{"id":5705,"date":"2019-02-12T17:38:24","date_gmt":"2019-02-12T19:38:24","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5705"},"modified":"2019-02-12T11:38:59","modified_gmt":"2019-02-12T13:38:59","slug":"mes-caio-f-sobrevivendo-ao-mofo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5705","title":{"rendered":"M\u00eas Caio F. &#8211; Sobrevivendo ao mofo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em fevereiro, a coluna Voos Liter\u00e1rios est\u00e1 prestando uma homenagem ao escritor Caio Fernando Abreu, falecido em fevereiro de 1996. <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/mes-caio-f-a-heranca-maldita-da-ditadura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No primeiro texto<\/a>, abordamos Caio F. como cronista. Por\u00e9m, \u00e9 imposs\u00edvel dissociar o autor do legado deixado por seus contos, em especial do livro <em>Morangos Mofados<\/em>, lan\u00e7ado em 1982. O nome da obra \u00e9 uma refer\u00eancia a <em>Strawberry Fields Forever<\/em>, dos Beatles.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O livro \u00e9 dividido em 3 partes, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400;\">Mofo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Os Morangos <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Morangos Mofados<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (o conto-t\u00edtulo em que um personagem solit\u00e1rio acredita ter uma doen\u00e7a grave, por sentir na boca um gosto acentuado da fruta mofada).<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>Um dos textos essenciais dentro desse livro \u00e9 <i>Os Sobreviventes<\/i>, a hist\u00f3ria de dois ex-militantes do combate \u00e0 ditadura militar no Brasil. <\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A partir do relato da personagem feminina, vemos todo o sonho de uma gera\u00e7\u00e3o de jovens idealistas que tiveram que adaptar-se ao \u201csistema\u201d para, assim, sobreviver.\u00a0 \u00a0Uma das primeiras pessoas a perceberem a qualidade liter\u00e1ria da obra foi\u00a0 a cr\u00edtica liter\u00e1ria e escritora H<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">elo\u00edsa Buarque de Hollanda. O<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0artigo <em>Hoje N\u00e3o \u00e9 Dia de Roc<\/em>k publicado no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Jornal do Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> ainda na \u00e9poca do lan\u00e7amento de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Morangos Mofados<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0foi t\u00e3o emblem\u00e1tico que posteriormente foi incorporado a muitas reedi\u00e7\u00f5es do livro.\u00a0 \u00a0No trecho abaixo, Helo\u00edsa destaca a import\u00e2ncia do conto <em>Os Sobreviventes<\/em> dentro do conjunto de contos:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que Caio fala da crise da contracultura como projeto existencial e pol\u00edtico. [&#8230;] Mas, insisto, a originalidade do seu relato nasce do partido que toma como autor e personagem. Atrav\u00e9s da aparente isen\u00e7\u00e3o no recorte de situa\u00e7\u00f5es e sentimentos, na maior parte dos casos engendrado por uma sensibil\u00edssima acuidade visual (e muitas vezes musical), cresce e se refaz a hist\u00f3ria de uma gera\u00e7\u00e3o de \u201csobreviventes\u201d (que d\u00e3o nome ao conto-chave do livro). Aqueles sobreviventes \u201cvagamente sagrados\u201d de Marx, Marcuse, Reich, Casta\u00f1eda, Laing: \u201cBolsas na Sorbonne, ch\u00e1s com Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre nos <i>50, <\/i>em Paris; 60 em Londres ouvindo <i>here comes the sun, little darling-, <\/i>70 em Nova York dan\u00e7ando <i>disco-music <\/i>no Studio <i>54; <\/i>80 a gente aqui, mastigando essa coisa sem conseguir engolir nem cuspir fora este gosto azedo na boca\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A maior ironia talvez seja que n\u00f3s, leitores brasileiros do s\u00e9culo 21, estejamos, como os personagens do conto, tendo que lidar com militares no poder (ainda que agora seja pela via democr\u00e1tica das elei\u00e7\u00f5es). Como n\u00e3o ter um desencanto pelo momento atual? Como ter for\u00e7as para seguir em frente?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Caio F. em sua sabedoria da d\u00e9cada de 1980 de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Os Sobreviventes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, nos ensina:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">[&#8230;] te desejo uma f\u00e9 enorme, em qualquer coisa, n\u00e3o importa o qu\u00ea, como aquela f\u00e9 que a gente teve um dia, me deseja tamb\u00e9m uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me fa\u00e7a acreditar em tudo de novo, que nos fa\u00e7a acreditar em todos de novo, que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso, de derrota sem nobreza [&#8230;]&#8221;<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Caio, tentaremos por aqui sobreviver da melhor forma poss\u00edvel. E seguiremos tentando lutar, com uma f\u00e9 gigante em um futuro com mais Arte e menos armas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na semana que vem, a coluna Voos Liter\u00e1rios far\u00e1 um resgate de Caio Fernando Abreu como dramaturgo, a partir da an\u00e1lise de <em>A Comunidade do Arco-\u00cdris<\/em>, uma pe\u00e7a teatral infantil com abordagem ecol\u00f3gica. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em fevereiro, a coluna Voos Liter\u00e1rios est\u00e1 prestando uma homenagem ao escritor Caio Fernando Abreu, falecido em fevereiro de 1996. 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