{"id":7492,"date":"2020-10-15T21:22:02","date_gmt":"2020-10-16T00:22:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7492"},"modified":"2020-12-10T18:12:09","modified_gmt":"2020-12-10T21:12:09","slug":"epidemia-de-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7492","title":{"rendered":"Epidemia de viol\u00eancia . 648 mulheres foram v\u00edtimas de feminic\u00eddio na primeira metade de 2020"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><em>Atualiza\u00e7\u00e3o em 19 de outubro de 2020 ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do An\u00faario da Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/em><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7663\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Capa-Epidemia-de-viole\u0302ncia-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1300\" height=\"700\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Capa-Epidemia-de-viole\u0302ncia-1.jpg 1300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Capa-Epidemia-de-viole\u0302ncia-1-300x162.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Capa-Epidemia-de-viole\u0302ncia-1-768x414.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Capa-Epidemia-de-viole\u0302ncia-1-1024x551.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1300px) 100vw, 1300px\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7611\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Capa-Epidemia-de-viole?ncia.jpg\" alt=\"\" width=\"1300\" height=\"700\" \/><strong style=\"font-size: 14px; letter-spacing: 0px;\">\u201cMama olhou em volta. Manteve os olhos fixos no rel\u00f3gio da parede durante algum tempo, o que estava com um dos ponteiros quebrados, e ent\u00e3o se dirigiu a mim: &#8211; Sabe aquela mesinha onde guardamos a B\u00edblia da nossa casa, nne? Seu pai quebrou-a na minha barriga &#8211; disse, como se estivesse falando de outra pessoa, como se a mesa n\u00e3o fosse feita de madeira pesada. &#8211; Meu sangue escorreu todo por aquele ch\u00e3o antes mesmo de ele me levar ao St. Agnes.\u201d Esta Mama \u00e9 uma personagem do livro Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adiche. Ela \u00e9 v\u00edtima constante dos abusos psicol\u00f3gicos e f\u00edsicos do marido Eugene, chamado pela narradora, Kambili, de Papa. Kambili tamb\u00e9m sofre com os abusos e rompantes violentos do pai. As duas foram transcritas da imagina\u00e7\u00e3o de Chimamanda para o papel e s\u00e3o apresentadas ao mundo em uma obra de fic\u00e7\u00e3o, mas elas n\u00e3o existem apenas nas trezentas e poucas p\u00e1ginas de papel de um livro. No Brasil e no mundo, milhares de mulheres sofrem com a viol\u00eancia dom\u00e9stica todos os dias. A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) estima<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>que 35% das mulheres j\u00e1 passaram por uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia em algum ponto da vida. N\u00f3s conhecemos muitas Mamas. N\u00f3s conhecemos muitas Kambilis. Voc\u00ea tamb\u00e9m conhece.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na circunst\u00e2ncia da pandemia do novo coronav\u00edrus e submetida a um isolamento com o marido violento e os dois filhos, <em>a nossa Mama*\u00a0<\/em>viu a viol\u00eancia se acumular nas pupilas do companheiro conforme tamb\u00e9m aumentava a frustra\u00e7\u00e3o com o insuport\u00e1vel \u201cnovo normal\u201d. O abuso psicol\u00f3gico e a viol\u00eancia patrimonial antes latentes estavam escalando e ela ficou com medo de sofrer viol\u00eancia f\u00edsica. Ent\u00e3o, ela fez o mais dif\u00edcil.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Em cinco de agosto deste ano, a nossa Mama pediu ajuda a uma amiga, que encaminhou um pedido a um grupo de apoio:<\/p>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h6>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">\u201cBom dia, gurias. Algu\u00e9m sabe se existe algum lugar de acolhimento ou casa de passagem pra v\u00edtima de abuso, por enquanto psicol\u00f3gico, mas muito muito pr\u00f3ximo de se tornar viol\u00eancia f\u00edsica? Seria pra ela e dois filhos, um de sete anos e outro de dois.\u201d<\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O pedido de ajuda \u00e9 a parte mais dif\u00edcil porque, geralmente, as mulheres que se encontram em uma situa\u00e7\u00e3o de abuso pelo companheiro s\u00e3o constantemente amea\u00e7adas, constrangidas e chantageadas. <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/reportagens-especiais\/violencia-patrimonial-educacao-financeira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Especialmente as que sofrem de viol\u00eancia patrimonial<\/a>, que, segundo texto da Lei Maria da Penha, \u00e9 \u201cqualquer conduta que configure reten\u00e7\u00e3o, subtra\u00e7\u00e3o, destrui\u00e7\u00e3o parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoas, bens, valores e direitos ou recursos econ\u00f4micos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades.\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Ou seja, que \u00e9 quando o parceiro controla o dinheiro da casa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Era o caso da Mama criada por Chimamanda, que perguntava para a cunhada: \u201cPara onde eu vou se sair da casa de Eugene? Diga, para onde eu vou?\u201d. E era o caso da nossa Mama:<\/p>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h6>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">\u201cEla n\u00e3o tem fam\u00edlia ou amigos pr\u00f3ximos, est\u00e1 desempregada, disse que ia tentar fazer bolos para vender na rua, mas o marido proibiu de fazer na casa e disse que n\u00e3o ia ficar com as crian\u00e7as tamb\u00e9m.\u201d<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">.<\/h6>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">E n\u00e3o tardou para chegar outra mensagem:<\/p>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h6>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">\u201cO cara surtou, quebrou as coisas todas das crian\u00e7as e disse que ia matar ela e o mais velho.\u201d<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\">.