{"id":5810,"date":"2019-04-02T13:16:43","date_gmt":"2019-04-02T16:16:43","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5810"},"modified":"2019-04-02T13:16:43","modified_gmt":"2019-04-02T16:16:43","slug":"ditaduranuncamais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5810","title":{"rendered":"#ditaduranuncamais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 55 anos, o Brasil ingressava em um per\u00edodo cruel de sua hist\u00f3ria, com os militares tomando o poder \u00e0 for\u00e7a, com tanques nas ruas e apoio de parte da classe m\u00e9dia e alta e da grande m\u00eddia. <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/alguma-coisa-esta-fora-da-ordem\/o-dia-da-mentira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A partir de 1\u00ba de abril de 1964<\/a>, iniciou-se um per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o no Brasil, com a cassa\u00e7\u00e3o de direitos pol\u00edticos de opositores; restri\u00e7\u00e3o de liberdades individuais; censura \u00e0s artes e aos meios de comunica\u00e7\u00e3o; e uma s\u00e9rie de outras medidas autorit\u00e1rias, inclusive pris\u00f5es extrajudiciais, o fim do habeas corpus, tortura, assassinatos e desaparecimentos .\u00a0<a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/podcast\/ouca-sobre-nos-tortura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A tortura de militantes de esquerda durante a Ditadura \u00e9 fato hist\u00f3rico.<\/a>\u00a0Afinal, os m\u00e9todos utilizados pelos militares para silenciar quem se opusesse ao regime est\u00e3o fartamente documentados e estudados pelo meio acad\u00eamico.<\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">Por\u00e9m, nesses tempos de p\u00f3s-verdade e <em>fake news<\/em>, temos parte da sociedade tentando encobrir e reinventar o passado<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/alguma-coisa-esta-fora-da-ordem\/eu-perguntei-ao-meu-avo-sobre-a-ditadura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Querem at\u00e9 tornar o dia do golpe militar em uma data festiva, como se houvesse realmente algo a ser comemorado. \u00a0<\/a><strong>Nesse cen\u00e1rio, o V\u00f3s e a coluna Voos Liter\u00e1rios aderem \u00e0 campanha #ditaduranuncamais.\u00a0<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">Em momentos como esse, mais do que nunca, \u00e9 preciso honrar a Hist\u00f3ria e a mem\u00f3ria para evitar que atrocidades como a Ditadura Militar voltem a acontecer. Por isso, al\u00e9m das manifesta\u00e7\u00f5es nas ruas, foram compartilhadas nas redes sociais livros e filmes com relatos sobre os 21 anos sem civis no poder no pa\u00eds, entre 1964 e 1985.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>.<\/p>\n<h4>Um homem torturado, um homem morto<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Destaco aqui o livro <\/span><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Um-homem-torturado-passos-Alencar-ebook\/dp\/B00LOTR8SS\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Um Homem Torturado &#8211; Nos Passos de Frei Tito de Alencar<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. A investiga\u00e7\u00e3o feita por <strong>Leneide Duarte-Plon<\/strong> e <strong>Clarisse Meireles<\/strong> conta a trajet\u00f3ria de<strong> Frei Tito<\/strong>, um religioso que<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">preferiu combater a ditadura com a for\u00e7a das ideias e da justi\u00e7a social. &#8220;Na Universidade de S\u00e3o Paulo, onde participava ativamente do movimento estudantil, Tito chegou a ter momentos de d\u00favida e de incerteza sobre a possibilidade de conciliar Marx e Cristo. Assim como Tito, outros frades foram encarcerados porque eram considerados \u00a0\u2018terroristas\u2019 por terem feito a \u2018op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres\u2019 pregada pelo Conc\u00edlio Vaticano II. Eram \u2018subversivos\u2019 por praticarem um Evangelho que tenta transformar o mundo. Eram \u2018perigosos\u2019 porque pregavam a liberdade e a igualdade. O \u2018\u00f3pio do povo\u2019 estava do outro lado, do lado da Igreja conservadora que n\u00e3o entendia aquele combate.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frei Tito foi preso, junto com outros religiosos, dentro do convento em que achava que sempre teria seguran\u00e7a. Os militares queriam Carlos Marighella, l\u00edder da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), e usaram os frades para isso. Ele foi levado algemado para a pris\u00e3o, na madrugada de 4 novembro de 1969:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Eram tr\u00eas horas da manh\u00e3. O provincial trocou de roupa diante de um policial armado, com a metralhadora apontada. Ao descer as escadas, viu frei Tito descendo j\u00e1 algemado, ao lado do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury. Este cercara o pr\u00e9dio de madrugada, dando in\u00edcio \u00e0 \u201cOpera\u00e7\u00e3o Batina Branca\u201d, que consistia na invas\u00e3o do Convento das Perdizes e na pris\u00e3o dos dominicanos. No claustro, o policial fez o provincial aguardar por alguns minutos, encostado na parede, de m\u00e3os para tr\u00e1s. Fleury deu ordem aos policiais para colocarem frei Tito no cambur\u00e3o dos presos. Frei Domingos foi no carro do delegado, juntamente com frei Edson. Receberam ordem de sentar-se no banco traseiro da viatura, entre dois policiais armados de metralhadoras. Fleury foi no banco da frente, ao lado do motorista. Al\u00e9m de Tito, foram levados o dominicano italiano Giorgio Callegari e frei S\u00e9rgio Lobo. