{"id":5992,"date":"2019-06-12T00:01:48","date_gmt":"2019-06-12T03:01:48","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5992"},"modified":"2019-06-12T00:02:21","modified_gmt":"2019-06-12T03:02:21","slug":"a-atualidade-de-fragmentos-de-um-discurso-amoroso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5992","title":{"rendered":"A atualidade de Fragmentos de Um Discurso Amoroso"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<ul>\n<li style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Amar em tempos de \u00f3dio \u00e9 revolucion\u00e1rio. Mas o que \u00e9 mais comum, nessa era de rela\u00e7\u00f5es descart\u00e1veis, \u00e9 o medo de expor sentimentos.\u00a0<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Enviar \u201cnudes\u201d \u00e9 cool, desnudar emo\u00e7\u00f5es \u00e9 brega<\/strong> \u00a0<\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Mas essa dificuldade de expressar est\u00e1 longe de ser um sintoma da p\u00f3s-modernidade. Em 1977, no livro <\/span><a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/roland-barthes\/fragmentos-de-um-discurso-amoroso\/430025025\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Fragmentos de Um Discurso Amoroso<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, o cr\u00edtico liter\u00e1rio e fil\u00f3sofo Roland Barthes, escrevia o seguinte pref\u00e1cio:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A necessidade deste livro funda-se na considera\u00e7\u00e3o seguinte: o discurso amoroso \u00e9 hoje de uma extrema solid\u00e3o. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas n\u00e3o \u00e9 sustentado por ningu\u00e9m; \u00e9 completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado n\u00e3o apenas do poder, mas tamb\u00e9m de seus mecanismos (ci\u00eancia, saberes, artes). Quando um discurso \u00e9 assim lan\u00e7ado por sua pr\u00f3pria for\u00e7a na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta al\u00e9m de ser o lugar, por ex\u00edguo que seja, de uma afirma\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O livro, uma esp\u00e9cie de enciclop\u00e9dia da linguagem amorosa, traz separadas por verbetes as situa\u00e7\u00f5es t\u00edpicas da vida de qualquer apaixonado. Os clich\u00eas amorosos s\u00e3o seguidos por cita\u00e7\u00f5es de cl\u00e1ssicos liter\u00e1rios e an\u00e1lises do pr\u00f3prio autor.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Escolhi para analisar aqui o verbete <strong>A Carta de Amor,\u00a0<\/strong>apesar do desuso da troca de correspond\u00eancias entre apaixonados. Por\u00e9m \u00e9 s\u00f3 substituir \u201ccarta\u201d por\u00a0 \u201ce-mail\u201d ou mensagem em aplicativos como \u201cwhatsapp\u201d e o resultado ser\u00e1 o mesmo.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Em um texto amoroso, o que precisamos \u00e9 de aceita\u00e7\u00e3o e acolhimento, independente do suporte escolhido para levar a mensagem. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Optei por fazer um recorte do cap\u00edtulo, um fragmento do fragmento, bem ao estilo do s\u00e9culo 21. Barthes me perdoaria (espero).<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">CARTA. A figura visa a dial\u00e9tica particular da carta de amor, ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (cheia de vontade de significar o desejo). [&#8230;]<\/span><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\"> Como desejo, a carta de amor espera sua resposta ; ela imp\u00f5e implicitamente ao outro de responder, sem o que a imagem dele se altera, se toma outra. \u00c9 o que explica com autoridade o jovem Freud \u00e0 sua noiva: &#8220;N\u00e3o quero por\u00e9m que minhas cartas fiquem sempre sem resposta, e n\u00e3o te escreverei mais se voc\u00ea n\u00e3o me responder. Eternos mon\u00f3logos sobre um ser amado, que n\u00e3o s\u00e3o nem ratificados nem alimentados pelo ser amado, acabam em ideias falsas sobre as rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas, e nos tomar\u00e3o estranhos um ao outro quando nos encontrarmos novamente, e acharmos ent\u00e3o as coisas diferentes do que, por n\u00e3o termos nos certificado delas, se imaginava.&#8221;<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A coluna Voos Liter\u00e1rios deseja a seus leitores que o Dia dos Namorados, mesmo sendo uma data comercial, sirva de incentivo para expressar o amor de todas as formas. N\u00e3o apenas na linguagem, t\u00e3o importante nesse momento em que a interpreta\u00e7\u00e3o de texto \u00e9 uma habilidade de poucos, mas tamb\u00e9m em atos concretos.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">E se o amor for daqueles que extravasam o cora\u00e7\u00e3o, quem sabe a data tamb\u00e9m n\u00e3o seja um incentivo para expressar o afeto para al\u00e9m das nossas bolhas familiares e de afeto. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 sempre tempo de deixar um livro de presente para um desconhecido em um lugar p\u00fablico ou doar uma roupa quentinha para algu\u00e9m que passa frio nas ruas enquanto sofremos por n\u00e3o ter uma resposta \u201cdaquela\u201d pessoa no whatsapp.<\/span><\/p>\n<p><em>Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amar em tempos de \u00f3dio \u00e9 revolucion\u00e1rio. 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