<\/h6>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ela conseguiu o abrigo antes que o pior acontecesse e a promessa do homem violento n\u00e3o se concretizou. Outras Mamas, por\u00e9m, n\u00e3o foram libertadas a tempo. Os n\u00fameros apresentados no <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/anuario-14-2020-v1-final.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">An\u00faario Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a> mostram que, no primeiro semestre de 2020, cuja maior parte se deu no contexto da pandemia, houve um aumento da viol\u00eancia letal contra as mulheres. O documento produzido pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica indica que 648 mulheres foram v\u00edtimas de feminic\u00eddio na primeira metade deste ano, um aumento de 1,9% com rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2019. Nota-se, ainda, um crescimento no n\u00famero de chamadas para o 190. Houve um aumento de 3,8% nos acionamentos da PM em casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Ao todo, foram 147.379 pedidos de ajuda registrados em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Infografico-epidemia-de-violencia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7612\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Infografico-epidemia-de-violencia.jpg\" alt=\"\" width=\"1300\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Infografico-epidemia-de-violencia.jpg 1300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Infografico-epidemia-de-violencia-300x208.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Infografico-epidemia-de-violencia-768x532.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Infografico-epidemia-de-violencia-1024x709.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1300px) 100vw, 1300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo dados da <a href=\"https:\/\/www.unwomen.org\/en\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ONU Mulheres<\/a>, que \u00e9 a entidade das Na\u00e7\u00f5es Unidas dedicada a promover a igualdade de g\u00eanero e o empoderamento feminino, uma em cada tr\u00eas mulheres sofre com viol\u00eancia f\u00edsica ou sexual no mundo, na maioria das vezes pelas m\u00e3os do companheiro ou algum familiar. Pesquisas locais indicam que, em alguns pa\u00edses, esse \u00edndice pode ser ainda maior e chegar a 70% das mulheres. No \u00faltimo ano, 243 milh\u00f5es de meninas e mulheres entre as idades de 15 e 49 foram v\u00edtimas de algum tipo de abuso por parte de algu\u00e9m do c\u00edrculo \u00edntimo de amigos ou familiares. Desde o in\u00edcio da pandemia de Covid-19, por\u00e9m, dados emergentes e relatos de quem lida com essas mulheres cotidianamente d\u00e3o conta de que o problema da viol\u00eancia contra a mulher aumentou. Principalmente a viol\u00eancia dom\u00e9stica. A organiza\u00e7\u00e3o chama de <a href=\"https:\/\/www.unwomen.org\/en\/news\/in-focus\/in-focus-gender-equality-in-covid-19-response\/violence-against-women-during-covid-19\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Shadow Pandemic<\/a>, que em tradu\u00e7\u00e3o livre significa a Pandemia \u00e0 Sombra. N\u00f3s chamamos de Epidemia de Viol\u00eancia.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">\u201cEntrei na banheira e fiquei parada, olhando para ele. N\u00e3o parece que Papa ia pegar um galho, e senti o medo, ardente e inflamado, encher minha bexiga e meus ouvidos. N\u00e3o sabia<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>o que ele ia fazer comigo. Era mais f\u00e1cil quando eu via o galho, porque podia esfregar as palmas das m\u00e3os e retesar os m\u00fasculos das panturrilhas para me preparar. Mas Papa jamais me pedira para ficar de p\u00e9 dentro da banheira. Ent\u00e3o percebi a chaleira no ch\u00e3o, ao lado dos p\u00e9s de Papa, a chaleira verde que Sisi usava para ferver \u00e1gua para o ch\u00e1 e para o garri, aquela que apitava quando a \u00e1gua come\u00e7ava a ferver. Papa apanhou-a.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Hibisco Roxo &#8211; Chimamanda Ngozi Adichie<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Kambili de Chimamanda conhecia os h\u00e1bitos do pai. Ela j\u00e1 havia apanhado incont\u00e1veis vezes de maneiras pouco sofisticadas mas extremamente dolorosas. A tortura com \u00e1gua quente foi uma novidade. Novidade tamb\u00e9m foi a agress\u00e3o a que foi submetida <em>a nossa Kambili*<\/em>. Ela vive com a m\u00e3e e o padrasto que, antes do in\u00edcio da pandemia, parecia o homem perfeito para uma mulher que sa\u00edra de um casamento abusivo, em que era submetida a agress\u00f5es verbais e viol\u00eancia patrimonial. Ningu\u00e9m imaginou que ele seria uma pessoa violenta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O aumento nos casos de viol\u00eancia contra a mulher pode ser explicado a partir do que a ONU chama de fatores exacerbantes, ou seja, situa\u00e7\u00f5es estressantes e lim\u00edtrofes que podem piorar o comportamento de quem j\u00e1 \u00e9 agressivo. No caso da viol\u00eancia dom\u00e9stica, antes de tudo aparecem as preocupa\u00e7\u00f5es com dinheiro, seguran\u00e7a e sa\u00fade. Depois, s\u00e3o listados problemas como condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de moradia, que fazem com que as pessoas precisem ficar juntas em espa\u00e7os apertados em situa\u00e7\u00f5es de isolamento social e o fato de se isolar com o abusador. Al\u00e9m da restri\u00e7\u00e3o de movimentos. Foi o caso do padrasto da nossa Kambili, um homem frustrado profissionalmente que, quando se percebeu isolado em casa e sem perspectiva, recorreu ao \u00e1lcool e libertou uma persona agressiva. O homem compreensivo e acolhedor agora agredia Kambili verbal e fisicamente. Assustada, ela se trancou no quarto e chorou at\u00e9 adormecer. A m\u00e3e da nossa Kambili fez o mesmo e s\u00f3 foi despertada com os socos que sacudiam a porta do quarto.