{"id":5750,"date":"2019-02-26T20:43:28","date_gmt":"2019-02-26T23:43:28","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5750"},"modified":"2019-02-26T20:51:30","modified_gmt":"2019-02-26T23:51:30","slug":"mes-caio-f-carta-para-muito-alem-do-muro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5750","title":{"rendered":"M\u00eas Caio F. &#8211; Carta para muito al\u00e9m do muro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Imposs\u00edvel falar sobre o legado de Caio Fernando Abreu na literatura sem abordar seu h\u00e1bito compulsivo de escrever cartas para amigos, familiares e pessoas do meio cultural. Era uma forma de desabafar, parabenizar outros escritores por suas obras, divagar sobre o seu processo criativo ou simplesmente expressar afeto pelos amigos que fez nas diferentes cidades e pa\u00edses por onde passou ao longo de sua vida. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Importante ressaltar que era uma \u00e9poca ainda pr\u00e9-Intern\u00e9tica, apesar do advento da inform\u00e1tica ir avan\u00e7ando lentamente. Caio faleceu em 1996 e digitou seus \u00faltimos textos no Robocop, apelido carinhoso dado a um laptop que ele teve muita resist\u00eancia em usar, por achar mais f\u00e1cil seguir datilogrando sua querida m\u00e1quina de escrever, batizada de Virginia Woolf. Hoje em dia, provavelmente Caio F. escreveria e-mails e mensagens frequentes \u00a0pelo whatsapp, porque o que importava para ele era comunicar-se. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u00cdtalo Moriconi, estudioso respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do livro <\/span><a href=\"http:\/\/www.e-galaxia.com.br\/produto\/cartas\/\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Cartas<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, lan\u00e7ado em 2002, considera que essa correspond\u00eancia faz parte do trabalho de Caio como escritor, como comenta na introdu\u00e7\u00e3o dessa obra:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Na medida em que o trabalho de Caio era escrever, as cartas fazem parte do mesmo movimento produtivo de que brotam suas cr\u00f4nicas, suas fic\u00e7\u00f5es, suas pe\u00e7as teatrais. suas resenhas e mat\u00e9rias jornal\u00edsticas, assim como presumivelmente seu di\u00e1rio, ainda n\u00e3o revelado ao p\u00fablico. Tudo produto de um mesmo processo de vida se fazendo na escrita, enuncia\u00e7\u00e3o e enunciado condicionando-se mutuamente, escrita alimentado-se de vida, vida transcendida pelo simb\u00f3lico, met\u00e1fora que universaliza.\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<h3 style=\"text-align: center\"><strong>Em uma carta escrita \u00e0 amiga Maria L\u00eddia Magliani, Caio F. antecipa o desejo de revelar publicamente seu diagn\u00f3stico de HIV positivo. <\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Logo em seguida a essa carta, o escritor utiliza sua coluna no jornal <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O Estado de S\u00e3o Paulo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> para informar aos leitores sobre o assunto, um fato ainda considerado tabu na d\u00e9cada de 1990. <em>Primeira Carta Para Al\u00e9m dos Muros<\/em>,\u00a0 <em>Segunda Carta Para Al\u00e9m dos Muros<\/em> e <em>\u00daltima Carta Para Al\u00e9m dos Muros<\/em> s\u00e3o cr\u00f4nicas cheias de coragem e lirismo.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Os tr\u00eas textos podem ser encontrados no livro <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Pequenas-Epifanias-Caio-Fernando-Abreu\/dp\/852092526X\"><em>Pequenas Epifanias<\/em><\/a>, uma colet\u00e2nea com cr\u00f4nicas incr\u00edveis do escritor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mas \u00e9 em sua correspond\u00eancia que podemos ver seu primeiro movimento nesse sentido, o de n\u00e3o tornar a Aids um segredo. Na carta abaixo, publicada na \u00edntegra, Caio Fernando Abreu j\u00e1 demonstra a forma como encararia seu diagn\u00f3stico: sem medo, com um certo bom humor e revelando a gratid\u00e3o pelo carinhos dos que o rodeavam. E com um amor \u00e0 Vida renovado: \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">S\u00e3o Paulo, 16.8.94 <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Magli querida: <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Pois \u00e9, amiga. