{"id":6072,"date":"2019-07-03T14:27:17","date_gmt":"2019-07-03T17:27:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6072"},"modified":"2019-07-03T14:34:50","modified_gmt":"2019-07-03T17:34:50","slug":"o-governo-bolsonaro-e-revolucionario-e-isso-nao-e-nada-bom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=6072","title":{"rendered":"O governo Bolsonaro \u00e9 revolucion\u00e1rio &#8211; e isso n\u00e3o \u00e9 nada bom"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jair Messias Bolsonaro est\u00e1 sendo uma figura revolucion\u00e1ria na pol\u00edtica brasileira.<\/strong> Gostando ou n\u00e3o das consequ\u00eancias disso, o fato \u00e9 esse, e s\u00f3 se torna poss\u00edvel compreender minimamente os primeiros seis meses do governo Bolsonaro a partir dessa constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse texto n\u00e3o vai ser uma viagem agrad\u00e1vel, ent\u00e3o pe\u00e7o que o leitor ou leitora tome f\u00f4lego antes de seguirmos em frente.<\/p>\n<p><strong>A partir do atual mandato, o presidencialismo de coaliz\u00e3o \u00e0 brasileira est\u00e1 encerrado.<\/strong> Esque\u00e7a os tempos do passado, quando os grupos pol\u00edticos constru\u00edam, por di\u00e1logo, compra ou coopta\u00e7\u00e3o, consensos que permitiam algum tipo de governabilidade: isso est\u00e1 no passado, e vai demorar para retornar plenamente, se \u00e9 que vai voltar um dia.<\/p>\n<h3>O Brasil de Bolsonaro prop\u00f5e uma nova pol\u00edtica: impositiva, onde a diverg\u00eancia s\u00f3 se manifesta enquanto conflito, onde o objetivo nunca \u00e9 convencer, mas sim coagir grupos divergentes a aderir a determinado pensamento. Ou, se isso for imposs\u00edvel, tentar fazer com que desapare\u00e7am.<\/h3>\n<p>O consenso nada significa para Bolsonaro. Sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica jamais teve qualquer interesse pela constru\u00e7\u00e3o: t\u00edpico deputado &#8220;do fund\u00e3o&#8221;, ele nunca liderou uma comiss\u00e3o, jamais defendeu projetos de lei minimamente significativos, migrou entre partidos e vendeu sua pr\u00f3pria candidatura sem nenhum constrangimento, dentro de suas pr\u00f3prias regras. A<strong> pol\u00edtica, para Bolsonaro, sempre foi um projeto pessoal e familiar &#8211; e poder\u00edamos acus\u00e1-lo de v\u00e1rias coisas nesses primeiros seis meses, mas jamais de estar agindo de forma incoerente.\u00a0<\/strong><\/p>\n<h2>O conflito \u00e9 mais que uma estrat\u00e9gia de governo: \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea e mais, o ethos e a alma desta administra\u00e7\u00e3o. Talvez possamos falar em um <span style=\"text-decoration: underline\">presidencialismo de crise<\/span>, em que a estabilidade e a resolu\u00e7\u00e3o de conflitos n\u00e3o s\u00e3o apenas menosprezadas, mas at\u00e9 mesmo indesej\u00e1veis para que o sistema siga em funcionamento.<\/h2>\n<p><strong>S\u00e3o dois processos b\u00e1sicos, em permanente sucess\u00e3o: deixar claro quem s\u00e3o os inimigos e manter os aliados sempre \u00e0 dist\u00e2ncia, tratando-os como transit\u00f3rios e descart\u00e1veis &#8211; livres, enfim, para serem arremessados para o lado advers\u00e1rio na primeira oportunidade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa<\/strong> que os mais recentes atos em favor do governo inclu\u00edram entre os inimigos do santo governo mesmo grupos como o MBL, que s\u00e3o tudo, menos esquerdistas. <strong>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa<\/strong> que aliados fundamentais, como o presidente da C\u00e2mara, Rodrigo Maia, sejam tratados como obst\u00e1culos do Executivo, ou que o STF esteja permanentemente acuado a cumprir sua \u00fanica fun\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel, que \u00e9 manter o ex-presidente Lula na cadeia. <strong>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa<\/strong> que Bolsonaro estava &#8220;por aqui&#8221; com Joaquim Levy, que o general Santos Cruz foi ridicularizado publicamente antes de ser afastado do governo, que o general Juarez Cunha foi afastado dos Correios por agir &#8220;como um sindicalista&#8221;.<\/p>\n<h2>No presidencialismo de crise bolsonarista, o conflito \u00e9 a assinatura, e nenhuma alian\u00e7a tem qualquer tipo de solidez.