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/medium.com\/c6banknoticias\/datafolha-c6-bank-pandemia-%C3%A9-pior-para-mulheres-pretos-e-pardos-e-classes-mais-baixas-ca116bfd6643\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pesquisa realizada pelo C6Bank e Datafolha<\/a> mostra que, no Brasil, nos \u00faltimos cinco anos, pelo menos 24% das mulheres j\u00e1 foram agredidas verbalmente pelo companheiro ou por algu\u00e9m que more na mesma casa e pelo menos 10% j\u00e1 foram agredidas fisicamente. O estudo investigou a ocorr\u00eancia de 14 tipos de viol\u00eancias entre a popula\u00e7\u00e3o brasileira. A preocupa\u00e7\u00e3o com dinheiro como um fator de risco para o aumento no n\u00famero de casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica encontra guarida no mesmo estudo, que mostra um crescimento importante de situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia patrimonial desde o in\u00edcio da pandemia do novo coronav\u00edrus, especialmente durante o per\u00edodo em que o isolamento social foi levado mais a s\u00e9rio. A pesquisa mostra que, entre mar\u00e7o e julho de 2020, houve aumento relativo especialmente nas incid\u00eancias relacionadas a participa\u00e7\u00e3o no or\u00e7amento financeiro familiar, na decis\u00e3o de compra, nega\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o de recursos e uso do nome sem consentimento. \u201cOu seja, as restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias e dificuldades financeiras t\u00eam aumentado os pontos de conflito dom\u00e9stico de v\u00e1rias formas\u201d, indica o texto do estudo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A pesquisa foi conduzida a partir de 1503 entrevistas e acessa tanto as ocorr\u00eancias de viol\u00eancia patrimonial nos \u00faltimos cinco anos quanto as sofridas pela primeira vez durante a pandemia. E os dados mostram de houve um aumento de 37% nos casos em que algu\u00e9m da fam\u00edlia negou recursos financeiros para compras que atendessem necessidades pessoais. Al\u00e9m disso, o estudo mostra um aumento de 47% nos casos de entrevistados que foram impedidos de participar das decis\u00f5es de compra de produtos e servi\u00e7os para casa e fam\u00edlia. Ainda houve um crescimento de 26% no n\u00famero de ocorr\u00eancias em que algu\u00e9m da fam\u00edlia tenha se apoderado do dinheiro que a pessoa ganha ou ganhou por considerar que ela n\u00e3o tem a capacidade para administrar esses recursos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Observa-se, ainda, alta sobreposi\u00e7\u00e3o entre agress\u00f5es verbais e todas as outras formas de viol\u00eancia avaliadas, especialmente restri\u00e7\u00f5es na participa\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento e das decis\u00f5es de consumo da familiar e acesso aos recursos financeiros. Todas essas situa\u00e7\u00f5es, segundo o estudo, tendem a ser agravadas pela crise econ\u00f4mica e, simultaneamente, tornam-se fatores exacerbastes para a escalada da viol\u00eancia dom\u00e9stica e outros problemas de \u00e2mbito familiar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Especificamente no per\u00edodo da pandemia de coronav\u00edrus, o monitoramento <a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/especial\/um-virus-e-duas-guerras\/\"><span class=\"s1\">Um V\u00edrus e Duas Guerras<\/span><\/a>, realizado por sete ve\u00edculos de jornalismo independente, identificou que 497 mulheres foram assassinadas entre mar\u00e7o e agosto de 2020.\u00a0Foi um feminic\u00eddio a cada nove horas- ou tr\u00eas mortes por dia. S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Bahia foram os estados que registraram o maior n\u00famero absoluto de casos, com 79 mortes em SP, 64 em MG e 49 na BA. O \u00edndice m\u00e9dio de mortes no pa\u00eds foi de 0,21 por 100 mil mulheres. O que faz com que 13 estados estejam acima da m\u00e9dia nacional de feminic\u00eddios: Mato Grosso (1,03), Alagoas (0,75), Roraima (0,74), Mato Grosso do Sul (0,65), Piau\u00ed (0,64), Par\u00e1 (0,62), Maranh\u00e3o (0,47), Acre (0,44), Minas Gerais (0,43), Bahia (0,39), Santa Catarina (0,38), Distrito Federal (0,37) e Rio Grande do Sul (0,34).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De maneira geral, houve uma redu\u00e7\u00e3o de 6% no n\u00famero de casos em compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo do ano passado, mas a queda n\u00e3o \u00e9 necessariamente um indicativo real de diminui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. \u00a0Primeiro porque, em se tratando deste estudo em espec\u00edfico, sete estados n\u00e3o enviaram os dados solicitados ao coletivo (Amazonas, Amap\u00e1, Cear\u00e1, Goi\u00e1s, Para\u00edba, Paran\u00e1 e Sergipe). Tanto que nos dados do Anu\u00e1rio, o registro \u00e9 de aumento entre janeiro e julho.\u00a0Segundo porque existe uma enorme subnotifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O An\u00faario da Seguran\u00e7a p\u00fablica indica que, apesar do aumento de feminic\u00eddios, houve uma redu\u00e7\u00e3o nos registros de les\u00e3o corporal dolosa, amea\u00e7a, estupro e estupro de vulner\u00e1vel, assim como ca\u00edram os registros de agress\u00f5es em decorr\u00eancia da viol\u00eancia dom\u00e9stica nas delegacias de pol\u00edcia &#8211; uma queda de 9,9% com rela\u00e7\u00e3o ao ano passado.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">\u201c- Eugene vai vir nos apanhar. &#8211; Escute\u2026 Tia Ifeoma falou num tom mais suave; ela deve ter percebido que um tom firma n\u00e3o penetraria no sorriso fixo no rosto de Mama. O olhar de Mama continuava vidrado, mas ela parecia ser outra mulher, n\u00e3o a mesma que saltara do t\u00e1xi de manh\u00e3. Parecia estar possu\u00edda por outro dem\u00f4nio. &#8211; Fique pelo menos alguns dias, nwunye m, n\u00e3o volte t\u00e3o cedo. Mama balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. N\u00e3o havia nenhuma express\u00e3o em seu rosto, a n\u00e3o ser um sorriso duro. &#8211; Eugene n\u00e3o anda bem &#8211; disse ela &#8211; Tem tido enxaquecas e febre. Ele carrega mais sobre os ombros do que qualquer homem deveria carregar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Hibisco Roxo &#8211; Chimamanda Ngozi Adichie<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Mama de Chimamanda n\u00e3o denunciou o marido. A nossa Mama tamb\u00e9m n\u00e3o. A nossa Kambili tamb\u00e9m n\u00e3o. De acordo com a promotora Carla Souto, do MP-RS, dois grandes pontos fazem com que a v\u00edtima n\u00e3o denuncie: medo e a vergonha. E agora, o isolamento.