{"id":7190,"date":"2020-05-16T16:56:53","date_gmt":"2020-05-16T19:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7190"},"modified":"2020-05-17T15:58:45","modified_gmt":"2020-05-17T18:58:45","slug":"lelia-almeida-precisamos-ler-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7190","title":{"rendered":"L\u00e9lia Almeida: Precisamos ler mulheres"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Por que devemos valorizar a literatura escrita por mulheres? Os motivos s\u00e3o in\u00fameros, mas podemos citar o simples fato de que livros de autoria masculina s\u00e3o consumidos por ambos os g\u00eaneros, enquanto as obras criadas por mulheres acabam sendo lidas apenas pelo sexo feminino. Uma esp\u00e9cie de misoginia liter\u00e1ria, como se as mulheres n\u00e3o tivessem a capacidade de criar um conte\u00fado profundo e interessante o suficiente para agradar a exig\u00eancia masculina.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Outra raz\u00e3o, essa muito mais cruel e assustadora, \u00e9 o fato da viol\u00eancia contra a mulher ter crescido muito, em n\u00edvel mundial, nesse per\u00edodo de pandemia e isolamento social. Muitos homens seguem vendo suas parceiras como sua propriedade e n\u00e3o como seres humanos aut\u00f4nomos, independentes e protagonistas de suas hist\u00f3rias.<\/span><\/p>\n<p><strong>ENTREVISTADA QUE FOI AL\u00c9M<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Todas essas reflex\u00f5es passaram pela minha cabe\u00e7a enquanto entrevistava a pesquisadora e escritora L\u00e9lia Almeida na semana passada. Enquanto eu me limitava a fazer perguntas diretas a respeito da personagem<a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/maria-valeria-mae-fora-do-padrao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> Maria Val\u00e9ria, de <\/a><\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O Tempo e o Vento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, L\u00e9lia ia al\u00e9m. A escritora fez reflex\u00f5es sobre o quanto uma personagem feminina tem limita\u00e7\u00f5es ao ser escrita por um homem, por mais talentoso que Erico Verissimo fosse. E incluiu em suas respostas muitas informa\u00e7\u00f5es relevantes sobre a literatura feita por mulheres e pontuou o fato de manter, h\u00e1 anos, um grupo permanente de estudos de literatura de mulheres. O resultado voc\u00eas conferem abaixo, na segunda parte da entrevista com a escritora.<\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center\"><strong>VOOS LITER\u00c1RIOS ENTREVISTA L\u00c9LIA ALMEIDA<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Escritoras mulheres como foco de interesse<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cFa\u00e7o h\u00e1 cerca de 30 anos um trabalho de leitura de mulheres e acabei sendo \u2018alfabetizada\u2019 nesse sentido. De ler obras sem o ponto de vista dos homens. Com o passar do tempo, fui me distanciando da pesquisa que fiz sobre <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O Tempo e o Vento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, a ponto de chegar a recusar uma oficina que faria usando como ponto de partida as personagens femininas do livro de Erico Verissimo. Acabei indo por outros caminhos, ent\u00e3o esse trabalho n\u00e3o me diz mais respeito.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Cr\u00edtica feminista<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cOs primeiros estudos da cr\u00edtica feminista trabalham com dois caminhos: um deles \u00e9 analisar como as personagens femininas s\u00e3o representadas pelos homens. O outro caminho \u00e9 a escrita das mulheres. Nesse sentido, acredito que exista uma limita\u00e7\u00e3o quando se l\u00ea personagens como a Maria Val\u00e9ria, por ser uma figura feminina escrita por um homem. Apesar de que Erico Verissimo, talvez de forma at\u00e9 inconsciente, tenha conseguido captar algo diferente nessa personagem e colocado nela elementos fora do convencional, ao apresentar uma mulher que n\u00e3o casou mas tem autoridade dentro do enredo.\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Mulher s\u00f3, mulher maldita<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;No grupo permanente de estudo de literatura de mulheres que mantenho, j\u00e1 estudamos\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">a figura da solteirona. Essa personagem meio maldita, socialmente amaldi\u00e7oada, que n\u00e3o tem a prote\u00e7\u00e3o do pai e nem de um marido, como \u00e9 o caso das hero\u00ednas g\u00f3ticas. S\u00e3o grandes personagens, cheios de puls\u00f5es, sentimentos e contradi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">A figura da mulher s\u00f3 \u00e9 interessante, pois ela se nega a cumprir determina\u00e7\u00f5es sociais, como ser esposa e m\u00e3e.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>O mito do amor rom\u00e2ntico<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cToda a cultura feminina tradicional est\u00e1 baseada no mito do amor rom\u00e2ntico. Essa ilus\u00e3o provoca preju\u00edzos \u00e0s mulheres at\u00e9 hoje. A gente v\u00ea casos de mulheres muito empoderadas q<\/span><span style=\"font-size: 14px;letter-spacing: 0px\">ue se deixam abalar por uma rejei\u00e7\u00e3o masculina. Acredito que substitu\u00edmos algumas armadilhas por outras. Antes havia a obriga\u00e7\u00e3o da virgindade, de casar de branco, de ter determinado n\u00famero de filhos. Hoje, existe a obrigatoriedade do parto natural, da doula, da amamenta\u00e7\u00e3o. As mulheres sempre acabam envolvidas por regras que ditam como elas devem viver e se comportar.