{"id":6851,"date":"2020-01-03T20:03:36","date_gmt":"2020-01-03T23:03:36","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6851"},"modified":"2020-01-02T20:06:35","modified_gmt":"2020-01-02T23:06:35","slug":"chegamos-a-150-voos-literarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6851","title":{"rendered":"Chegamos a 150 voos liter\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/voos2_150.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6852 alignleft\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/voos2_150-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/voos2_150-300x300.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/voos2_150-150x150.jpg 150w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/voos2_150-370x370.jpg 370w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/voos2_150.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Essa coluna completa hoje 150 textos publicados semanalmente. Os leitores que t\u00eam o h\u00e1bito da escrita podem imaginar como \u00e9 dif\u00edcil manter a disciplina. \u00c9 um desafio.\u00a0E \u00e9 impressionante como o processo de cria\u00e7\u00e3o varia de acordo com o tema escolhido. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0s vezes, as palavras fluem imediatamente do documento em branco no computador, resultando em um post praticamente pronto, merecendo uma mera revis\u00e3o. Em outras ocasi\u00f5es, \u00e9 preciso parar, refletir. Fazer pesquisas. Dar um tempo. E esperar que as ideias se acomodem internamente at\u00e9 resultarem no texto final. Mas acho que venho conseguindo cumprir a promessa que fiz \u00e0 editora-chefe do V\u00f3s, Ge\u00f3rgia Santos: conectar a Literatura com a atualidade e provocar reflex\u00f5es. E tamb\u00e9m incentivar a ideia que a leitura \u00e9 libertadora e democr\u00e1tica. Um h\u00e1bito que pode ser prazeroso, estimulante e, dependendo da obra escolhida, se transformar em um ato revolucion\u00e1rio, ainda que de revolu\u00e7\u00e3o interna.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Mas deixando a \u201cegotrip\u201d de lado e estimulada pela reflex\u00e3o a respeito do exerc\u00edcio de escrita, resolvi abordar o processo criativo de dois escritores famosos e diferentes entre si: Clarice Lispector e Stephen King. .<\/span><\/p>\n<p>.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: left;\"><strong>STEPHEN KING<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O mestre do suspense, reconhecido por romances de grande f\u00f4lego, tamb\u00e9m \u00e9 ex\u00edmio na arte de surpreender com hist\u00f3rias curtas. No livro <\/span><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/bazar-dos-sonhos-ruins\/dp\/8556510302\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Bazar dos Sonhos Ruins<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, o norte-americano brinda os leitores com enredos que flertam com o fant\u00e1stico e o inesperado. Antes de cada conto, um presente para os mais curiosos: o autor revela como surgiu a ideia que resultou nos textos.\u00a0\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 na introdu\u00e7\u00e3o podemos observar o car\u00e1ter confessional dessa obra de Stephen King:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cVoc\u00ea ficaria surpreso (ao menos, acho que ficaria) com a quantidade de pessoas que me perguntam por que eu ainda escrevo contos. [&#8230;] Sou romancista por natureza, isso eu admito, e tenho um gosto particular por hist\u00f3rias longas que criam uma experi\u00eancia de imers\u00e3o tanto para o autor quanto para o leitor, onde a fic\u00e7\u00e3o tem a chance de se tornar um mundo quase real. [&#8230;] Mas h\u00e1 algo especial nas experi\u00eancias mais curtas e mais intensas. Podem ser revigorantes, \u00e0s vezes at\u00e9 chocantes, como uma valsa com um estranho que voc\u00ea nunca mais vai encontrar, ou um beijo no escuro, ou uma bela raridade \u00e0 venda sobre um len\u00e7ol barato em um bazar. E, sim, quando minhas hist\u00f3rias est\u00e3o reunidas, sempre me sinto como um vendedor ambulante, um que s\u00f3 vende \u00e0 meia-noite. Exibo minha mercadoria e convido o leitor (voc\u00ea) a escolher o que quiser.\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Meu conto predileto entre os 20 publicados nesse livro \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Garotinho Malvado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que tem uma singela explica\u00e7\u00e3o por parte de King para sua cria\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 um enredo simples mas com doses de suspense e terror bem ao gosto de f\u00e3s do g\u00eanero :<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEm algum momento, decidi que queria escrever uma hist\u00f3ria sobre um garotinho malvado que se mudava para um novo bairro. N\u00e3o um garoto que fosse literalmente o filho do diabo, n\u00e3o um garoto possu\u00eddo pelo dem\u00f4nio no estilo O exorcista, mas s\u00f3 malvado por ser malvado, malvado at\u00e9 o \u00faltimo fio de cabelo, a apoteose de todos os garotinhos malvados que j\u00e1 existiram. Eu o via de short e com um bon\u00e9 com h\u00e9lice no alto da cabe\u00e7a. Eu o via sempre criando confus\u00e3o e nunca se comportando.