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">SUBNOTIFICA\u00c7\u00c3O<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O An\u00faario Brasileira da Seguran\u00e7a P\u00fablica indica que, como a maior parte dos crimes cometidos contra as mulheres no \u00e2mbito dom\u00e9stico exige a presen\u00e7a da v\u00edtima para a instaura\u00e7\u00e3o de um inqu\u00e9rito, as den\u00fancias come\u00e7aram a cair na quarentena em fun\u00e7\u00e3o das medidas de distanciamento social e de isolamento, cuja consequ\u00eancia \u00e9 uma maior perman\u00eancia em casa. A presen\u00e7a constante do agressor nos lares agrava a situa\u00e7\u00e3o porque constrange a mulher a pedir ajuda, a fazer um telefone e, principalmente,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>de procurar as autoridades competentes para comunicar a viol\u00eancia sofrida.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Isso significa que a diminui\u00e7\u00e3o do registro de algumas ocorr\u00eancias no per\u00edodo da pandemia de Covid-19 n\u00e3o representa necessariamente uma redu\u00e7\u00e3o de casos de viol\u00eancia contra a mulher, mas mostra que as mulheres encontraram obst\u00e1culos para denunciar a situa\u00e7\u00e3o de abuso a que foram submetidas. A defensora p\u00fablica Liseane Hartmann, que \u00e9 dirigente do N\u00facleo de Defesa da Mulher (NUDEM) da Associa\u00e7\u00e3o das Defensoras<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>e dos Defensores P\u00fablicos do Estado do Rio Grande do Sul (ADPERGS), explica que \u00e9 extremamente dif\u00edcil para a mulher denunciar a viol\u00eancia dom\u00e9stica. Quando isso acontece, geralmente \u00e9 porque ela j\u00e1 passou por diversas situa\u00e7\u00f5es de humilha\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil romper o ciclo da viol\u00eancia, ent\u00e3o at\u00e9 que a v\u00edtima se sinta encorajada a procurar uma institui\u00e7\u00e3o e poder denunciar, infelizmente, ela j\u00e1 passou por muito sofrimento. Ela j\u00e1 viveu muitas situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que s\u00e3o variadas. Pode ser viol\u00eancia f\u00edsica, patrimonial, moral, sexual e psicol\u00f3gica. Ali\u00e1s, tem muito a quest\u00e3o da viol\u00eancia psicol\u00f3gica, que n\u00e3o deixa marcas evidentes mas afeta a vida de todos.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os motivos para a subnotifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o muitos, mas costumam estar associados ao fato de o agressor ser, na maioria das vezes, o companheiro da v\u00edtima &#8211; ou, pelo menos, parte da fam\u00edlia. Isso faz com que as mulheres agredidas tenham receio de prosseguir com a den\u00fancia porque n\u00e3o querem prejudicar o companheiro, porque tem medo de retalia\u00e7\u00e3o ou tem at\u00e9 vergonha da viol\u00eancia. Segundo a defensora Liseane Hartmann, isso faz com que o n\u00famero de den\u00fancias seja sempre muito inferior em rela\u00e7\u00e3o aos fatos. \u201cSe n\u00f3s pensarmos nos dois primeiros meses da pandemia, em que o isolamento social foi levado a cabo, aumentaram os feminic\u00eddios no Rio Grande do Sul, por exemplo, mas o n\u00famero de ocorr\u00eancias de les\u00e3o corporal diminuiu. Isso nos leva a crer que tenha ocorrido uma subnotifica\u00e7\u00e3o importante em raz\u00e3o da dificuldade ainda maior de conseguir fazer essa den\u00fancia. N\u00f3s sabemos que as tens\u00f5es familiares aumentaram e se intensificaram. A mulher passa mais tempo em contato com o opressor e isso pode dificultar o acesso \u00e0 den\u00fancia, fica mais dif\u00edcil pedir ajuda.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A promotora de Justi\u00e7a Carla Souto, da Promotoria Especializada de Combate \u00e0 Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e Familiar contra a Mulher do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul (MP-RS), inclusive alertou para o fato de que em alguns casos de feminic\u00eddio n\u00e3o havia nenhuma den\u00fancia anterior. \u201cOs dados da Pol\u00edcia Civil que indicam uma diminui\u00e7\u00e3o nos registros de ocorr\u00eancia s\u00e3o muito preocupantes, porque se chega a conclus\u00e3o de que h\u00e1 um n\u00famero muito grande de mulheres sendo agredidas e sem buscar ajuda. Sem ter ajuda.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/publicacoes_posts\/violencia-domestica-durante-pandemia-de-covid-19\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Um levantamento in\u00e9dito sobre a\u00a0viol\u00eancia dom\u00e9stica realizado pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP)\u00a0entre os meses de mar\u00e7o e abril<\/a> deste ano apontou que os casos de\u00a0feminic\u00eddio\u00a0no Pa\u00eds aumentaram em 5% em rela\u00e7\u00e3o a igual per\u00edodo de 2019. Somente nesses dois meses, 195 mulheres foram assassinadas, enquanto em mar\u00e7o e abril de 2019 foram 186 mortes. Entre os 20 estados brasileiros que liberaram dados das secretarias de seguran\u00e7a p\u00fablica, nove registraram juntos um aumento de 54%, outros nove tiveram queda de 34%, e dois mantiveram o mesmo \u00edndice. Os casos de feminic\u00eddio cresceram 22,2%,entre mar\u00e7o e abril deste ano em 12 estados do pa\u00eds. Intitulado\u00a0<i>Viol\u00eancia Dom\u00e9stica durante a Pandemia de Covid-19<\/i>, o documento foi divulgado hoje (1\u00ba) e tem como refer\u00eancia dados coletados nos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a dos estados brasileiros.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">M\u00c1SCARA ROXA<\/h4>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/campanha-mc3a1scara-roxa.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-7513 size-full\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/campanha-mc3a1scara-roxa.jpeg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"423\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/campanha-mc3a1scara-roxa.jpeg 750w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/campanha-mc3a1scara-roxa-300x169.