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ao prender Tito, Fleury lhe disse: \u2014 Com gente da tua estirpe n\u00e3o temos piedade nenhuma. Somos pagos para isso. Sabemos que voc\u00ea tem muito para contar. Se n\u00e3o quiser falar, ser\u00e1 pior. Te torturaremos. No Deops, o delegado havia enfileirado todos os presos num corredor. Frei Domingos s\u00f3 reconheceu frei Ivo Lesbaupin pela camisa. O rosto estava totalmente deformado pela tortura.\u00a0<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000; font-family: Open Sans, Arial, sans-serif; font-size: large;\"><span style=\"caret-color: #000000; letter-spacing: -0.18000000715255737px;\"><b>Batismo de Sangue<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uhBemy_vXCk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria tamb\u00e9m est\u00e1 contada no livro de mem\u00f3rias Frei Betto, um dos frades da Ordem dos Dominicanos presos na mesma opera\u00e7\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Batismo-Sangue-Guerrilha-Carlos-Marighella\/dp\/8532520618\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Batismo de Sangue<\/a> &#8211; que tamb\u00e9m virou <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Batismo_de_Sangue\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">filme<\/a>, dirigido por Helv\u00e9cio Ratton (2006) &#8211; \u00e9 um dos relatos mais importantes e tocantes sobre os horrores da ditadura e conta a hist\u00f3ria dos Freis Tito, Betto, Oswaldo, Fernando e Ivo. Todos foram terrivelmente torturados, mas o caso do Frei Tito \u00e9 o mais emblem\u00e1tico e revoltante:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">P<i>ouco depois levaram-me para o pau-de-arara. Dependurado, nu, com m\u00e3os e p\u00e9s amarrados, recebi choques el\u00e9tricos, de pilha seca, nos tend\u00f5es dos p\u00e9s e na cabe\u00e7a. [&#8230;]<\/i><i>\u00a0Ao sair da sala, tinha o corpo marcado por hematomas, o rosto inchado, a cabe\u00e7a pesada e dolorida. Um soldado carregou-me at\u00e9 a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 mts, cheia de pulgas e de baratas. Terr\u00edvel mau cheiro, sem colch\u00e3o e cobertor. Dormi de barriga vazia obre o cimento frio e sujo.\u00a0<\/i><i>[&#8230;] Na cela, eu n\u00e3o conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabe\u00e7a dez vezes maior que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros religiosos sofrerem o mesmo. Era preciso p\u00f4r um fim \u00e0quilo. Sentia que n\u00e3o iria ag\u00fcentar mais o sofrimento prolongado. S\u00f3 havia uma solu\u00e7\u00e3o: matar-me.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p><strong style=\"color: #000000; font-family: 'Open Sans', Arial, sans-serif; font-size: 18px; letter-spacing: -0.01em; text-align: center;\">Frei Tito nunca se recuperou\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frei Tito n\u00e3o morreu naquele momento, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sobreviveu.\u00a0Al\u00e9m das marcas deixadas pela tortura f\u00edsica, as feridas emocionais sofridas nunca foram curadas. Cinco anos depois, j\u00e1 exilado na Fran\u00e7a, ele foi encontrado morto. A causa apontada foi suic\u00eddio.\u00a0\u00a0<span style=\"font-weight: 400;\">Sobre seu destino, escreveu o psquiatra Jean-Claude Rolland, em trecho do \u00a0livro <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Um-homem-torturado-passos-Alencar-ebook\/dp\/B00LOTR8SS\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i>Um Homem Torturado &#8211; Nos Passos de Frei Tito de Alencar<\/i><\/a>:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Tito de Alencar foi submetido a torturas de tal forma cru\u00e9is, n\u00e3o somente do ponto de vista f\u00edsico, mas tamb\u00e9m no n\u00edvel ps\u00edquico, foi t\u00e3o humilhado, que algo nele estava efetivamente morto. Na apar\u00eancia, ele estava vivo, mas de fato era apenas um sobrevivente. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que Tito de Alencar morreu no decorrer de suas torturas\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por esse e muitos outros motivos: Ditadura Nunca Mais! Tortura Nunca Mais!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 55 anos, o Brasil ingressava em um per\u00edodo cruel de sua hist\u00f3ria, com os militares tomando o poder \u00e0 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5823,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[1807,1801,829,1806,1798,1805,1628,1800,1547,1799],"class_list":["post-5810","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-voos-literarios","tag-batismo-de-sangue","tag-clarisse-meireles","tag-ditadura-militar","tag-frei-betto","tag-frei-tito","tag-golpe-de-64","tag-golpe-militar","tag-leneide-duarte-plon","tag-tortura","tag-um-homem-torturado-nos-passos-de-frei-tito-de-alencar"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5810","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5810"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5810\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5823"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5810"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5810"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5810"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}