{"id":7173,"date":"2020-05-08T16:18:58","date_gmt":"2020-05-08T19:18:58","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7173"},"modified":"2020-05-09T17:18:19","modified_gmt":"2020-05-09T20:18:19","slug":"maria-valeria-mae-fora-do-padrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7173","title":{"rendered":"Maria Val\u00e9ria, m\u00e3e fora do padr\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Com a chegada do Dia das M\u00e3es, a idealiza\u00e7\u00e3o da figura materna proposta nos notici\u00e1rios e na publicidade pode magoar quem n\u00e3o tem a m\u00e3e presente em sua vida por qualquer motivo. Essa aus\u00eancia em geral \u00e9 suprida por figuras femininas substitutas, que muitas vezes exercem a maternagem de forma afetuosa e dedicada. Pode ser uma av\u00f3, uma tia, uma tia-av\u00f3, uma amiga da fam\u00edlia. O parentesco n\u00e3o importa. O que interessa mesmo \u00e9 a import\u00e2ncia que essa mulher exerce na vida dos \u00f3rf\u00e3os (de amor ou de fato).\u00a0<\/span><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify\"><strong>M\u00c3E \u00c9 QUEM CRIA<\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ao buscar uma personagem liter\u00e1ria que representasse essas m\u00e3es fora do padr\u00e3o, acabei lembrando de um dos cl\u00e1ssicos da literatura brasileira, <em>O Tempo e o Vento<\/em>, de Erico Verissimo. Uma das mulheres mais representativas no enredo e a \u00fanica que aparece nos sete volumes da s\u00e9rie liter\u00e1ria \u00e9 Maria Val\u00e9ria, uma solteirona aparentemente nada afetuosa, mas que \u00e9 a grande refer\u00eancia materna dos sobrinhos e sobrinhos-netos. Sua irm\u00e3, Alice, morre na primeira parte da trilogia, <em>O Continente<\/em>. Os dois sobrinhos eram crian\u00e7as e a Dinda, como \u00e9 chamada, acolhe Rodrigo e Tor\u00edbio.<\/span><\/p>\n<h6><strong>O AMOR NAS ENTRELINHAS<\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No trecho a seguir do segundo livro, <em>O Retrato<\/em>, Rodrigo, j\u00e1 adulto, retorna ao sobrado e se emociona ao rever Maria Val\u00e9ria, que disfar\u00e7a seu afeto pelo sobrinho:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><cite><strong>&#8220;Ergueu os olhos e viu l\u00e1 em cima no vest\u00edbulo, ao p\u00e9 do \u00faltimo degrau, o vulto da tia. Precipitou-se escada acima e caiu nos bra\u00e7os de Maria Val\u00e9ria, beijando-lhe as faces, a testa, as m\u00e3os, enquanto ela lhe retribu\u00eda esses carinhos apenas com seus beijos secos e r\u00e1pidos.<\/strong><\/cite><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><cite><strong>\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 contente com a minha chegada, Dinda? \u2014 perguntou ele, quando\u00a0<\/strong><\/cite><cite><strong>sentiu que podia falar sem o perigo de romper o choro.<\/strong><\/cite><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><cite><strong>\u2014 Quem foi que disse que n\u00e3o estou? \u2014 Com as m\u00e3os ossudas tomou-lhe do queixo,\u00a0<\/strong><\/cite><cite><strong>olhou-o nos olhos demoradamente e perguntou: \u2014 Que \u00e9 isso na vista?<\/strong><\/cite><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><cite><strong>\u2014 Decerto foi a poeira da estrada&#8230;&#8221;<\/strong><\/cite><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Quando chegamos em <em>O Arquip\u00e9lago<\/em>, percebemos a import\u00e2ncia estrutural da personagem dentro da narrativa, ao ser ela a respons\u00e1vel por fornecer material para o romance que o sobrinho-neto Floriano escrever\u00e1 sobre os 200 anos de hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul. A Dinda naquele momento \u00e9 vista como um farol:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><span style=\"font-size: 14px;letter-spacing: 0px\">Quando a velha Maria Val\u00e9ria anda pela casa nas suas rondas noturnas, com uma vela acesa na m\u00e3o, vejo nela um farol. Estou certo de que a luz dessa vela poder\u00e1 me alumiar alguns dos caminhos que ficaram pra tr\u00e1s no tempo. \u201c<\/span><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<h6>LINHAGEM DA PERSONAGEM<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Dentro da genealogia da trilogia, Maria Val\u00e9ria \u00e9 sobrinha-neta de Bibiana e torna-se a \u00faltima matriarca da fam\u00edlia Terra Cambar\u00e1. Apesar disso, seu nome n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o conhecido do grande p\u00fablico como sua tia-av\u00f3 ou Ana Terra, a primeira m\u00e3e do enredo.