{"id":6841,"date":"2019-12-25T11:01:59","date_gmt":"2019-12-25T14:01:59","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6841"},"modified":"2019-12-24T13:03:18","modified_gmt":"2019-12-24T16:03:18","slug":"pequeno-conto-paulistano-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6841","title":{"rendered":"Pequeno conto paulistano de Natal"},"content":{"rendered":"<p><em>Essa hist\u00f3ria \u00e9 antiga &#8211; na verdade, est\u00e1 completando dez anos. Escrevi em 2009, quando estava morando em S\u00e3o Paulo. Uma cidade na qual n\u00e3o cheguei a me fixar, mas que foi generosa comigo e pela qual nutro, at\u00e9 hoje, um carinho bastante especial. Sempre que o Natal se aproxima, eu me lembro desse texto: n\u00e3o apenas por ter sido um momento marcante (s\u00e9rio mesmo, lembro os detalhes do acontecido at\u00e9 hoje), mas por ser exemplo de um esp\u00edrito que eu n\u00e3o descreveria exatamente como natalino, mas que se manifesta claramente quando h\u00e1 uma converg\u00eancia positiva entre as pessoas. Eu acredito em m\u00e1gica, como uma esp\u00e9cie de coincid\u00eancia-que-n\u00e3o-\u00e9-coincid\u00eancia que se manifesta em v\u00e1rios cen\u00e1rios, e acho que momentos de alegria coletiva podem ser m\u00e1gicos &#8211; por mais que o Natal tenha se tornado (e mais ainda depois que as for\u00e7as por tr\u00e1s de Jair Bolsonaro fizeram o favor de destruir conex\u00f5es familiares em nome do trono presidencial) um momento tenso e cheio de desconforto para tanta gente.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que republico essa historinha, mas acho que vale a pena faz\u00ea-lo uma vez mais. Fica a sugest\u00e3o: na medida do poss\u00edvel, abra a mente e o cora\u00e7\u00e3o para o Universo. Eu acredito, muito sinceramente, que ele responde. E que cada um de n\u00f3s \u00e9 capaz de, direcionando seus privil\u00e9gios para o bem, criar aos pouquinhos um mundo menos escroto, menos raivoso e hostil.<\/em><\/p>\n<p><em>Feliz Natal, gurizada.<\/em><\/p>\n<p>====<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo. Cercanias do Natal. Voltava para meu ref\u00fagio, pensando na vida e no que ainda precisava resolver para a viagem de fim de ano at\u00e9 o sul, quando o t\u00edpico barulho na janela do \u00f4nibus despertou minha aten\u00e7\u00e3o. Chuva \u2014 uma rajada forte, violenta, do tipo que aparece quase de surpresa para jogar S\u00e3o Paulo no caos. Companheira de todos os atrasos e engarrafamentos, algu\u00e9m poderia dizer. Vinha t\u00e3o distra\u00eddo que nem imaginei que pudesse chover, e \u00e9 claro que n\u00e3o trazia comigo nenhum guarda-chuva nem nada do tipo. Assim que eu sa\u00edsse daquele \u00f4nibus, estaria \u00e0 merc\u00ea do poder inclemente da Natureza \u2014 ou, falando sem poesia, ia tomar um belo de um caldo.<\/p>\n<p>Pensei rapidamente nas minhas chances de fuga e conclu\u00ed que a melhor coisa seria descer uma parada depois do originalmente previsto. Nesse caso, al\u00e9m de me proteger embaixo do teto da parada de \u00f4nibus, mais amplo do que o de onde geralmente descia, teria a chance de me esconder no toldo de uma padaria logo \u00e0 frente, caso a coisa continuasse preta como estava. N\u00e3o era o plano mais infal\u00edvel do mundo, mas era o que t\u00ednhamos para o momento, de modo que o segui \u00e0 risca. Fui at\u00e9 a parada, desci rapidamente para n\u00e3o me molhar e ali fiquei, totalmente ilhado, j\u00e1 que a chuva estava pesada e n\u00e3o tinha jeito de que ia aliviar de jeito nenhum.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o complicada, essa: pr\u00f3ximo do abrigo definitivo, mas sem a menor perspectiva de conseguir chegar at\u00e9 ele naquelas condi\u00e7\u00f5es. Nessas horas, sempre penso que deveria arranjar um guarda-chuva para mim um dia desses \u2014 mas nunca gostei de carregar guarda-chuva, al\u00e9m de ser uma pessoa patologicamente acomodada, ent\u00e3o vou levando e pensando com meus bot\u00f5es que desta vez passa, que na pr\u00f3xima oportunidade eu compro um, sim Deus, eu prometo. Sempre em v\u00e3o. Deus j\u00e1 deve ter se acostumado, a essa altura.