{"id":5954,"date":"2019-05-28T19:41:06","date_gmt":"2019-05-28T22:41:06","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5954"},"modified":"2019-05-28T19:41:06","modified_gmt":"2019-05-28T22:41:06","slug":"o-brasil-e-macondo-fora-do-tempo-e-sem-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5954","title":{"rendered":"O Brasil \u00e9 Macondo, fora do tempo e sem mem\u00f3ria?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O Brasil muitas vezes me parece imerso no realismo m\u00e1gico, um movimento liter\u00e1rio que tem como principal caracter\u00edstica a altern\u00e2ncia entre a lucidez e a loucura. H\u00e1 meses penso se comparar o monumental <\/span><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/anos-solid%C3%A3o-Gabriel-Garc%C3%ADa-M%C3%A1rquez\/dp\/8501012076?tag=goog0ef-20&amp;smid=A1ZZFT5FULY4LN&amp;ascsubtag=go_726685122_51601401518_242574450465_aud-519888259198:pla-434266638365_c_\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cem Anos de Solid\u00e3o<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, com o atual momento pol\u00edtico brasileiro n\u00e3o seria um desrespeito \u00e0 mem\u00f3ria e ao legado do genial escritor colombiano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Por\u00e9m, ao come\u00e7ar a pesquisa para escrever esse texto, deparei com diversas an\u00e1lises de especialistas em literatura que consideram o enredo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cem Anos de Solid\u00e3o <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">uma grande alegoria \u00e0 hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina. A repeti\u00e7\u00e3o e a circularidade temporal seriam ent\u00e3o met\u00e1foras para a realidade latinoamericana. Mais tranquila, prossegui na escrita dessa coluna.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Para quem ainda n\u00e3o leu esse cl\u00e1ssico, a obra mostra a trajet\u00f3ria de sete gera\u00e7\u00f5es dos Buend\u00eda, com repeti\u00e7\u00f5es de nome t\u00e3o frequentes que \u00e9 preciso estar atento para n\u00e3o se atrapalhar na leitura.\u00a0\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Na compara\u00e7\u00e3o que me permitirei fazer aqui sobre a obra de Garc\u00eda M\u00e1rquez e o Brasil, vou ressaltar uma caracter\u00edstica dos Buend\u00eda: o v\u00edcio de construir para destruir.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Aureliano Segundo foi um dos que mais fizeram para n\u00e3o se deixar vencer pela ociosidade. [&#8230;] Para n\u00e3o se chatear, entregou-se \u00e0 tarefa de consertar as numerosas imperfei\u00e7\u00f5es da casa. Apertou dobradi\u00e7as, lubrificou fechaduras, parafusou aldrabas e nivelou ferrolhos. [&#8230;] Vendo-o colocar os trincos e desmontar os rel\u00f3gios, Fernanda se perguntou se n\u00e3o estaria tamb\u00e9m caindo no v\u00edcio de fazer para desfazer, como o Coronel Aureliano Buend\u00eda com os peixinhos de ouro, Amaranta com os bot\u00f5es e a mortalha, Jos\u00e9 Arcadio Segundo com os pergaminhos e \u00darsula com as lembran\u00e7as.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>Assim como os Buendia, os pol\u00edticos brasileiros parecem ter o v\u00edcio de construir, para destruir e para construir novamente em seguida. Vamos tomar como exemplo as reforma trabalhista e previdenci\u00e1ria<\/strong><\/h5>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">lgu\u00e9m duvida que daqui a um tempo surja algum novo governante sugerindo recriar o que hoje est\u00e1 sendo eliminado? E talvez esse pol\u00edtico do futuro seja visto como um vision\u00e1rio, algu\u00e9m que finalmente pensou no futuro dos trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Falando em direitos trabalhistas, um epis\u00f3dio da hist\u00f3ria real colombiana que foi inserido no enredo \u00e9 o Massacre das Bananeiras, ocorrido em 1928, quando um n\u00famero desconhecido de trabalhadores foi morto pela pol\u00edcia. O motivo, a participa\u00e7\u00e3o em uma grande greve de funcion\u00e1rios de uma multinacional norte-americana, a United Fruits. Os grevistas foram considerados subversivos e comunistas e, por isso, foram assassinados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na vers\u00e3o ficcional, o massacre \u00e9 esquecido pelos sobreviventes do povoado de Macondo:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A vers\u00e3o oficial, mil vezes repetida e repisada em todo o pa\u00eds por quanto meio de divulga\u00e7\u00e3o o Governo encontrou ao seu alcance, terminou por se impor: n\u00e3o houve mortos, os trabalhadores satisfeitos tinham voltado para o seio das suas fam\u00edlias, e a companhia bananeira suspendia as suas atividades at\u00e9 passar a chuva. A lei marcial. continuava, prevendo que fosse necess\u00e1rio aplicar medidas de emerg\u00eancia para a calamidade p\u00fablica do aguaceiro intermin\u00e1vel, mas a tropa estava aquartelada. Durante o dia, os militares andavam pelas torrentes das ruas, com as cal\u00e7as enroladas na metade da perna, brincando de naufr\u00e1gio com as crian\u00e7as. De noite, depois do toque de recolher, derrubavam as portas a coronhadas, arrancavam os suspeitos das camas e os levavam para uma viagem sem regresso. Era ainda a busca e o exterm\u00ednio dos malfeitores, assassinos, incendi\u00e1rios e revoltosos do Decreto N\u00famero Quatro, mas os militares o negavam aos pr\u00f3prios parentes das suas v\u00edtimas, que atulhavam os escrit\u00f3rios dos comandantes em busca de not\u00edcias. \u2018Claro que foi um sonho\u2019, insistiam os oficiais. \u2018Em Macondo n\u00e3o aconteceu nada, nem est\u00e1 acontecendo nem acontecer\u00e1 nunca. \u00c9 um povoado feliz.\u2019 Assim consumaram o exterm\u00ednio dos l\u00edderes sindicais.\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>.<\/strong><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>Assim como na Macondo de Garc\u00eda M\u00e1rquez, o Brasil atual insiste em ignorar fatos hist\u00f3ricos e tentar reescrever a Hist\u00f3ria brasileira. <\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o houve ditadura. N\u00e3o houve tortura. N\u00e3o houve censura. (S\u00f3 pra quem mereceu&#8230;).\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Quantas gera\u00e7\u00f5es de Buendia brasileiros ser\u00e3o necess\u00e1rias at\u00e9 o Brasil acordar desse realismo m\u00e1gico, entre a lucidez e a loucura?<\/span><\/p>\n<p><em>Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o do quadro A Persist\u00eancia da Mem\u00f3ria, de Salvador Dali<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil muitas vezes me parece imerso no realismo m\u00e1gico, um movimento liter\u00e1rio que tem como principal caracter\u00edstica a altern\u00e2ncia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5955,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[800,419,1836,1794,734,1835],"class_list":["post-5954","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-voos-literarios","tag-brasil","tag-gabriel-garcia-marquez","tag-macondo","tag-memoria","tag-politica-brasileira","tag-realismo-magico"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5954"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5954\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5955"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}