{"id":6388,"date":"2019-10-10T21:00:56","date_gmt":"2019-10-11T00:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6388"},"modified":"2020-09-03T16:48:41","modified_gmt":"2020-09-03T19:48:41","slug":"o-evangelho-segundo-a-prisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6388","title":{"rendered":"O Evangelho Segundo a Pris\u00e3o . como as igrejas disputam a devo\u00e7\u00e3o dos presos em penitenci\u00e1rias abandonadas pelo Estado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Jos\u00e9 Saramago promove o encontro de Cristo com Deus e o Diabo. Mas n\u00e3o \u00e9 um Jesus santo. N\u00e3o. \u00c9 um Jesus humano. De carne. Gente. E a<\/strong><strong>\u00a0intimidade de uma conversa de 40 dias em que os tr\u00eas ficam confinados a um pequeno barco em alto mar faz com que essa humanidade seja levada ao extremo enquanto Deus e o Diabo disputam sua fidelidade com a mesma estrat\u00e9gia: a manipula\u00e7\u00e3o da palavra. Ambos fazem juras. Ambos prometem milagres. Ambos seduzem.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No que vamos chamar de O Evangelho Segundo A Pris\u00e3o, mostramos que as igrejas neopentecostais fazem o mesmo. De certa forma, reproduzem a l\u00f3gica sedutora da narrativa das fac\u00e7\u00f5es para disputar a devo\u00e7\u00e3o desses detentos que tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o santos, mas humanos. De carne. Gente.\u00a0<\/strong><strong>Em casas penitenci\u00e1rias abandonadas pelo Estado e geridas por fac\u00e7\u00f5es criminosas que controlam at\u00e9 a comida, os mission\u00e1rios oferecem prote\u00e7\u00e3o e cuidado aos presos em troca de obedi\u00eancia. E segundo Gilmar Bortolotto, procurador de justi\u00e7a do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul, a religi\u00e3o, hoje, \u00e9 a \u00fanica alternativa de recupera\u00e7\u00e3o de um detento. \u201cS\u00f3 tem isso.\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reportagem a seguir foi dividida em tr\u00eas partes que mostram, respectivamente, as condi\u00e7\u00f5es do sistema prisional brasileiro e os motivos que levaram \u00e0 superlota\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios; a forma como as fac\u00e7\u00f5es cooptam os novos apenados; e a maneira pela qual as igrejas evang\u00e9licas neopentecostais disputam a devo\u00e7\u00e3o desses mesmos detentos e se transformam na \u00fanica alternativa de recupera\u00e7\u00e3o. No sistema prisional brasileiro, ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, seja de Deus ou do Diabo, tem pre\u00e7o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6425\" aria-describedby=\"caption-attachment-6425\" style=\"width: 1334px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_3568-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6425 size-full\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_3568-2.jpg\" alt=\"\" width=\"1334\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_3568-2.jpg 1334w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_3568-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_3568-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/IMG_3568-2-1024x576.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1334px) 100vw, 1334px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6425\" class=\"wp-caption-text\">Culto de Natal na Penitenci\u00e1ria Estadual do Jacu\u00ed (PEJ). Foto: Ge\u00f3rgia Santos<\/figcaption><\/figure>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">A CADEIA.\u00a01 In\u00edcio do Evangelho Segundo a Pris\u00e3o. 2 Est\u00e1 escrito no artigo 5\u00aa da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos, que \u201ctodos s\u00e3o iguais perante a lei.\u201d 3 Ainda, \u201c\u00e9 assegurado aos presos o respeito \u00e0 integridade f\u00edsica e moral\u201d. 4 Mas s\u00e3o vers\u00edculos que n\u00e3o cabem aqui. 5 No Brasil, os presos s\u00e3o predominantemente jovens negros com pouca ou nenhuma escolaridade. 6 O pa\u00eds tem a terceira maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo e n\u00e3o h\u00e1 vagas para todos. 7 As penitenci\u00e1rias est\u00e3o superlotadas. 8 Os detentos s\u00e3o submetidos \u00e0 condi\u00e7\u00f5es degradantes. 9 E o Estado n\u00e3o tem controle sobre eles ou sobre os espa\u00e7os.<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o senso comum do brasileiro m\u00e9dio que habita as caixas de coment\u00e1rios do Facebook e sites de not\u00edcia, o pres\u00eddio perfeito \u00e9 um forte. Algo como um calabou\u00e7o. Talvez deva se parecer com uma masmorra. Idealmente, os presos devem sofrer muito. Danem-se, n\u00e3o tem mais volta. Sem privil\u00e9gios, devem comer o m\u00ednimo e dormir n\u00e3o mais do que o suficiente. Devem estar ocupados, mesmo que seja em trabalho for\u00e7ado. De prefer\u00eancia com uma bola de ferro amarrada \u00e0s canelas, como em um filme de Clint Eastwood, que imortalizou o pres\u00eddio mais famoso do mundo no filme <em>Fuga de Alcatraz<\/em>. &#8220;Bota uma bola de a\u00e7o com uma corrente na perna e deixa na rua&#8221;, aconselha o leitor de uma reportagem sobre presos empilhados dentro de cambur\u00f5es.\u00a0&#8220;Como diz o Bolsonaro, \u00e9 s\u00f3 n\u00e3o matar, roubar, estuprar. Que n\u00e3o se vai pra l\u00e1 e acabou chega de reclamar querem hotel 5 estrelas me poupe!&#8221;, diz outro, esquecendo a compaix\u00e3o e as v\u00edrgulas. Um terceiro avisa que uma bala de muni\u00e7\u00e3o custa somente R$ 5.<\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-6388 gallery-columns-2 gallery-size-medium'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?attachment_id=6426'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"140\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/admin-ajax.php-2-300x140.jpeg\" class=\"attachment-medium size-medium\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-6426\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/admin-ajax.php-2-300x140.jpeg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/admin-ajax.php-2.jpeg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-6426'>\n\t\t\t\tReprodu\u00e7\u00e3o Facebook\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?attachment_id=6427'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"140\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/admin-ajax.php-3-300x140.jpeg\" class=\"attachment-medium size-medium\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-6427\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/admin-ajax.php-3-300x140.jpeg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/admin-ajax.php-3.jpeg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-6427'>\n\t\t\t\tReprodu\u00e7\u00e3o Facebook\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<p style=\"text-align: justify;\">A Penitenci\u00e1ria Federal de Alcatraz, em S\u00e3o Francisco, nos Estados Unidos, talvez seja a ep\u00edtome desse imagin\u00e1rio. Situada em uma ilha cercada por correntes mar\u00edtimas g\u00e9lidas, era praticamente imposs\u00edvel de escapar. A severidade fez com que se tornasse um exemplo do sistema carcer\u00e1rio estritamente punitivo. Durante o per\u00edodo de funcionamento, entre 1934 e 1963, os presos mantinham uma rotina r\u00edgida, com hor\u00e1rio para acordar, fazer refei\u00e7\u00f5es e dormir e o livro de regras continha 27 itens que n\u00e3o podiam ser desobedecidos sob hip\u00f3tese alguma. A regra n\u00famero 5 tratava do que diziam ser favores: \u201cVoc\u00ea tem direito a comida, roupas, abrigo e aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Qualquer outra coisa que voc\u00ea recebe \u00e9 um privil\u00e9gio.&#8221; Se algum dos itens fosse desobedecido, as puni\u00e7\u00f5es formais e informais variavam da tortura \u00e0 morte. Tamb\u00e9m havia o confinamento na solit\u00e1ria, uma cela de dois metros quadrados em que o preso recebia banhos de \u00e1gua fria, dormia no ch\u00e3o, e era privado de comida e luz por tempo indeterminado. Supostamente, tratava-se do melhor e mais eficiente sistema de puni\u00e7\u00e3o das am\u00e9ricas, pelo qual passaram Al Capone e George \u201cMachine Gun\u201d Kelly.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com exclusividade, entrevistamos o detento 1259AZ de Alcatraz, o \u00faltimo ainda vivo.<\/strong> William G. Baker come\u00e7ou a vida no crime quando tinha 18 anos, em Oregon, nos Estados Unidos. Depois de escapar da pris\u00e3o estadual, roubou um carro, foi capturado e transferido para Alcatraz aos 23 anos, onde permaneceu entre 1957 e 1960. Ele n\u00e3o era necessariamente um preso exemplar e foi alvo de muitas das puni\u00e7\u00f5es dos guardas. Mas isso n\u00e3o parece ter solucionado o problema. \u201cEu era um criminoso melhor (mais competente) quando eu sa\u00ed de l\u00e1\u201d, disse, com um sorriso ir\u00f4nico no rosto. Ele aprendeu a falsificar cheques com outro detento e foi o que ele fez at\u00e9 quase 80 anos. Viveu do crime e lucrou at\u00e9 a velhice com o \u201cof\u00edcio\u201d que aprendeu dentro da cadeia. Dentro da mais severa e mais r\u00edgida cadeia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px; text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LHUNhttsSgY\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Baker \u00e9 apenas um exemplo, mas \u00e9 tamb\u00e9m um ind\u00edcio de que um sistema carcer\u00e1rio estritamente punitivo pode n\u00e3o ser a solu\u00e7\u00e3o, mesmo que funcione do ponto de vista administrativo.<span class=\"apple-converted-space\">\u00a0<\/span><strong>\u201cPres\u00eddio que funciona n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o pres\u00eddio que tem tudo certinho. Pres\u00eddio americano tem muito investimento, mas a reincid\u00eancia \u00e9 parecida com a nossa\u201d, explica Gilmar Bortolotto,\u00a0<\/strong>procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul. \u00a0Ele diz que um dos problemas, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, est\u00e1 no fato de que o n\u00famero de entrada de presos n\u00e3o para de crescer &#8211; e 70% deles passam pelo sistema carcer\u00e1rio mais de uma vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, o Brasil tem a terceira maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo em n\u00fameros absolutos, atr\u00e1s apenas de Estados Unidos e China. Segundo dados do <a href=\"http:\/\/depen.gov.br\/DEPEN\/depen\/sisdepen\/infopen\/relatorios-sinteticos\/infopen-jun-2017-rev-12072019-0721.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Levantamento Nacional De Informa\u00e7\u00f5es Penitenci\u00e1rias (Infopen)<\/a> de junho de 2017 e divulgado em 2019, o Brasil tem 726.354 pessoas privadas de liberdade.\u00a0Marcos Rolim, que \u00e9 jornalista, soci\u00f3logo e especialista em seguran\u00e7a p\u00fablica, entende, no entanto, que a quantidade de presos no Brasil deve ser maior. \u00a0\u00c9 preciso considerar a defasagem dos dados. \u00a0Com um crescimento m\u00e9dio de 8% ao ano, \u00e9 prov\u00e1vel que o pa\u00eds j\u00e1 tenha mais de 800 mil apenados.\u00a0&#8220;E isso vai levar o Brasil rapidamente a uma popula\u00e7\u00e3o de mais de um milh\u00e3o de presos dentro \u00a0de um ou dois anos. \u00c9 muita gente presa&#8221;, diz.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>&#8220;E isso vai levar o Brasil rapidamente a uma popula\u00e7\u00e3o de mais de um milh\u00e3o de presos dentro \u00a0de um ou dois anos. \u00c9 muita gente presa&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Marcos Rolim, especialista em Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas mesmo os n\u00fameros mais conservadores s\u00e3o expressivos. A\u00a0<span class=\"apple-converted-space\">taxa de aprisionamento no Brasil \u00e9 de 352,6. Isso significa que h\u00e1 352,6 pessoas presas para cada grupo de 100 mil habitantes. Em 2000, essa taxa era de 137.\u00a0<\/span><span class=\"apple-converted-space\"><strong>O dado fornecido pelo Infopen indica que a quantidade de pessoas presas no Brasil \u00e9<\/strong><\/span><strong>\u00a0duas vezes maior que a registrada h\u00e1 dez anos e oito vezes maior em 1990, quando a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria de todo o pa\u00eds era de 90 mil. <\/strong>S\u00e3o 636 mil presos a mais.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-NUMEROS.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6436 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-NUMEROS.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-NUMEROS.jpg 1280w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-NUMEROS-300x188.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-NUMEROS-768x480.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-NUMEROS-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"apple-converted-space\"> A propor\u00e7\u00e3o desse crescimento revela que h\u00e1 um processo de encarceramento em massa em curso, que al\u00e9m de evidenciar o n\u00famero de presos, chama aten\u00e7\u00e3o para a capacidade discut\u00edvel da pris\u00e3o de reduzir a viol\u00eancia e para a desproporcionalidade racial e et\u00e1ria.