<\/p>\n<p>Fiquei sozinho na parada at\u00e9 que duas mulheres chegaram, um pouco apressadas e conversando alto entre si. Pararam debaixo da parada de \u00f4nibus, fecharam seus guarda-chuvas e ficaram ali, retomando o f\u00f4lego enquanto esperavam o \u00f4nibus que as levaria para casa. Imagino, pela semelhan\u00e7a f\u00edsica e pela diferen\u00e7a de idade, que fossem parentes, talvez m\u00e3e e filha; uma senhora com o rosto emoldurado pelos primeiros cabelos brancos e uma mo\u00e7a de vinte e poucos anos, ambas de pele negra, roupas simples e o ar de dignidade despreocupada t\u00edpico das pessoas humildes que nada devem a ningu\u00e9m. A mais jovem, ali\u00e1s, era uma mo\u00e7a muito bonita \u2014 cheia daquela beleza que, por n\u00e3o encaixar nos padr\u00f5es que tentam jogar todos os dias para cima de n\u00f3s, acaba sendo assumida por muitos como beleza menor, ou como se nem beleza fosse.<\/p>\n<p>Era bonito o modo como ela sorria enquanto falava, um sorriso de dentes perfeitos e de uma alegria despretensiosa e sem disfarces. Era bonito o modo como ela prendia o cabelo em um pequeno coque logo acima da nuca, e era bonito o pesco\u00e7o que surgia pela gola da blusa cor de vinho que aquela mo\u00e7a vestia. Era bonita a cintura que \u00e0s vezes se revelava entre a mesma blusa cor de vinho e o jeans sem cinto que a mo\u00e7a usava, e era bonita a maneira como ela se inclinava de leve para ver se o \u00f4nibus vinha de tr\u00e1s da curva da rua. E eu confesso que fiquei ali, admirando discretamente aquela beleza que talvez nem se soubesse bonita, um pequeno e agrad\u00e1vel consolo no meio daquela metr\u00f3pole encharcada de tr\u00e2nsito, de chuva e de solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ficaram as duas ali talvez uns cinco minutos, rindo e conversando, at\u00e9 que o \u00f4nibus chegou e as levou para algum lugar longe do meu mundo e da minha vista. Fiquei de novo sozinho. Passei com certeza uns dez minutos mais ali, sozinho, as pilhas do mp3 player gastas, ouvindo apenas o som da chuva e o compasso repetitivo dos meus pensamentos. At\u00e9 que alguma coisa me ocorreu, um impulso repentino que me fez dar uma olhada para tr\u00e1s, para os assentos de ferro cobertos de gotas de chuva. E o que eu vi?<\/p>\n<p>Um guarda-chuva. Um guarda-chuva enorme, vermelho e chamativo \u2014 que logo reconheci como o guarda-chuva da mo\u00e7a bonita que at\u00e9 menos de quinze minutos havia estado ali, naquela parada de \u00f4nibus, colocando um pouco de poesia no meu fim de tarde enquanto esperava condu\u00e7\u00e3o para a casa. Aparentemente, a mo\u00e7a o deixou ali por algum motivo qualquer, talvez para que o excesso de \u00e1gua escorresse, talvez para ajeitar alguma coisa nas suas roupas ou pegar algo na bolsa ou qualquer coisa do tipo. E, na pressa de subir no \u00f4nibus, o esqueceu atr\u00e1s de si, deixando-o deitado entre os assentos pronto para ser \u00fatil a algum an\u00f4nimo da cidade. Mais especificamente, para mim.<\/p>\n<p>Hesitei um pouco, admito. Me pareceu coincid\u00eancia demais, um guarda-chuva enorme daqueles, esquecido em cima de uma fileira de assentos em um momento em que chovia tanto naquela \u00e1rea da cidade. Em um dos cantos do tecido, estava o logo do Shopping P\u00e1tio Paulista, al\u00e9m de uma mensagem alusiva ao 455\u00ba anivers\u00e1rio de S\u00e3o Paulo. Estaria quebrado? Peguei-o e testei rapidamente: o tecido de uma das hastes estava solto, mas fora isso funcionava perfeitamente. Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia deixaria intencionalmente para tr\u00e1s aquele guarda-chuva s\u00f3 por causa disso. Pensei um pouco, medi os pr\u00f3s e contras da situa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o deu para disfar\u00e7ar um sorriso quando finalmente decidi aceitar a gentil oferta do Destino, abrir o guarda-chuva e encarar, agora totalmente protegido da tormenta, o caminho de volta para o lar.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o me decidi se foi a mo\u00e7a quem, sem saber, me deu um singelo presente de Natal, ou se foi a cidade de S\u00e3o Paulo que, por meio dela, resolveu mandar um sinal de que vai com a minha cara. Na verdade, podem ser as duas coisas ao mesmo tempo, por que n\u00e3o? Seja como for, fiquei sinceramente muito agradecido, e fui embora desejando Feliz Natal para a mo\u00e7a bonita da parada de \u00f4nibus, para a cidade de S\u00e3o Paulo e para todos os que amo, amei e ainda virei a amar. Imagino que o esp\u00edrito natalino esteja em pequenos milagres do tipo, no fim das contas.<\/p>\n<p><em>Dezembro de 2009<\/em><\/p>\n<p><em>Foto: Andr\u00e9 Solnick<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa hist\u00f3ria \u00e9 antiga &#8211; na verdade, est\u00e1 completando dez anos. Escrevi em 2009, quando estava morando em S\u00e3o Paulo. 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