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center\"><strong>VOOS LITER\u00c1RIOS ENTREVISTA<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Pensando nas raz\u00f5es que levaram \u00e0 invisibilidade dessa personagem que \u00e9 uma m\u00e3e fora do padr\u00e3o, conversamos com a escritora e pesquisadora L\u00e9lia Almeida,\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">que em 1992 elaborou uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado sobre Maria Val\u00e9ria para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Letras da UFRGS.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<strong>VL<\/strong>:\u00a0\u00a0<\/span><b>Como surgiu a ideia de fazer a pesquisa a respeito da personagem Maria Val\u00e9ria?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>L\u00c9LIA:<\/strong>\u00a0<span style=\"font-weight: 400\">Foi durante uma disciplina sobre as personagens femininas de Machado de Assis, ministrada pelo professor Fl\u00e1vio Loureiro Chaves, um dos especialistas na obra de Erico Verissimo. Ele tornou-se o orientador do meu trabalho, no qual observei a import\u00e2ncia de Maria Val\u00e9ria, que fugia da representa\u00e7\u00e3o tradicional das personagens femininas: as m\u00e3es, que s\u00e3o boas, e as putas, que s\u00e3o m\u00e1s. A solteirona criada por Erico Verissimo est\u00e1 mais ligada \u00e0s Deusas Virgens, que s\u00e3o figuras mitol\u00f3gicas que n\u00e3o se submetem ao poder do patriarcado e n\u00e3o se casam. Na minha pesquisa, associo Maria Val\u00e9ria ao arqu\u00e9tipo de H\u00e9stia, que cuida do fogo da casa. Lembrando que na \u00e9poca n\u00e3o existiam pesquisas publicadas sobre as personagens femininas de <em>O Tempo e o Vento<\/em> e muito menos estudos de g\u00eanero. Mesmo sendo uma personagem escrita por um homem e tendo o h\u00e1bito de mimar muito os personagens masculinos, considero que Maria Val\u00e9ria demonstra um grande senso de realidade sobre as dificuldades femininas enfrentadas na \u00e9poca em que se passa a hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>VL:<\/strong>\u00a0<\/span><b>A personagem Maria Val\u00e9ria, de <em>O Tempo e o Vento<\/em>, pode ser classificada como uma m\u00e3e fora das padr\u00f5es, apesar de n\u00e3o ser chamada de m\u00e3e pelos sobrinhos e sobrinhos-netos?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>L\u00c9LIA:<\/strong> A personagem, \u00e9 de certa forma, uma esp\u00e9cie de m\u00e3e de todos na hist\u00f3ria, mesmo n\u00e3o tendo caracter\u00edsticas estereotipadas ligadas ao feminino, como a docilidade e o afeto. Maria Val\u00e9ria tem atributos mais associados ao masculino: austeridade, autoridade, aus\u00eancia de vaidade ao vestir-se, etc. Admiro o humor sarc\u00e1stico da personagem e seu h\u00e1bito de citar ditos populares.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>VL: Qual a import\u00e2ncia da personagem Maria Val\u00e9ria dentro da narrativa da trilogia?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>L\u00c9LIA:<\/strong> Al\u00e9m de aparecer em todos os volumes da trilogia, considero a personagem importante por romper a forma tradicional das mulheres se comportarem dentro do enredo de <em>O Tempo e o Vento<\/em>. Mesmo nos dias atuais, a feminilidade est\u00e1 associada \u00e0 maternidade e Maria Val\u00e9ria demonstra ter valor mesmo n\u00e3o sendo m\u00e3e.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">(A entrevista com a escritora L\u00e9lia Almeida continua na pr\u00f3xima coluna, abordando feminismo e a import\u00e2ncia da leitura de obras escritas por mulheres)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><em>\u00a0A ideia desse texto surgiu para homenagear minha tia-av\u00f3 Marina, uma esp\u00e9cie de m\u00e3e fora dos padr\u00f5es,\u00a0que encheu de afeto e do\u00e7ura minha inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e in\u00edcio da vida adulta. Ela partiu h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas, com 90 anos dedicados a dar amor a muitos sobrinhos e sobrinhos-netos.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Imagem: Abertura da s\u00e9rie O Tempo e o Vento\/Reprodu\u00e7\u00e3o Internet<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a chegada do Dia das M\u00e3es, a idealiza\u00e7\u00e3o da figura materna proposta nos notici\u00e1rios e na publicidade pode magoar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7175,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[358,2220,2218,2219],"class_list":["post-7173","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-voos-literarios","tag-erico-verissimo","tag-lelia-almeida","tag-maria-valeria","tag-o-tempo-e-o-vento"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7173"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7173\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7175"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}