\u00a0<\/span><strong>No Brasil, o perfil do detento n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio:\u00a056% das pessoas privadas de liberdade s\u00e3o negras; 34% est\u00e3o presos sem condena\u00e7\u00e3o; 54% tem entre 18 e 29 anos; 89% n\u00e3o conclu\u00edram os estudos, ou sequer come\u00e7aram (entre analfabetos e Ensino M\u00e9dio incompleto).\u00a0<\/strong><strong>Ou seja, a maioria \u00e9 negra, jovem e com estudo incompleto.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PERFIL-VALENDO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6438 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PERFIL-VALENDO.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PERFIL-VALENDO.jpg 1280w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PERFIL-VALENDO-300x188.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PERFIL-VALENDO-768x480.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PERFIL-VALENDO-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chance de ser preso est\u00e1 diretamente ligada ao grau de escolaridade, \u00e0 posi\u00e7\u00e3o na estrutura de classes, faixa et\u00e1ria e cor. Isso acontece tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. <strong>Erin Haney \u00e9 conselheira s\u00eanior da organiza\u00e7\u00e3o americana conhecida por CUT 50, uma iniciativa nacional e bipartid\u00e1ria que tem o objetivo de reduzir a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria nos EUA.<\/strong> <strong>Segundo ela, o encarceramento em massa tem o racismo e o classismo na base.<\/strong> &#8220;\u00c9 evidente o reflexo desses males ao fazermos uma an\u00e1lise das senten\u00e7as proferidas pelos ju\u00edzes. Com isso, n\u00f3s podemos rastrear a origem do encarceramento em massa at\u00e9 a escravid\u00e3o.&#8221; Ela explica que hoje h\u00e1 mais pessoas negras sob a cust\u00f3dia do governo americano e privadas de liberdade do que naquele per\u00edodo. Isso significa que a chance de ser preso nos Estados Unidos \u00e9 maior para uma pessoa negra. E os n\u00fameros do Infopen deixam claro que a realidade no Brasil \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O soci\u00f3logo Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, professor e pesquisador da PUCRS e membro do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, explica que o aumento no n\u00famero de pris\u00f5es \u00e9 tamb\u00e9m consequ\u00eancia direta da pol\u00edtica criminal\u00a0punitiva adotada pelo Estado brasileiro, que aplica\u00a0pena de pris\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es em que se poderia utilizar outras medidas &#8211; especialmente no caso de jovens r\u00e9us prim\u00e1rios. Dessa forma, o prop\u00f3sito correcional da pris\u00e3o \u00e9 substitu\u00eddo por um modelo em que os pres\u00eddios se tornam dep\u00f3sitos de indiv\u00edduos.\u00a0<strong>\u201cE isso n\u00e3o funciona, porque essa \u00e9 a receita que o Brasil tem adotado e ela n\u00e3o tem contribu\u00eddo de forma alguma para que o problema seja, de alguma maneira, equacionado.\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execu\u00e7\u00f5es Penais de Porto Alegre, acompanha a situa\u00e7\u00e3o da superlota\u00e7\u00e3o das casas prisionais desde o final da d\u00e9cada de 1990 e concorda que um dos fatores para o aumento no n\u00famero de presos\u00a0diz respeito \u00e0 forma como o pa\u00eds vem enfrentando o tr\u00e1fico, a chamada \u201cGuerra \u00e0s Drogas\u201d. \u201cH\u00e1 20 anos, a quantidade de pessoas presas por tr\u00e1fico ou crimes relacionados ao tr\u00e1fico era menos de 5%. Hoje as pessoas condenadas por tr\u00e1fico ou crimes relacionados talvez seja superior a 80%. Porque voc\u00ea tem porte de arma relacionado ao tr\u00e1fico, roubo, recepta\u00e7\u00e3o, tudo est\u00e1 relacionado\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Brzuska, o Brasil adota o combate ao tr\u00e1fico pela repress\u00e3o penal e n\u00e3o ataca o que se conhece por \u201cciclo completo\u201d. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o do Estado \u00a0no que se refere \u00e0 desativa\u00e7\u00e3o dos pontos em que a droga \u00e9 comercializada, assim como n\u00e3o h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o com o tratamento do usu\u00e1rio viciado. \u201cSe faz o enfrentamento do tr\u00e1fico pela apreens\u00e3o de drogas e pela pris\u00e3o de traficantes. Voc\u00ea faz o enfrentamento do tr\u00e1fico pelo vi\u00e9s da repress\u00e3o\u201d. Isso n\u00e3o faz com que o crime perca for\u00e7a, apenas interrompe brevemente. E o resultado pr\u00e1tico e imediato \u00e9 um n\u00famero maior de pessoas presas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segundo problema, de acordo com o magistrado, \u00e9 a forma como se negligencia a primeira inf\u00e2ncia. Outra falha do Estado que fica evidente quando se observa que 51% dos presos tem Ensino Fundamental Incompleto, ou seja, a maioria da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria chegou a frequentar a escola mas desistiu na adolesc\u00eancia ou antes. Foi o que aconteceu a Eduardo Pauly, 31 anos. Ele\u00a0lutou por mais de uma d\u00e9cada contra o crack e o alcoolismo e foi preso por assalto. Hoje ele \u00e9 pastor da Igreja Assembleia de Deus. Mas mesmo recuperado, n\u00e3o esquece como tudo come\u00e7ou. Aos onze anos, recebeu um bilhete da m\u00e3e:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h5 style=\"text-align: center;\">\u201cESCOLA ESTADUAL DE PRIMEIRO GRAU CANAD\u00c1. \u00d4NIBUS CAP\u00c3O DA PORTEIRA &#8211; PASSO DO VIG\u00c1RIO.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">CIDADE VIAM\u00c3O.\u201d<\/h5>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela pegou o guri pela m\u00e3o e levou a crian\u00e7a at\u00e9 a rodovi\u00e1ria de Novo Hamburgo. Desacompanhado, Eduardo embarcou em um \u00f4nibus sem saber exatamente para onde ia. Sequer tinha consci\u00eancia de que estava, efetivamente, sozinho. \u201cFiquei quatro anos interno num col\u00e9gio porque eu tinha o sonho de crian\u00e7a de ser veterin\u00e1rio e fui pra l\u00e1 pra fazer o curso t\u00e9cnico em agropecu\u00e1ria. E l\u00e1, sem m\u00e3e e sem pai, tive o contato com as drogas. Sem nenhum tipo de amparo\u201d, desabafou. No primeiro ano longe de casa, ele encontrou suporte na dorm\u00eancia de drogas pesadas. Aos 17 anos, j\u00e1 era viciado.<strong> \u201cO crack me escravizou. Primeiro tirou meus sonhos, eu desisti dos meus sonhos. O meu objetivo era conseguir mais uma pedra, dar mais um teco. Eu n\u00e3o queria mais ser veterin\u00e1rio, eu queria usar mais droga. Eu sa\u00eda de uma realidade que eu enfrentava e passava um momento m\u00ednimo de prazer que depois me trazia grandes frustra\u00e7\u00f5es. Comecei a roubar e, roubando, fui parar dentro de uma penitenci\u00e1ria\u201d, contou.<\/strong> Virou estat\u00edstica. Virou n\u00famero. Um n\u00famero que s\u00f3 aumenta.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6439\" aria-describedby=\"caption-attachment-6439\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Eduardo-valendo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6439\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Eduardo-valendo.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Eduardo-valendo.jpg 1280w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Eduardo-valendo-300x188.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Eduardo-valendo-768x480.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Eduardo-valendo-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6439\" class=\"wp-caption-text\">Eduardo Pauly, ex-detento. Foto\/arte: Ge\u00f3rgia Santos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brzuska explica que \u00e9 tamb\u00e9m nessa fase da adolesc\u00eancia em que se desenvolve a ideia de pertencimento. E quando tem esse v\u00e1cuo do n\u00e3o-pertencimento, o que sobra para um jovem que teve uma primeira inf\u00e2ncia negligenciada inclusive pelo Estado e est\u00e1 vulner\u00e1vel em \u00e1reas perif\u00e9ricas \u00e9 o pertencimento \u00e0 fac\u00e7\u00e3o. \u201cA\u00ed vem o empoderamento que o crime d\u00e1, d\u00e1 uma arma, vai fazer uma selfie com uma arma, com celular novo de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o. E o pr\u00f3ximo passo \u00e9 a pris\u00e3o,\u201d conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como um terceiro motivo para o aumento expressivo no n\u00famero de apenados, o juiz da Vara de Execu\u00e7\u00f5es Penais ainda cita a forma com que os estados disp\u00f5em as pol\u00edcias, sobretudo as militares &#8211; fator esse que est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0 disparidade promovida pelo racismo e classismo. Sidinei Brzuska mostra o exemplo do Rio Grande do Sul, em que o n\u00famero de pessoas condenadas aumentou em dez vezes quando Jos\u00e9 Ivo Sartori assumiu o governo, a partir de 2015, e as autoridades da \u00e1rea da seguran\u00e7a alteraram o posicionamento do policiamento ostensivo. Na administra\u00e7\u00e3o anterior, a m\u00e9dia era de mil pessoas condenadas por ano. Em 2016, esse n\u00famero passou para 6 mil; em 2017, pulou para 8 mil; e, em 2018, chegou a 10 mil.\u00a0\u201cVoc\u00ea troca a forma de manejar a pol\u00edcia militar. Se voc\u00ea coloca uma viatura na esquina da pra\u00e7a da Encol [regi\u00e3o de classe m\u00e9dia alta de Porto Alegre], outra na esquina do Shopping Iguatemi, v\u00e3o cruzar milhares de pessoas nesses dois pontos e n\u00e3o v\u00e3o prender ningu\u00e9m. Se voc\u00ea deslocar essas viaturas algumas quadras para dentro das vilas, j\u00e1 muda tudo\u201d, conta Brzuska.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cVoc\u00ea troca a forma de manejar a pol\u00edcia militar. Se voc\u00ea coloca uma viatura na esquina da pra\u00e7a da Encol [regi\u00e3o de classe m\u00e9dia alta de Porto Alegre], outra na esquina do Shopping Iguatemi, v\u00e3o cruzar milhares de pessoas nesses dois pontos e n\u00e3o v\u00e3o prender ningu\u00e9m. Se voc\u00ea deslocar essas viaturas algumas quadras para dentro das vilas, j\u00e1 muda tudo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Sidinei Brzuska, Ju\u00edz da Vara de Execu\u00e7\u00f5es Criminais de Porto Alegre<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estat\u00edstica policial \u00e9 expressiva e o alto n\u00famero de pris\u00f5es promove uma sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. <a href=\"https:\/\/www.justica.gov.br\/seus-direitos\/elaboracao-legislativa\/projetos\/anticrime-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vem na esteira da narrativa que ganha for\u00e7a no governo federal, que \u00e9 de endurecimento da lei, de aumento das penas, redu\u00e7\u00e3o da idade penal e extin\u00e7\u00e3o da progress\u00e3o<\/a>. Mas o problema continua n\u00e3o sendo atacado na raiz, apenas do ponto de vista da repress\u00e3o.<span class=\"apple-converted-space\">\u00a0<\/span>E \u00e9 um problema que se acentuou muito nos \u00faltimos dez anos. \u201cUm pouco tem a ver com a quest\u00e3o da lei em que o usu\u00e1rio passou a ser tratado como traficante&#8221;, diz Brzuska.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2006, a nova Lei de Drogas sancionada pelo ent\u00e3o presidente Lu\u00edz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) prometia n\u00e3o encarcerar mais os usu\u00e1rios. Seria um ponto importante para reverter o crescimento do n\u00famero de pessoas presas por crimes ligados \u00e0s drogas. Mas a defini\u00e7\u00e3o de quem seria usu\u00e1rio e quem seria traficante e da quantidade de droga que separa um do outro ficou nas m\u00e3os da pol\u00edcia. <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/pt\/world-report\/2017\/country-chapters\/298766\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Relat\u00f3rio da ONG Human Rights Watch<\/a> mostra que a nova lei se tornou um fator fundamental para o aumento da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria no Brasil.\u00a0<strong>Hoje, um em cada tr\u00eas presos brasileiros responde por crimes ligados ao tr\u00e1fico<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O soci\u00f3logo Marcos Rolim conta que essa legisla\u00e7\u00e3o vai na contram\u00e3o do que prop\u00f5em outros pa\u00edses em que a quantidade de droga apreendida \u00e9 um fator importante no momento de diferenciar o usu\u00e1rio do traficante, como Estados Unidos e Espanha. &#8220;Aqui n\u00f3s n\u00e3o criamos nenhuma refer\u00eancia objetiva para diferenciar. Se tu fores pega com um cigarro de maconha e a pol\u00edcia achar que \u00e9 pra venda, vai ser presa pelo mesmo crime que um cara que est\u00e1 transportando uma tonelada de coca\u00edna, n\u00e3o tem diferen\u00e7a&#8221;, diz. Mas tem uma diferen\u00e7a &#8211; ou duas. De novo, voltamos \u00e0 quest\u00e3o da cor e a classe. &#8220;Se \u00e9 pobre, \u00e9 traficante. Se \u00e9 rico, \u00e9 usu\u00e1rio&#8221;, explica.