrou de forma clandestina em uma assembleia do movimento, afirmando \u00e0 pol\u00edcia ter presenciado a organiza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es violentas por parte dos manifestantes. \u00c9 a express\u00e3o de um tipo de jornalismo que sempre atuou em uma rela\u00e7\u00e3o umbilical com a pol\u00edcia. O mesmo jornalista foi um dos respons\u00e1veis pelo fechamento de uma cl\u00ednica de aborto em Porto Alegre, gerando constrangimento a mulheres que se veem obrigadas a recorrer a estes locais e ainda por cima acabam sendo expostas como criminosas em uma articula\u00e7\u00e3o perversa entre m\u00eddia e pol\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A minha participa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como rep\u00f3rter, acompanhei de perto todas as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013. Estive em assembleias do movimento durante a ocupa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara Municipal e nunca presenciei qualquer organiza\u00e7\u00e3o de atividade violenta. Eu tinha contato direto com muitos dos ativistas acusados nesta a\u00e7\u00e3o. Nunca vi nenhum deles com uma pedra na m\u00e3o ou incitando \u2013 muito menos coordenando &#8211; qualquer atitude violenta. As depreda\u00e7\u00f5es que ocorreram foram um sintoma daquele momento pol\u00edtico, um fen\u00f4meno espont\u00e2neo\u00a0e incontrol\u00e1vel das ruas em ebuli\u00e7\u00e3o, n\u00e3o uma atitude orientada por qualquer movimento. Dificilmente multid\u00f5es se rebelam com um sorriso no rosto e flores nas m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sei que esta coluna \u00e9 um espa\u00e7o para falar de temas relacionados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT. Talvez pare\u00e7a que este texto n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o nenhuma com isso, mas tem. Em 2013, centenas de milhares de jovens tomaram as ruas mandando um recado ao nosso sistema pol\u00edtico apodrecido: \u201cN\u00e3o nos representam\u201d. Essa foi a s\u00edntese de um acontecimento\u00a0que, mesmo com imprecis\u00f5es, representou uma fissura no regime. \u00c9 por isso que a juventude que saiu \u00e0s ruas est\u00e1 at\u00e9 hoje sendo perseguida. \u00c9 por isso que o Estado quer transformar ativistas em r\u00e9us.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comunidade\u00a0LGBT nunca foi representada por este sistema denunciado em 2013. A institucionalidade brasileira n\u00e3o d\u00e1 a seus cidad\u00e3os LGBTs direitos b\u00e1sicos, como casamento \u2013 regulado pela esfera judicial, mas inexistente no \u00e2mbito legal -, direito \u00e0 livre identidade de g\u00eanero e um conjunto de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para a diversidade e ao combate ao preconceito. A aus\u00eancia destes direitos alimenta uma cultura do \u00f3dio e torna cada um de n\u00f3s, LGBTs, alvos permanentes. Por isso optei por usar este espa\u00e7o hoje para denunciar esta farsa, este processo kafkiano. Os LGBTs conhecem de perto o arb\u00edtrio e est\u00e3o sujeitos a todo tipo de autoritarismo, portanto nenhum de n\u00f3s deve compactuar com este tipo de situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/editorialj\/8613769049\" target=\"_blank\"><em><strong>Foto: Carolina Ferraz\/Editorial J<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 exagero afirmar que o ano de 2013 foi um ano decisivo na minha vida. 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