{"id":6642,"date":"2019-11-22T08:00:30","date_gmt":"2019-11-22T11:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6642"},"modified":"2019-11-22T00:32:08","modified_gmt":"2019-11-22T03:32:08","slug":"critica-o-irlandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6642","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; O Irland\u00eas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">S\u00f3 o narrador compreende (quase) tudo de antem\u00e3o em <em>O Irland\u00eas<\/em>. Quem narra, dentro do filme, \u00e9 o personagem de Robert De Niro, cujas a\u00e7\u00f5es enformam a trama. Por isso, a trajet\u00f3ria da vida de Frank Sheeran \u00e9 o fio condutor de todos os acontecimentos do filme. N\u00e3o \u00e9 pouco, pois o recorte vai da Segunda Guerra Mundial, passa pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, pelo assassinato de Kennedy e pela Guerra do Vietn\u00e3, por Watergate, pela Guerra do Kosovo e invade o novo mil\u00eanio. Mas a monumentalidade do filme de Martin Scorsese n\u00e3o \u00e9 explicada por sua dura\u00e7\u00e3o ou por seu plano de fundo hist\u00f3rico, mas pelo aproveitamento preciso de seus elementos dram\u00e1ticos e pelas inst\u00e2ncias de sua narra\u00e7\u00e3o. Em uma hist\u00f3ria atravessada por incont\u00e1veis formas de viol\u00eancia, tanto aquela que envolve a trama quanto a que lhe serve de subtexto (a \u201cHist\u00f3ria\u201d), <em>O Irland\u00eas<\/em> est\u00e1 configurado, tamb\u00e9m ritmicamente, n\u00e3o para surpreender o espectador ou aprision\u00e1-lo na espera pelo <em>grand finale<\/em>, mas para contorcer e explorar cada uma de suas sequ\u00eancias em igual medida de grandeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 precisamente nesse espa\u00e7o mediado pela for\u00e7a que o personagem de Robert De Niro transita ao longo de todo o filme, e o faz com capricho. Cindido entre a necessidade de \u201cganhar a vida\u201d e a procura por algo maior e mais virtuoso, Sheeran se insere num espa\u00e7o que a princ\u00edpio n\u00e3o \u00e9 seu. Nunca poderia ser. Nascido logo ap\u00f3s o fim da Primeira Grande Guerra, ele se tornou um veterano da Segunda. L\u00e1 aprendeu a ser impiedoso. De motorista de caminh\u00e3o convertido em l\u00edder sindical e bra\u00e7o de direito de mafiosos, Sheeran constroi a sua trajet\u00f3ria de vida encurtando a vida de outros. A encena\u00e7\u00e3o de Scorsese lhe d\u00e1 o tempo e o espa\u00e7o necess\u00e1rios para que suas contradi\u00e7\u00f5es e ambiguidades apare\u00e7am, saltando entre os v\u00e1rios tempos narrativos, pausando e acelerando os desdobramentos e incorporando os eventos externos ao pr\u00f3prio mal-estar e forma de consci\u00eancia do protagonista-narrador, o narrador que confessa, que relata a sua vida de crimes que n\u00e3o comporta grandes ambi\u00e7\u00f5es ou remorsos: remorso \u00e9 ser preso ou morto (a figura cinematogr\u00e1fica hist\u00f3rica do g\u00e2ngster sempre causou um <em>borramento<\/em> nas fronteiras da justi\u00e7a, institui\u00e7\u00e3o que \u00e9, grosso modo, a \u00fanica a tomar corpo no filme como mediadora dos conflitos que, paradoxal que seja, geralmente se d\u00e3o entre os pr\u00f3prios conglomerados mafiosos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Apesar do tom melanc\u00f3lico que ecoa aqui e ali a partir de uma esp\u00e9cie de abandono que muitos dos travellings que o filme opera indicam, inclusive em seus planos iniciais e finais, o abrigo que Frank Sheeran encontra n\u00e3o est\u00e1 exatamente nos la\u00e7os de sangue, mas nos la\u00e7os do crime, que, como se