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Rio Grande do Sul, um dos estados que registrou crescimento no n\u00famero de feminic\u00eddios, 28 mulheres foram assassinadas por quest\u00f5es de g\u00eanero nos meses de mar\u00e7o, abril e maio, . Os dados s\u00e3o da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Em abril, o aumento foi de 66,7% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano passado. O aumento no n\u00famero de feminic\u00eddios entre mar\u00e7o e abril<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>e o fato de o confinamento dificultar a den\u00fancia das v\u00edtimas levou o Comit\u00ea Ga\u00facho ElesPorElas, da ONU Mulheres, a criar a Campanha M\u00e1scara Roxa, que permite que mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia fa\u00e7am a comunica\u00e7\u00e3o do crime em farm\u00e1cias. Para facilitar,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>os estabelecimentos credenciados apresentam o selo \u201cFarm\u00e1cia Amiga das Mulheres\u201d, que serve para que as v\u00edtimas as identifiquem.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O procedimento \u00e9 bastante simples: a v\u00edtima precisa ir at\u00e9 uma farm\u00e1cia que tenha aderido \u00e0 campanha e pedir por uma \u201cm\u00e1scara roxa\u201d, que \u00e9 a senha para que o atendente saiba que se trata de um pedido de ajuda. O profissional, que recebeu capacita\u00e7\u00e3o online para realizar o procedimento de forma adequada e garantir a seguran\u00e7a das mulheres,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>vai responder que o produto est\u00e1 em falta e vai solicitar alguns dados para que possa avis\u00e1-la quando a suposta m\u00e1scara chegar. Ele pede pelo nome, endere\u00e7o e dois n\u00fameros de telefone para contato. O deputado estadual Edegar Pretto (PT), coordenador do Comit\u00ea e idealizador da campanha, explica que a necessidade dos dois n\u00fameros de telefone \u00e9 porque, em muitos casos, o agressor est\u00e1 vigiando a v\u00edtima. \u201cUma das dificuldades que as mulheres encontram para pedir ajuda \u00e9 justamente porque s\u00e3o vigiadas e constrangidas, isso quando o agressor n\u00e3o est\u00e1 de posse do aparelho. Ent\u00e3o \u00e9 importante que tenha um contato alternativo\u201d, diz. Fornecidos os dados, o pr\u00f3ximo passo \u00e9 passar essas informa\u00e7\u00f5es para a Pol\u00edcia Civil por meio do WhatsApp, para garantir tamb\u00e9m o anonimato do atendente. A partir da\u00ed, os policiais ficam respons\u00e1veis por auxiliar a v\u00edtima.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A campanha foi lan\u00e7ada em 10 de junho no RS e j\u00e1 est\u00e1 em milhares de farm\u00e1cias de todo da capital e do interior &#8211; em grandes redes e lojas individuais. A Pol\u00edcia Civil disponibilizou um n\u00famero espec\u00edfico para receber as den\u00fancias da campanha, que fica \u201cligado\u201d 24h por dia. At\u00e9 o final de setembro foram registradas 31 den\u00fancias em farm\u00e1cias do Rio Grande do Sul. Tamb\u00e9m foram efetuadas tr\u00eas pris\u00f5es em flagrante nos munic\u00edpios de Porto Alegre, Caxias do Sul e Rio Grande.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pretto , que faz parte do Comit\u00ea Eles por Elas desde a cria\u00e7\u00e3o do He for She, em 2013, explicou que ele e sua equipe pensaram nessa iniciativa a partir da recomenda\u00e7\u00e3o da ONU para que as na\u00e7\u00f5es membros da Organiza\u00e7\u00e3o constitu\u00edssem politicas afirmativas de facilita\u00e7\u00e3o de den\u00fancias. \u201cO governo brasileiro n\u00e3o deu import\u00e2ncia, diferente de outros pa\u00edses europeus e mesmo sulamericanos como Argentina, que criou a campanha da Mascara Roja, e do Chile. Ent\u00e3o n\u00f3s entendemos que algo deveria ser feito.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_7514\" aria-describedby=\"caption-attachment-7514\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Coordenador-do-Comite?-Gau?cho-ElesPorElas-Edegar-Pretto-colando-o-adesivo-que-identifica-as-Farma?cias-Amigas-das-Mulheres.-Foto-Leandro-Molina.-1024x682.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7514 size-full\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Coordenador-do-Comite?-Gau?cho-ElesPorElas-Edegar-Pretto-colando-o-adesivo-que-identifica-as-Farma?cias-Amigas-das-Mulheres.-Foto-Leandro-Molina.-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"682\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7514\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Leandro Molina<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A percep\u00e7\u00e3o do parlamentar, de que o governo brasileiro n\u00e3o tomou medidas efetivas para o combate \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica do pa\u00eds, foi confirmada pelo estudo do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Segundo as informa\u00e7\u00f5es publicadas no An\u00faario da Seguran\u00e7a, a ONU fez uma s\u00e9rie de recomenda\u00e7\u00f5es para orientar os pa\u00edses no enfrentamento da viol\u00eancia contra a mulher nesse per\u00edodo. A Organiza\u00e7\u00e3o destacou uma s\u00e9rie de medidas poss\u00edveis, como a necessidade de se aumentar os investimentos em servi\u00e7os de atendimento online, de se estabelecer servi\u00e7os de alerta de emerg\u00eancia em farm\u00e1cias e supermercado e ainda a import\u00e2ncia de criar abrigos tempor\u00e1rios para v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero. Apesar das recomenda\u00e7\u00f5es, o documento produzido pelo F\u00f3rum indica que, embora o governo federal tenha se posicionado publicamente sobre a quest\u00e3o, em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses, as iniciativas divulgadas no Brasil n\u00e3o foram suficientes para combater a viol\u00eancia dom\u00e9stica neste per\u00edodo. Pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As medidas anunciadas pelo governo de Jair Bolsonaro eram campanhas voltadas a recomenda\u00e7\u00f5es gerais sobre atua\u00e7\u00e3o das redes de prote\u00e7\u00e3o. Isso tamb\u00e9m \u00e9 importante, mas n\u00e3o foram apresentadas sa\u00eddas concretas e imediatas. Enquanto isso, pa\u00edses como Fran\u00e7a, Espanha, It\u00e1lia e Argentina, por exemplo, transformaram quartos de hot\u00e9is em abrigos tempor\u00e1rios e criaram centros de aconselhamentos em farm\u00e1cias e supermercados para que as den\u00fancias fossem realizadas por meio de \u201cpalavras-c\u00f3digo\u201d, exatamente