\u00a0L. tem 23 anos \u00e9 o exemplo de cartilha dessa situa\u00e7\u00e3o. &#8220;Eu n\u00e3o sou santo, mas me prenderam porque eu tinha um baseado. Me jogaram aqui. Mas eu n\u00e3o sou traficante, cara&#8221;. \u00a0L. \u00e9 negro e de fam\u00edlia pobre. N\u00e3o teve a menor chance.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Se \u00e9 pobre, \u00e9 traficante. Se \u00e9 rico, \u00e9 usu\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Marcos Rolim, especialista em Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encarceramento em massa \u00e9 um problema em si, mas \u00e9 um processo que desencadeia uma s\u00e9rie de efeitos colaterais porque, al\u00e9m do fator da quantidade de presos, h\u00e1 o problema da quantidade de vagas. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para todos. H\u00e1 apenas 423.242 vagas para os mais de 726 mil detentos. Isso gera um d\u00e9ficit de 303.112, segundo os dados divulgados pelo Infopen neste ano. H\u00e1 praticamente dois presos por vaga no Brasil, uma taxa de ocupa\u00e7\u00e3o de 171,62%. Mas tamb\u00e9m neste caso, segundo Rolim, s\u00e3o n\u00fameros conservadores em fun\u00e7\u00e3o da metodologia utilizada para contabilizar tanto a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria quanto o d\u00e9ficit de vagas. &#8220;Quem informa \u00e9 o diretor da penitenci\u00e1ria. Ele usa o crit\u00e9rio da praxe prisional. Na praxe prisional, em cada cela cabem quatro, ent\u00e3o, eles contam quatro vagas por cela. Se tiver cinco caras em uma cela, est\u00e1 faltando uma vaga.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema \u00a0\u00e9 que o crit\u00e9rio legal indica que cada cela foi constru\u00edda para um detento. &#8220;E o \u00fanico crit\u00e9rio que deve ser utilizado \u00e9 o crit\u00e9rio legal, que determina 6m2 por preso. O juiz teria que entrar no pres\u00eddio e medir a \u00e1rea de instala\u00e7\u00e3o e ver quantos presos tem naquele espa\u00e7o, e isso nunca se fez. E essa medida \u00e9 dada pela legisla\u00e7\u00e3o nacional e por todos os tratados internacionais aos quais o Brasil subscreveu&#8221;, explica Rolim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico Gilmar Bortolotto atribui o problema \u00e0 falta de cuidado do Estado de maneira geral. O Pres\u00eddio Central de Porto Alegre, por exemplo, \u00e9 a maior casa prisional do RS e j\u00e1 foi considerado o pior pres\u00eddio do pa\u00eds pela CPI do Sistema Carcer\u00e1rio. Quando foi criado, em 1959, os funcion\u00e1rios geriam a penitenci\u00e1ria da maneira que achavam adequado e o poder p\u00fablico foi, aos poucos, abandonando, segundo o procurador. \u201cEra uma l\u00f3gica de &#8220;vai empilhando, s\u00f3 n\u00e3o pode dar estouro&#8221;. <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/porto-alegre\/noticia\/2019\/03\/cacada-a-melara-quando-uma-rebeliao-no-presidio-central-terminou-com-a-invasao-do-plaza-sao-rafael-cjtpm6mve009701llluh6fdq7.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quando deu o primeiro estouro, que os presos foram parar dentro do Plaza, tinha 10 funcion\u00e1rios pra gerenciar 1.773 presos no Centra<\/a>l. Eles andavam com fac\u00e3o na cintura e eram usados como guardas. Desde l\u00e1, o Estado passa um s\u00f3 recado para o funcion\u00e1rio: \u00e9 contigo. E o que o funcion\u00e1rio faz? Passa a responsabilidade para o preso. Obviamente eu estou falando em condi\u00e7\u00f5es extremas de como isso come\u00e7ou l\u00e1 atr\u00e1s, mas \u00e9 uma l\u00f3gica que explica porque estamos nessas condi\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 20 anos, Bortolotto foi transferido do interior para Porto Alegre como promotor da Promotoria de Justi\u00e7a de Controle e Execu\u00e7\u00e3o Criminal da capital, criada justamente para fiscalizar os pres\u00eddios. J\u00e1 em 1998 ele deparou com um sistema cheio de problemas. Antes de mais nada, decidiu ouvir. \u201cMe sentei dentro das cadeias, cada dia em uma, e em alguns meses eu ouvi cerca de 3 mil presos. ?E comecei a entender um pouquinho melhor a l\u00f3gica. Um pouquinho. Porque entender a l\u00f3gica demora mais de d\u00e9cada\u201d, disse. Ele passou a ouvir tamb\u00e9m os familiares dos apenados, uma m\u00e9dia de 10mil por ano, e egressos. Esse trabalho permitiu que o ent\u00e3o promotor fizesse um mapeamento do sistema carcer\u00e1rio ga\u00facho.\u201cOs presos come\u00e7aram a trazer demandas que eram causas de rebeli\u00e3o e mortes. Desde colocarem gente que n\u00e3o podia estar ali (intencionalmente) at\u00e9 pequenas demandas que n\u00e3o tinham resposta, como de quanto era a pena e outros prazos. Encontrei, inclusive, muitas pessoas que j\u00e1 tinham cumprido a pena e ainda estavam l\u00e1. Pris\u00f5es preventivas que tinham sido revogadas mas havia defeitos na comunica\u00e7\u00e3o. Decis\u00f5es do juiz que n\u00e3o eram informadas. E, claro, em um ambiente de ignor\u00e2ncia, os caras pedem uma vez, pedem duas, na terceira, botam fogo\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0\u201cOs familiares vinham tamb\u00e9m, \u201ctem um que vai ser executado\u201d; \u201coutro que t\u00e1 com tuberculose\u201d; \u201coutro que foi morto e enterrado dentro da \u00e1rea do semi-aberto\u201d. N\u00f3s descobrimos v\u00e1rios cad\u00e1veres enterrados de gente que a m\u00e3e ia l\u00e1 falar comigo e dizia: disseram que meu filho fugiu mas ele n\u00e3o apareceu em casa. A gente ia l\u00e1, conversava com os presos e descobr\u00edamos o corpo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Gilmar Bortolotto, Procurador de Justi\u00e7a do MP-RS<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os relatos de problemas se empilhavam e maioria estava relacionada \u00e0 extors\u00e3o e viol\u00eancia.\u00a0Bortolotto criou uma sistem\u00e1tica em que visitaria os pres\u00eddios uma vez por m\u00eas para ouvir as demandas dos apenados e traria a resposta no m\u00eas seguinte. Nesse processo, chegava a atender 1500 homens por m\u00eas no Central. Mas eram mais de 20 casas prisionais. \u201cOs familiares vinham tamb\u00e9m, \u201ctem um que vai ser executado\u201d; \u201coutro que t\u00e1 com tuberculose\u201d; \u201coutro que foi morto e enterrado dentro da \u00e1rea do semi-aberto\u201d. N\u00f3s descobrimos v\u00e1rios cad\u00e1veres enterrados de gente que a m\u00e3e ia l\u00e1 falar comigo e dizia: disseram que meu filho fugiu mas ele n\u00e3o apareceu em casa. A gente ia l\u00e1, conversava com os presos e descobr\u00edamos o corpo.\u201d<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>OU\u00c7A . Gilmar Bortolotto, procurador do MP-RS, diz que a sistem\u00e1tica que ele desenvolveu n\u00e3o resolveu todos os problemas, mas auxiliou a gerar uma esp\u00e9cie de cultura de paz, em que os presos entenderam que n\u00e3o precisavam &#8220;fazer o horror&#8221; para ter uma resposta.<\/strong><\/h6>\n<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-6388-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Borto.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Borto.mp3\">https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Borto.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas outros problemas relatados por presos e familiares n\u00e3o estavam relacionados \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o ou chantagem, e sim a quest\u00f5es de infraestrutura e <em>modus operandi<\/em> das autoridades de seguran\u00e7a dentro das casas prisionais. O relat\u00f3rio da ONG Human Rights Watch &#8211; assim como os relat\u00f3rios de in\u00fameras visitas t\u00e9cnicas promovidas por comiss\u00f5es de parlamentares do <a href=\"http:\/\/bd.camara.leg.br\/bd\/handle\/bdcamara\/2701\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Congresso Nacional<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.al.rs.gov.br\/FileRepository\/repdcp_m505\/SubSist_Prisional\/Rel_Final.PDF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">assembleias legislativas dos estados<\/a> e at\u00e9 de <a href=\"http:\/\/www.stf.jus.br\/portal\/cms\/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=329848\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ministros do Supremo Tribunal Federal (STF)<\/a> &#8211; \u00a0revela que os detentos vivem em condi\u00e7\u00f5es\u00a0insalubres, em celas escuras, \u00a0sem ventila\u00e7\u00e3o e expostos a in\u00fameras doen\u00e7as.\u00a0O <a href=\"https:\/\/www.mdh.gov.br\/informacao-ao-cidadao\/participacao-social\/sistema-nacional-de-prevencao-e-combate-a-tortura-snpct\/mecanismo\/mecanismo-nacional-de-prevencao-e-combate-a-tortura-mnpct\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mecanismo Nacional de Combate e Preven\u00e7\u00e3o \u00e0 Tortura<\/a> ainda relatou casos de tortura em todos os estabelecimentos prisionais visitados entre abril de 2015 e mar\u00e7o de 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os efeitos perversos do encarceramento em massa s\u00e3o prova de que \u00a0o Estado perdeu o controle. E n\u00e3o existe v\u00e1cuo no poder. Segundo o professor Rodrigo Azevedo, se o Estado n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de assumir o controle das penitenci\u00e1rias, elas se tornam terreno f\u00e9rtil para o crime organizado. \u201cN\u00f3s temos dois presos, praticamente, hoje, no Brasil, por vaga. Isso acaba dando \u00e0s fac\u00e7\u00f5es, que se organizam nesse ambiente, um poder muito grande. Porque elas acabam, com isso, tendo uma capacidade muito grande de coopta\u00e7\u00e3o de quem entra no sistema.\u201d<\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">AS FAC\u00c7\u00d5ES. 10<b> A superlota\u00e7\u00e3o impede o Estado de separar presos que pertencem ao crime organizado do restante da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. 11 Dessa forma, aumenta o poder de coopta\u00e7\u00e3o de novos presos por fac\u00e7\u00f5es criminosas. 12 As organiza\u00e7\u00f5es oferecem drogas, dinheiro, prote\u00e7\u00e3o, espa\u00e7o e comida. 13 Em troca, exigem lealdade ao c\u00f3digo e trabalho. 14 \u00c9 um contrato imposs\u00edvel de romper. 15 Isso aumenta o poder das fac\u00e7\u00f5es, que transformam as penitenci\u00e1rias no sistema banc\u00e1rio do tr\u00e1fico. 16 Dessa forma, o crime organizado assume o controle da pris\u00e3o. 17 Aumenta a viol\u00eancia externa. 18 E torna imposs\u00edvel a recupera\u00e7\u00e3o de um apenado.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/b><\/h5>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eduardo Pauly, que conheceu as penitenci\u00e1rias da pior forma, \u00e9 muito claro. \u201cO pres\u00eddio n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es alguma de recuperar um detento, a n\u00e3o ser produzir nele mais \u00f3dio, mais raiva, mais rancor.\u201d\u00a0No Rio Grande do Sul, um dos casos mais graves \u00e9 o do Pres\u00eddio Central. A Cadeia P\u00fablica de Porto Alegre <a href=\"http:\/\/www.susepe.rs.gov.br\/conteudo.php?cod_menu=203&amp;cod_conteudo=21\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tem capacidade para 1824 pessoas e abriga 4299 presos.<\/a> S\u00e3o 2,3 presos por vaga. Em fun\u00e7\u00e3o da superlota\u00e7\u00e3o, a maior casa prisional do Estado j\u00e1 n\u00e3o divide os presos por celas. L\u00e1, os apenados est\u00e3o em 24 galerias localizadas em nove pavilh\u00f5es cobertos por colch\u00f5es no ch\u00e3o. Isso causa problemas de log\u00edstica, por exemplo, j\u00e1 que as refei\u00e7\u00f5es precisam ser levadas at\u00e9 os presos \u2013 afinal, n\u00e3o h\u00e1 funcion\u00e1rios ou espa\u00e7o suficiente para transportar mais de 4mil pessoas aos refeit\u00f3rios, tr\u00eas vezes por dia. A equipe \u00e9 composta por apenas 300 policiais militares e 70 funcion\u00e1rios da Superintend\u00eancia de Servi\u00e7os Penitenci\u00e1rios (Susepe). <strong>Mais do que isso, todos convivem, diariamente, com infesta\u00e7\u00e3o de ratos e baratas; lixo acumulado no p\u00e1tio; \u00a0e banheiros com infiltra\u00e7\u00e3o que for\u00e7am os presos a escoar as fezes por encanamentos improvisados com garrafas PET.<\/strong><\/p>\n<div id='gallery-2' class='gallery galleryid-6388 gallery-columns-4 gallery-size-thumbnail'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?attachment_id=5174'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/392631_343484195666901_1670328552_n-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-2-5174\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/392631_343484195666901_1670328552_n-150x150.jpg 150w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/392631_343484195666901_1670328552_n-300x300.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/392631_343484195666901_1670328552_n-370x370.jpg 370w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-2-5174'>\n\t\t\t\tFoto: Sidinei Brzuska \/ Arquivo Pessoal\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?attachment_id=5173'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/387316_343495862332401_1624747754_n-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-2-5173\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/387316_343495862332401_1624747754_n-150x150.jpg 150w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/387316_343495862332401_1624747754_n-300x300.