{"id":5727,"date":"2019-02-19T13:45:16","date_gmt":"2019-02-19T16:45:16","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5727"},"modified":"2019-02-19T13:50:22","modified_gmt":"2019-02-19T16:50:22","slug":"mes-caio-f-um-arco-iris-em-meio-a-dias-nublados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5727","title":{"rendered":"M\u00eas Caio F.  &#8211; Um arco-\u00edris em meio a dias nublados"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Fevereiro \u00e9 m\u00eas de homenagem da coluna Voos Liter\u00e1rios ao escritor e jornalista Caio Fernando Abreu. J\u00e1 abordamos Caio F. como <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/mes-caio-f-a-heranca-maldita-da-ditadura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cronista<\/a> e <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/mes-caio-f-sobrevivendo-ao-mofo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">contista<\/a>. A obra do Caio dramaturgo talvez n\u00e3o seja t\u00e3o pop nas redes sociais mas representa uma parte significativa de seu legado. O autor tinha uma rela\u00e7\u00e3o muito \u00edntima com o teatro, tendo chegado a frequentar &#8211; sem concluir &#8211; o curso de Artes Dram\u00e1ticas da UFRGS (o mesmo aconteceu com a faculdade de Letras).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ainda muito jovem, Caio F. chegou a atuar nos palcos e tinha uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima com diretores, atores e grupos teatrais. Por isso, nada mais natural que seus textos fossem encenados em diferentes ocasi\u00f5es. Caio escreveu predominantemente para o p\u00fablico adulto mas me deterei em um texto aparentemente ing\u00eanuo destinado \u00e0s crian\u00e7as: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Comunidade do Arco-\u00cdris<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O espet\u00e1culo estreou em Porto Alegre em 1979, sob dire\u00e7\u00e3o de Suzanha Saldanha. A Comunidade do Arco-\u00cdris \u00e9 um ref\u00fagio para a Sereia, a Bruxa de Pano, o Soldadinho, a Bailarina, o M\u00e1gico e Roque, um guitarrista de rock n\u2019roll. Todos vivem em harmonia nesse local id\u00edlico em meio \u00e0 Natureza.<\/span><\/p>\n<p>.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify\"><strong>Apesar de ter passado a vida garantindo n\u00e3o gostar de crian\u00e7as (a quem chamava de \u201ccrion\u00e7as\u201d), Caio conseguiu abordar com habilidade para o p\u00fablico infantil assuntos complexos como ecologia, democracia e guerra, inserindo-os dentro da trama de forma convincente.<\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um exemplo dessas sacadas do autor em fazer conex\u00f5es da fantasia com o mundo real \u00e9 o momento dos personagens\u00a0 explicarem porque resolveram morar na Comunidade. A Sereia aproveita para fazer uma cr\u00edtica \u00e0 falta de cuidado de empresas com o descarte de res\u00edduos no meio ambiente:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"> &#8211; Eu estava cansada da polui\u00e7\u00e3o. Voc\u00eas sabem, essas ind\u00fastrias e f\u00e1bricas que vivem derramando porcarias nos rios e mares. Os meus primos peixes, coitados, estavam morrendo todos. Eu vivia suja de \u00f3leo. [&#8230;] Agora, aqui, moro numa lagoa limpinha e sem polui\u00e7\u00e3o nenhuma.&#8221;<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O Soldadinho justifica sua sa\u00edda do Reino dos Homens por preferir a paz:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">&#8211; Porque eu n\u00e3o tinha voca\u00e7\u00e3o nenhuma pra guerra. E l\u00e1 tem guerra o tempo todo. Bombas, tanques, as pessoas se matando, um horror. O meu sonho era ser jardineiro. Aqui eu posso ter meu regador e molhar as flores todos os dias. Melhor do que ficar matando gente por a\u00ed, n\u00e3o \u00e9?&#8221;<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Outro momento do enredo em que Caio F. aproveita para abordar cidadania com a crian\u00e7ada \u00e9 depois da confus\u00e3o provocada pela chegada ao local de 3 agitados macacos, que pedem para morar na Comunidade, porque n\u00e3o aguentam mais a bagun\u00e7a da cidade. Os moradores da Comunidade do Arco-\u00cdris demoram para chegar a um consenso, at\u00e9 surgir uma ideia:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">SOLDADINHO &#8211; Desculpe, mas tenho uma solu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">BRUXA &#8211; Demo o qu\u00ea?