{"id":6874,"date":"2020-01-03T18:16:15","date_gmt":"2020-01-03T21:16:15","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6874"},"modified":"2020-01-05T19:52:25","modified_gmt":"2020-01-05T22:52:25","slug":"critica-o-paraiso-deve-ser-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6874","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; O Para\u00edso Deve Ser Aqui"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Em busca de financiamento para seu pr\u00f3ximo filme, Elia Suleiman sai da Palestina para Europa e, de l\u00e1, para a Am\u00e9rica tentando viabilizar a produ\u00e7\u00e3o de seu novo trabalho. Na condi\u00e7\u00e3o de artista observador interessado nas coisas que correm, Suleiman visita o mundo para voltar, ins\u00f3lito, \u00e0 sua Terra. O cineasta, personagem (interno) do filme, e o narrador, autor (externo) da obra, deslocam as inst\u00e2ncias da narra\u00e7\u00e3o para o estudo da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica desses encontros narrativos, e o resultado de suas imagens n\u00e3o preenche os requisitos para um humanismo de fachada. <em>O Para\u00edso Deve Ser Aqui<\/em> abre um di\u00e1logo e questiona a institui\u00e7\u00e3o que expropriou a Palestina dos palestinos em forma de ocupa\u00e7\u00e3o colonial, rindo com tristeza e duvidando com a esperan\u00e7a de um futuro melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em alguns momentos, o filme me remeteu a uma sequ\u00eancia de <em>Week-end \u00e0 Francesa (1967)<\/em>, de Godard, no qual um homem pergunta a outro, no meio da estrada, se ele est\u00e1 em um filme ou na realidade? Em Godard, a resposta est\u00e1 na condi\u00e7\u00e3o claramente cinematogr\u00e1fica das imagens. Para Suleiman, cuja narrativa explora os requisitos de um cinema de humor sofisticado, a resposta, de forma semelhante, consiste em oferecer uma observa\u00e7\u00e3o do mundo a partir de um olhar <em>em tr\u00e2nsito<\/em> entre <em>o universo do real e o da fic\u00e7\u00e3o <\/em>de modo did\u00e1tico e frontal, postos como <em>quest\u00f5es<\/em> para o cineasta e seus motivos cinematogr\u00e1ficos<em>. <\/em>Este seu mais recente filme faz exatamente esse exerc\u00edcio, n\u00e3o se baseando no mundo, mas sendo o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como em Godard, o exagero n\u00e3o \u00e9 caricatura, mas observa\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise do conjunto de um repert\u00f3rio historicamente constru\u00eddo, inclusive e precisamente por meio das imagens que circulam, tencionam e codificam o mundo contempor\u00e2neo. Em um mundo assim, nem h\u00e1 necessidade de guerras com canh\u00f5es, <em>snipers<\/em> e foguetes para sua horripil\u00e2ncia se manifestar. Suleiman recorre, claro, a uma encena\u00e7\u00e3o hiperb\u00f3lica de aspectos que caracterizam as culturas por onde o seu personagem-cineasta passa, como Paris e Nova Yorque. O militarismo surdo, expresso didaticamente, inviabiliza a promo\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo na megal\u00f3pole americana, individualizando o tecido social. Ricardo Piglia escreveu, em seu <em>O Caminho de Ida, <\/em>cujo narrador-personagem n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um grande observador, assim como o Suleiman de<em> O Para\u00edso Deve Ser Aqui,<\/em> que \u00e9 por isso que, n\u00e3o conseguindo recorrer aos colegas de trabalho (possibilidade de uma organiza\u00e7\u00e3o coletiva via sindicato), um trabalhador bem resolve subir no alto de um pr\u00e9dio e atirar contra seus compatriotas para apurar suas ang\u00fastias individuais (que, todavia, certamente n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as suas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando as pessoas ocupam as ruas, o que ocorre \u00e9 confus\u00e3o, atropelo e f\u00faria. Na Paris encontrada pelo cineasta, do alto da janela de onde est\u00e1 abrigado, localiza um imenso vazio nas ruas e que em todos os lugares \u00e9 decodificado por uma s\u00e9rie de epis\u00f3dios burlescos, capilarizados pela presen\u00e7a interventora do Estado, mediado pelas for\u00e7as policiais e ironizado sem d\u00f3 pelo filme. A pol\u00edcia parisiense frontalmente ignora a presen\u00e7a de um Palestino num caf\u00e9 quando precisa realizar sua inspe\u00e7\u00e3o; por outro lado, a norte-americana aprofunda a paranoia terrorista desconfiando de qualquer um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o raro, os fragmentos que lidam mais diretamente com a no\u00e7\u00e3o de identidade e nacionalidade s\u00e3o os mais c\u00f4micos, talvez justo pela insatisfa\u00e7\u00e3o com a forma como acontecem: nunca h\u00e1 respostas, apenas moderadas rea\u00e7\u00f5es faciais diante de mundos que lhes s\u00e3o estranhos e hostis. O debate com os estudantes de cinema, em Nova Yorque, por exemplo, e a cena em que uma produtora diz a ele que \u201cseu filme n\u00e3o \u00e9 suficientemente Palestino\u201d. A no\u00e7\u00e3o de identidade \u00e9 trazida didaticamente, inclusive, pela voz do pr\u00f3prio personagem: \u201cEu sou palestino\u201d, diz a um taxista empolgado com o encontro. Evocando aquilo que Machado de Assis chamou de &#8220;certo instinto de nacionalidade&#8221;, a tarefa do autor, tomada pelos chifres por Suleiman, consiste em estudar o mundo em que vive e as implica\u00e7\u00f5es de cada a\u00e7\u00e3o individual no conjunto da sociedade, provocando tens\u00f5es, colocando as contradi\u00e7\u00f5es em cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Consciente de que essa representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 sem uma outra tens\u00e3o, imanente,\u00a0 o cineasta sabe que, da Am\u00e9rica Latina e de Cuba ao cinema do continente africano, entre outros, a possibilidade de imagens de fora do eixo narrarem\u00a0<em>por dentro<\/em> do eixo a partir da condi\u00e7\u00e3o do estrangeiro sempre espantou o olhar Ocidental, ansioso em conhecer como o terceiro-mundismo via e v\u00ea a si mesmo. Suas imagens mostram isso. Ciente dessa tens\u00e3o,\u00a0 Elia Suleiman se encarrega de dar ao espectador um retrato surreal daquilo que a realidade \u00e9 incapaz de cativar.<\/p>\n<p>It Must Be Heaven, de Elia Suleiman (Palestina\/Alemanha\/Catar, 2019). Com Elia Suleiman, Gael Garc\u00eda Bernal, Tarik Kopty, Kareem Ghneim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em busca de financiamento para seu pr\u00f3ximo filme, Elia Suleiman sai da Palestina para Europa e, de l\u00e1, para a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":6880,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-6874","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6874","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6874"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6874\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6880"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}