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/387316_343495862332401_1624747754_n-370x370.jpg 370w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-2-5173'>\n\t\t\t\tFoto: Sidinei Brzuska \/ Arquivo Pessoal\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?attachment_id=5171'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/378617_343475512334436_1690210967_n-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-2-5171\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/378617_343475512334436_1690210967_n-150x150.jpg 150w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/378617_343475512334436_1690210967_n-300x300.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/378617_343475512334436_1690210967_n-370x370.jpg 370w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-2-5171'>\n\t\t\t\tFoto: Sidinei Brzuska \/ Arquivo Pessoal\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?attachment_id=5170'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/373775_343473485667972_1986337199_n-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-2-5170\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/373775_343473485667972_1986337199_n-150x150.jpg 150w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/373775_343473485667972_1986337199_n-300x300.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/373775_343473485667972_1986337199_n-370x370.jpg 370w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-2-5170'>\n\t\t\t\tFoto: Sidinei Brzuska \/ Arquivo Pessoal\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<p style=\"text-align: justify;\">O Central \u00e9 o maior e talvez o pres\u00eddio mais emblem\u00e1tico quando se pensa em condi\u00e7\u00f5es degradantes. Mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico em que h\u00e1 graves problemas estruturais. N\u00e3o \u00e9 o \u00fanico no pa\u00eds e sequer no Estado. A Penitenci\u00e1ria Estadual do Jacu\u00ed (PEJ) \u00e9 a segunda maior do Rio Grande do Sul e abriga 2572 presos em 1372 vagas. Eduardo Pauly passou por l\u00e1 ap\u00f3s ser preso por roubo e conta que as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o degradantes. &#8220;Era tudo sujo, n\u00e3o tinha a menor condi\u00e7\u00e3o. A gente enxergava rato e barata por tudo. Em algumas celas, todo ch\u00e3o ficava molhado, tinha lixo espalhado, pessoas com doen\u00e7as, tipo tuberculose. Tinha comida vencida, mosca em cima. S\u00f3 a galeria dos irm\u00e3os era limpa e organizada, o resto n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00e3o. Era desumano. Eu sei que as pessoas ali cometeram crimes, mas era desumano.\u201d<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">A gente enxergava rato e barata por tudo. Em algumas celas, todo ch\u00e3o ficava molhado, tinha lixo espalhado, pessoas com doen\u00e7as, tipo tuberculose. Tinha comida vencida, mosca em cima.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Eduardo Pauly, ex-detento da PEJ<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para dar um exemplo do problema, ele nos mostra trechos da reportagem <a href=\"http:\/\/redeglobo.globo.com\/rs\/rbstvrs\/noticia\/2013\/05\/reportagem-da-rbs-tv-ganha-premio-de-jornalismo-da-defensoria.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8220;O pior lugar do mundo<\/a>&#8220;, exibida pela RBSTV em 2012, quando a PEJ foi interditada pela justi\u00e7a. Ele tinha raz\u00e3o, estava tudo ali. Os insetos, o lixo, o banheiro sem vaso sanit\u00e1rio, sem esgoto. Pessoas doentes isoladas em celas f\u00e9tidas. \u201cComo que um lugar aonde a pessoa \u00e9 desprezada, esquecida, mal tratada, poder\u00e1 mudar a situa\u00e7\u00e3o de uma pessoa?\u201d, desabafa Eduardo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E os l\u00edderes das principais fac\u00e7\u00f5es criminosas sabem disso. Eles sabem que as penitenci\u00e1rias superlotadas e sem infraestrutura n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de recuperar ningu\u00e9m e se aproveitam disso.\u00a0O procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul Gilmar Bortolotto explica que, atualmente, o ambiente carcer\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 dominado pelo Estado. Isso significa que h\u00e1 um v\u00e1cuo deixado pelo poder p\u00fablico que \u00e9 preenchido justamente pelas fac\u00e7\u00f5es criminosas que se aproveitam desse vazio para aumentar o poder material e de recursos humanos. E nesse caso, n\u00e3o interessa o preso que j\u00e1 \u00e9 faccionado, esse j\u00e1 vai solicitar transfer\u00eancia para um pres\u00eddio que seja dominado pela fac\u00e7\u00e3o da qual faz parte. O problema est\u00e1 no contato da fac\u00e7\u00e3o com o homem que \u00e9 preso pela primeira vez. \u201cTu olha pro Estado, o que tem pra o preso? Nada. A\u00ed tu olha pra fac\u00e7\u00e3o, os caras te oferecem 3 mil pra trabalhar em uma boca de seguran\u00e7a. O que tu vai pegar?\u201d, questiona Bortolotto.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>OU\u00c7A . Gilmar Bortolotto, procurador de Justi\u00e7a do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul, explica como acontece a coopta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h6>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-6388-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bortolotto.mp3?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bortolotto.mp3\">https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bortolotto.mp3<\/a><\/audio>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A soci\u00f3loga Camila Nunes Dias realizou uma <a href=\"http:\/\/www.espen.pr.gov.br\/arquivos\/File\/ArtigoPlural_CamilaCaldeiraNunesDias_1_.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pesquisa<\/a> em penitenci\u00e1rias de S\u00e3o Paulo durante os anos de 2003 e 2004 e identificou que o sistema prisional n\u00e3o admite uma variedade muito ampla no que se refere \u00e0s identidades poss\u00edveis para um apenado.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Segundo Camila, h\u00e1 dois mundos antag\u00f4nicos e opostos: o mundo do trabalho e o mundo do crime. Ao primeiro se associam as normas de conduta e valores que regulam a vida em sociedade de maneira geral.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Quem se identifica com o chamado \u201cmundo do trabalho\u201d se coloca \u00e0 margem de fac\u00e7\u00f5es criminosas e valorizam o trabalho, a fam\u00edlia, a edu\u00e7\u00e3o e tra\u00e7am planos para retornar \u00e0 sociedade. Mas isso n\u00e3o significa que esses presos n\u00e3o estejam tamb\u00e9m submetidos ao sistema normativo da cadeia, a que se chama de \u201cc\u00f3digo delinquente.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse conjunto de regras se baseia, especialmente, na lealdade aos pares e nas atividades ligadas ao com\u00e9rcio e uso de drogas dentro da cadeia &#8211; e o c\u00f3digo m\u00e1ximo \u00e9 n\u00e3o delatar o companheiro. Esses dois pilares s\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o ao segundo universo, o mundo do crime, e norteiam &#8211; mais do que as normas da administra\u00e7\u00e3o prisional &#8211;<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>as rela\u00e7\u00f5es dentro do sistema carcer\u00e1rio. Isso significa que o c\u00f3digo delinquente deve ser seguido \u00e0 risca por todos. \u201cA desobedi\u00eancia ou a infra\u00e7\u00e3o a alguma dessas regras ou leis acarreta san\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o desde agress\u00f5es f\u00edsicas at\u00e9 a morte do transgressor.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Camila ainda ressalta que quanto mais as fac\u00e7\u00f5es se organizam dentro do sistema, esse c\u00f3digo adquire formas mais perversas que diz respeito justamente ao fato de os l\u00edderes das organiza\u00e7\u00f5es criminosas se tornarem respons\u00e1veis pelo funcionamento do sistema social prisional.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span>Edson Ramiro da Silva havia sa\u00eddo da pris\u00e3o h\u00e1 apenas 19 dias quando conversou conosco. Permaneceu em regime fechado por 3 anos e 4 meses. Natural de S\u00e3o Leopoldo, foi preso por tr\u00e1fico de drogas. Cinco vezes. Ele garante que n\u00e3o pertencia \u00e0 nenhuma fac\u00e7\u00e3o, que era \u201cs\u00f3\u201d viciado. Mas tamb\u00e9m diz que isso durou pouco.\u201cTu vai pra dentro da galeria e aquilo \u00e9 uma escola do crime. N\u00e3o tem como n\u00e3o te envolver. Ou tu faz parte porque tu quer ou porque eles te obrigam. Eles te ajudam com coisas, com dinheiro, d\u00e3o apoio, \u00e0s vezes droga. E a\u00ed n\u00e3o tem o que fazer\u201d, contou.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cOu tu faz parte porque tu quer ou porque eles te obrigam. Eles te ajudam com coisas, com dinheiro, d\u00e3o apoio, \u00e0s vezes droga. \u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Edson Ramiro da Silva, ex-detento<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14px; text-align: justify; letter-spacing: 0px;\">Sobre o envolvimento com a fac\u00e7\u00e3o, fez mist\u00e9rio.\u00a0Disse que n\u00e3o tinha Jesus na vida, mas encontrou a salva\u00e7\u00e3o na palavra de Deus largou o crime. Foi inspirado por Eduardo, que conheceu na PEJ. Mas, segundo ele mesmo, a maioria n\u00e3o consegue se livrar.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_6442\" aria-describedby=\"caption-attachment-6442\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/PRIS\u00c3O-VALENDO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6442 size-full\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/PRIS\u00c3O-VALENDO.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1188\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/PRIS\u00c3O-VALENDO.jpg 2048w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/PRIS\u00c3O-VALENDO-768x446.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/PRIS\u00c3O-VALENDO-1536x891.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/PRIS\u00c3O-VALENDO-300x174.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/PRIS\u00c3O-VALENDO-1024x594.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6442\" class=\"wp-caption-text\">Penitenci\u00e1ria Estadual do Jacu\u00ed (PEJ) &#8211; Foto: Ge\u00f3rgia Santos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14px; text-align: justify; letter-spacing: 0px;\">O professor Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo explica que o mecanismo de coopta\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es dentro do ambiente carcer\u00e1rio ainda tem um efeito colateral externo: aumentam a viol\u00eancia urbana tanto na disputa de territ\u00f3rios quanto na pr\u00e1tica de outros crimes.\u00a0<\/span>Se a pol\u00edtica de guerra \u00e0s drogas adotada pelo Estado brasileiro \u00e9 equivocada porque gera um aumento desproporcional no n\u00famero de presos, ela tamb\u00e9m \u00e9 equivocada porque desencadeia uma s\u00e9rie de eventos violentos na sociedade. Hoje, se faz o enfrentamento do tr\u00e1fico pela apreens\u00e3o de drogas e pela pris\u00e3o de traficantes. Ou seja, utiliza-se o vi\u00e9s da repress\u00e3o. Mas n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica p\u00fablica que atue na desativa\u00e7\u00e3o do ponto de comercializa\u00e7\u00e3o e no tratamento do usu\u00e1rio viciado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O juiz da Vara de Execu\u00e7\u00f5es Criminais de Porto Alegre, Sidinei Brzuska, explica que isso culmina com o aumento da viol\u00eancia em uma l\u00f3gica perversa. \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o desativa o ponto e n\u00e3o trata o viciado, e voc\u00ea apreende a droga al\u00e9m de prender, voc\u00ea acaba descapitalizando aquele ponto &#8211; que segue ativo. Como esse ponto segue ativo e o traficante est\u00e1 descapitalizado, ele vai se capitalizar. E ele n\u00e3o vai buscar linha de cr\u00e9dito no BNDES ou na Caixa Federal, vai buscar o dinheiro na classe m\u00e9dia pela via do roubo. Ent\u00e3o, a apreens\u00e3o de drogas sem a desativa\u00e7\u00e3o do ponto e sem o tratamento do usu\u00e1rio, por via obl\u00edqua, gera roubo. Por isso voc\u00ea tem muito roubo de carro, de banco, de celular. Porque isso est\u00e1, pela via obl\u00edqua, suprindo a linha de cr\u00e9dito daquele ponto de tr\u00e1fico que n\u00e3o foi desativado. O dinheiro que abastece o tr\u00e1fico \u00e9 da classe m\u00e9dia, seja pelo consumo ou vitima de roubo\u201d, desenha. Isso sem contar que chega o momento em que a pris\u00e3o constante de traficantes gera uma desestabiliza\u00e7\u00e3o nos pontos de comercializa\u00e7\u00e3o. E a\u00ed partir da\u00ed surgem as disputas violentas por territ\u00f3rio, para ver quem assume o comando. E assim surgem as guerras de fac\u00e7\u00f5es que geram um aumento expressivo no n\u00famero de homic\u00eddios..