{"id":6119,"date":"2019-07-15T15:45:59","date_gmt":"2019-07-15T18:45:59","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6119"},"modified":"2019-07-15T16:24:21","modified_gmt":"2019-07-15T19:24:21","slug":"abrindo-as-porteiras-da-diversidade-no-tradicionalismo-gaucho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6119","title":{"rendered":"Abrindo as porteiras da diversidade no tradicionalismo ga\u00facho"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Fui criado no campo. Tinha tudo para me tornar um tradicionalista de primeira linha. Cresci envolvido em todas as atividades do universo rural: acordar cedo para tirar leite de vaca, encilhar cavalo, brincar de la\u00e7ar vaca parada, colher ovos no galinheiro, dar lavagem aos porcos e tocar o gado para a mangueira. Na inf\u00e2ncia, era comum andar pilchado e comparecer aos rodeios e \u00e0s invernadas.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Aquele era o meu mundo. Sempre foi. Eu me sentia bem. Gostava do contato com a natureza, de pescar no a\u00e7ude, de tomar banho de valo, de conviver cercado de animais por todos os lados. Ainda hoje lembro de tudo e penso: \u201cComo era bom\u201d.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<h5 dir=\"ltr\" style=\"text-align: center;\">E por que mesmo deixou de ser?<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c0 medida em que eu ia crescendo, ficava cada vez mais evidente que eu n\u00e3o me encaixava naquele mundo. Meu comportamento se distanciava \u00e0 galope da r\u00edgida masculinidade esperada de um menino do campo no interior do Rio Grande do Sul.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A not\u00edcia da homenagem \u00e0 prenda transexual Gabriella Meindrar de Souza no CTG Cancela da Tradi\u00e7\u00e3o me encheu de esperan\u00e7a. Esperan\u00e7a de que muitos meninos e meninas por este Rio Grande afora consigam conciliar o estilo de vida rural &#8211; se for o que desejarem &#8211; com sua sexualidade ou identidade de g\u00eanero. Que possam viver em um ambiente seguro e acolhedor. Afinal existem muitos LGBTs no campo, na zona rural e nas fazendas, e o avan\u00e7o civilizat\u00f3rio \u00e9 impar\u00e1vel. Em algum momento todos os arm\u00e1rios ser\u00e3o rompidos, mesmo aqueles localizados nos rinc\u00f5es mais distantes do pa\u00eds.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/imagens_15620229047782.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6120 aligncenter\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/imagens_15620229047782.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/imagens_15620229047782.jpg 1200w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/imagens_15620229047782-300x200.jpg 300w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/imagens_15620229047782-768x512.jpg 768w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/imagens_15620229047782-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/imagens_15620229047782-270x180.jpg 270w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/imagens_15620229047782-370x247.jpg 370w, https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/imagens_15620229047782-110x73.jpg 110w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Foto:\u00a0<i><span class=\"imagemCredito\">Julian Kettermann (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/span><\/i><\/p>\n<p dir=\"ltr\">.<\/p>\n<h4 dir=\"ltr\">Tradicionalismo e discrimina\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de discrimina\u00e7\u00e3o no tradicionalismo ga\u00facho n\u00e3o \u00e9 recente, mas felizmente vem mudando. Em 2002 o folcl\u00f3rico Capit\u00e3o Gay, candidato a deputado pelo antigo PPB, atual PP, provocava a gauderiada ao se apresentar como um tradicionalista e militante pelos direitos dos homossexuais. Chegou a ser recebido a pedradas no Acampamento Farroupilha e surrado com relhos no desfile de 20 de setembro daquele ano.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 2008 o tradicionalista Ademir Canabarro publicou um artigo denunciando o \u201cavan\u00e7o assustador do homossexualismo\u201d no MTG. Sem meias palavras, saiu batendo as esporas, horrorizado com pe\u00f5es que dan\u00e7am nos CTGs \u201cdisputando com a prenda do\u00e7ura e meiguice\u201d, a tal ponto que parecem \u201cduas prendas dan\u00e7ando\u201d. Ecoando o sentimento da parcela mais atrasada do tradicionalismo, cravou que CTG n\u00e3o \u00e9 lugar para \u201ccultura homossexual\u201d.