{"id":7614,"date":"2020-11-26T15:17:32","date_gmt":"2020-11-26T18:17:32","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7614"},"modified":"2021-11-09T12:52:14","modified_gmt":"2021-11-09T15:52:14","slug":"maradona-entre-o-ceu-e-o-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7614","title":{"rendered":"Maradona entre o c\u00e9u e o inferno"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu n\u00e3o sei se Maradona vai para o c\u00e9u ou para o inferno.<\/strong> Caso seja enviado ao Para\u00edso, certamente far\u00e1 reivindica\u00e7\u00f5es e reclamar\u00e1 da rotina e dos hor\u00e1rios. Assim como fez na Copa de 1986, quando encarou os cartolas da FIFA afirmando que era desumano obrigar os jogadores a atuarem ao meio-dia do escaldante ver\u00e3o mexicano. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que Maradona s\u00f3 batia com a esquerda. Caso v\u00e1 para o outro lado, por\u00e9m, talvez aceite sem contesta\u00e7\u00f5es, afinal, Maradona sempre foi pouco convencional.\u00a0 Mas se n\u00e3o gostar, tamb\u00e9m vai dar um jeito. Provavelmente com um maravilhoso drible no capeta &#8211; uma \u201cgambeta\u201d como dizem os argentinos. Uma gambeta no capeta e\u00a0sair\u00e1 de l\u00e1 dando risada e dan\u00e7ando daquele jeito estranho e engra\u00e7ado com que costumava bailar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu n\u00e3o sei se Maradona vai para o c\u00e9u ou para o inferno. <\/strong>Mas sei que ele nunca teve medo.\u00a0 Desafiou muito mais que advers\u00e1rios. Desafiou as regras dentro e fora de campo, desafiou a gravidade, desafiou a divindade e a humanidade. Desafiou a todos. E para\u00a0desgosto dos conservadores, tamb\u00e9m desfilou. Desfilou ao lado de Fidel Castro com a tatuagem de Che em um bra\u00e7o, um bon\u00e9 verde oliva na cabe\u00e7a e um charuto na boca.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante muito tempo, brasileiros e argentinos discutiram quem era maior: Pel\u00e9 ou Maradona. Mas isso n\u00e3o importa, agora. Ali\u00e1s, as duas coisas que mais me sensibilizaram sobre Maradona foram ditas por brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma delas pelo Careca, o \u201cCarec\u00f4ni\u201d, que tinha seus gols do N\u00e1poli narrados nas animadas manh\u00e3s do campeonato italiano pelo Silvio Luiz. O Careca foi um monstro e s\u00f3 n\u00e3o foi maior porque uma les\u00e3o o tirou da Copa de 1982 quando seria titular no lugar do Serginho. E esse brasileiro, que fez dupla com <em>el<\/em>\u00a0<em>pibe de oro<\/em> no Napoli de 1986 at\u00e9 1981, disse que Maradona foi o maior que ele viu jogar. E\u00a0 nessa compara\u00e7\u00e3o com Pel\u00e9, ele n\u00e3o vestiu a amarelinha: \u201cPel\u00e9 era mais completo, praticamente perfeito. Sabia chutar de direita, de esquerda e cabecear. Maradona era fant\u00e1stico, um cara de circo. O que ele fazia com uma perna s\u00f3 era brincadeira. Ele n\u00e3o tinha perna direita e n\u00e3o sabia cabecear. Ent\u00e3o, imagina se ele tivesse tudo isso\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Casagrande enxerga o outro lado da vida do argentino. <em>Cas\u00e3o<\/em> tamb\u00e9m conhece o pesadelo da depend\u00eancia qu\u00edmica e se emocionou durante um depoimento ao vivo no dia da morte de Maradona. Por perceber que o argentino passou pelo mesmo que ele e teve uma trajet\u00f3ria brilhante e gigantesca mutilada: \u201cEu me tratei e sempre fiquei revoltado com quem estava ao redor dele, porque quem est\u00e1 do lado dele, est\u00e1 vendo que est\u00e1 indo para o fundo do po\u00e7o, se destruindo. E ningu\u00e9m fez alguma coisa para evitar o que aconteceu hoje. Para mim, \u00e9 muito duro. Fico chocado pela perda de um grande jogador, por um cara que eu conheci, gostava muito e por ser um dependente qu\u00edmico.&#8221;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu n\u00e3o sei se Maradona vai para o c\u00e9u ou para o inferno.<\/strong> Talvez transite entre os dois como fez em vida. Afinal, ele esteve no para\u00edso quando venceu a Copa do M\u00e9xico marcando o gol com a <em>m\u00e3o de Deus<\/em>. E o inferno ele viu quando a performance de alto n\u00edvel foi encurtada por causa das drogas.\u00a0 De todo modo, o\u00a0rei Pel\u00e9 parece ter a resposta:<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">&#8220;Um dia, eu espero que possamos jogar bola juntos no C\u00e9u&#8221;, disse ele.<\/h4>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o sei, mas espero que ele esteja em um lugar especial reservado aos g\u00eanios do futebol. Talvez um lugar em que possa encontrar Garrincha, o anjo das pernas tortas que sucumbiu ao \u00e1lcool. Um lugar em que possa encontrar Cruijff, que morreu em fun\u00e7\u00e3o de um c\u00e2ncer no pulm\u00e3o por causa do cigarro. E Puskas, que n\u00e3o sei se tinha algum v\u00edcio delirante, mas, certamente, como bom h\u00fangaro, gostava de uma vodka ou de um bom charuto. Espero que ele os encontre em um lugar reservado aos semideuses que s\u00f3 n\u00e3o foram perfeitos porque eram humanos. E que bom que eram humanos. De outra forma,\u00a0 n\u00e3o seriam eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Como disse Victor Hugo Morales ap\u00f3s narrar o segundo gol de Maradona contra a Inglaterra na Copa de 1986: &#8220;Obrigado, Deus, pelo futebol, por Maradona e por essas l\u00e1grimas.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><em>.<\/em><\/p>\n<p><em>*Montagem com foto de David Cannon\/Allsport\/Getty Images\/Hulton Archive<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o sei se Maradona vai para o c\u00e9u ou para o inferno. 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