{"id":6704,"date":"2019-12-06T21:17:58","date_gmt":"2019-12-07T00:17:58","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6704"},"modified":"2019-12-11T17:54:05","modified_gmt":"2019-12-11T20:54:05","slug":"critica-parasita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6704","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Parasita"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Do filme policial ao drama familiar, de monstros urbanos ao futuro dist\u00f3pico, as hist\u00f3rias narradas por Bong Joon-ho nunca renunciaram ao espet\u00e1culo de g\u00eaneros tal como proposto pelo cineasta em <em>Parasita<\/em>. N\u00e3o \u00e9 uma novidade, portanto, que, neste seu mais recente filme, uma sequ\u00eancia seja ao mesmo tempo repleta de viol\u00eancia graficamente expl\u00edcita e, num golpe s\u00fabito, vire a chave para se desdobrar no mais sutil di\u00e1logo bem humorado, calibrado por um dom\u00ednio das tens\u00f5es que circulam em cena. O cineasta sul-coreano bem sabe como se movimentar entre as sensibilidades do espectador neste filme que, assim como o anterior, <em>O Expresso do Amanh\u00e3 (2013)<\/em>, prop\u00f5e uma trama entre duas classes antag\u00f4nicas e inconcili\u00e1veis. Cada personagem que aparece em cena provoca uma mudan\u00e7a de tom, embaralhando as a\u00e7\u00f5es. <em>Parasita<\/em> talvez seja o \u00e1pice dessa brincadeira \u2013 com <em>Mem\u00f3rias de um Assassino<\/em> (2003), talvez o seu melhor filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse conjunto de formas de express\u00e3o, de modula\u00e7\u00f5es da representa\u00e7\u00e3o, mediado pelo tr\u00e2nsito entre diversos g\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos, no entanto, est\u00e1 organizado com a seriedade de quem compreende a dificuldade em estabelecer um registro t\u00e3o pol\u00edtico sem a gritaria do filme militante, muito satisfeito com suas certezas \u00e9ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No filme, Kim Ki-taek (Kang-ho Song) e sua fam\u00edlia articulam modos de conseguir penetrar o universo de Park, cujo patriarca \u00e9 um famoso arquiteto cheio de posses e poderes. Os Ki-taek moram num por\u00e3o apertado. Aos poucos, Kim, sua esposa e seus filhos passam a trabalhar para a fam\u00edlia Park. O aspecto aparentemente caricatural dessa oposi\u00e7\u00e3o de classes se configura num jogo em que \u201cos de baixo\u201d tentam uma inser\u00e7\u00e3o for\u00e7ada no universo \u201cdos de cima\u201d, que eles mesmos reconhecem como falso e careta. Mas embora a tenta\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise tenha instigado a cr\u00edtica a buscar um sentido pol\u00edtico na \u201cluta de classes\u201d, como se fosse apenas uma quest\u00e3o de opor os <em>donos dos meios de produ\u00e7\u00e3o<\/em> contra a <em>classe trabalhadora<\/em> (e n\u00e3o \u00e9), o arqu\u00e9tipo da representa\u00e7\u00e3o de <em>Parasita<\/em> parece interessado nos aspectos da <em>sujei\u00e7\u00e3o<\/em> que essa diferen\u00e7a social produz (e aquilo que os sujeitos produzem nela): os modos de (vi)ver a vida s\u00e3o exatamente outros e estar\u00e3o sempre em rota de colis\u00e3o \u2013 e, por isso, tamb\u00e9m as rea\u00e7\u00f5es a eles, como o final do filme parece querer deixar evidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Curiosa articula\u00e7\u00e3o, pois os conflitos f\u00edsicos do filme se estabelecem, praticamente todos, entre os mais humildes: com o homem que esbanja seu alcoolismo regularmente em frente a janela da casa da fam\u00edlia Ki-taek at\u00e9 ser reprimido pelos moradores, justamente indignados, e entre a antiga funcion\u00e1ria e a pr\u00f3pria fam\u00edlia Ki-taek durante a segunda metade do filme. Em <em>Parasita<\/em>, a \u00fanica concilia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre ricos e pobres \u00e9, talvez ironicamente como na vida, um la\u00e7o sexual, de paix\u00e3o. Esse la\u00e7o, ao contr\u00e1rio de todos os outros, nunca \u00e9 rompido no filme. Nunca \u00e9 rompido pois, no \u00e2mbito dos humildes, s\u00e3o as mulheres que tramam e indicam as decis\u00f5es, seguram a barra (e se sacrificam, se sujam, se exp\u00f5em&#8230;). Embora os gestos de viol\u00eancia f\u00edsica sejam iniciados e nutridos com gosto pelos homens, a maquina\u00e7\u00e3o dos planos, as melhores ideias, as defesas dos pontos de vista, ficam com as mulheres, isto \u00e9, a tape\u00e7aria intelectual \u00e9 fruto da imagina\u00e7\u00e3o feminina, enquanto a opera\u00e7\u00e3o dessa organiza\u00e7\u00e3o mental \u00e9 corporificada pelo masculino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Diante desse conjunto de elementos e motivos cinematogr\u00e1ficos que se desenredam de modo rocambolesco, a trajet\u00f3ria narrativa de <em>Parasita<\/em> comporta v\u00e1rios momentos que funcionam como cl\u00edmax e estes ganham for\u00e7a pois a c\u00e2mera de Bong Joon-Ho n\u00e3o tolera excessos. \u00c0 primeira vista simples, sua <em>mise en sc\u00e8ne<\/em> \u00e9 determinada na busca por \u00e2ngulos e enquadramentos precisos, fixos apenas no movimento do equipamento, pois a din\u00e2mica interna das cenas s\u00e3o de uma for\u00e7a visual abundante. Joon-Ho quer enquadrar os rostos a uma dist\u00e2ncia segura, nem muito perto (em <em>close<\/em>), nem muito distante (em plano americano), preferindo planos m\u00e9dios para, com a for\u00e7a de seu elenco, dar a for\u00e7a expressiva ao filme. Essa constru\u00e7\u00e3o dos elementos visuais do filme, que s\u00e3o tanto seus cen\u00e1rios quanto sua encena\u00e7\u00e3o e seus aspectos de representa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o as mat\u00e9rias do cineasta que, combinadas ao primoroso conjunto do elenco, refor\u00e7am a tens\u00e3o do filme, que \u00e9 constante. A esta obscenidade moral e est\u00e9tica que \u00e9 a desigualdade social, o filme de Bong Joon-ho responde com uma combina\u00e7\u00e3o elegante de golpes que, como em quase toda boa hist\u00f3ria, sabe como gozar seu fim. \u00c9 um dos melhores do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Parasite, de Bong Joon-ho (Cor\u00e9ia do Sul, 2019). Com Kang-Ho Song, Woo-sik Choi, Park So-Dam, Chang Hyae Jin, Sun-Kyun Lee, Cho Yeo-jeong, Myeong-hoon Park.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do filme policial ao drama familiar, de monstros urbanos ao futuro dist\u00f3pico, as hist\u00f3rias narradas por Bong Joon-ho nunca renunciaram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":6705,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-6704","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6704"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6704\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}