{"id":6679,"date":"2019-11-27T11:30:09","date_gmt":"2019-11-27T14:30:09","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6679"},"modified":"2019-11-28T11:37:33","modified_gmt":"2019-11-28T14:37:33","slug":"brilhante-ustra-sorri-no-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6679","title":{"rendered":"Brilhante Ustra sorri no inferno"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em 2012, eu tive um sonho com Brilhante Ustra. Um pesadelo, melhor dizendo. Embora minha recorda\u00e7\u00e3o \u00e9 de que tenha sido um sonho breve, foi algo t\u00e3o intenso que eu o recordava nitidamente na manh\u00e3 seguinte, ao ponto de me sentir capaz de registr\u00e1-lo. Publiquei um texto sobre ele no meu antigo blog, que hoje est\u00e1 offline.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Era assim:<\/h5>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sonhei que estava em uma coletiva de imprensa na qual falaria o Brilhante Ustra. Pelo jeito, ele ia anunciar que estava livre de processos judiciais, comemorar a impunidade garantida a ele pela Lei da Anistia \u2013 ao menos, \u00e9 essa a pauta que eu recordava ter recebido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sala era ampla e estava cheia de entusiastas, muitos militares, alguns poucos rep\u00f3rteres. Um deles, conhecido meu de pautas em Assembleias e C\u00e2maras por a\u00ed, comentou comigo, em voz baixa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pelo jeito, esse cara se escapou mesmo\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respondi, em um cochicho, com um tom de ironia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Se escapou nada, nem imagina a mat\u00e9ria que eu vou fazer sobre essa palha\u00e7ada toda!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ustra estava com uma express\u00e3o radiante, plena de confian\u00e7a. Sorria. Recebia tapinhas nas costas. No centro da sala, uma imensa bandeira brasileira, de verde vivo e chamativo. Nos cantos do palco (pelo jeito, a coletiva seria em um palco), estranhos arranjos misturando rosas brancas, l\u00edrios e metralhadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu, sentado a um canto, sinto nojo daquilo tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7a a tocar o hino nacional. Todos se erguem, em j\u00fabilo absoluto, para saudar a p\u00e1tria m\u00e3e. \u00c9 como a abertura de uma conven\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Eu permane\u00e7o sentado, segurando o bloquinho e a caneta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 O senhor precisa se levantar. \u00c9 o hino \u2013 diz uma pessoa, cujo rosto eu n\u00e3o enxergo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o vou me levantar \u2013 respondo eu, em voz branda, mas j\u00e1 prevendo incomoda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Levante e sa\u00fade o l\u00edder \u2013 disse outro, mais r\u00edspido, me tocando no ombro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repeli sua m\u00e3o. Outras pessoas come\u00e7am a se aproximar. Meu colega jornalista (que estava de p\u00e9, mas sempre esteve de p\u00e9, ent\u00e3o n\u00e3o era por ades\u00e3o a eles que se erguia) tentava debilmente me defender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o vou levantar. N\u00e3o vou! \u2013 continuava eu, j\u00e1 cercado, levando os primeiros empurr\u00f5es, enquanto o hino tocava mais alto, cada vez mais alto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordo a instantes do linchamento.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje entendo que esse sonho foi prof\u00e9tico. Para mim, nem \u00e9 quest\u00e3o de acreditar nessas coisas ou n\u00e3o: basta comparar o que me restou de mem\u00f3ria com o que vejo hoje, nos jornais impressos e nos sites de not\u00edcias, e a certeza \u00e9 imposs\u00edvel de contornar.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">Lembro do arranjo de balas de grosso calibre que algu\u00e9m achou por bem fazer para homenagear a Alian\u00e7a Pelo Brasil, movimento fascista que finge desejar ser um simples partido pol\u00edtico<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro dos alucinados marchando e batendo contin\u00eancia para uma r\u00e9plica da Est\u00e1tua da Liberdade, em frente a uma loja da Havan. Lembro do parlamentar que transformou uma bandeira brasileira em terno, e de outro que vociferou frases horrendamente racistas em plen\u00e1rio, \u00e0s v\u00e9speras do Dia da Consci\u00eancia Negra. Lembro do filho do presidente dizendo que, se os opositores n\u00e3o ficassem quietinhos, podia rolar um novo AI-5 \u2013 um desaforo que deveria resultar em cassa\u00e7\u00e3o de mandato, embora eu tenha a triste certeza de que n\u00e3o chegaremos nem perto disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro da ideia simpl\u00f3ria e est\u00fapida de que basta espalhar col\u00e9gios militares pelas principais cidades brasileiras para a educa\u00e7\u00e3o dar um salto de qualidade. Do presidente propondo, aos sorrisos, que militares em opera\u00e7\u00f5es de Garantia da Lei e da Ordem tenham carta branca para matar. Do governador do Rio de Janeiro metralhando favelas com helic\u00f3pteros, comemorando a morte de um sequestrador com grotescos socos no ar. E lembro n\u00e3o s\u00f3 do ent\u00e3o deputado federal (e agora presidente) evocando a mem\u00f3ria de um torturador desumano para agredir Dilma Rousseff, como do chanceler distribundo o livro abjeto desse ser repugante como se fosse leitura recomend\u00e1vel, de sua vi\u00fava tomando ch\u00e1 com Jair Bolsonaro, dos que ostentam camisetas repugnantes defendendo que Ustra ainda vive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade \u00e9 que Ustra, mesmo condenado em segunda inst\u00e2ncia, escapou-se da justa puni\u00e7\u00e3o pelos horrores que perpetrou. E que, mesmo morto e enterrado, encontrou uma caricatural e grotesca forma de sobrevida.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">\n<p>.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">Tenho certeza que, a essa altura, Brilhante Ustra sorri no inferno<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel tirar o sorriso de esc\u00e1rnio do rosto morto do fac\u00ednora? N\u00e3o tenho d\u00favida de que sim. Mas acordar desse pesadelo passa por uma etapa fundamental \u2013 duas, na verdade: preservar a mem\u00f3ria do que foi e n\u00e3o permitir que, mais tarde, se esque\u00e7a o que hoje est\u00e1 sendo. Se hoje a ideia burra e mentirosa de que \u201ctudo era melhor na ditadura\u201d ganhou for\u00e7a ao ponto de virar um elemento de debate, \u00e9 porque o lado mais obscurantista do Brasil teve sucesso em manter e, depois, disseminar essa falsidade. Se hoje pessoas se dizem disc\u00edpulas de algu\u00e9m como Ustra, \u00e9 porque h\u00e1 sucesso crescente na estrat\u00e9gia reacion\u00e1ria de reinventar a hist\u00f3ria. \u00c9 contra isso que precisamos nos erguer, \u00e9 isso que n\u00e3o podemos permitir. \u00c9 assim que podemos nos libertar da idolatria a torturadores e assassinos, arremessar Ustra e outros de sua laia de volta ao abismo do qual jamais deveriam ter sa\u00eddo.<\/p>\n<p><em>Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom\/ Ag\u00eancia Brasil.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2012, eu tive um sonho com Brilhante Ustra. Um pesadelo, melhor dizendo. 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