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">SOLDADINHO &#8211; De-mo-cr\u00e1-ti-ca. Todo mundo tem direito de dar sua opini\u00e3o. A maioria vence. Vamos votar?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">OS TR\u00caS [macacos] &#8211; Isso mesmo! Democracia, queremos a democracia!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">M\u00c1GICO &#8211; Acho que \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o mais honesta.&#8221;<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A sugest\u00e3o, banal para nossos olhos do s\u00e9culo 21, pode ser vista como um pouco subversiva, j\u00e1 que em 1979 ainda est\u00e1vamos vivendo sob um regime ditatorial no Brasil e nem todos os adultos achavam que a democracia era \u201ca solu\u00e7\u00e3o mais honesta\u201d para o pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A Comunidade do Arco-\u00cdris tem uma reviravolta interessante em seu desfecho, mas n\u00e3o vou estragar a surpresa para quem ficou interessado em sua leitura. A obra foi lan\u00e7ada recentemente em uma <a href=\"https:\/\/www.americanas.com.br\/produto\/114286326\/livro-a-comunidade-do-arco-iris?WT.srch=1&amp;acc=e789ea56094489dffd798f86ff51c7a9&amp;epar=bp_pl_00_go_liv_todas_geral_gmv&amp;gclid=Cj0KCQiAzKnjBRDPARIsAKxfTRAwGqYz7IBb9QwVdR9MHw4FnWRfDeevtMzMTE0Xtx4uoUdh79SLWlAaAlGBEALw_wcB&amp;i=5612cbe46ed24cafb5cae011&amp;o=55cec69c9c3238c7d1b780fd&amp;opn=YSMESP&amp;sellerId=00776574000660\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vers\u00e3o ilustrada<\/a> mas tamb\u00e9m pode ser lida tamb\u00e9m no livro <a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/caio-fernando-abreu\/teatro-completo\/3512090770\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Teatro Completo<\/em><\/a>. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">De 1979 at\u00e9 os dias atuais, o texto para teatro infantil de Caio F. ganhou diversas montagens, demonstrando a import\u00e2ncia das tem\u00e1ticas abordadas. E tamb\u00e9m, o qu\u00e3o pouco evolu\u00edmos, por exemplo, no descaso de empresas com o meio ambiente (vide o descaso da Vale que resultou na trag\u00e9dia de Brumadinho, s\u00f3 para ficar no epis\u00f3dio mais recente). E<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0a democracia, exaltada pelos moradores da Comunidade do Arco-\u00cdris, vem sendo constantemente amea\u00e7ada em pleno 2019, com muitos militantes dos direitos humanos tendo que autoexilar-se, com medo de serem mortos como Marielle Franco.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Em momentos de desesperan\u00e7a, resta-nos a aposta nas futuras gera\u00e7\u00f5es. E \u00e9 por isso que textos como esse de Caio F. s\u00e3o indicados sem modera\u00e7\u00e3o para a crian\u00e7ada. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para fechar o m\u00eas de homenagens a Caio Fernando Abreu, na semana que vem recordaremos um dos h\u00e1bitos mais c\u00e9lebres do autor: a escrita de cartas para amigos e familiares.<\/span><\/p>\n<p><em>Foto: Darren Lewis \/ Public Domain Pictures<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fevereiro \u00e9 m\u00eas de homenagem da coluna Voos Liter\u00e1rios ao escritor e jornalista Caio Fernando Abreu. J\u00e1 abordamos Caio F. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5728,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[1765,903,188,1750,1764,753],"class_list":["post-5727","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-voos-literarios","tag-a-comunidade-do-arco-iris","tag-caio-f","tag-caio-fernando-abreu","tag-mes-caio-f","tag-teatro-completo","tag-teatro-infantil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5727","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5727"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5727\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5728"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5727"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5727"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5727"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}