\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<h4><strong>.<\/strong><\/h4>\n<h4><strong>CLARICE LISPECTOR<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Clarice\u00a0<span style=\"font-weight: 400;\">escolhe falar de seu processo criativo de forma mais indireta. A escritora cria em <\/span><a href=\"https:\/\/www.travessa.com.br\/um-sopro-de-vida\/artigo\/cdf1d7b4-336f-4a68-b761-6ac007e49d10\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Um Sopro de Vida<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> o alter ego de um autor, que escreve sobre uma personagem chamada \u00c2ngela Pralini. Em uma esp\u00e9cie de pref\u00e1cio sem maiores explica\u00e7\u00f5es, o enredo come\u00e7a a abordar os desafios da escrita, por parte desse autor-narrador-personagem:\u00a0<\/span>\u201cEu escrevo como se fosse para salvar a vida de algu\u00e9m. Provavelmente a minha pr\u00f3pria vida.\u201d<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais adiante, Clarice prossegue em sua divaga\u00e7\u00e3o-confiss\u00e3o:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cTenho medo de escrever. <strong>\u00c9 t\u00e3o perigoso.<\/strong> Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que est\u00e1 oculto \u2013 e o mundo n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 tona, est\u00e1 oculto em suas ra\u00edzes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio \u00e9 que existo intuitivamente. <strong>Mas \u00e9 um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue.<\/strong> Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras \u2013 quais? talvez as diga. Escrever \u00e9 uma pedra lan\u00e7ada no po\u00e7o fundo.\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em determinados trechos, o recurso da metalinguagem fica expl\u00edcito:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEste \u00e9 um livro silencioso. E fala, fala baixo. Este \u00e9 um livro fresco \u2013 rec\u00e9m-sa\u00eddo do nada. [&#8230;] Este livro \u00e9 um pombo-correio. Eu escrevo para nada e para ningu\u00e9m. Se algu\u00e9m me ler ser\u00e1 por conta pr\u00f3pria e autorrisco. Eu n\u00e3o fa\u00e7o literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver \u00e9 o ato de escrever. [&#8230;] Cada novo livro \u00e9 uma viagem. S\u00f3 que \u00e9 uma viagem de olhos vendados em mares nunca dantes revelados \u2013 a morda\u00e7a nos olhos, o terror da escurid\u00e3o \u00e9 total. Quando sinto uma inspira\u00e7\u00e3o, morro de medo porque sei que de novo vou viajar e sozinho num mundo que me repele. Mas meus personagens n\u00e3o t\u00eam culpa disso e eu os trato o melhor poss\u00edvel. Eles v\u00eam de lugar nenhum. S\u00e3o a inspira\u00e7\u00e3o. Inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 loucura. \u00c9 Deus. Meu problema \u00e9 o medo de ficar louco. Tenho que me controlar. [&#8230;] Este ao que suponho ser\u00e1 um livro feito aparentemente por destro\u00e7os de livro. Mas na verdade trata-se de retratar r\u00e1pidos vislumbres meus e r\u00e1pidos vislumbres de meu personagem \u00c2ngela. Eu poderia pegar cada vislumbre e dissertar durante p\u00e1ginas sobre ele. Mas acontece que no vislumbre \u00e9 \u00e0s vezes que est\u00e1 a ess\u00eancia da coisa. Cada anota\u00e7\u00e3o tanto no meu di\u00e1rio como no di\u00e1rio que eu fiz \u00c2ngela escrever, levo um pequeno susto.\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Caio Fernando Abreu, um f\u00e3 confesso de Clarice Lispector, tamb\u00e9m sentia essa necessidade incessante da escrita, como uma forma de manter-se vivo. Em <em>Pequenas Epifanias<\/em>, o escritor coloca uma ep\u00edgrafe de sua pr\u00f3pria autoria:<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>.<\/strong><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>\u201cContinuo a pensar que quando tudo parece sem sa\u00edda, sempre se pode cantar.<\/strong><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Por essa raz\u00e3o escrevo\u201d<\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que encontremos solu\u00e7\u00f5es positivas e criativas para os becos sem sa\u00edda desse momento sociopol\u00edtico brasileiro: escrever, pintar, dan\u00e7ar, cantar, encenar&#8230;. Modestamente, prossigo por aqui escrevendo, pois \u00e9 meu instrumento de resist\u00eancia. Desejo um feliz e potente 2020 aos leitores do V\u00f3s e da coluna Voos Liter\u00e1rios. Sigamos!<\/p>\n<p><em>Imagens: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ Internet<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa coluna completa hoje 150 textos publicados semanalmente. 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