{"id":6636,"date":"2019-11-23T11:38:58","date_gmt":"2019-11-23T14:38:58","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6636"},"modified":"2019-11-23T11:38:58","modified_gmt":"2019-11-23T14:38:58","slug":"a-luta-antirracista-precisa-ser-de-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6636","title":{"rendered":"A luta antirracista precisa ser de todos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Escrevo esse texto em 20 de novembro, Dia da Consci\u00eancia Negra, direto do Rio Grande do Sul, estado brasileiro que optou por n\u00e3o tornar feriado uma data t\u00e3o significativa. Aproveito o ensejo para falar sobre racismo estrutural, j\u00e1 que muitos brancos insistem em n\u00e3o enxergar a brutal desigualdade racial brasileira, desde os tempos da escravid\u00e3o at\u00e9 o s\u00e9culo 21. Acho importante que uma pessoa que n\u00e3o seja negra toque no assunto, porque evita um dos argumentos mais furados dos racistas velados, que \u00e9 o suposto vitimismo dos negros quando falam em racismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa semana, foi divulgado que a menina Agatha, negra, foi morta mesmo pelo tiro acidental de um pol\u00edcia militar no Rio de Janeiro. N\u00e3o havia registro de opera\u00e7\u00e3o no momento do disparo.\u00a0 Ela \u00e9 apenas um dos muitos casos de pessoas negras mortas por balas perdidas da pol\u00edcia ou ao serem confundidas com criminosos em opera\u00e7\u00f5es.\u00a0 Mas quando se fala em genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil, tem sempre quem reaja contr\u00e1rio \u00e0 essa ideia. <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2019\/11\/19\/deputado-do-psl-quebra-placa-de-exposicao-na-camara-que-associa-policia-a-genocidio-de-negros.ghtml\">Exemplo disso<\/a> \u00e9 o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP), que rasgou uma placa de uma exposi\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional sobre o assunto. Ofendeu-se pelos policiais mostrados na imagem que ilustra esse post. Mas como dizer que n\u00e3o existe algo errado\u00a0quando os negros s\u00e3o 54% da popula\u00e7\u00e3o brasileira mas o percentual de pessoas negras assassinadas no pa\u00eds chega a 71,5%? Veja mais detalhes <a href=\"https:\/\/observatorio3setor.org.br\/noticias\/racismo-mata-71-das-pessoas-assassinadas-no-brasil-sao-negras\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Mas vamos voltar um pouco no tempo.<\/strong> <\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Na <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/o-principe-e-o-plebeu\/\">coluna anterior<\/a>, abordei o fim do imp\u00e9rio e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Propositalmente deixei de fora uma quest\u00e3o nevr\u00e1lgica envolvendo esse per\u00edodo hist\u00f3rico: o fim da escravid\u00e3o. O Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds do mundo a abolir a escravatura, em 1888. Mesmo sem prever nenhum tipo de compensa\u00e7\u00e3o para os libertos, o sentimento dos ex-escravos foi de gratid\u00e3o \u00e0 Princesa Isabel. Contudo, a elite que ganhava dinheiro com a m\u00e3o-de-obra escrava, n\u00e3o ficou nada feliz com a decis\u00e3o imperial, em um momento em que a monarquia brasileira j\u00e1 estava fragilizada por outras quest\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O movimento republicano ganhou for\u00e7a com apoio de produtores rurais que se sentiam \u201cprejudicados\u201d pelo fim da escravid\u00e3o. Para se ter uma ideia de como ser republicano na \u00e9poca n\u00e3o era exatamente sin\u00f4nimo de ser libert\u00e1rio, muitos abolicionistas eram favor\u00e1veis ao Imp\u00e9rio. Ap\u00f3s o golpe militar que levou ao in\u00edcio da Rep\u00fablica, houve quem pressionasse o governo a tomar medidas para amparar a popula\u00e7\u00e3o negra, como a distribui\u00e7\u00e3o de terras para ex-escravos. Uma dessas vozes foi o poeta e jornalista Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio. No jornal <em>A Cidade do Rio,<\/em> de sua propriedade, fazia duras cr\u00edticas ao governo do ent\u00e3o presidente (n\u00e3o-eleito) Floriano Peixoto. Resultado por tocar no tabu da falta de indeniza\u00e7\u00e3o aos escravos libertos no Brasil? Patroc\u00ednio foi exilado na Amaz\u00f4nia, teve