{"id":7598,"date":"2020-11-23T14:20:27","date_gmt":"2020-11-23T17:20:27","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7598"},"modified":"2020-11-27T09:19:35","modified_gmt":"2020-11-27T12:19:35","slug":"para-entender-e-combater-o-discurso-racista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7598","title":{"rendered":"Para entender (e combater) o discurso racista"},"content":{"rendered":"<h6><em><strong>Por Maikio Guimar\u00e3es*<\/strong><\/em><\/h6>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Montagem-texto-Maikio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7603\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Montagem-texto-Maikio.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Montagem-texto-Maikio.jpg 1200w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Montagem-texto-Maikio-300x150.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Montagem-texto-Maikio-768x384.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Montagem-texto-Maikio-1024x512.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porto Alegre, 14 de maio de 1987. <a href=\"https:\/\/globoplay.globo.com\/o-caso-do-homem-errado\/t\/P2JV5WJVGs\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">J\u00falio C\u00e9sar de Melo Pinto foi executado por policiais militares, dentro de uma viatura, ap\u00f3s ter sido confundido com o assaltante de um supermercado.<\/a> Porto Alegre, 19 de novembro de 2020. <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2020\/11\/20\/video-mostra-homem-sendo-e-espancado-por-segurancas-do-carrefour-no-rs.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Alberto Silveira Freitas foi espancado at\u00e9 a morte na porta do supermercado Carrefour.<\/a> Um intervalo de 33 anos separa os epis\u00f3dios. Em comum nas hist\u00f3rias, as mortes violentas de dois homens negros. Este par\u00e1grafo de abertura \u00e9 apenas para lembrar que n\u00e3o passa de ilus\u00e3o a ideia de que o racismo tem diminu\u00eddo na sociedade brasileira.<\/p>\n<figure id=\"attachment_7605\" aria-describedby=\"caption-attachment-7605\" style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15337647885b6b64b4a5900_1533764788_3x2_md.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7605\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15337647885b6b64b4a5900_1533764788_3x2_md.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15337647885b6b64b4a5900_1533764788_3x2_md.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15337647885b6b64b4a5900_1533764788_3x2_md-300x200.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15337647885b6b64b4a5900_1533764788_3x2_md-270x180.jpg 270w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15337647885b6b64b4a5900_1533764788_3x2_md-370x247.jpg 370w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/15337647885b6b64b4a5900_1533764788_3x2_md-110x73.jpg 110w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7605\" class=\"wp-caption-text\">Cena do document\u00e1rio &#8216;O Caso do Homem Errado&#8217;, sobre a morte de J\u00falio C\u00e9sar em 1987 &#8211; Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Racismo \u00e9 uma forma sistem\u00e1tica de discrimina\u00e7\u00e3o que tem a ra\u00e7a como fundamento. Na base de grande parte dos problemas enfrentados pelos negros no Brasil, est\u00e1 o racismo estrutural, que integra a organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica da sociedade. Como destaca<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Silvio_Luiz_de_Almeida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Silvio Almeida<\/a>, as pessoas e as institui\u00e7\u00f5es possuem condutas racistas porque a sociedade \u00e9 racista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos \u00faltimos 132 anos, a narrativa racista foi permanentemente atualizada no Brasil. Pensando nisto, a partir deste ponto, ser\u00e3o apresentados alguns argumentos racistas em destaque hoje. Tente lembrar quantas vezes voc\u00ea j\u00e1 deparou com estas ideias.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0.<\/strong><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>Argumento racista n\u00famero 1 . O Brasil \u00e9 uma democracia racial<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da d\u00e9cada de 1930, as elites passaram a defender que existia uma conviv\u00eancia pac\u00edfica entre as ra\u00e7as em terras brasileiras. A miscigena\u00e7\u00e3o, neste cen\u00e1rio, passou a ser apontada como um item b\u00e1sico da identidade nacional. <strong>De fato, nunca existiu conviv\u00eancia pac\u00edfica entre ra\u00e7as no Brasil.<\/strong> <strong>O que perdura \u00e9 um sistema de opress\u00e3o que nega direitos aos negros.<\/strong> O conceito de democracia racial tem sido refutado por pessoas negras (dentro e fora do ambiente acad\u00eamico) desde sempre. A ideia, no entanto, n\u00e3o foi definitivamente sepultada. Cada vez que um caso de racismo gera como\u00e7\u00e3o, alguma autoridade branca resgata a mofada tese da democracia racial.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>.<\/strong><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>Argumento racista n\u00famero 2 . O Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds racista<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pessoa que afirma n\u00e3o existir racismo no Brasil tem como prop\u00f3sito silenciar qualquer manifesta\u00e7\u00e3o negra em defesa de direitos. Em um cen\u00e1rio onde todas as estat\u00edsticas comprovam categoricamente as desvantagens dos negros nas mais diversas \u00e1reas, n\u00e3o faz sentido a defesa de um argumento distante da verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>.<\/strong><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>Argumento racista n\u00famero 3 . Querem dividir a sociedade com esta hist\u00f3ria de racismo<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o perfeita para um esquete de humor. Quem faz tal afirma\u00e7\u00e3o costuma defender a fantasiosa ideia de uma democracia racial. Acredita que os negros v\u00e3o liquidar a unidade social ao falarem sobre racismo. <strong>N\u00e3o quero estragar o prazer de ningu\u00e9m, mas informo que a sociedade brasileira nunca esteve unida.