{"id":770,"date":"2017-02-17T10:59:28","date_gmt":"2017-02-17T12:59:28","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=770"},"modified":"2017-02-22T11:13:59","modified_gmt":"2017-02-22T14:13:59","slug":"critica-toni-erdmann","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=770","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Toni Erdmann"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Pedro Henrique Gomes<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Winfried (Peter Simonischek) resolve ir visitar a filha Ines (Sandra H\u00fcller), que h\u00e1 anos deixou a Alemanha para ir trabalhar na Rom\u00eania. A sua empresa \u00e9 respons\u00e1vel pela consultoria de risco de imagem de grandes companhias que resolvem tomar decis\u00f5es impopulares (demiss\u00f5es em larga escala, como \u00e9 o caso do filme). Ela precisa construir um arcabou\u00e7o mais ou menos justific\u00e1vel para as demiss\u00f5es que ir\u00e3o se seguir a terceiriza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Ao chegar l\u00e1, Winfried, como Bartebly, resolver negar esse mundo. <em>Acha melhor n\u00e3o<\/em>. Utilizando nomes falsos, dentadura e peruca, ele cria hist\u00f3rias para conseguir penetrar no mundo da filha (e se chocar contra ele), faz\u00ea-la questionar. Mas j\u00e1 adiantamos, a sagacidade do filme consiste em compreender perfeitamente que as escolhas de Ines s\u00e3o absolutamente conscientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de ser uma com\u00e9dia, Toni Erdmann tem momentos de humor que irrompem o drama e proclamam uma independ\u00eancia dentro da narrativa dram\u00e1tica maior (e mais fundamental): a <em>pr\u00e1xis<\/em> que se evidencia na rela\u00e7\u00e3o do pai com a filha. O pai \u00e9 um <em>performer<\/em> cr\u00edtico, supostamente consciente de sua objetividade social, homem que conhece a natureza e a sociedade, que aprendeu a deslizar pela complexidade do sistema cultural que habita sua filha (e, claro, ele tamb\u00e9m), mas que n\u00e3o pensa em transformar outro mundo que n\u00e3o seja o seu: o da experi\u00eancia cotidiana, da vida, de suas emo\u00e7\u00f5es di\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse personagem e essa rela\u00e7\u00e3o d\u00e3o o pontap\u00e9 inicial no conflito de um ser com outro, um desafio nem tanto de conscientiza\u00e7\u00e3o, mas de <em>re-conhecimento<\/em>. Do qu\u00ea? Do sujeito que o trabalho, tal como posto e levado a cabo, busca constantemente anular, deixar aos peda\u00e7os, reduzido em si mesmo e separado daquilo que lhe pode fortalecer. Isto, claro, como a m\u00e3o, \u00e9 uma <em>estrat\u00e9gia invis\u00edvel<\/em>.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;N\u00e3o \u00e9 simplesmente transformar-se, mas derrotar, por metamorfose auto ir\u00f4nica, a in\u00e9rcia&#8221;<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 l\u00f3gico, no entanto, que Ade reconhece a ingenuidade daquilo que coloca em cena, isto \u00e9, da caricatura que cria do universo das finan\u00e7as, haja vista o franco deboche que ela deixa vazar das reuni\u00f5es de neg\u00f3cios, dos coquet\u00e9is de luxo, independentemente da presen\u00e7a do pai, o que clarifica que ele n\u00e3o \u00e9 o centro do humor (todos vimos a cena da masturba\u00e7\u00e3o sobre os quitutes no hotel e a mais larga dura\u00e7\u00e3o da sequ\u00eancia da festa no apartamento) do filme e, consequentemente, que o pr\u00f3prio humor n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio, mas objetivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal qual um elemento detonador de certo terrorismo cultural, o humor faz interven\u00e7\u00f5es que s\u00e3o antes de tudo desafios de encena\u00e7\u00e3o, ao que parece ser a mais potente obsess\u00e3o de Maren Ade a se revelar agora: colocar na cena um conflito e ent\u00e3o tencion\u00e1-lo, pelo exagero c\u00f4mico, at\u00e9 o seu limite. N\u00e3o \u00e9 simplesmente transformar-se, mas derrotar, por metamorfose auto ir\u00f4nica, a in\u00e9rcia. N\u00e3o h\u00e1 desespero, mas conflito, contradi\u00e7\u00e3o. Sua filha vive o mundo das pessoas comuns, o mundo real, que \u00e9 tamb\u00e9m o nosso. Um mundo que chamam de superficial, mas que \u00e9, em verdade, bem real e violento. As finan\u00e7as, o marketing, a pol\u00edtica internacional mediada pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es, nada disso \u00e9 arbitr\u00e1rio no filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A financeiriza\u00e7\u00e3o engendrada pelo capitalismo globalizado mobiliza uma est\u00e9tica pr\u00f3pria que a pureza n\u00e3o conseguiria alcan\u00e7ar (vide Costa Gavras, Ken Loach, S\u00e9rgio Bianchi e o time de cineastas cr\u00edticos do sistema), pois prefere moralizar, esquematizar e se resguardar de todo o mal. Ade, ao contr\u00e1rio, se livra dos puros. Resolve deixar seu filme acontecer muito mais do que em todos os seus anteriores. Ela combina com absoluta intelig\u00eancia cenas de genu\u00edna entrega emocional (onde o humor participa: vejam a cena em que Ines canta para algumas dezenas de desconhecidos em uma festa na qual ela entrou, com o pai, de surpresa) com momentos de exemplar dureza (a apresenta\u00e7\u00e3o de um projeto para um cliente important\u00edssimo para a sua empresa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dividida entre o tempo em que trabalha e o tempo em que pensa no trabalho, Ines compreende os motivos da visita de seu pai desde o in\u00edcio, embora, ao final, mesmo senhora de sua consci\u00eancia, sua vida seguir\u00e1. Ela sorri, chora e depois segue em frente. <em>Real politik<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Toni Erdmann,<\/i>\u00a0de Maren Ade, Alemanha, 2016. Com Sandra H\u00fcller, Peter Simonischek, Michael Wittenborn, Thomas Loibl, Lucy Russell, Hadewych Minis, Vlad Ivanov.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Henrique Gomes Winfried (Peter Simonischek) resolve ir visitar a filha Ines (Sandra H\u00fcller), que h\u00e1 anos deixou a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":771,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[197,199,200,198,100,196,201,202],"class_list":["post-770","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes","tag-alemanha","tag-capitalismo","tag-costa-gavras","tag-financeirizacao","tag-ken-loach","tag-maren-ade","tag-real-politik","tag-toni-erdmann"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/770","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=770"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/770\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/771"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=770"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=770"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=770"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}