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O juiz Brzuska n\u00e3o critica a pris\u00e3o dos traficantes, obviamente, mas aponta para a necessidade de desativa\u00e7\u00e3o concomitante dos pontos de venda a partir da elabora\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica multidisciplinar. \u201cA repress\u00e3o, pura e simples, n\u00e3o funcionar\u00e1 sem uma pol\u00edtica de arruamento, saneamento b\u00e1sico, de cultura, de lazer, de esporte, voc\u00ea precisa de uma a\u00e7\u00e3o transversal pra desativar aquele ponto\u201d, explica o magistrado.\u00a0\u00c9 preciso compreender, ent\u00e3o, que todo roubo e assalto est\u00e3o diretamente ligados \u00e0 guerra \u00e0s drogas. Ao tr\u00e1fico, sim, mas tamb\u00e9m \u00e0 forma com que se combate o tr\u00e1fico. \u201cO sujeito que vem roubar a p\u00e9, na corrida, \u00e9 viciado e s\u00f3 quer dinheiro. Mas o sujeito que j\u00e1 vem com outro carro, que tem arma, isso \u00e9 capitaliza\u00e7\u00e3o de boca\u201d, conta Brzuska.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com toda essa circula\u00e7\u00e3o, entre coopta\u00e7\u00e3o e capitaliza\u00e7\u00e3o, o movimento e demandas do tr\u00e1fico cresceram muito. Como consequ\u00eancia, os pres\u00eddios passaram a gerir uma quantidade gigante de dinheiro. Segundo Brzuska, os pres\u00eddios viraram o sistema banc\u00e1rio do tr\u00e1fico.\u00a0\u201cTu verifica isso aqui em Porto Alegre pela quest\u00e3o do fuzil. Dez anos atr\u00e1s, praticamente n\u00e3o tinha fuzil em Porto Alegre. Ele \u00e9 mais utilizado para fazer seguran\u00e7a da boca, e como \u00e9 uma arma cara, 30, 40, 50 mil, dependendo da arma, o traficante pequeno n\u00e3o consegue ter, porque \u00e9 um investimento muito caro. Ent\u00e3o esse traficante tem que entrar em rede para essa rede fazer a seguran\u00e7a do ponto. Sen\u00e3o ele n\u00e3o consegue competir. E no tr\u00e1fico, a fac\u00e7\u00e3o \u00e9 essa rede que d\u00e1 prote\u00e7\u00e3o e fornecimento. E esse dinheiro \u00e9 controlado de dentro da pris\u00e3o. O dinheiro circula digitalmente por dentro da pris\u00e3o. Todo o com\u00e9rcio \u00e9 controlado de dentro. Circula por ali. N\u00e3o t\u00e1 entrando malote de dinheiro, mas digitalmente esse dinheiro t\u00e1 circulando ali dentro.\u201d<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>OU\u00c7A . Sidinei Brzuska, juiz da VEC \u00a0de Porto Alegre, explica como os pres\u00eddios se tornaram o &#8220;sistema banc\u00e1rio do tr\u00e1fico&#8221;<\/strong><\/h6>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-6388-3\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Brzuska.mp3?_=3\" \/><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Brzuska.mp3\">https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Brzuska.mp3<\/a><\/audio>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">O dinheiro circula digitalmente por dentro da pris\u00e3o. Todo o com\u00e9rcio \u00e9 controlado de dentro. Circula por ali. N\u00e3o t\u00e1 entrando malote de dinheiro, mas digitalmente esse dinheiro t\u00e1 circulando ali dentro.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Sidinei Brzuska, Juiz da VEC de Porto Alegre<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as informa\u00e7\u00f5es que se tem a respeito do sistema penitenci\u00e1rio brasileiro d\u00e3o conta de que a cultura n\u00e3o \u00e9 de recupera\u00e7\u00e3o. Tanto \u00e9 assim que, segundo o procurador do MP-RS Gilmar Bortolotto, 70% dos presos voltam para a pris\u00e3o. \u201cQuando se olha para essa taxa de retorno, n\u00e3o se pode concluir que n\u00e3o adianta fazer nada porque os caras s\u00e3o ruins, mesmo. N\u00e3o adianta fazer nada, n\u00e3o. N\u00e3o estamos fazendo nada. E por isso a taxa \u00e9 de 70%\u201d, desabafa.\u00a0O soci\u00f3logo Rodrigo Azevedo ressalta, ent\u00e3o, a necessidade de mudar a receita. &#8220;N\u00f3s precisamos repensar a utiliza\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o para crimes em que ela realmente pode ter um efeito dissuas\u00f3rio preventivo, precisamos retirar o tema do mercado da droga, ou seja, pequenos traficantes presos n\u00e3o modificam em nada o problema e acabam at\u00e9 agravando pela superlota\u00e7\u00e3o e pelo fornecimento dessa m\u00e3o de obra \u00e0s fac\u00e7\u00f5es e esse talvez seja um tema priorit\u00e1rio em se tratando de superlota\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, h\u00e1 poucas alternativas. O procurador Bortolotto provoca. \u201cTu tem que te imaginar no lugar do preso e se perguntar: por que eu mudaria minha l\u00f3gica? O que me faria desistir do crime? Hoje, o que mais faz desistir do crime ainda \u00e9 religi\u00e3o &#8211; dentro da cadeia. Porque s\u00f3 tem isso\u201d. E s\u00f3 tem isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A coopta\u00e7\u00e3o de presos por fac\u00e7\u00f5es ocorre de duas formas: medo ou sedu\u00e7\u00e3o. A narrativa da sedu\u00e7\u00e3o se refere justamente \u00e0s juras e promessas que o Diabo faz ao Jesus humano de Saramago. Mas n\u00e3o esque\u00e7amos da fic\u00e7\u00e3o no autor portugu\u00eas, Deus lan\u00e7a m\u00e3o das mesmas estrat\u00e9gias para convencer Jesus a entregar a ele sua devo\u00e7\u00e3o. O Evangelho Segundo A Pris\u00e3o, funciona da mesma forma. O medo vem da narrativa de que o Jeov\u00e1 do antigo testamento \u00e9 cruel no julgamento do que se faz em vida, a menos que haja arrependimento daqueles que pecaram contra os mandamentos. A sedu\u00e7\u00e3o aparece quando as igrejas evang\u00e9licas neopentecostais estendem a m\u00e3o a apenados abandonados com juras e promessas que garantem cuidado, prote\u00e7\u00e3o, comida, roupas limpas e a garantia de uma vida de retid\u00e3o ao reencontrar a liberdade. Tanto o medo quanto a sedu\u00e7\u00e3o s\u00e3o insistentes, n\u00e3o aceitam n\u00e3o como resposta. Cercam os desesperados at\u00e9 que se rendam e se entreguem ao Senhor. Independente de qual seja.<\/p>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">AS IGREJAS.\u00a019 No Evangelho Segundo A Pris\u00e3o, a \u00fanica maneira de um apenado se recuperar no sistema prisional tradicional \u00e9 por meio da convers\u00e3o. 20 E evang\u00e9licos neopentecostais se apropriaram dessa oportunidade. 21 Por meio de uma narrativa que se assemelha \u00e0 das fac\u00e7\u00f5es no sentido que prometem melhorar a vida do preso em troca de lealdade, disputam adeptos com o crime organizado. 22 Prometem milagres e uma nova vida. 23 E, de fato, podem ser bem sucedidos.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_EzGYOyUm2U\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi tentando compreender o trabalho da igreja dentro das penitenci\u00e1rias que n\u00f3s conhecemos o Eduardo, que hoje \u00e9 pregador da Assembleia de Deus. O v\u00edcio em crack, j\u00e1 aos 17 anos, foi a porta de entrada para assaltos, mas o contato com o mundo do crime organizado n\u00e3o tardou. Embora ele n\u00e3o d\u00ea detalhes desse momento. &#8220;J\u00e1 tinha tido contato com in\u00fameras drogas. Mas o crack me escravizou. Comecei a roubar e, roubando, fui parar dentro de uma penitenci\u00e1ria.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eduardo nos recebeu na sala de sua casa, no bairro Primavera, em Novo Hamburgo, onde mora com a esposa, Fernanda, e os dois filhos pequenos, Maria e Eliel. Fazia muito calor, ent\u00e3o as portas estavam abertas. Ele mora no andar inferior de uma casa que n\u00e3o parece conclu\u00edda e fica nos fundos de um terreno amplo, com um p\u00e1tio grande e gramado bem verde. \u00c9 bastante confort\u00e1vel e fresca, um bom lugar para ficar no final do m\u00eas de novembro em uma regi\u00e3o em que as temperaturas s\u00e3o sempre altas nessa \u00e9poca do ano. Apesar do calor, ele estava bebendo chimarr\u00e3o. E eu aceitei uma cuia. Ele fala bastante, \u00e9 muito simp\u00e1tico e bem articulado e parecia empolgado em contar hist\u00f3rias sobre sua vida pregressa. &#8220;Eu n\u00e3o escondo meu passado, nem posso esconder, porque eu quero ajudar os outros. Como vou fazer isso se n\u00e3o falar do que eu passei?&#8221; Ele deu um salto da poltrona verde em que estava acomodado e come\u00e7ou a procurar por algo em uma gaveta. Em seguida alcan\u00e7ou um jornal local em que foi destaque. &#8220;Das drogas \u00e0 prega\u00e7\u00e3o&#8221;, dizia o t\u00edtulo da pe\u00e7a que contava a trajet\u00f3ria do cara que estava orgulhoso \u00e0 minha frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto \u00e9 assim que ele n\u00e3o estava sozinho. Ao lado dele estava Edson Ramiro da Silva, a quem conheceu quando estava preso na Penitenci\u00e1ria Estadual do Jacu\u00ed (PEJ). Edson estava na rua h\u00e1 apenas 19 dias, ent\u00e3o Eduardo estava &#8220;de olho&#8221; nele. Edson vestia um terno, fatiota completa. Eles notaram que eu estranhei aquela roupa toda em um dia em que a temperatura se aproximava dos 30 graus, mas logo explicaram. &#8220;Ele est\u00e1 pronto para o culto de logo mais. Vamos conosco?&#8221;, perguntou Eduardo. Vamos, sim, mas at\u00e9 l\u00e1, eu queria saber mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu nunca imaginei estar dentro de uma igreja, eu nunca pensei que eu entraria dentro de um pres\u00eddio pra falar do amor de Deus. Eu passava cada vez mais longe das igrejas. Quanto mais eu me aproximava da droga, mais eu me distanciava de Deus&#8221;, disse ele. Dentro da penitenci\u00e1ria, condenado a 7 anos e 4 meses de deten\u00e7\u00e3o, ele estava consumido pelo v\u00edcio at\u00e9 o dia em que recebeu uma visita do pai, que chorava e pedia pra ele deixasse de usar drogas. &#8220;Ele me dizia:\u00a0Eduardo, deixa de usar droga (chorando). Eu n\u00e3o tenho mais da onde tirar dinheiro, e se tu usar, eles v\u00e3o te matar. Porque eu mentia que eles iriam me matar e eles me davam mais dinheiro pra eu usar. Ele saiu chorando e no outro dia eu n\u00e3o usei mais.&#8221; Mas n\u00e3o foi um caminho f\u00e1cil. Segundo ele, foi o\u00a0l\u00edder de uma fac\u00e7\u00e3o conhecida do Vale dos Sinos que sugeriu que ele &#8220;desse um tempo&#8221; na galeria dos evang\u00e9licos. Foi assim que ele entrou em contato com o que ele chama de &#8220;palavra de Deus.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 outras igrejas evang\u00e9licas que realizam o trabalho de recupera\u00e7\u00e3o dentro das penitenci\u00e1rias, mas neste caso, a maior presen\u00e7a era a da Assembleia de Deus, que opera por meio do Minist\u00e9rio da Restaura\u00e7\u00e3o.\u00a0O soci\u00f3logo Clemir Fernandes <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/evangelicos-marcam-territorio-dentro-dos-presidios-do-rio-16251517\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">coordenou uma pesquisa<\/a> que constatou que os evang\u00e9licos s\u00e3o &#8220;incontestavelmente\u201d o grupo mais numeroso nos pres\u00eddios &#8211; principalmente no Rio de Janeiro. E os apenados evang\u00e9licos se destacam na multid\u00e3o. Vestem-se de forma diferente e se comportam de maneira distinta da maioria da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. Um \u201cirm\u00e3o\u201d, como s\u00e3o chamados, geralmente usa cal\u00e7a e camisa sociais e sapatos fechados, mesmo em dias quentes, e segue uma conduta discreta. A base \u00e9 a condu\u00e7\u00e3o de uma vida pura. O preso deve evitar aglomera\u00e7\u00f5es, jogos muitos competitivos e segue \u00e0 risca as recomenda\u00e7\u00f5es dos mission\u00e1rios. \u00c9 proibido consumir qualquer tipo de drogas e bebida alco\u00f3lica, a comida deve ser dividida e o espa\u00e7o deve estar sempre limpo. Na Penitenci\u00e1ria Estadual do Jacu\u00ed (PEJ), h\u00e1 inclusive uma galeria dedicada especialmente aos irm\u00e3os. E embora ilegal, a pr\u00e1tica de espa\u00e7os distintos para os presos evang\u00e9licos \u00e9 bastante comum em casas prisionais de todo o pa\u00eds (link reportagem globo). Esse diferencial \u00e9 um dos argumentos n\u00e3o ditos utilizados pelos evangelizadores que disputam a aten\u00e7\u00e3o dos presos com as fac\u00e7\u00f5es.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14px; text-align: justify; letter-spacing: 0px;\">No caso da PEJ, os membros mais antigos da igreja Estrela do C\u00e1rcere s\u00e3o designados como mission\u00e1rios e tem o dever de levar a palavra a outros setores da penitenci\u00e1ria, inclusive os mais perigosos, com o objetivo de conquistar devotos.\u00a0E esses devotos s\u00e3o disputados. De certa forma, com a mesma narrativa das fac\u00e7\u00f5es, garantindo prote\u00e7\u00e3o e cuidado. Mas a moeda de troca \u00e9 diferente: h\u00e1 regras r\u00edgidas presas \u00e0s paredes para que ningu\u00e9m se &#8220;desvie da palavra do senhor.