sabe, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3lidos. \u00c9 tamb\u00e9m a esta ambiguidade das rela\u00e7\u00f5es (mais que na \u201ccomplexidade\u201d dos personagens) de fam\u00edlia e poder que Scorsese deposita o esfor\u00e7o dram\u00e1tico do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O modelo narrativo de <em>O Irland\u00eas<\/em> alterna tempos como que para refor\u00e7ar a ideia de que o passado e o futuro s\u00e3o ref\u00e9ns do presente e se confundem nele e, embora siga a cartilha cronol\u00f3gica cl\u00e1ssica, em que um acontecimento prepara o terreno para outro, tamb\u00e9m a subverte. Essa manipula\u00e7\u00e3o temporal da a\u00e7\u00e3o lhe confere uma medida de grandeza incomum, pois seria f\u00e1cil se perder em meio a tantas entradas e sa\u00eddas de personagens, tantos elementos para agu\u00e7ar a dispers\u00e3o do foco narrativo. Scorsese \u00e9 fiel ao passo macabro que seu protagonista realiza e raramente sai dele para dar movimento \u00e0 trama do filme &#8211; e o faz com a calma do monge e a sabedoria do xam\u00e3. L\u00e1 onde <em>Os Bons Companheiros<\/em> e <em>Cassino<\/em> investiam na tradi\u00e7\u00e3o, v\u00e1 l\u00e1, \u00e9pica da m\u00e1fia (as drogas, o sexo, a sede juvenil da conquista do poder), <em>O Irland\u00eas<\/em> se assenta na sobriedade da luz, nos pensamentos j\u00e1 corro\u00eddos pelas d\u00favidas e vacilos contaminados pelo tempo e a experi\u00eancia, o que faz dele um filme mais nublado e disposto a fazer circular as suas contradi\u00e7\u00f5es \u2013 e as de seus personagens que envelhecem. \u00c9 asfixiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa obsess\u00e3o pelos detalhes da representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1ria e o panorama que ela forma \u00e9 insepar\u00e1vel da brutalidade da encena\u00e7\u00e3o. Se todo o ide\u00e1rio do American Dream estava florescendo \u201cl\u00e1 fora\u201d, se a pol\u00edtica externa do pa\u00eds, por meio das guerras, confirmava sua sanha conquistadora, <em>O Irland\u00eas <\/em>n\u00e3o se mant\u00e9m alheio a isso, mas lhe reserva pouca como\u00e7\u00e3o. Baseado no livro de <em>I Heard You Paint Houses, <\/em>de Charles Brandt, em que os relatos de Sheeran confessam as suas pr\u00e1ticas, o filme de Scorsese, assim como <em>O Lobo de Wall Street<\/em>, \u00e9 fiel na medida certa aos seus contornos e contextos e n\u00e3o sucumbe a sociologismos para justificar as a\u00e7\u00f5es daquilo que deseja representar. Scorsese \u00e9 um grande narrador criado ao modo dos cl\u00e1ssicos: n\u00e3o se trata somente de \u201cfilmar o real\u201d passivamente, mas de transform\u00e1-lo em cria\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, dar-lhe uma forma nova e revigorada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se a mirada de Scorsese aponta agora para o fim de um ciclo particular de representa\u00e7\u00e3o (que a sua gera\u00e7\u00e3o j\u00e1 apresentara modificada em rela\u00e7\u00e3o aos cineastas das gera\u00e7\u00f5es anteriores), coisa que o faz com eleg\u00e2ncia, existem sempre in\u00fameras formas de recuperar os seus motivos. A tarefa s\u00f3 fica um pouco mais \u00e1rdua para os cineastas que se empenhar\u00e3o nela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">The Irishman, de Martin Scorsese (EUA, 2019). Com Robert De Niro, Joe Pesci, Al Pacino, Harvey Keitel, Anna Paquin, Ray Romano, Bobby Cannavale.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3 o narrador compreende (quase) tudo de antem\u00e3o em O Irland\u00eas. 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