{"id":7221,"date":"2020-05-31T01:12:53","date_gmt":"2020-05-31T04:12:53","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7221"},"modified":"2020-05-31T01:12:53","modified_gmt":"2020-05-31T04:12:53","slug":"no-luxo-dos-veludos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7221","title":{"rendered":"No luxo dos veludos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Um mar amorfo de bestialidades quase neutraliza a discuss\u00e3o sobre outras coisas nos tempos que correm. O governo Bolsonaro \u00e9 desprez\u00edvel, autorit\u00e1rio e corrupto. Precisa acabar. Seus s\u00e9quitos apoiadores financeiros vivem muito bem no luxo dos veludos. Mas a crueldade dos monstros sanguessugas n\u00e3o pode paralisar-nos e \u00e9 preciso reagir. Uma forma imprescind\u00edvel de rea\u00e7\u00e3o \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o da quarentena para quem tem condi\u00e7\u00f5es e pode mant\u00ea-la. No momento, a quarentena \u00e9 a luta armada de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em meio a tudo isso, os filmes me aquecem. Certamente a sess\u00e3o mais memor\u00e1vel deste maio que est\u00e1 prestes a se esgotar, levando com ele a vida de muita gente, espalhadas nos muitos brasis que temos no Brasil, ao descompasso do desprez\u00edvel conjunto de abomin\u00e1veis senhores da morte que dizem nos governar, enfim, eu dizia que a sess\u00e3o mais marcante dessa quarentena, at\u00e9 aqui, foi a de <em>A Casa e o Mundo (\u00cdndia, 1984)<\/em>, de Satyajit Ray. Curioso que, como em boa parte da obra cinematogr\u00e1fica do cineasta indiano, a casa, isto \u00e9, o espa\u00e7o interior (ambiente dos dramas corriqueiros e cotidianos, mas tamb\u00e9m espa\u00e7o para onde converge uma s\u00e9rie de problemas do <em>mundo<\/em>, pois indissoci\u00e1veis) existe pois h\u00e1 um fora dele, o exterior. Os espa\u00e7os em Ray t\u00eam contornos e, ao mesmo tempo, respeitam aqui a intimidade da c\u00e2mera cl\u00e1ssica. Ele tem, no entanto, a mal\u00edcia que faz do seu cinema uma viagem atenta ao conjunto de valores em vigor no espa\u00e7o do qual ele fazia parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A hist\u00f3ria de <em>A Casa e o Mundo<\/em> \u00e9 uma hist\u00f3ria conjugal, passada em Calcut\u00e1, e ela toma forma inteiramente no espa\u00e7o dom\u00e9stico. Estrutura dram\u00e1tica habitual em Ray, \u00e9 poss\u00edvel conhecer o mundo com aquilo que ele nos d\u00e1 a ver por meio de suas imagens e \u00e9 necess\u00e1rio se inserir nesse mundo a partir de uma s\u00e9rie de decis\u00f5es (morais, absolutamente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Bimala \u00e9 casada com um homem intelectual, rico e liberal, e se v\u00ea encantada pelo amigo do marido que ele pr\u00f3prio insiste em lhe apresentar, contrariando a tradi\u00e7\u00e3o. A tens\u00e3o que se cria \u00e9 exatamente resultado disso, consequ\u00eancia de crises constantes da tr\u00edade de personagens protagonistas, e comporta todos os conflitos, hesita\u00e7\u00f5es e vacilos poss\u00edveis naquele registro. N\u00e3o h\u00e1 exist\u00eancia passiva no conjunto de a\u00e7\u00f5es assumidas pelos tr\u00eas, e suas decis\u00f5es movem a trama. O narrador n\u00e3o deseja esconder as pistas, os motivos dos seus personagens. Ao contr\u00e1rio, ele espera que o espectador os decodifique. Nesse sentido, a raz\u00e3o de Ray opera de modo distinto a de um Bergman, Ozu ou de Fellini, por exemplo, que operam mais no mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Satyajit Ray era um observador engenhoso e respons\u00e1vel. Audacioso, em <em>A Casa e o Mundo<\/em> ele n\u00e3o s\u00f3 \u201ccomenta\u201d a cultura oficial, mas a interpreta compreendendo suas verdades mais \u00edntimas &#8211; e suas falsidades tamb\u00e9m, seus vespeiros e suas contradi\u00e7\u00f5es. Parece ser a melhor forma de fazer cinema pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vale acompanhar as redes da <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/mostradecinemasafricanos\">Mostra de Cinemas Africanos<\/a>. A Mostra coordena o Cine \u00c1frica, que est\u00e1 promovendo debates tamb\u00e9m com uma galera muito qualificada para falar sobre os filmes africanos. Espia a programa\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/mostradecinemasafricanos.com\/cine-africa-em-casa-programacao-completa-e-inscricoes\/\">aqui<\/a>. Al\u00e9m do Cine \u00c1frica, segue at\u00e9 o dia o 7 de junho o <em>We Are One \u2013 A Global Film Festival,<\/em> e o pessoal da Mostra <a href=\"http:\/\/mostradecinemasafricanos.com\/confira-os-filmes-africanos-na-programacao-do-we-are-one-a-global-film-festival\/\">publicou uma p\u00e1gina<\/a> com as exibi\u00e7\u00f5es dos filmes africanos que integram a programa\u00e7\u00e3o do festival, que s\u00e3o disponibilizados no YouTube.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um mar amorfo de bestialidades quase neutraliza a discuss\u00e3o sobre outras coisas nos tempos que correm. 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