&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi assim que Eduardo se tornou um pregador e decidiu abandonar a vida do crime. &#8220;Desde quando eu tomei uma posi\u00e7\u00e3o com Deus e decidi me converter, brotou um sentimento no meu cora\u00e7\u00e3o de n\u00e3o somente eu ser liberto, mas tamb\u00e9m de ajudar a tantos quanto eu tivesse a oportunidade&#8221;, explicou. Ele pediu licen\u00e7a para tomar um banho e se arrumar para o culto. Eu concedi, \u00e9 claro, e aguardei enquanto conversava com Edson, que me garantiu que s\u00f3 estava no crime porque n\u00e3o tinha a religi\u00e3o na vida. &#8220;O objetivo de Jesus dentro da cadeia \u00e9 que tu n\u00e3o volte pra ela&#8221;, diz. \u00a0Ele estava ansioso porque daria o seu depoimento no culto de logo mais, mas estava seguro de sua decis\u00e3o de n\u00e3o ceder \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es da facilidade que a vida do crime oferece. Natural de S\u00e3o Leopoldo, Edson n\u00e3o viveu uma vida de dificuldades, segundo ele, foi o v\u00edcio e a pregui\u00e7a que o seduziram. &#8220;Eu n\u00e3o fazia nada, n\u00e3o gostava de trabalhar, n\u00e3o entendi a nobreza do trabalho e o crime foi muito sedutor. Mas n\u00e3o vale a pena e Jesus me ajudou a enxergar isso.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eduardo ficou pronto, vestiu um terno cinza, camisa e gravatas escuras, cinto e sapato. Nos convidou para voltar depois, sua esposa estava preparando o jantar. &#8220;Crente n\u00e3o fuma e n\u00e3o bebe, mas come que \u00e9 uma beleza&#8221;, garante. N\u00f3s agradecemos, mas est\u00e1vamos curiosos pelo culto.\u00a0Chegando \u00e0 igreja, havia cerca de 30 pessoas aguardando pelo in\u00edcio da prega\u00e7\u00e3o. Algumas delas desesperadas. Conversei com uma senhora que n\u00e3o me disse o seu nome mas que mostrou suas l\u00e1grimas pelo filho que est\u00e1 preso. Ela n\u00e3o entendia porqu\u00ea, mas esperava que a Igreja pudesse ajud\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Especificamente naquela noite, o culto todo foi sobre o trabalho desenvolvido pela Assembleia de Deus dentro das Penitenci\u00e1rias. Foi um servi\u00e7o longo, com leituras, m\u00fasicas e serm\u00f5es, mas principalmente com os depoimentos de Edson e Eduardo. Os dois, com a \u00eanfase conhecida dos pregadores evang\u00e9licos, bradavam os caminhos penosos que suas vidas tra\u00e7avam at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s. Da mesma forma en\u00e9rgica, exaltavam a conquista que mudou suas vidas. Hoje, Eduardo trabalha com reciclagem de pneus e tem uma vida confort\u00e1vel. Mais do que isso, tornou-se um ativista da causa e da possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o de detentos por meio da f\u00e9. &#8220;Uma procuradora que fiscaliza os pres\u00eddios me disse: Eduardo, tu imaginou que um dia tu estaria sentado numa sala com as maiores autoridades do estado do Rio Grande do Sul? Eu olhei pra ela e disse: nunca imaginei. Mas doutora, a senhora imaginou que um dia, um rapaz que era viciado nas drogas, com sua vida totalmente destru\u00edda, eu fui encaminhado para o presidio pelo Instituto Psiqui\u00e1trico Forense, a senhora imaginou que um criminoso, ladr\u00e3o, drogado, b\u00eabado, mentiroso, sentaria em uma sala como essa pra tratar dos problemas das casas prisionais? Ela me disse que n\u00e3o. Ent\u00e3o quando a senhora se encontrar com um presidi\u00e1rio, lembra que ele querendo, Deus pega ele pela m\u00e3o e e coloca ele em lugares como esse&#8221;, disse em alto e bom som para que todos pudessem ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho, por\u00e9m, \u00e9 maior do que a prega\u00e7\u00e3o nas penitenci\u00e1rias. A igreja atua na recupera\u00e7\u00e3o de dependentes qu\u00edmicos por meio de comunidades terap\u00eauticas e ainda oferecendo amparo ao preso na quest\u00e3o jur\u00eddica. Para que eu pudesse ter dimens\u00e3o do alcance, Eduardo me convidou para assistir ao culto de Natal dentro da Penitenci\u00e1ria Estadual do Jacu\u00ed. Eu aceitei.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">O culto na penitenci\u00e1ria<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos \u00e0 PEJ \u00e0s nove horas da manh\u00e3 do dia 22 de dezembro de 2017. Uma sexta-feira quente, em que o mesmo dia se confundia entre estar ensolarado e nublado. Fomos os primeiros a \u00a0chegar. Cerca de meia hora depois, chegaram Eduardo, sua esposa, Fernanda, e mais um grupo de cerca de 15 pessoas da Igreja. Homens e mulheres, entre m\u00fasicos, ex-detentos pregadores e pastores que participariam do culto dentro da penitenci\u00e1ria. A revista foi rigorosa, como se espera de um pres\u00eddio. S\u00f3 podia entrar com a alian\u00e7a de casamento. O equipamento necess\u00e1rio para o culto j\u00e1 havia sido inspecionado e estava instalado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao entrar no p\u00e1tio da galeria 5\u00aa do A, a\u00a0cena \u00e9 surreal. Esque\u00e7a a imagem que tra\u00e7amos anteriormente, de um ambiente hostil, sujo e degradante. O p\u00e1tio de concreto lembra o de uma escola. Nas paredes, \u00e9 poss\u00edvel ler as mensagens: &#8220;Jesus Cristo te ama e quer te ajudar&#8221;; &#8220;Quanto mais se esfor\u00e7a em mudar, mais se evita sofrer&#8221;. Tamb\u00e9m h\u00e1 duas goleiras, um pouco de grama verde e desenhos de personagens famosos pintados nas paredes. Minnie Mouse, Homem-Aranha, Pica-Pau, Turma da M\u00f4nica, e at\u00e9 o Tigr\u00e3o e o Ursinho Pooh.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cadeiras pl\u00e1sticas espalhadas pelo p\u00e1tio e uma calma m\u00fasica instrumental tocando ajudam a confundir a cabe\u00e7a de quem est\u00e1 no p\u00e1tio de uma penitenci\u00e1ria. Estranhamente, \u00e9 o clima da sala de espera de um consult\u00f3rio de dentista a c\u00e9u aberto. Homens impacientes vestem cal\u00e7a social, sapato e camisa. Alguns est\u00e3o usando at\u00e9 gravata e caminham com a b\u00edblia na m\u00e3o. De um lado a outro do p\u00e1tio. Isso faz com que eu lembre que estou, efetivamente, em uma penitenci\u00e1ria. Eles caminham para frente e para tr\u00e1s, nesse mesmo espa\u00e7o restrito, porque \u00e9 o \u00fanico espa\u00e7o em que podem faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00fanico canto em que h\u00e1 sombra, quem n\u00e3o \u00e9 crente observa de longe, alguns com um sorriso ir\u00f4nico, outros apenas com desd\u00e9m. Mas a maioria olha de tr\u00e1s das grades de uma galeria em que ficam alguns dos detentos mais perigosos da PEJ. Eles gritam e provocam, mas nada abala aqueles homens que est\u00e3o ajoelhados, apoiando os cotovelos nas cadeiras pl\u00e1sticas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/JOELHO-VALENDO-MESMO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6444 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/JOELHO-VALENDO-MESMO.jpg\" alt=\"\" width=\"1334\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/JOELHO-VALENDO-MESMO.jpg 1334w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/JOELHO-VALENDO-MESMO-300x169.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/JOELHO-VALENDO-MESMO-768x432.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/JOELHO-VALENDO-MESMO-1024x576.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1334px) 100vw, 1334px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O culto come\u00e7a. O calor se intensifica. Todos respeitam.\u00a0 \u201cPorque a palavra de Deus, ela tem poder para restituir, para regenerar e dirigir o ser humano a uma vida de pela comunh\u00e3o com Deus, de ben\u00e7\u00e3os e de paz\u201d, diz Eduardo, que d\u00e1 in\u00edcio ao evento que est\u00e1 sendo gravado pela igreja. &#8220;Ser\u00e1 registrado para que n\u00e3o somente aqueles que est\u00e3o aqui dentro, mas para quem est\u00e1 na rua poder ver o agir miraculoso de Jesus Cristo, que pega um homem com a vida destru\u00edda, restitui ele, e coloca de p\u00e9 na sua presen\u00e7a\u201d, prega Eduardo, que lista as galerias de onde vem os irm\u00e3os que assistem ao culto naquele final de manh\u00e3 abafado. As pr\u00f3ximas duas horas seriam de prega\u00e7\u00e3o, depoimentos e esperan\u00e7a.\u00a0Marcos Aur\u00e9lio de Almeida, 42 anos, est\u00e1 h\u00e1 oito na PEJ. \u201cEu vim pegando uma pena do ano de 98 do Estado do Mato Grosso do Sul, e fiquei cativo aqui at\u00e9 2012. Em 2012 fui pro semi (aberto) de NH e fiquei at\u00e9 2013. Em maio de 2013 fui recolhido de volta \u00e0 penitenci\u00e1ria, respondendo a um assalto a banco.&#8221; Marcos era mission\u00e1rio, mas agora \u00e9 pastor em uma galeria, respons\u00e1vel por cerca de 30 irm\u00e3os, e considerado um exemplo de sucesso. &#8220;Eu cometi v\u00e1rios crimes, v\u00e1rias atrocidades. Assaltos a banco e outras coisas.\u00a0A ambi\u00e7\u00e3o do ser humano. Foi onde acabei me perdendo. Mas agora n\u00e3o existe chance de eu voltar pra esse mundo porque foram muitos anos de sofrimento.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a convers\u00e3o religiosa \u00e9 um processo complexo de transforma\u00e7\u00e3o que diz respeito a uma mudan\u00e7a radical de valores, cren\u00e7as, comportamento e na forma de interpretar os acontecimentos. E partindo do princ\u00edpio que os presos coexistem nos universos do crime e do trabalho, a convers\u00e3o religiosa, segundo a soci\u00f3loga Camila Nunes Dias se torna um processo de troca de mundos. Ou seja, o preso abandona as pr\u00e1ticas e valores do mundo do crime e adota as normas do mundo do trabalho a partir da \u00f3tica da igreja.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0&#8220;A Igreja come\u00e7a a mudar nossos pensamentos, nossa maneira de ser de agir&#8221;, diz Marcos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa frase \u00e9 um ponto-chave para entender um dos problemas da a\u00e7\u00e3o da Igreja dentro das penitenci\u00e1rias. Se por um lado oferecem um espa\u00e7o de acolhimento e recuperam criminosos, por outro, h\u00e1 a acusa\u00e7\u00e3o de &#8220;lavagem cerebral&#8221;, em que os detentos seriam ludibriados. Tanto \u00e9 assim que\u00a0a convers\u00e3o abrupta e radical geralmente ocorre por meio de um \u201cmilagre\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael Cristiano Gon\u00e7alves da Silva, de 32 anos, talvez seja o exemplo perfeito. Ele \u00e9 um dos detentos que faz a obra mission\u00e1ria no pavilh\u00e3o.\u00a0Preso por assalto, homic\u00eddio e tr\u00e1fico de drogas, disse que se converteu porque Deus \u00a0fez um milagre em sua vida. &#8220;Curou do HIV&#8221;. Ele ignora a comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de que a AIDS n\u00e3o tem cura. Rafael n\u00e3o acredita. &#8220;S\u00f3 quero fazer as coisas de Deus certinho, pra mim (sic) sair daqui uma nova pessoa.\u00a0Antes minha vida era nas drogas, escravizado. N\u00e3o sabia o que eu fazia, s\u00f3 droga e droga.\u00a0?Comecei com 12 anos. Me injetar na veia.\u00a0Me envolvi com o crime, fui pra Febem, depois fui pra cadeia, fiquei dois anos e oito meses no Pres\u00eddio Central. Depois passei pela PASC, Rio Grande, Bag\u00e9, Uruguaiana. Passei por diversas cadeias. Minha pena \u00e9 de\u00a025 anos e seis meses. Cumpri seis anos. Deus t\u00e1 fazendo uma obra grande na minha vida.\u00a0Pretendo sair daqui uma nova pessoa, construir uma fam\u00edlia. Deus me deu uma fam\u00edlia, uma esposa. Quero sair daqui e n\u00e3o quero voltar pro crime, voltar pra tr\u00e1s, s\u00f3 pra frente.&#8221; Durante um momento da prega\u00e7\u00e3o, ele disse que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser mission\u00e1rio dentro da penitenci\u00e1ria, mas que vale a pena. &#8220;Deus tem uma obra na vida de voc\u00eas, agora eu tava ali no meu canto, Deus falou comigo, tu ali, J., de bon\u00e9, tu mesmo, tu sabe o que Deus quer contigo&#8221;, provoca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso religioso ressignifica toda trajet\u00f3ria biogr\u00e1fica do preso, segundo Camila. O apenado que se converte \u00e0s igrejas evang\u00e9licas neopentecostais passa a ver o passado criminoso como um pecado, uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0s leis de Deus e a pris\u00e3o como um castigo e, ao mesmo tempo, como uma oportunidade para se regenerar. \u201cFiquei sete anos cativo, tenho um filho de 18 anos, um garoto muito educado, estudioso, minha esposa tamb\u00e9m \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de eu retroceder&#8221;disse Marcos, que pretende colocar um centro de recupera\u00e7\u00e3o para os jovens quando for solto.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A religi\u00e3o ainda reacomoda a perspectiva de um futuro para um detento, permite sonhar e planejar uma nova vida, um recome\u00e7o. No caso das neopentecostais, tamb\u00e9m conforma o apenado a executar mesmo um trabalho que ofere\u00e7a pouco prest\u00edgio social e pouco dinheiro, que \u00e9 visto como gan\u00e2ncia, pecado &#8211; embora as pessoas mais importantes dessas organiza\u00e7\u00f5es vivam vidas luxuosas. Rafael, por exemplo, quer voltar a ser vendedor ambulante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eduardo entende que essa miss\u00e3o \u00e9 sobre resgatar a humanidade que existe em cada um e sobre a possibilidade de todos encontrarem uma maneira de viver longe do crime. Mas \u00e9 uma possibilidade que s\u00f3 existe com uma compreens\u00e3o e empatia que v\u00eam de fora. Algo muito distante da frase preferida da sociedade brasileira, que diz que &#8220;bandido bom \u00e9 bandido morto&#8221;. Para Eduardo, n\u00e3o \u00e9 o caminho. &#8220;Uma pessoa que expressa tal express\u00e3o n\u00e3o tem um sentimento de amor pelo pr\u00f3ximo, ela se torna igual aquele que comete o tal crime. O mal n\u00e3o pode ser pago com o mal.