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Sexualidade feminina\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cOutro erro atual, na minha vis\u00e3o, \u00e9 reduzir a sexualidade feminina \u00e0 quest\u00e3o da viol\u00eancia. Enfrento muitas cr\u00edticas quando falo isso, mas seguirei defendendo essa ideia. A minha gera\u00e7\u00e3o [a escritora nasceu em 1962] brigou pela express\u00e3o da sexualidade tanto na literatura quanto na vida, pelo direito da mulher sentir prazer na experi\u00eancia da sensualidade. A sexualidade \u00e9 muito maior e mais abrangente do que apenas a viol\u00eancia, a vitimiza\u00e7\u00e3o e a cultura do estupro.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Rela\u00e7\u00f5es virtuais<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cAs rela\u00e7\u00f5es por aplicativos e pela Internet tamb\u00e9m afetam as mulheres de uma forma que me surpreende. Vejo alunas minhas, na faixa dos 40 anos, fazendo confid\u00eancias que vi em mulheres da gera\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 minha. Todas com muitas d\u00favidas e inseguran\u00e7as, temos muito o que avan\u00e7ar nesse sentido.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Pelo direito de n\u00e3o ser m\u00e3e<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cUma das vertentes na literatura escrita por mulheres s\u00e3o obras que buscam garantir a possibilidade das mulheres n\u00e3o serem m\u00e3es. Uma dessas autoras \u00e9 a chilena Lina Meruane [autora da obra <\/span><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Contra-os-filhos-Lina-Meruane\/dp\/8588808072\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Contra os Filhos<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, um ensaio que questiona os modelos de maternidade e fam\u00edlia]. Nessa obra, Lina cita diversas escritoras que foram contra a maternidade, como Virginia Woolf.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Cuidar dos outros ou de si?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cPara al\u00e9m da quest\u00e3o da maternidade, o que est\u00e1 impregnado nas mulheres \u00e9 a cultura do cuidar do outro contra o cuidar de si mesma. O cuidar \u00e9 sempre feminino. O problema \u00e9 que em geral as mulheres esquecem de olhar para suas vontades ao se dedicarem aos cuidados e vontades de outras pessoas.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Meninas m\u00e1s<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cAs mulheres n\u00e3o s\u00e3o sempre boazinhas na vida real. Por isso, admiro escritoras que saem desse padr\u00e3o estereotipado. A espanhola Carmen Mart\u00edn Gaite aborda no artigo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">La Chica Rara<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Desde La Ventana<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, as meninas m\u00e1s. J\u00e1 a argentina Silvina Ocampo usa o termo \u201cmenina terr\u00edvel\u201d na antologia <a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Antologia-Cuentos-nena-terrible-Spanish\/dp\/1934768626\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Cuentos de la nena terrible.<\/em><\/a><\/span><\/p>\n<p><b>Preconceito liter\u00e1rio<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">&#8220;Temos casos cl\u00e1ssicos de mulheres transgressoras na literatura que acabam morrendo no final do enredo ou sofrendo grandes puni\u00e7\u00f5es. Uma delas \u00e9 Madame Bovary. Assim como a representa\u00e7\u00e3o da loucura. Nos homens, \u00e9 algo genial. Nas mulheres, sempre \u00e9 apresentada de forma negativa. Tudo isso \u00e9 estudado fartamente pela cr\u00edtica feminista. Por isso, precisamos ler mulheres. Mas devemos ficar atentos, pesquisar e dar prefer\u00eancia para escritoras que n\u00e3o sejam machistas, que pactuam e reproduzem o discurso vigente. Outra barreira a ser rompida \u00e9 a dos leitores homens. Por mais inteligentes e evolu\u00eddos que pare\u00e7am, dificilmente s\u00e3o leitores de obras escritas por mulheres.\u201d<\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center\"><strong>Livros de L\u00e9lia Almeida<\/strong><\/h5>\n<p><a href=\"http:\/\/www.casaverde.art.br\/numa_estrada.html\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Numa Estrada Sem Fim que Carrego Aqui Dentro<\/span><\/i><\/a><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Antonia<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Senhora Sant\u2019Ana<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">As mulheres de Bangkok<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">50 ml de Cabochard<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">A sombra e a chama: (uma interpreta\u00e7\u00e3o da personagem feminina n\u2019O tempo e o vento, de Erico Verissimo)<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Querido Arthur<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">As gregas do Mangue<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">As meninas m\u00e1s na literatura de autoria feminina<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">O amante alem\u00e3o (Pr\u00eamio A\u00e7orianos de Literatura, 2013)<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400\">Este outro mundo que esquecemos todos os dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">s.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que devemos valorizar a literatura escrita por mulheres? 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