{"id":7095,"date":"2020-04-04T09:00:06","date_gmt":"2020-04-04T12:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7095"},"modified":"2020-04-03T18:27:47","modified_gmt":"2020-04-03T21:27:47","slug":"a-respeito-de-cachorros-comedores-de-ovelha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=7095","title":{"rendered":"A respeito de cachorros comedores de ovelha"},"content":{"rendered":"<p>No Rio Grande do Sul (e em boa parte do Brasil, imagino), \u00e9 comum o uso de c\u00e3es junto a rebanhos de ovelhas &#8211; seja para ajudar no pastoreio, seja para manter predadores (e ladr\u00f5es) afastados. O Estado tem at\u00e9 sua pr\u00f3pria vers\u00e3o de c\u00e3o pastor, o ovelheiro-ga\u00facho, talhado especificamente para esse tipo de tarefa. De modo geral, os animais gostam de se sentir \u00fateis, e realizam as tarefas com grande dedica\u00e7\u00e3o. <strong>Alguns cachorros, por\u00e9m, acabam se desviando: pegam gosto por ca\u00e7ar as ovelhas e devor\u00e1-las.<\/strong><\/p>\n<h3>Esses, como diz o ga\u00facho do campo, s\u00f3 matando.<\/h3>\n<p>Lembro do meu pai contando, quando eu ainda era bem novo, sobre as experi\u00eancias que tivera com cachorros comedores de ovelha. Ele morava na zona rural de S\u00e3o Gabriel, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, e dizia ter visto uma ovelha ca\u00e7ada por cachorro, ainda viva. O processo \u00e9 t\u00e3o brutal quanto eficaz: o cachorro corre, a ovelha tenta fugir, e o ca\u00e7ador, ao inv\u00e9s de atacar no pesco\u00e7o ou no lombo da presa, apenas agarra a l\u00e3 com os dentes, dando um pux\u00e3o que, em meio \u00e0 correria, acaba causando ferimentos graves. \u00c0s vezes, a ovelha consegue fugir mesmo assim; \u00e0s vezes, n\u00e3o. A ovelha que meu pai viu quando garoto tinha fugido, mas estava mal: o pux\u00e3o tinha arrancado um grande naco de carne, deixando as costelas \u00e0 mostra.<\/p>\n<p>Eu nunca vi um cachorro comedor de ovelha, mas quem viu diz que o bicho fica viciado &#8211; tanto na carne crua rec\u00e9m-abatida, quanto na adrenalina da ca\u00e7ada. Alguns ca\u00e7am apenas por prazer, sem sequer devorar de fato a presa; outros, ao contr\u00e1rio, param de comer da tigela e recusam qualquer outra comida que lhes seja servida, s\u00f3 demonstrando interesse pelo gosto do sangue fresco.<\/p>\n<h3>Em qualquer caso, a sabedoria do ga\u00facho diz que s\u00f3 existe um jeito de evitar o preju\u00edzo na cria\u00e7\u00e3o: levar o cachorro ovelheiro para um lugar isolado e mat\u00e1-lo. Mesmo que goste muito dele, mesmo que seja um animal fiel e tudo o mais. Porque cachorro viciado em ovelha n\u00e3o se emenda. N\u00e3o presta para mais nada. S\u00f3 matando.<\/h3>\n<p>Imagino que muitos ga\u00fachos tenham, no decurso das d\u00e9cadas, tentado salvar a vida de cachorros viciados em ovelha. \u00c0s vezes os pi\u00e1s gostam do bicho, e o pai n\u00e3o quer deixar as crian\u00e7as tristes. \u00c0s vezes o c\u00e3o livrou o dono de situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, o que gera um sentimento de gratid\u00e3o. Talvez, no passado, o animal tenha sido o melhor pastor de ovelhas da fazenda, e o dono sinta pena de se desfazer de uma criatura que foi t\u00e3o eficiente no passado. Ou pode ser que o ga\u00facho rude simplesmente n\u00e3o queira a miss\u00e3o de abater um cachorro, um animal t\u00e3o pr\u00f3ximo, com que se desenvolve la\u00e7os diferentes do que se tem por uma vaca, um porco, uma ovelha.<\/p>\n<p>Um esfor\u00e7o quase bonito, dependendo do caso &#8211; mas, ainda assim, infrut\u00edfero.<\/p>\n<p>\u00c9 a vida, simples assim. Alguns n\u00e3o se emendam &#8211; sejam animais selvagens, domesticados ou seres humanos, mesmo. <strong>Para alguns indiv\u00edduos, o desvio \u00e9 sua pr\u00f3pria natureza: \u00e9 o que os define, o comportamento mais natural, o resumo de tudo que s\u00e3o e ambicionam ser.<\/strong><\/p>\n<h2>Eles ca\u00e7am ovelhas, reais ou figuradas. Eles buscam o cheiro de sangue, sentem um impulso incontrol\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o.<\/h2>\n<p>Um viciado em ovelhas, seja de que esp\u00e9cie for, pode tentar mudar a rota, sim. Pode tentar modular seu discurso, por exemplo. Mas funciona por um ou dois dias, no m\u00e1ximo: logo volta a espalhar dor e disc\u00f3rdia, a cometer gestos vis, dizer todas as barbaridades que habitam sua mente doentia.<\/p>\n<h2>Pode ser que o ca\u00e7ador fa\u00e7a sinais de concilia\u00e7\u00e3o, ou talvez ele prefira gritar aos quatro ventos seus del\u00edrios homicidas. Nesses casos, n\u00e3o se deve levar em conta a primeira fala, e \u00e9 preciso prestar toda a aten\u00e7\u00e3o na segunda.<\/h2>\n<p>Voc\u00ea pode adestr\u00e1-lo, pode pedir que se controle, implorar que tome ju\u00edzo. Pode torcer que o ambiente o eduque, que as press\u00f5es sobre ele consigam coloc\u00e1-lo na linha, que o risco da puni\u00e7\u00e3o definitiva seja suficiente para evitar que ele continue matando. Pode inclusive achar que, depois de devorar algumas ovelhas, ele v\u00e1 ficar de est\u00f4mago cheio e parar com a matan\u00e7a, ao menos por algum tempo.<\/p>\n<h2>Tudo ilus\u00e3o: ele n\u00e3o vai parar. Nunca.<\/h2>\n<p>Diante da ca\u00e7a, o cachorro que devora ovelhas entrar\u00e1 sempre em frenesi. N\u00e3o parar\u00e1 nem mesmo diante do fim, podem acreditar.<strong> Mesmo isolado, mesmo encurralado ou na imin\u00eancia do tiro fatal, ele vai sempre lembrar do gosto do sangue. E vai arreganhar os dentes. Ansiando por mais.<\/strong><\/p>\n<p>Sou ga\u00facho, mas n\u00e3o sou do campo, como voc\u00eas sabem. <strong>Ainda assim, creio que a sabedoria de quem vive no pampa \u00e9 correta: quando se conclui que o cachorro virou ca\u00e7ador de ovelhas, o tempo de esperar que algo aconte\u00e7a j\u00e1 passou.<\/strong> Quanto mais r\u00e1pido a gente se livra dele, melhor.<\/p>\n<p><em>Foto: Pxhere \/ Creative Commons<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Rio Grande do Sul (e em boa parte do Brasil, imagino), \u00e9 comum o uso de c\u00e3es junto a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":7096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[2158,530,682],"class_list":["post-7095","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-igor-natusch","tag-coronavirus","tag-crise-politica","tag-cronica"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7095","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7095"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7095\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7095"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7095"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7095"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}