&#8221; O culto acabou e todos voltaram para suas galerias. Os pregadores voltaram para casa, em liberdade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lib-valendo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6446 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lib-valendo.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1322\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lib-valendo.jpg 2048w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lib-valendo-1536x992.jpg 1536w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lib-valendo-300x194.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lib-valendo-768x496.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lib-valendo-1024x661.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2017, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul criou uma Comiss\u00e3o Especial para Tratar da Fun\u00e7\u00e3o Social das Igrejas nos Pres\u00eddios e Centros de Recupera\u00e7\u00e3o de Drogas no RS. O presidente da comiss\u00e3o era o deputado S\u00e9rgio Peres (Republicanos), a deputada Liziane Bayer (PSB) era a vice-presidente e o relator foi o deputado Mission\u00e1rio Volnei (PR). Como a alcunha do \u00faltimo j\u00e1 sugere, os tr\u00eas s\u00e3o vinculados a igrejas evang\u00e9licas neopentecostais, portanto, al\u00e9m do interesse p\u00fablico, tamb\u00e9m havia de fortalecer a imagem das organiza\u00e7\u00f5es \u00e0s quais pertencem. Peres, que se reelegeu para um novo mandato, \u00e9 pastor da Igreja Universal; Bayer, hoje deputada federal, \u00e9 pastora da Igreja Internacional da Gra\u00e7a de Deus; enquanto Mission\u00e1rio Volnei, que n\u00e3o se reelegeu, \u00e9 parte da Igreja Mundial do Poder de Deus.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o <a href=\"http:\/\/proweb.procergs.com.br\/anexos\/ANEXO_PR_0004_2017_1.PDF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relat\u00f3rio<\/a> apresentado em abril de 2017, os parlamentares visitaram sete casas prisionais. No Pres\u00eddio Central, o mais emblem\u00e1tico do Estado, a comiss\u00e3o identificou vinte \u201cdenomina\u00e7\u00f5es\u201d religiosas que promovem assist\u00eancia espiritual por meio de volunt\u00e1rios. Os encontros ocorrem na capela ecum\u00eanica do pres\u00eddio, na \u00e1rea de visitas e no p\u00e1tio do pres\u00eddio. A administra\u00e7\u00e3o do central informou \u00e0 equipe t\u00e9cnica que as fam\u00edlias tamb\u00e9m podem participar de eventos realizados em parceria com as igrejas. \u201cN\u00f3s conseguimos perceber a mudan\u00e7a de conduta do preso que faz uso da assist\u00eancia espiritual. Nesse segmento identificamos uma diminui\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel da reincid\u00eancia no crime e a inser\u00e7\u00e3o das pessoas no mercado de trabalho quando saem daqui\u201d, observou o ent\u00e3o diretor, tenente-coronel Marcelo Gayer. Da mesma forma que na Penitenci\u00e1ria Estadual do Jacu\u00ed, tamb\u00e9m h\u00e1 celas especiais chamadas de \u201cgaleria dos evang\u00e9licos\u201d ou \u201cgalerias dos irm\u00e3os\u201d, ocupada, \u00e0 \u00e9poca, por 115 detentos.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Penitenci\u00e1ria Modulada de Iju\u00ed, os trabalhos religiosos da Assembleia de Deus, Adventista e IURD s\u00e3o realizados aos s\u00e1bados e domingos, enquanto a Igreja Cat\u00f3lica promove assist\u00eancia aos detentos nas ter\u00e7as e sextas, duas vezes ao m\u00eas. No Pres\u00eddio Regional de Santa Maria, oito institui\u00e7\u00f5es religiosas atendem aos detentos em reuni\u00f5es que ocorrem \u00e0s segundas, quartas e sextas. Neste caso, 50 detentos s\u00e3o beneficiados com o aux\u00edlio espiritual. No Pres\u00eddio Regional de Caxias do Sul (antiga PICS), 12 institui\u00e7\u00f5es prestam assist\u00eancia religiosa diariamente.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Penitenci\u00e1ria Estadual Feminina de Gua\u00edba, o acesso ao acolhimento espiritual se d\u00e1 somente aos s\u00e1bados e quatro institui\u00e7\u00f5es se revezam. Ou seja, cada uma s\u00f3 tem acesso \u00e0s detentas uma vez por m\u00eas, segundo o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o. N\u00e3o \u00e0 toa, ouvem-se gritos que perguntam se \u201cs\u00e3o os homens de preto?\u201d ou \u201c\u00e9 dos Direitos Humanos?\u201d. N\u00e3o \u00e0 toa porque esse comportamento \u00e9 sempre um pedido de ajuda, sempre um indicativo de que \u00e9 mais uma casa prisional em que o Estado n\u00e3o cumpre com o m\u00ednimo.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Pres\u00eddio Regional de Santa Cruz do Sul, tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es promovem reuni\u00f5es aos s\u00e1bados. Neste caso, a visita t\u00e9cnica foi acompanhada pelo presidente do Conselho da Comunidade, Roberto Tailor Bandeira; pelo pastor da Assembleia de Deus Jorge Elemar de Souza; pelo representante da Igreja Universal Auri Andr\u00e9 Back; e pela evangelizadora Jaqueline da Silva Machado. A obreira da Igreja Internacional da Gra\u00e7a de Deus, \u00e0 qual pertence a deputada Liziane Bayer, relatou \u00e0 comiss\u00e3o &#8211; da mesma forma que Eduardo quando conversou conosco &#8211; que as igrejas prestam apoio de toda ordem, desde orienta\u00e7\u00e3o espiritual at\u00e9 assist\u00eancia social. \u201cPerante a sociedade, s\u00e3o presidi\u00e1rias. Mas assim como l\u00e1 fora as pessoas t\u00eam perfis diferentes entre si, aqui tamb\u00e9m h\u00e1 mulheres com lutas distintas, s\u00e3o m\u00e3es que querem nos falar dos problemas dos seus filhos. Algumas vezes conseguimos interceder para resolver quest\u00f5es de comportamento na escola, por exemplo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na Penitenci\u00e1ria Estadual de Canoas (complexo 1), h\u00e1 cultos di\u00e1rios comandados por pastores, evangelizadores ou organizados pelos pr\u00f3prios detentos da Galeria dos Crist\u00e3os, \u00e0 \u00e9poca ocupada por 124 homens. Al\u00e9m disso, volunt\u00e1rios da Igreja Universal e da Sociedade B\u00edblica do Brasil prestam assist\u00eancia nas celas de tr\u00eas galerias. No s\u00e1bado, h\u00e1 cerim\u00f4nias de batismo no p\u00e1tio da institui\u00e7\u00e3o, onde os apenados tamb\u00e9m contam com biblioteca de obras crist\u00e3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de todas as visitas t\u00e9cnicas resultarem em uma experi\u00eancia relativamente positiva no sentido de que, de alguma forma, todas as institui\u00e7\u00f5es disponibilizam o acesso \u00e0 assist\u00eancia religiosa, o<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>relat\u00f3rio final da comiss\u00e3o indica que, \u201cdevido \u00e0 falta de conhecimento por parte das dire\u00e7\u00f5es de diversos pres\u00eddios e, por n\u00e3o haver uma pr\u00e1tica de assist\u00eancia espiritual padronizada e regulamentada, vem se impedindo um trabalho frequente e permanente.\u201d Tanto que os parlamentares fazem uma s\u00e9rie de sugest\u00f5es para facilitar o trabalho dos evangelizadores dentro das pris\u00f5es. Uma delas \u00e9 que a Susepe tenha sob sua compet\u00eancia a \u201cRegulamenta\u00e7\u00e3o e Supervis\u00e3o da Assist\u00eancia Religiosa no Sistema Prisional\u201d. Isso significaria \u201ccadastrar, certificar, credenciar e autorizar religiosos devidamente subordinados \u00e0s igrejas que os apresentem formalmente, para desenvolver trabalho evangel\u00edstico junto ao sistema carcer\u00e1rio.\u201d Hoje, esse acesso n\u00e3o \u00e9 uniforme e, como se p\u00f4de ver acima, depende de cada estabelecimento. Al\u00e9m disso, os deputados ainda sugeriram<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>a assist\u00eancia religiosa como mat\u00e9ria curricular. O relator, que pertence a uma igreja evang\u00e9lica neopentecostal, entende que a \u201cinser\u00e7\u00e3o de uma Disciplina, sobre o Papel das Igrejas na Ressocializa\u00e7\u00e3o da Popula\u00e7\u00e3o Carcer\u00e1ria\u201d poderia ser mat\u00e9ria de estudo na forma\u00e7\u00e3o de servidores do sistema penitenci\u00e1rio.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas mesmo que a comiss\u00e3o formada por parlamentares que tamb\u00e9m s\u00e3o pastores evang\u00e9licos tenha encontrado alguns problemas para o acesso de volunt\u00e1rios a apenados, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais complexa quando se trata da Igreja Cat\u00f3lica. E o motivo \u00e9 bastante simples, as igrejas evang\u00e9licas focam na recupera\u00e7\u00e3o dos dependentes qu\u00edmicos e evangeliza\u00e7\u00e3o. O objetivo final \u00e9 aumentar o rebanho. Isso significa que n\u00e3o h\u00e1 interesse em discutir os problemas estruturais do sistema prisional. Tanto \u00e9 assim que a moeda de troca para atrair a devo\u00e7\u00e3o de um detento \u00e9 justamente a prote\u00e7\u00e3o e o cuidado em galerias especiais, roupas limpas, comida e celas organizadas. A parte da Igreja Cat\u00f3lica que trabalha com assist\u00eancia espiritual em pres\u00eddios, por outro lado, tem, por base, uma preocupa\u00e7\u00e3o com as condi\u00e7\u00f5es espaciais a que os presos s\u00e3o submetidos. Basicamente, preocupa-se em garantir, al\u00e9m da orienta\u00e7\u00e3o religiosa, a aplica\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">O privil\u00e9gio dos evang\u00e9licos<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relat\u00f3rio da Pastoral Carcer\u00e1ria de 2018 indica que em todo o Brasil h\u00e1 in\u00fameras justificativas para a restri\u00e7\u00e3o ao atendimento religioso em casas prisionais. A mais comum \u00e9 impor aos agentes pastorais um longo tempo de espera at\u00e9 a libera\u00e7\u00e3o da entrada. Frequentemente, com o pretexto da garantia da seguran\u00e7a, a visita pastoral \u00e9 impedida. Al\u00e9m da exig\u00eancia de que agentes pastorais sejam submetidos revista que, segundo o relat\u00f3rio, \u00e9 ilegal e vexat\u00f3ria. E para a Pastoral, as arbitrariedades que o Estado comete nesse sentido ocorrem em fun\u00e7\u00e3o da postura \u201cde n\u00e3o ser indiferente e sempre se comprometer com a defesa da dignidade e da vida humana<b>.\u201d<\/b><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PASTORAL-VALENDO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6437 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PASTORAL-VALENDO.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PASTORAL-VALENDO.jpg 1280w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PASTORAL-VALENDO-300x188.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PASTORAL-VALENDO-768x480.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Infogr\u00e1fico-PASTORAL-VALENDO-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/carceraria.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/2018.02.20_relatrio_assistncia-religiosa.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Em estudo realizado em 2017<\/a><i>, <\/i>40% dos entrevistados afirmam que a Pastoral Carcer\u00e1ria \u00e9 discriminada na unidade prisional ou que outras igrejas s\u00e3o priveligiadas. Relatos d\u00e3o conta de que existe uma diferen\u00e7a importante no tratamento entre as igrejas e que \u00e9 comum que agentes prisionais permitam a entrada de evang\u00e9licos e barrem a entrada de cat\u00f3licos.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>\u201cN\u00e3o consigo esquecer o dia 12 de outubro, dia da Nossa Senhora Aparecida, que fomos impedidas de entrar na unidade prisional e [outras igrejas] fizeram as visitas normalmente.\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>\u201c[Outra igreja] Entra com artigos religiosos com maior facilidade, tais como: livros e jornais em grande quantidade, \u00f3leo de cura.\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>\u201cAt\u00e9 o ano passado, enquanto n\u00f3s t\u00ednhamos s\u00f3 duas horas, outras igrejas ficavam l\u00e1 dentro o dia todo.\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>\u201cN\u00f3s podemos entrar com cinco pessoas, eles [outra igreja] entram com doze; n\u00f3s temos que entrar de chinelo e cal\u00e7a sem nenhum adere\u00e7o, enquanto eles entram de sapato fechado e roupa social.\u201d<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><i><span class=\"Apple-converted-space\">Vozes da Pastoral, depoimentos an\u00f4nimos de agentes da Pastoral Carcer\u00e1ria\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja Universal do Reino de Deus \u00e9 a pentecostal com maior influ\u00eancia dentro dos pres\u00eddios &#8211; seguida pelos minist\u00e9rios da Assembleia de Deus. A Universal Nos Pres\u00eddios (UNP) come\u00e7ou o trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais de 30 anos. O objetivo oficial \u00e9 \u201clevar Vida, por meio da Palavra de Deus, aos encarcerados, apoio espiritual e social, al\u00e9m de aux\u00edlio direto aos familiares deles.