<\/h2>\n<p>Al\u00e9m da est\u00e9tica do enfrentamento permanente entre os Poderes, que aproxima o momento brasileiro de uma intermin\u00e1vel tentativa de sequestro, \u00e9 escancarada <strong>a falta de solidariedade e lealdade dentro da pr\u00f3pria gest\u00e3o<\/strong>. Como j\u00e1 disse aqui v\u00e1rias vezes, Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 l\u00edder, mas sim o avatar que representa v\u00e1rios grupos heterodoxos. Entre eles, a \u00fanica pauta comum \u00e9 o patriotismo ch\u00e3o e tosco, profundo como uma po\u00e7a d&#8217;\u00e1gua. Fora disso, n\u00e3o h\u00e1 interesse em construir nada, nenhum respeito a bandeiras alheias, sequer um gesto de considera\u00e7\u00e3o. <strong>Nem mesmo seus medos, \u00f3dios e preconceitos os aproximam, pois n\u00e3o s\u00e3o sempre os mesmos, e cada um reconhece o seu recalque como mais urgente que os demais.<\/strong> Nessa alian\u00e7a entre figuras que se desprezam, todos querem ser protagonistas, brigam \u00e0s cotoveladas para ver quem receber\u00e1 primeiro os aplausos da torcida.<\/p>\n<p><strong>Diante de t\u00e3o sufocantes exig\u00eancias de fidelidade, e com quase nenhuma lealdade oferecida em retribui\u00e7\u00e3o, quem vai ser aliado de Bolsonaro? <\/strong><\/p>\n<h3>A resposta \u00e9 simples: ningu\u00e9m.<\/h3>\n<p>A tend\u00eancia ser\u00e1 de pagar deslealdade com deslealdade, de tratar como descart\u00e1vel um governo incapaz de ser um aliado confi\u00e1vel.<\/p>\n<h3>E a\u00ed se imp\u00f5e a quest\u00e3o que Bolsonaro e seus apoiadores pr\u00f3ximos, sejam quais s\u00e3o, deveriam fazer: \u00e9 poss\u00edvel atuar em tantos campos de batalha ao mesmo tempo?<\/h3>\n<p>Dizer que Bolsonaro n\u00e3o conta com apoio popular seria uma tolice. Verdade que seus \u00edndices de popularidade s\u00e3o os mais baixos de um presidente rec\u00e9m-eleito desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, mas ainda h\u00e1 muita gente ao seu lado: os que desejam andar armados nas ruas, os que sentem-se oprimidos pela comunidade LGBT, os que acreditam que seus filhos correm risco real de doutrina\u00e7\u00e3o esquerdista nas escolas e universidades do pa\u00eds. <strong>Os que se agarram no patriotismo sem reflex\u00e3o e em gritos de guerra paup\u00e9rrimos para terceirizar o pr\u00f3prio senso cr\u00edtico est\u00e3o com Bolsonaro, e ao lado dele estar\u00e3o por bastante tempo ainda<\/strong> &#8211; afinal, ningu\u00e9m projeta tanto em um pretenso her\u00f3i para abandon\u00e1-lo no primeiro solavanco da viagem. Mas quem muito exclui pouco agrega, e os atos pr\u00f3-governo do dia 30 de junho &#8211; menores de p\u00fablico, inchados de inimigos &#8211; mostraram isso com clareza. E as manifesta\u00e7\u00f5es contra Bolsonaro, significativas e numerosas em todo o pa\u00eds, tamb\u00e9m entram nessa equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>N\u00e3o haver\u00e1 paz. Jair Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 o gerador de crises: ele \u00e9 a crise, ele a personifica e dela necessita para legitimar a pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/h2>\n<p>E nisso reside tamb\u00e9m o car\u00e1ter exaustivo de seu governo: sem a crise, ele \u00e9 um conjunto vazio. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso reproduzir o conflito o tempo todo, para que se discuta a tomada de tr\u00eas pinos ao inv\u00e9s de falar de um crescimento econ\u00f4mico \u00ednfimo ou de mais de 13 milh\u00f5es de desempregados no Brasil.\u00a0\u00a0<strong>A revolu\u00e7\u00e3o personificada em Bolsonaro \u00e9 feita apenas de pressa e \u00edmpeto, de tal forma que nem mesmo sua figura principal est\u00e1 no controle e at\u00e9 seu pr\u00f3prio l\u00edder \u00e9, em boa medida, dispens\u00e1vel.\u00a0<\/strong>Se deixada livre, tende a deixar somente terra arrasada em seu lugar &#8211; e por isso mesmo precisa ser temida, exposta, questionada e combatida.<\/p>\n<p><em>Foto:\u00a0Marcos Corr\u00eaa\/PR<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jair Messias Bolsonaro est\u00e1 sendo uma figura revolucion\u00e1ria na pol\u00edtica brasileira. 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