{"id":6564,"date":"2019-11-13T18:37:24","date_gmt":"2019-11-13T21:37:24","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6564"},"modified":"2019-11-16T11:53:53","modified_gmt":"2019-11-16T14:53:53","slug":"a-politica-brasileira-precisa-sextar-mais-vezes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6564","title":{"rendered":"A pol\u00edtica brasileira precisa sextar mais vezes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Foi forte o sextou do \u00faltimo dia 8 de novembro. D\u00e1 para dizer, inclusive, que foi o mais longo sextou de 2019: come\u00e7ou ainda na quinta-feira, com a decis\u00e3o sobre a pris\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia no STF, e estendeu-se pelo menos at\u00e9 o domingo, quando os informes do golpe na Bol\u00edvia surgiram para azedar novamente nosso notici\u00e1rio. Um momento que, \u00e9 claro, teve na concretiza\u00e7\u00e3o do Lula Livre seu momento de maior euforia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A noite da sexta-feira passada foi, para boa parte desse povo que tentamos resumir com o termo &#8220;esquerda&#8221;, um gigantesco desafogo. Festiva, alco\u00f3lica, euf\u00f3rica, transante. Esperan\u00e7osa, acima de tudo. Diante de tantas tristezas e decep\u00e7\u00f5es com a pol\u00edtica, a chance de um momento como esse foi a senha para a celebra\u00e7\u00e3o &#8211; uma alegria represada que libertou-se, ao menos temporariamente, dos muros cada vez mais s\u00f3lidos de uma amargura generalizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center\">Porque \u00e9 isso, n\u00e3o \u00e9?<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center\">Est\u00e1 faltando alegria e sobrando amargura no Brasil<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center\">E isso est\u00e1 nos envenenando<\/h3>\n<p style=\"text-align: center\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Corta para a morte est\u00fapida e deprimente da engenheira agr\u00f4noma J\u00falia Barbosa de Souza, 28 anos, que levou um tiro na cabe\u00e7a dentro do carro em Sorriso (MT) no \u00faltimo s\u00e1bado. Seu assassino, Jackson Furlan, n\u00e3o estava cometendo um assalto ou algo assim: simplesmente se irritou porque achou que o carro onde J\u00falia estava com o namorado estava lento demais. Resolveu o problema iniciando uma persegui\u00e7\u00e3o e, finalmente, metendo bala em desconhecidos, que sequer moravam na cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A caminhonete dirigida por Jackson trazia um adesivo a favor da reelei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro em 2022. Em suas redes sociais, postagens favor\u00e1veis ao agora presidente eram f\u00e1ceis de encontrar. E isso \u00e9, sim, significativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Jair Bolsonaro n\u00e3o \u00e9, ao menos at\u00e9 onde se sabe, um assassino. N\u00e3o foi ele quem apertou o gatilho que fulminou J\u00falia. Mas ele \u00e9 um dos respons\u00e1veis por criar o cen\u00e1rio aterrador onde crimes horr\u00edveis e sem sentido como esse se tornam muito mais poss\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Estamos mergulhados em uma pol\u00edtica do ressentimento. O \u00f3dio aos petistas\/esquerdistas n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dito, mas foi instrumentalizado de forma a tornar-se uma poderosa (e eficiente) arma pol\u00edtica, capaz de eleger presidente uma figura abjeta como Bolsonaro. O problema \u00e9 que esse sentimento ruim transbordou. Contaminou rela\u00e7\u00f5es familiares, amizades, conviv\u00eancias do dia a dia. Transformou nossos dias em confronto. Deixou todo mundo infeliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>O rancor gera votos, mas tamb\u00e9m multiplica a ang\u00fastia. \u00c9 uma batalha permanente contra o inimigo, gigantesco e ao mesmo tempo quase invis\u00edvel, que se esconde em todos os cantos, em todas as pessoas. Nesse cen\u00e1rio de infelicidade coletiva, toda diverg\u00eancia \u00e9 dr\u00e1stica, toda vit\u00f3ria \u00e9 cruel, todo rompimento \u00e9 brutal e definitivo. Qualquer frustra\u00e7\u00e3o pode ser a gota d&#8217;\u00e1gua, e qualquer engarrafamento pode ser um motivo para matar.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para os que odeiam Lula e tudo que ele representa, sua soltura foi a senha para uma noite de amargura. Para quem o apoia e sofreu com sua pris\u00e3o, por\u00e9m, foi a largada para um fim de semana de euforia. E me desculpem a franqueza, mas n\u00e3o \u00e9 por acaso que Lula aparece em p\u00fablico abra\u00e7ando os netos, beijando a namorada, citando longas listas de gratid\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por ele ser um santo, um anjo que lan\u00e7a gotas de bondade sobre os meros mortais: \u00e9 por entender, at\u00e9 de forma intuitiva, que era por isso que seu p\u00fablico ansiava. Que todos queriam, no fundo, um motivo para sorrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Muito se falou no discurso pesado de Lula contra os opositores, e ele de fato se fez presente. Mas acho mais importante pensar sobre a alegria intensa e genu\u00edna que sua soltura causou &#8211; uma alegria de grupo, dos seus para os seus. Se o ressentimento virou o fiador de um governo de trevas, talvez seja preciso alegrar-se mais, sextar mais, insistir no brilho no olho contra todas as desgra\u00e7as que se empilham para apag\u00e1-lo. N\u00e3o pelo bem do pol\u00edtico da vez, mas pelo nosso pr\u00f3prio.<\/p>\n<p><em>Foto: REUTERS\/Nacho Doce<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi forte o sextou do \u00faltimo dia 8 de novembro. 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