<\/strong> O leitor ou leitora n\u00e3o precisa acreditar em mim. Pesquise nos 520 anos de Hist\u00f3ria do Brasil. Procure resqu\u00edcios da encantada unidade da sociedade brasileira. N\u00e3o vai achar nada. Quando se observa o hist\u00f3rico da conviv\u00eancia entre brancos e negros, fica evidente a exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o prejudicial aos negros. Defender que as pessoas querem \u201cdividir a sociedade\u201d ao tratar de racismo n\u00e3o passa de um argumento rasteiro de quem deseja ignorar a realidade e manter privil\u00e9gios.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>.<\/strong><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>Argumento racista n\u00famero 4 . Racismo reverso<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do fim da escravid\u00e3o aos dias de hoje, tem sido poss\u00edvel observar uma indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o negra. Esta letargia se transforma em oposi\u00e7\u00e3o ativa quando a demanda negra por mudan\u00e7a se torna forte. Basta observarmos a Hist\u00f3ria do Brasil nos \u00faltimos 20 anos. Quando ganhou for\u00e7a o debate sobre a ado\u00e7\u00e3o do sistema de cotas nas universidades federais, velhos argumentos foram reciclados. Alegaram que n\u00e3o existia racismo no pa\u00eds. Defenderam que tal medida iria dividir a sociedade brasileira. Teve quem afirmou que pessoas brancas teriam suas vagas roubadas pelos negros. <strong>Todas estas alega\u00e7\u00f5es tinham como base a preocupa\u00e7\u00e3o de um grupo focado em n\u00e3o perder privil\u00e9gios.<\/strong> As universidades federais foram criadas para formar os filhos da elite brasileira. Estas institui\u00e7\u00f5es se mantiveram assim at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo 21. Quando os negros reivindicaram uma fatia do bolo, o grupo que detinha praticamente o monop\u00f3lio do acesso ao ensino superior se sentiu ultrajado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/concursos-e-emprego\/noticia\/2020\/09\/21\/programa-de-trainee-para-negros-do-magazine-luiza-cumpre-papel-constitucional-dizem-advogados.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Argumentos semelhantes foram resgatados quando a rede de lojas Magazine Luiza informou que iria contratar <em>trainees<\/em> negros.<\/a> Diversas pessoas utilizaram as redes sociais para manifestar rep\u00fadio. Em diversos coment\u00e1rios, \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d apresentaram os brancos como v\u00edtimas de racismo reverso. Em uma situa\u00e7\u00e3o pontual, uma pessoa branca pode ouvir uma manifesta\u00e7\u00e3o preconceituosa. No entanto, brancos n\u00e3o s\u00e3o sistematicamente discriminados por causa da cor da pele. E outra. Os negros est\u00e3o sub-representados na pol\u00edtica, na dire\u00e7\u00e3o de empresas e em quaisquer meios de domina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o seria sequer vi\u00e1vel criar uma estruturar para subjugar os brancos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>Argumento racista n\u00famero 5 .\u00a0<\/strong><strong>O politicamente correto \u00e9 uma chatice<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale refletir o que faz uma pessoa reclamar do politicamente correto. Por muito tempo, a sociedade brasileira viu com naturalidade a circula\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es de desprezo por minorias raciais na forma de humor. O chamado racismo recreativo. <strong>Ao longo do s\u00e9culo 20, as pessoas negras foram rotuladas como burras, feias, b\u00eabadas, fracassadas e sexualmente inadequadas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, existe uma rea\u00e7\u00e3o r\u00e1pida a qualquer manifesta\u00e7\u00e3o que procure desmerecer os negros. A internet potencializa mobiliza\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio. A resposta negra frustra quem gosta de fazer piadas preconceituosas. Quem estava acostumado a rir dos negros \u00e9 que considera o politicamente correto uma chatice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cNossos motivos pra lutar ainda s\u00e3o os mesmos. O preconceito e o desprezo ainda s\u00e3o iguais. N\u00f3s somos negros, tamb\u00e9m temos nossos ideais. Racistas ot\u00e1rios, nos deixem em paz.\u201d Este \u00e9 um trecho da m\u00fasica \u201cRacistas ot\u00e1rios\u201d, dos Racionais MC\u2019s. Uma can\u00e7\u00e3o de muito sucesso na d\u00e9cada de 1990. Como quase nada muda no Brasil, a mensagem segue atual.<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-MaikioG.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7606 size-thumbnail aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-MaikioG-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-MaikioG-150x150.jpg 150w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-MaikioG-300x300.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-MaikioG-370x370.jpg 370w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>*Maikio Guimar\u00e3es, jornalista e professor universit\u00e1rio<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Imagem: montagem com reprodu\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo que mostra <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/cotidiano\/ultimas-noticias\/2020\/08\/07\/motoboy-e-alvo-de-ofensas-racistas-voce-nunca-vai-ter-nada-diz-agressor.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o momento em que Mateus Abreu Almeida Prado Couto, 31, disfere ataques racistas ao motoboy Matheus Pires<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maikio Guimar\u00e3es* Porto Alegre, 14 de maio de 1987. 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