como a iniciativa crida no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Campanha da M\u00e1scara Roxa mobiliza diversas institui\u00e7\u00f5es em torno da combate \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero. Ela se concretiza a partir de um termo de coopera\u00e7\u00e3o assinado por Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul; Tribunal de Justi\u00e7a do RS;\u00a0 Poder Executivo ga\u00facho, por meio do Departamento de Pol\u00edticas P\u00fablicas para as Mulheres, Pol\u00edcia Civil e Brigada Militar;\u00a0 Defensoria P\u00fablica; ONG Themis \u2013 G\u00eanero, Justi\u00e7a e Direitos Humanos;\u00a0 Comit\u00ea Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem); Ag\u00eancia Moove; Grupo RBS; e Rede de Farm\u00e1cias Associadas. A defensora p\u00fablica Liseane Hartmann conta que cada participante assumiu o compromisso de divulgar da forma mais ampla poss\u00edvel o trabalho das institui\u00e7\u00f5es no sentido de que as v\u00edtimas tenham um f\u00e1cil acesso aos canais de den\u00fancia. \u201cHoje n\u00f3s j\u00e1 contamos com o trabalho online das delegacias de pol\u00edcia, por\u00e9m, n\u00f3s sabemos em alguns casos a v\u00edtima est\u00e1 em contato direto com o ofensor e n\u00e3o tem o acesso facilitado por parte de um computador ou celular. Ent\u00e3o, ela podendo se dirigir a uma farm\u00e1cia amiga das mulheres, ela simplesmente solicitar uma m\u00e1scara roxa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa conduzida pela promotora de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo Val\u00e9ria Diez Scarance Fernandes investigou 364 den\u00fancias provenientes de feminic\u00eddios. O estudo mostrou\u00a0 que 30% das mortes aconteceram aos s\u00e1bados ou domingos. Ou seja, quando a maioria das delegacias est\u00e1 fechada. A pesquisa ainda indicou que a cada quatro feminic\u00eddios, um tem uma segunda v\u00edtima, como filhos ou outros parentes. Em 66% dos casos, as mortes ocorreram em casa. E de todas as v\u00edtimas, 97% n\u00e3o tinham medida protetiva e s\u00f3 4% tinham registrado boletim de ocorr\u00eancia. Os n\u00fameros s\u00f3 refor\u00e7am a import\u00e2ncia de se viabilizar um canal de den\u00fancia alternativo \u00e0s mulheres.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A promotora de Justi\u00e7a Carla Souto, do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul, ressalta a import\u00e2ncia da den\u00fancia, que ela chama de \u201cmais um ato de coragem\u201d. \u201cEu falo em coragem porque \u00e9, realmente, muito dif\u00edcil. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil denunciar o agressor que muitas vezes \u00e9 o companheiro, pai dos filhos. Em tempos de pandemia, em que as pessoas se encontram isoladas dentro de casa, esse desafio fica muito maior. Al\u00e9m de a v\u00edtima tomar a decis\u00e3o de denunciar, e n\u00e3o \u00e9 simples em raz\u00e3o do ciclo da viol\u00eancia, ela tem que ter como faz\u00ea-lo. E sem sa\u00eddas para o trabalho, ela isolada junto como agressor \u00e9 extremamente dif\u00edcil.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nossa Mama n\u00e3o conseguiu fazer uma den\u00fancia formal, mas conseguiu pedir ajuda. Esse foi o primeiro ato de coragem e foi recompensado. No dia seis de agosto deste ano, chegou uma nova mensagem pelo WhatsApp.<\/p>\n<h5 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<h5 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">\u201cConseguiram o abrigo, v\u00e3o buscar a m\u00e3e e os 2 meninos hoje. E foi bem em tempo. Tudo muito triste, mas todos bem (fisicamente) e hoje saem de l\u00e1. Valeu mesmo.\u201d<\/h5>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">ENTENDA O CICLO DA VIOL\u00caNCIA<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ciclo da Viol\u00eancia tem tr\u00eas fases. Na Fase 1, ocorre o aumento da tens\u00e3o. Nesse momento, o agressor se mostra tenso e irritado por coisas pequenas. \u00c9 agora que ele come\u00e7a a ter acessos de raiva, humilhar, fazer amea\u00e7as e quebrar objetos. Neste ponto, a mulher tenta acalmar o agressor e evitar qualquer coisa que possa provoc\u00e1-lo. Em geral, na fase 1, a v\u00edtima tende a negar que isso esteja acontecendo com ela. Ela esconde o jogo, n\u00e3o conversa sobre a situa\u00e7\u00e3o com ningu\u00e9m e inclusive se sente culpada, acha que mereceu, que fez algo errado. Ou seja, ela justifica o comportamento violento do agressor. Lembra da Mama de Chimamanda falando do peso que o marido carregava? Essa tens\u00e3o pode durar dias ou anos. Mas conforme aumenta, \u00e9 prov\u00e1vel que leve \u00e0 Fase 2.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nesse segundo momento ocorre a explos\u00e3o. A tens\u00e3o da primeira fase se materializa em viol\u00eancia verbal, f\u00edsica, psicol\u00f3gica, moral ou patrimonial. A v\u00edtima se sente perdida e paralisada. Neste ponto, ela sofre de uma tens\u00e3o severa que pode levar \u00e0 ins\u00f4nia, perda de peso, fadiga constante e ansiedade. Ela sente medo, \u00f3dio, solid\u00e3o, vergonha. \u00c9 agora que ela pode tomar a decis\u00e3o de buscar ajuda, denunciar ou se esconder na casa de conhecidos. O que leva \u00e0 Fase 3.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O terceiro momento do Ciclo da Viol\u00eancia \u00e9 conhecido como lua de mel. O agressor se mostra arrependido e passar a se comportar de forma carinhosa. Diz que nunca mais far\u00e1 aquilo novamente.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">\u201cA dor me queimava agora, estava mais parecida com mordidas, porque o metal ca\u00eda sobre as feridas expostas na lateral do meu corpo, em minhas costas, minhas pernas. Chute. Chute. Chute.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">[\u2026]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">O rosto de Papa estava pr\u00f3ximo do meu. T\u00e3o perto que seu nariz quase tocou o meu, mas mesmo assim vi que seus olhos estavam mansos, que ele falava e chorava ao mesmo tempo. -Minha filha preciosa. Nada vai acontecer com voc\u00ea. Minha filha preciosa.