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Aconteceu \u2014 estou com aids \u2014 ou pelo menos sou HIV+ (o que parece + chique&#8230;), te escrevo de minha su\u00edte no hospital Em\u00edlio Ribas, onde estou internado h\u00e1 uma semana&#8230; Ah, Magli, que aventura. Voltei da Europa j\u00e1 mal \u2014 febres, suadores, perda de peso (perdi \u2014 imagina \u2014 oito quilos), manchas no corpo \u2014 e sem um tost\u00e3o. N\u00e3o vou te contar todos os detalhes dolorosos dos dois \u00faltimos meses \u2014 mas meu santo \u00e9 forte e mandou aquele nosso velho anjo da guarda chamado Gra\u00e7a Medeiros, vinda de NY porque o irm\u00e3o de S. [&#8230;] est\u00e1 terminal [&#8230;] Depois de pegar o teste positivo, fiquei dois dias \u00f3timo, maduro &amp; sorridente. Ligando pra fam\u00edlia e amigos, no 3o dia enlouqueci. Tive o que chamam muito finamente de \u201cum quadro de dissocia\u00e7\u00e3o mental\u201d. Pronto-Socorro na bicha: acordei nu amarrado pelos pulsos numa maca de metal&#8230; Frances Farmer, Zelda Fitzgerald, Torquato Neto: por a\u00ed. Tiraram l\u00edquido da minha espinha, esquadrinharam meu c\u00e9rebro com computador, furaram as veias, enfiaram canos (tenho um no peito, j\u00e1 estou \u00edntimo do trip\u00e9 met\u00e1lico que chamo de \u201cCallas\u201d, em homenagem a Tom Hanks) etc. etc. N\u00e3o tenho nada, s\u00f3 um HIV onipresente e uma erup\u00e7\u00e3o na pele (citomegalov\u00edrus) que cede pouco a pouco&#8230; Maria L\u00eddia, nunca pensei ou sempre pensei: por contas e hist\u00f3rico infeccioso feito com o m\u00e9dico, tenho isso h\u00e1 dez anos. E pasme. Estou bem. Nunca tive medo da morte e, al\u00e9m disso, acho que Deus est\u00e1 me dando a oportunidade de determinar prioridades. E eu s\u00f3 quero escrever. Tenho uns quatro\/cinco livros a parir ainda, ch\u00ea. Surto criativo tipo Derek Jarman, Cazuza, Herv\u00e9 Guibert, Cyrill Collard. E estou cercado de anjos. Minha irm\u00e3 Cl\u00e1udia \u2014 sempre a mais brava e bela \u2014 veio de POA. Ficou dois dias. Todos da fam\u00edlia lidam bem com a coisa. Nair, a espantosa, n\u00e3o ficou nada chocada: j\u00e1 sabia&#8230; s\u00f3 ela sabia. Mas nunca duvide de m\u00e3es. E amigos \u00f3timos, visita todas as tardes, muito amor, ma\u00e7\u00e3s e chocolates.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ganhando alta aqui, mais uma semana, vou para POA. Quero ganhar for\u00e7as para enfrentar Frankfurt e dois congressos na Fran\u00e7a em outubro\/novembro. N\u00e3o sinto nenhum rancor, nenhuma m\u00e1goa. Chorei algumas vezes porque a vida me d\u00e1 pena, e \u00e9 t\u00e3o bonita. Passeio pelos corredores da enfermaria e vejo cenas. Figuras estarrecedoras. Saio dessa mais humano e infinitamente melhor, mais paciente \u2014 me sinto privilegiado por poder vivenciar minha pr\u00f3pria morte com lucidez e f\u00e9. Te amo muito. [&#8230;] Beije Marij\u00f4 por mim (adoro escrever Marijot). <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Nada disso \u00e9 segredo de Estado, se algu\u00e9m quiser saber, diga. Quero ajudar a tirar o v\u00e9u de hipocrisia que encobre este v\u00edrus assassino. Mas creia, estou equilibrado, sereno, e \u00e0s vezes at\u00e9 feliz. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Muito amor, seu Caio F. (finalmente um escritor positivo!) <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">PS: Ou\u00e7o muito Maria Callas, sobretudo a \u00e1ria final da Butterfly, que Augusto me deu. Dif\u00edcil ouvir outra coisa. PS: N\u00e3o se preocupe. N\u00e3o fique triste. Tudo me parece muito l\u00f3gico: Que outra morte eu poderia ter? \u00c9 a minha cara! E futilidade sempre foi mat\u00e9ria de salva\u00e7\u00e3o: convenhamos que \u00e9 muito moderno, muito in&#8230; S\u00f3 choro \u00e0s vezes porque a vida me parece bela (O sol. As cores. As coisas). Mas \u00e9 de emo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de dor. T\u00e1 tudo certo. Love\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A coluna Voos Liter\u00e1rios prestou, durante o m\u00eas de fevereiro, uma homenagem ao escritor Caio Fernando Abreu. Foram textos que lembraram a trajet\u00f3ria do autor como <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/mes-caio-f-a-heranca-maldita-da-ditadura\/\">cronista<\/a>,<a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/mes-caio-f-sobrevivendo-ao-mofo\/\"> contista<\/a> e <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/mes-caio-f-um-arco-iris-em-meio-a-dias-nublados\/\">dramaturgo<\/a>. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O assunto est\u00e1 longe de esgotar-se. Caio vive. Nas redes sociais, em eventos em sua homenagem e tendo cada vez mais leitores na nova gera\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><em>Foto:\u00a0 Reprodu\u00e7\u00e3o\/Internet<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imposs\u00edvel falar sobre o legado de Caio Fernando Abreu na literatura sem abordar seu h\u00e1bito compulsivo de escrever cartas para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5751,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[1772,903,188,1770,1100,1112,1771],"class_list":["post-5750","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-voos-literarios","tag-aids","tag-caio-f","tag-caio-fernando-abreu","tag-carta-para-alem-dos-muros","tag-cartas","tag-italo-moriconi","tag-maria-lidia-magliani"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5750","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5750"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5750\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5751"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5750"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5750"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5750"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}