depois seu jornal fechado pelo governo militar e acabou morrendo na mis\u00e9ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A tentativa de \u201cpassar pano\u201d na d\u00edvida hist\u00f3rica brasileira com os negros parece ter ra\u00edzes nesse momento hist\u00f3rico. Um romance que retrata a sociedade escravagista do s\u00e9culo 19 \u00e9\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/defeito-cor-Ana-Maria-Gon%C3%A7alves\/dp\/8501071757\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;keywords=um+defeito+de+cor&amp;qid=1574290700&amp;s=books&amp;sr=1-1\"><em>Um Defeito de Cor<\/em><\/a>, publicado em 2006 pela escritora mineira Ana Maria Gon\u00e7alves, ap\u00f3s uma extensa pesquisa hist\u00f3rica. O livro aborda a trajet\u00f3ria de Kehinde, que at\u00e9 a inf\u00e2ncia vivia em Savalu, na \u00c1frica, e acaba sendo capturada e trazida ao Brasil\u00a0 em um navio negreiro. A obra vai virar <a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/cultura\/um-defeito-de-cor-de-ana-maria-goncalves-vai-virar-minisserie-da-rede-globo\/\">miniss\u00e9rie televisiva<\/a> em 2020. No trecho abaixo, a personagem descreve sua rela\u00e7\u00e3o com a religi\u00e3o cat\u00f3lica e com o que classifica como \u201cdefeito de cor\u201d:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ou seja, eles tinham d\u00favida <strong>se n\u00f3s \u00e9ramos humanos<\/strong> e se pod\u00edamos ser admitidos como cat\u00f3licos, se conseguir\u00edamos pensar o suficiente para entender o que significava tal privil\u00e9gio. Eu achava que era s\u00f3 no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que n\u00e3o, que em \u00c1frica tamb\u00e9m era assim. Ali\u00e1s, em \u00c1frica, defeituosos deviam ser os brancos, j\u00e1 que aquela era a nossa terra e \u00e9ramos em maior n\u00famero. O que pensei naquela hora, mas n\u00e3o disse, foi que me sentia muito mais gente, muito mais perfeita e vencedora que o padre. N\u00e3o tenho defeito algum e, talvez para mim, ser preta foi e \u00e9 uma grande qualidade, pois se fosse branca n\u00e3o teria me esfor\u00e7ado tanto para provar do que sou capaz, a vida n\u00e3o teria exigido tanto esfor\u00e7o e recompensado com tanto \u00eaxito.<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Outro livro que aborda a quest\u00e3o racial \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Americanah-Chimamanda-Ngozi-Adichie\/dp\/8535924736\">Americanah<\/a>,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> da aclamada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A obra \u00e9 uma leitura que pode ser interpretada em v\u00e1rias camadas, ao abordar a hist\u00f3ria de amor de Ifemelu e Obinze, separados quando a jovem sai da Nig\u00e9ria e vai estudar nos Estados Unidos. (E acaba depois retornando ao seu pa\u00eds de origem, sendo a \u201camericanah\u201d do t\u00edtulo).\u00a0 \u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Para a abordagem desse texto antirracista, separei um trecho do blog ficcional que Ifemelu mant\u00e9m quando est\u00e1 em territ\u00f3rio norte-americano: <\/span><b>Observa\u00e7\u00f5es Diversas sobre Negros Americanos (Antigamente Conhecidos como Crioulos) Feitas por uma Negra N\u00e3o Americana<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">No trecho abaixo, a personagem faz uma postagem direcionada aos brancos, em que \u00e9 bastante did\u00e1tica ao refletir sobre quest\u00f5es como racismo estrutural, escravid\u00e3o e o absurdo do termo \u201cracismo reverso\u201d:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Querido Americano N\u00e3o Negro, caso um Americano Negro estiver te falando sobre a experi\u00eancia de ser negro, por favor, n\u00e3o se anime e d\u00ea exemplos de sua pr\u00f3pria vida. N\u00e3o diga: \u201c\u00c9 igualzinho a quando eu\u2026\u201d. Voc\u00ea j\u00e1 sofreu. Todos no mundo j\u00e1 sofreram. Mas voc\u00ea n\u00e3o sofreu especificamente por ser um Negro Americano. N\u00e3o se apresse em encontrar explica\u00e7\u00f5es alternativas para o que aconteceu. N\u00e3o diga: &#8216;Ah, na verdade n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ra\u00e7a, mas de classe. Ah, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ra\u00e7a, mas de g\u00eanero. Ah, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ra\u00e7a, \u00e9 