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Hibisco Roxo &#8211; Chimamanda Ngozi Adichie<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na fase 3, a mulher pode se sentir confusa e pressionada a manter o relacionamento, especialmente se o casal tem filhos. Se a mulher decide retomar o relacionamento, o per\u00edodo subsequente costuma ser calmo e ela se sente feliz por ter dado uma nova chance. E como h\u00e1, geralmente, a demonstra\u00e7\u00e3o de remorso, ela se sente respons\u00e1vel por ele. isso estreita a rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia entre v\u00edtima e agressor. A mulher, por\u00e9m, continua confusa e, por fim, a tens\u00e3o volta. E com ela, as agress\u00f5es da Fase 1. E tudo recome\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A nossa Kambili n\u00e3o recebeu propriamente um pedido de desculpas, mas a m\u00e3e dela ouviu a promessa de que aquilo n\u00e3o aconteceria mais, mesmo que o agressor continue bebendo demais, ignorando o alcoolismo da fam\u00edlia que, antigamente, era gatilho para a viol\u00eancia do pr\u00f3prio pai.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">COMO E ONDE PEDIR AJUDA<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas se a nossa Kambili ou a m\u00e3e conseguirem romper o ciclo, elas n\u00e3o estar\u00e3o sozinhas.\u00a0 Primeiro, a mulher pode ligar para o 180, que \u00e9 o n\u00famero do servi\u00e7o da Central de Atendimento \u00e0 Mulher, um servi\u00e7o que presta escuta e acolhida qualificada \u00e0s mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e que registra e encaminha den\u00fancias de viol\u00eancia contra a mulher aos \u00f3rg\u00e3o competentes. Em caso de emerg\u00eancia, a mulher pode ainda ligar para o 190 e acionar o servi\u00e7o da Pol\u00edcia Militar. Para o caso do registro de ocorr\u00eancia, a v\u00edtima pode fazer isso pessoalmente em uma Delegacia de Pol\u00edcia ou fazer o registro online. No Rio Grande do Sul, ela ainda tem a op\u00e7\u00e3o de fazer a den\u00fancia nas farm\u00e1cias, usando a senha \u201cM\u00e1scara Roxa\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 uma s\u00e9rie de institui\u00e7\u00f5es que podem ajudar as mulheres no processo e quebrar o ciclo da viol\u00eancia. A Defensoria P\u00fablica tamb\u00e9m presta atendimento jur\u00eddico \u00e0s v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero, inclusive dom\u00e9stica e familiar. Em Porto Alegre, o N\u00facleo de Defesa da Mulher realiza a\u00e7\u00f5es e atividades voltadas \u00e0 preven\u00e7\u00e3o, defesa e garantia dos direitos das mulheres no \u00e2mbito da defensoria. \u201cA nossa atua\u00e7\u00e3o \u00e9 tanto na \u00e1rea criminal como na \u00e1rea c\u00edvel, ent\u00e3o a assist\u00eancia \u00e0s v\u00edtimas de viol\u00eancia na solicita\u00e7\u00e3o de medidas protetivas de urg\u00eancia, que s\u00e3o previstas na Lei Maria da Penha, e tamb\u00e9m a quest\u00e3o da parte c\u00edvel, que compreende as a\u00e7\u00f5es de div\u00f3rcio, dissolu\u00e7\u00e3o de uni\u00e3o est\u00e1vel, pens\u00e3o, guarda dos filhos e visitas\u201d, explica a defensora Liseane Hartmann. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 a\u00e7\u00f5es extra-judiciais, como orienta\u00e7\u00e3o acerca dos direitos das v\u00edtimas e informa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 rede de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, com auxilio da Defensoria, Delegacias, Brigada Militar e Minist\u00e9rio P\u00fablico. \u201cO problema da viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 multidisciplinar. \u00c9 preciso olhar para o problema como uma quest\u00e3o de sa\u00fade, assistencial e de seguran\u00e7a\u201d, disse.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a promotoria de Justi\u00e7a de Combate \u00e0 Viol\u00eancia Dom\u00e9stica de Porto Alegre, por exemplo, atua em duas frentes: medidas protetivas e processos criminais.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">COMO FUNCIONAM AS MEDIDAS PROTETIVAS?<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Medidas protetivas s\u00e3o decis\u00f5es judiciais r\u00e1pidas que tem o objetivo de proteger a mulher e evitar o desgaste da v\u00edtima. A ideia \u00e9 que, com uma medida protetiva, a mulher esteja resguardada e n\u00e3o precise de peregrina\u00e7\u00e3o em busca de assist\u00eancia jur\u00eddica. Existem v\u00e1rios tipos de medidas protetivas, mas as mais comuns s\u00e3o o afastamento do agressor do lar; a proibi\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o entre o agressor e a v\u00edtima ou seus familiares; suspens\u00e3o de procura\u00e7\u00f5es concedidas pela v\u00edtima ao agressor; presta\u00e7\u00e3o de alimentos aos filhos menores; e a suspens\u00e3o do porte de arma de fogo do agressor;\u00a0separa\u00e7\u00e3o de corpos; proibi\u00e7\u00e3o de contato ou aproxima\u00e7\u00e3o com a v\u00edtima; restri\u00e7\u00e3o ou suspens\u00e3o das visitas a dependentes menores; restitui\u00e7\u00e3o de bens indevidamente subtra\u00eddos; encaminhamento da v\u00edtima a programa de prote\u00e7\u00e3o ou atendimento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando a v\u00edtima faz o registro de ocorr\u00eancia, via de regra, ela \u00e9 questionada sobre o interesse em medidas protetivas. A promotora Carla Souto explica que essas medidas s\u00e3o muito importantes tamb\u00e9m porque tem um car\u00e1ter inibidor. \u201cN\u00f3s j\u00e1 temos dados que nos indicam que as mulheres que tem medidas protetivas realmente consegue evitar que se chegue ao mal maior, que \u00e9 o feminic\u00eddio. Esse ano, durante a pandemia, em abril n\u00f3s tivemos um n\u00famero absurdo de feminic\u00eddios e, aqui no RS, s\u00f3 uma delas tinha medida protetiva.