\u201d Mas o objetivo real \u00e9 atrair mais devotos \u00e0 igreja fundada por Edir Macedo.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Universal considera o trabalho com os presos t\u00e3o importante que, em 2012, a primeira apari\u00e7\u00e3o do bispo para o lan\u00e7amento de sua biografia foi em um pres\u00eddio. Tr\u00eas mil edi\u00e7\u00f5es do livro \u201cNada a perder\u201d foram doadas aos apenados do Centro de Deten\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria de Pinheiros (CDP 3), em S\u00e3o Paulo. \u201cAqui, n\u00e3o poderia deixar de vir. Para mim, \u00e9 muito importante.\u00a0Eu n\u00e3o posso dizer que \u00e9 um prazer entrar num lugar onde h\u00e1 sofrimento e dor. Paradoxalmente, \u00e9 um prazer porque a gente chega \u00e0s pessoas mais aflitas e \u00e9 como Jesus disse: \u201cOs s\u00e3os n\u00e3o precisam de m\u00e9dicos, mas os doentes\u201d, disse na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6447\" aria-describedby=\"caption-attachment-6447\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Presidio_destaque-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6447\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Presidio_destaque-1.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"523\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Presidio_destaque-1.jpg 460w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Presidio_destaque-1-300x196.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Presidio_destaque-1-110x73.jpg 110w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6447\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edir Macedo ainda organizou para que a vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica da biografia chegasse aos detentos de todo o pa\u00eds no ano passado. O filme \u201cNada a Perder retrata a saga do bispo fundador da Universal e foi exibido em penitenci\u00e1rias de todo o Brasil.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Universal ainda chega aos apenados por meio de um programa de r\u00e1dio chamado \u201cMomento do Presidi\u00e1rio\u201d, transmitido diariamente pela Rede Aleluia de R\u00e1dio. O novo projeto da igreja \u00e9 inaugurar espa\u00e7os espec\u00edficos dentro dos pres\u00eddios para a realiza\u00e7\u00e3o de reuni\u00f5es com os presos. No <a href=\"http:\/\/redealeluia.com.br\/unp-ha-mais-de-3-decadas-levando-o-evangelho-aos-encarcerados\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">site<\/a> da organiza\u00e7\u00e3o, a empreitada \u00e9 considerada um sucesso. \u201cO desafio tem dado t\u00e3o certo que, desde fevereiro de 2017, a Igreja tem empenhado esfor\u00e7os para abrir o maior n\u00famero de templos poss\u00edvel nas unidades prisionais de todo o Pa\u00eds e em diversas partes do mundo, como mostrou, recentemente, uma mat\u00e9ria especial do programa \u201cDomingo Espetacular\u201d, da Record TV.\u201d<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">Desconfian\u00e7a<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 quem pense que alguns dos presos que se mudam para a galeria dos irm\u00e3os est\u00e3o \u201cse escondendo atr\u00e1s da B\u00edblia\u201d. Esse foi um fen\u00f4meno que n\u00f3s pudemos notar em conversas com detentos da PEJ e refor\u00e7ado pela pesquisa da soci\u00f3loga Camila Nunes Dias. Eles o fazem por dois motivos: para poder viver na galeria dos irm\u00e3os e fugir do ass\u00e9dio das fac\u00e7\u00f5es e da parte da cadeia em que as celas n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de infraestrutura; ou para fugir de acertos de contas.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse fen\u00f4meno exp\u00f5e uma esp\u00e9cie de ambiguidade do presos evang\u00e9licos.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Se em um primeiro momento creditam a convers\u00e3o a motivos sobrenaturais, conforme a conversa se aprofunda, fica claro que alguns decidem se converter ap\u00f3s fato bastante concretos. Seja uma experi\u00eancia de quase morte em fun\u00e7\u00e3o das drogas ou ainda amea\u00e7as.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Ambiguidade essa que tamb\u00e9m se percebe no resultado &#8211; igrejas ajudam porque?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estudos que abordam a a\u00e7\u00e3o das igrejas no sistema prisional costumam focar as pesquisas na efic\u00e1cia no processo de ressocializa\u00e7\u00e3o. E essa \u00e9 uma narrativa refor\u00e7ada por autoridades que acompanham a rotina e o cotidiano das casas prisionais em todo o pa\u00eds. Como disse o procurador Gilmar Bortolotto, \u201cs\u00f3 tem isso\u201d. Em uma penitenci\u00e1ria abandonada pelo Estado, a convers\u00e3o \u00e9 a \u00fanica chance de ressocializa\u00e7\u00e3o. Nessa linha, h\u00e1 dois caminhos, segundo Camila Dias: ver a religi\u00e3o como um elemento moralizador que auxilia na recupera\u00e7\u00e3o do apenado; e entender esse movimento como um aproveitamento utilit\u00e1rio da igreja pelo preso que<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>teria benef\u00edcios em decorr\u00eancia de uma convers\u00e3o.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso repensar alternativas, por\u00e9m, porque de todo modo, a religi\u00e3o, com seus arb\u00edtrios e normas, n\u00e3o deixa de ser uma forma sutil de viol\u00eancia uma vez que se torna a \u00fanica alternativa a quem n\u00e3o quer pertencer a uma fac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">Investir em alternativas<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio Grande do Sul Gilmar Bortolotto afirma que n\u00e3o d\u00e1 para fazer pol\u00edtica p\u00fablica para quem s\u00e3o se conhece. &#8220;Os projetos vem de cima pra baixo, de gente que nunca pisou em uma cadeia mas quer impor coisas novas, mas t\u00e1 na cara que n\u00e3o vai funcionar, porque \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. &#8220;Vamos fazer um projeto pra os presos trabalharem.&#8221; Aonde? Fazendo o que?&#8221;, provoca Bortolotto. O caminho \u00e9 investir em alternativas que, obviamente, funcionem. Mas n\u00e3o \u00e9 um caminho simples.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ele, envolve cinco etapas.\u00a0<strong><em>1) Construir pres\u00eddios novos<\/em><\/strong>.\u00a0 \u201cNo espa\u00e7o velho, n\u00e3o implanta mais nada. Por que uma fac\u00e7\u00e3o deixaria o Estado fazer uma pol\u00edtica p\u00fablica diferente? Vai perder m\u00e3o-de-obra&#8221;, explica Bortolotto. Mas ele tamb\u00e9m ressalta que esse novo espa\u00e7o engloba um sistema inteiro, a come\u00e7ar pela segunda etapa, que \u00e9 <strong><em>2) Selecionar as pessoas<\/em><\/strong>. Isso significa que n\u00e3o adianta construir um novo espa\u00e7o e mandar presos faccionados para essa pris\u00e3o. &#8220;Escolher\u00a0os presos e implantar uma pol\u00edtica real que abra a porta para quem quer sair do crime e n\u00e3o entrar em fac\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental&#8221;, diz o procurador. \u00a0Isso envolve uma grande <em><strong>3) Mudan\u00e7a de Cultura<\/strong><\/em>, tanto para os detentos quanto para quem trabalha nas casas prisionais. &#8220;N\u00e3o adianta ir para pres\u00eddio novo e progredir para o semi-aberto em que enterram gente. Espa\u00e7o novo, cultura nova. Se disserem que v\u00e3o fazer algo novo em lugar faccionado, est\u00e3o mentindo, n\u00e3o vai acontecer&#8221;, garante Bortolotto. A mudan\u00e7a passa, ainda pela <em><strong>4)\u00a0Forma\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios<\/strong><\/em>, que deve ser diferente. Nesse aspecto, ao menos, j\u00e1 h\u00e1 uma melhora expressiva. A Superintend\u00eancia de Servi\u00e7os Penitenci\u00e1rios (Susepe) no Rio Grande do Sul, por exemplo, est\u00e1 recrutando servidores com n\u00edvel superior. &#8220;H\u00e1 20 anos, tinha gente que vinha atender a gente de cal\u00e7\u00e3o, chinelo de dedo, sem camisa e com uma arma na m\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 culpa do cara que t\u00e1 ali. Ele \u00e9 t\u00e3o abandonado quanto o preso&#8221;, conta o procurador. Por fim, \u00e9 fundamental <strong><em>5) Investir<\/em> em pol\u00edtica para egressos<\/strong>, criar centros de aten\u00e7\u00e3o, um v\u00ednculo pra fazer documentos, buscar emprego. Enfim, criar a ponte entre o detento e o Estado. &#8220;Tem gente que sai da cadeia e n\u00e3o tem nem como pegar um \u00f4nibus. Hoje a fac\u00e7\u00e3o d\u00e1 esse apoio. Ou a igreja.&#8221; E essa pol\u00edtica deve abra\u00e7ar, ainda, a quest\u00e3o da depend\u00eancia qu\u00edmica.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">APACS<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil, felizmente, tem um exemplo de pol\u00edtica penitenci\u00e1ria bem-sucedida, que s\u00e3o as Associa\u00e7\u00f5es de Prote\u00e7\u00e3o e Assist\u00eancia aos Condenados. A l\u00f3gica \u00e9 bastante simples. As pr\u00f3prias comunidades constituem uma associa\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos em que s\u00e3o agregadas as for\u00e7as da sociedade para recuperar e reintegrar os condenados. Essas pessoas ser\u00e3o as respons\u00e1veis, por meio de conv\u00eanios com o poder p\u00fablico, de administrar o estabelecimento. E funciona basicamente com trabalho volunt\u00e1rio. &#8220;A metodologia APAC fundamenta-se no estabelecimento de uma disciplina r\u00edgida, caracterizada por respeito, ordem, trabalho e o envolvimento da fam\u00edlia do sentenciado. A valoriza\u00e7\u00e3o do ser humano e da sua capacidade de recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma importante diferen\u00e7a no m\u00e9todo APAC&#8221;, \u00e9 o que diz no site da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gilmar Bortolotto conta que a m\u00e9dia de recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 de 80%. &#8220;\u00c9 impressionante, n\u00e3o tem guarda e o \u00edndice de fuga \u00e9 pr\u00f3ximo de zero. \u00c9 dif\u00edcil comunicar isso para as pessoas, mas funciona. O cara que vai na\u00a0malandragem n\u00e3o aguenta, porque vai ter atividade das 6h \u00e0s 22h. S\u00e3o oficinas, atividades para provocar reflex\u00e3o sobre o que o crime fez, quem levou junto, como a fam\u00edlia est\u00e1 suportando.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O M\u00e9todo APAC consistem em 12 elementos fundamentais: 1) A participa\u00e7\u00e3o da comunidade; 2) O recuperando ajudando o recuperando; 3) O trabalho; 4) Assist\u00eancia Jur\u00eddica; 5) Espiritualidade; 6) Assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade; 7) Valoriza\u00e7\u00e3o Humana; 8) A fam\u00edlia; 9) O volunt\u00e1rio e o curso para sua forma\u00e7\u00e3o; 10) Centro de Reintegra\u00e7\u00e3o Social (CRS); 11) M\u00e9rito; 12) Jornada de Liberta\u00e7\u00e3o com Cristo. Como se pode ver pelo \u00faltimo item, assim como a atua\u00e7\u00e3o das igrejas em penitenciarias, o m\u00e9todo APAC tamb\u00e9m precisa da f\u00e9.\u00a0Minas Gerais \u00e9 o estado que apresenta os melhores resultados. H\u00e1 40 APACs implantadas que abrigam 3 mil presos.\u00a0No Rio Grande do Sul, h\u00e1 APACs constitu\u00eddas em Canoas, Porto Alegre, Tr\u00eas Passos, Pelotas e Palmeira das Miss\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 fundamental, por\u00e9m, compreender que o processo de recupera\u00e7\u00e3o ocorre em etapas e \u00e9 extremamente lento. &#8220;Quando as pessoas pensam no que chamam de ressocializa\u00e7\u00e3o, elas imaginam que tu vai pegar um cara que \u00e9 um sujeito encrencado e aplicar uma coisa pra ele e ele vai virar uma freira em dois meses. N\u00e3o vai acontecer isso&#8221;, explica Bortolotto. O processo \u00e9 demorado e prev\u00ea o cumprimento de uma s\u00e9rie de etapas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8220;Um preso que eu conheci e era assaltante, por exemplo. Um dia ele foi l\u00e1 na promotoria e me disse: Oh, Dr. Gilmar, eu larguei o crime. Eu t\u00f4 s\u00f3 trabalhando com venda de CD. Entende? Quando o cara passa do assalto para a pirataria, ele est\u00e1 melhorando. S\u00e3o etapas, \u00e9 preciso compreender isso.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><b>24 Para poder pensar no futuro, o apenado precisa fazer uma escolha em um mundo bastante particular em que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel sobreviver sozinho. 25 E \u00e9 uma escolha ambivalente, assim como foi a do Jesus humano de Saramago. 26 Testado por Deus e o Diabo de forma\u00a0insistente e parecida. 27 Ele precisar\u00e1 servir a algum Senhor. 28 E se ele n\u00e3o quiser que esse senhor seja um l\u00edder de\u00a0fac\u00e7\u00e3o, 29\u00a0<\/b><b>a religi\u00e3o segue como a \u00fanica oportunidade\u00a0poss\u00edvel\u00a0de recupera\u00e7\u00e3o. 30 Fim do Evangelho Segundo a Pris\u00e3o.<\/b><\/h5>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Jos\u00e9 Saramago promove o encontro de Cristo com Deus e o Diabo. 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