o bicho-pap\u00e3o&#8217;. Entenda, os Negros Americanos na verdade n\u00e3o querem que seja uma quest\u00e3o de ra\u00e7a. Para eles, seria melhor se merdas racistas n\u00e3o acontecessem. Portanto, quando dizem que algo \u00e9 uma quest\u00e3o de ra\u00e7a, talvez seja porque \u00e9 mesmo, n\u00e3o? N\u00e3o diga: &#8216;Eu n\u00e3o vejo cor&#8217;, porque, se voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea cor, tem de ir ao m\u00e9dico, e isso significa que, quando um homem negro aparece na televis\u00e3o e eles dizem que ele \u00e9 suspeito de um crime, voc\u00ea s\u00f3 v\u00ea uma figura desfocada, meio roxa, meio cinza e meio cremosa. <strong>N\u00e3o diga: &#8216;Estamos cansados de falar sobre ra\u00e7a&#8217; ou &#8216;A \u00fanica ra\u00e7a \u00e9 a ra\u00e7a humana&#8217;<\/strong>. Os Negros Americanos tamb\u00e9m est\u00e3o cansados de falar sobre ra\u00e7a. Eles prefeririam n\u00e3o ter de fazer isso. Mas merdas continuam acontecendo. <strong>N\u00e3o inicie sua rea\u00e7\u00e3o com a frase &#8216;Um dos meus melhores amigos \u00e9 negro&#8217;, porque isso n\u00e3o faz diferen\u00e7a, ningu\u00e9m liga para isso, e voc\u00ea pode ter um melhor amigo negro e ainda fazer merda racista.<\/strong> Al\u00e9m do mais provavelmente n\u00e3o \u00e9 verdade, n\u00e3o a parte de voc\u00ea ter um amigo negro, mas a de ele ser um de seus \u201cmelhores\u201d amigos. N\u00e3o diga que seu av\u00f4 era mexicano e que por isso voc\u00ea n\u00e3o pode ser racista (por favor, clique aqui para ler sobre o fato de que N\u00e3o h\u00e1 uma Liga Unida dos Oprimidos). N\u00e3o mencione o sofrimento de seus bisav\u00f3s irlandeses. \u00c9 claro que eles aturaram muita merda de quem j\u00e1 estava estabelecido nos Estados Unidos. Assim como os italianos. Assim como as pessoas do Leste Europeu. Mas havia uma hierarquia. H\u00e1 cem anos, as etnias brancas odiavam ser odiadas, mas era meio que toler\u00e1vel, porque pelo menos os negros estavam abaixo deles. [&#8230;] N\u00e3o diga: \u201cAh, o racismo acabou, a escravid\u00e3o aconteceu h\u00e1 tanto tempo\u201d. [&#8230;] Finalmente, n\u00e3o use aquele tom de Vamos Ser Justos e diga: \u201cMas os negros s\u00e3o racistas tamb\u00e9m\u201d. Porque \u00e9 claro que todos n\u00f3s temos preconceitos (n\u00e3o suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente \u00e1vida e ego\u00edsta), mas o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, s\u00e3o os brancos que t\u00eam esse poder.\u00a0 [&#8230;]\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o, depois dessa lista do que n\u00e3o fazer, o que se deve fazer? N\u00e3o tenho certeza. Tente escutar, talvez. Ou\u00e7a o que est\u00e1 sendo dito. E lembre-se de que n\u00e3o \u00e9 uma acusa\u00e7\u00e3o pessoal. Os Negros Americanos n\u00e3o est\u00e3o dizendo que a culpa \u00e9 sua. S\u00f3 est\u00e3o dizendo como \u00e9. Se voc\u00ea n\u00e3o entende, fa\u00e7a perguntas. Se tem vergonha de fazer perguntas, diga que tem vergonha de fazer perguntas e fa\u00e7a assim mesmo. \u00c9 f\u00e1cil perceber quando uma pergunta est\u00e1 sendo feita de cora\u00e7\u00e3o. Depois, escute mais um pouco. \u00c0s vezes, as pessoas s\u00f3 querem ser ouvidas. <strong>Um brinde \u00e0s possibilidades de amizade, de elos e de compreens\u00e3o.&#8221;<\/strong><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevo esse texto em 20 de novembro, Dia da Consci\u00eancia Negra, direto do Rio Grande do Sul, estado brasileiro que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6637,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[2006,2008,1717,885,2007,289,2009],"class_list":["post-6636","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-voos-literarios","tag-americanah","tag-ana-maria-goncalves","tag-chimamanda-ngozi-adichie","tag-dia-da-consciencia-negra","tag-jose-do-patrocinio","tag-racismo","tag-um-defeito-de-cor"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6636","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6636"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6636\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6637"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6636"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}