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo dados do Conselho Nacional do Minist\u00e9rio P\u00fablico (CNMP), 76% das v\u00edtimas de feminic\u00eddio e 85% das mulheres que sofreram de tentativa de feminic\u00eddio haviam sofrido atos de persegui\u00e7\u00e3o nos 12 meses anteriores ao ato. Mais do que isso, 41% dos agressores voltam a praticar viol\u00eancia contra as mesmas v\u00edtimas no per\u00edodo de at\u00e9 dois anos e meio ap\u00f3s um incidente anterior de viol\u00eancia. A maioria das mortes que decorrem da viol\u00eancia de g\u00eanero ocorre no contexto de um relacionamento marcado por viol\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O caminho para conseguir uma medida protetiva \u00e9 o seguinte: a v\u00edtima faz o registro de ocorr\u00eancia e comunica que precisa de medida protetiva. Esse pedido vai direto ao Judici\u00e1rio, para que o juiz defira ou n\u00e3o. Deferido o pedido, o agressor \u00e9 intimado pessoalmente. \u201cEle n\u00e3o pode se aproximar da v\u00edtima, nem do local de trabalho e n\u00e3o pode manter nenhum tipo de contato, nem por WhatsApp ou telefone. Ent\u00e3o isso nos traz uma refer\u00eancia que funciona\u201d, explica a promotora. A medida protetiva ainda tem uma outra fun\u00e7\u00e3o: o agressor que descumpre uma medida protetiva pode ser preso em flagrante.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Minist\u00e9rio P\u00fablico ainda atua nos processos criminais. \u201cNeste ponto, \u00e9 importante que se diga que vai chegar o momento em que a v\u00edtima ser\u00e1 chamada a comparece ao F\u00f3rum para falar sobre o que aconteceu. E \u00e9 importante que ela compare\u00e7a, sen\u00e3o a gente fica sem poder comprovar o que se falou no registro de ocorr\u00eancia e se tem muitas absolvi\u00e7\u00f5es\u201d, alertou a promotora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano passado, o MP lan\u00e7ou\u00a0a cartilha virtual\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bit.ly\/MPRSPeloFimdaViol%C3%AAnciaContraMulher\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cTodos e todas pelo fim da viol\u00eancia contra a mulher\u201d.\u00a0<\/a><\/b>\u00a0O documento explica, de forma did\u00e1tica, o que \u00e9 viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar\u00a0 e como funciona o ciclo, al\u00e9m de identificar todas as formas de viol\u00eancia. mostra como opera o ciclo de que seja compartilhada pelas redes sociais digitais. A cartilha tamb\u00e9m traz\u00a0 informa\u00e7\u00f5es sobre onde e como buscar ajuda e pode ser compartilhada em redes sociais.<\/p>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">.<\/h4>\n<h4 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">EM BRIGA DE MARIDO E MULHER, METE-SE A COLHER<\/h4>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A promotora de Justi\u00e7a Carla Souto lembra que \u00e9 importante falar sobre o assunto. \u201cN\u00f3s precisamos falar muito sobre isso, para que a gente consiga alterar a cultura que ainda existe em algumas pessoas, de que \u00e9 uma quest\u00e3o do marido e da mulher e que ningu\u00e9m tem que interferir. A quest\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 um problema de cada um de n\u00f3s, \u00e9 uma quest\u00e3o que envolve os Direitos Humanos, a dignidade. \u00c9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica. As v\u00edtimas da viol\u00eancia, para al\u00e9m da viol\u00eancia f\u00edsica, est\u00e3o desenvolvendo problemas de sa\u00fade mental extremamente graves. Depress\u00e3o, ansiedade. Afora isso, tem os filhos. Porque o menino que vive em um lar violento vai ter a tend\u00eancia, no futuro, de reprisar aqueles mesmo atos de viol\u00eancia. E a menina a ser tolerante com a viol\u00eancia. Ent\u00e3o o problema vai pra muito al\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ela alerta para o fato de que a viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o causa tanta como\u00e7\u00e3o como outros crimes. Percebe cultura de culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima e ela cultura alimenta o ciclo da viol\u00eancia e que faz com que as v\u00edtimas permane\u00e7am caladas. Porque ela t\u00e1 em todos n\u00f3s. E a mulher acaba acreditando nisso, porque a quest\u00e3o da viol\u00eancia psicol\u00f3gica \u00e9 extremamente grave. Seguidamente em audi\u00eancia a gente ouve as mulheres dizendo \u201ceu que provoquei\u201d, \u201ceu que quis estudar\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEu acredito que n\u00f3s estamos em um momento \u00fanico na quest\u00e3o do olhar pra viol\u00eancia dom\u00e9stica. Agora, no RS, foi lan\u00e7ada essa campanha da qual o MP \u00e9 parceiro. E com isso, eu percebo uma mudan\u00e7a institucional importante no Minist\u00e9rio P\u00fablico, no sentido do quanto \u00e9 importante o trabalho dos promotores nessa \u00e1rea. E pela Pol\u00edcia Civil, eu s\u00f3 vejo excel\u00eancia no que eles est\u00e3o produzindo. Isso mostra que as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o conseguindo compreender o ciclo da viol\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A promotora Carla Souto ainda alerta para o fato de que as pessoas que est\u00e3o no entorno dessas mulheres devem prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s microviol\u00eancias. \u201c\u00c0s vezes a pr\u00f3pria v\u00edtima n\u00e3o entende que est\u00e1 em um relacionamento abusivo. Ent\u00e3o \u00e9 importante que n\u00f3s, como amigas ou conhecidas, estejamos atentas. Se de uma hora para outra essa mulher mudou de forma dr\u00e1stica, vamos perguntar. \u00c9 importante denunciar, mas \u00e9 importante, tamb\u00e9m, falar. O primeiro passo \u00e9 falar para algu\u00e9m, contar para uma amiga, para um familiar. H\u00e1 algo que eu uso enquanto promotora e como amiga. Se por dez vezes ela voltar para aquele agressor, por onze vezes eu vou estar aqui, apoiando e dando suporte. Tamb\u00e9m a fam\u00edlia e os amigos n\u00e3o podem desistir.\u201d Segundo a promotora, a viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 uma epidemia, \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">\u201cIsso n\u00e3o pode continuar nwunye m &#8211; disse tia Ifeoma. &#8211; Quando uma casa est\u00e1 pegando fogo, a gente sai correndo antes que o teto caia em cima da nossa cabe\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Hibisco Roxo &#8211; Chimamanda Ngozi Adichie<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*Os nomes foram modificados e a verdadeira identidade protegida a pedido das entrevistadas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atualiza\u00e7\u00e3o em 19 de outubro de 2020 ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do An\u00faario da Seguran\u00e7a P\u00fablica \u201cMama olhou em volta. 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