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">O presidente do MTG na \u00e9poca, Oscar Grehs, lamentavelmente assinou embaixo do artigo, alertando para o perigo da amea\u00e7a gay \u00e0 cultura ga\u00facha, que estaria determinada a \u201ctransformar os CTGs num mundo cor-de-rosa\u201d. Desesperado, chegou a dizer: \u201cQue Deus me tire a vida se o MTG virar isso&#8221;.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Quem pensa que essas bravatas s\u00e3o coisas do passado deveria dar uma olhada mais atenta ao presente. Em 2014 o CTG Sentinelas do Planalto, em Santana do Livramento, sofreu um atentado ap\u00f3s o an\u00fancio de que l\u00e1 seria realizado um casamento coletivo que contaria, entre tantos casais, com a celebra\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o entre duas mulheres. O local foi incendiado e o casamento acabou sendo transferido ao F\u00f3rum da cidade.<\/p>\n<h5 dir=\"ltr\" style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<h5 dir=\"ltr\" style=\"text-align: center;\">Por isso \u00e9 t\u00e3o importante que Gabriella tenha sido homenageada como a prenda que sempre foi<\/h5>\n<h5 dir=\"ltr\" style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Suas palavras traduzem bem o significado deste reconhecimento: \u201cSou e sempre serei aquela tradicionalista que ama nosso estado! Que este momento n\u00e3o seja tratado como afronta ao movimento, mas um momento de transforma\u00e7\u00f5es, desconstru\u00e7\u00f5es, para de um movimento mais fraterno, humano e igualit\u00e1rio\u201d, disse, repetindo as palavras estampadas na bandeira do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Pessoalmente, n\u00e3o sou um grande admirador do tradicionalismo. Tenho severas cr\u00edticas ao movimento e n\u00e3o compactuo com a romantiza\u00e7\u00e3o de uma suposta tradi\u00e7\u00e3o que se instituiu a ferro, fogo, escraviza\u00e7\u00e3o e misoginia em nosso Estado. Mas vou defender at\u00e9 o fim o direito que a popula\u00e7\u00e3o LGBT tem de estar onde ela quiser, inclusive no tradicionalismo ga\u00facho, se assim desejar.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Pe\u00f5es e prendas LGBTs ajudam a construir este movimento, algo reconhecido pela atual diretoria. \u00c9 muito positivo que o presidente do MTG, Nairo Callegaro, n\u00e3o repita os erros de seus antecessores e se coloque como algu\u00e9m disposto a tornar o tradicionalismo um ambiente mais acolhedor, sem compromisso com o preconceito.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><span id=\"m_-5276839142195875349gmail-docs-internal-guid-4e4b8bc9-7fff-e02d-a10a-f2fdb094a986\">A homenagem \u00e0 Gabriella n\u00e3o escapou \u00e0 insanidade destes tempos em que o \u00f3dio saiu do arm\u00e1rio. Brutamontes inconformados chegaram a amea\u00e7ar colocar fogo na sede do MTG, repetindo o atentado ao CTG em Santana do Livramento.<\/span><\/p>\n<h5 dir=\"ltr\" style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<h5 dir=\"ltr\" style=\"text-align: center;\"><span id=\"m_-5276839142195875349gmail-docs-internal-guid-4e4b8bc9-7fff-e02d-a10a-f2fdb094a986\">Pois eu digo que n\u00e3o haver\u00e1 brasa o suficiente para reduzir a p\u00f3 os avan\u00e7os civilizat\u00f3rios<\/span><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\">.<\/h5>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><span id=\"m_-5276839142195875349gmail-docs-internal-guid-4e4b8bc9-7fff-e02d-a10a-f2fdb094a986\">Que Gabriella e muitos outros abram as porteiras da diversidade no tradicionalismo e percebam que suas vozes importam para milhares de crian\u00e7as no interior do Rio Grande do Sul que, assim como eu, um dia sentiram que jamais poderiam conciliar quem s\u00e3o com o ambiente em que vivem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ps: J\u00e1 que estamos falando sobre a situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o LGBT no meio rural, n\u00e3o posso deixar de recomendar aqui a m\u00fasica perfeita do Gabeu: Amor Rural. Orgulho imenso dessa nova gera\u00e7\u00e3o de artistas que est\u00e1 desbravando fronteiras e quebrando paradigmas. Gabeu tomou para si a miss\u00e3o de ajudar a construir o pocnejo: uma esp\u00e9cie de sertanejo voltado ao p\u00fablico gay. E est\u00e1 indo muito bem! <\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0U-CxqgzCPU\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui criado no campo. Tinha tudo para me tornar um tradicionalista de primeira linha. 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