{"id":5515,"date":"2018-12-11T13:41:06","date_gmt":"2018-12-11T15:41:06","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5515"},"modified":"2018-12-11T13:41:06","modified_gmt":"2018-12-11T15:41:06","slug":"maurem-kayna-o-conto-da-aia-e-a-distopia-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5515","title":{"rendered":"Maurem Kayna . O Conto da Aia e a distopia presente"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil atual e <a href=\"https:\/\/www.submarino.com.br\/produto\/5588318\/livro-o-conto-da-aia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>O<\/em>\u00a0<em>Conto da Aia\u00a0<\/em><\/a>\u00a0guardam semelhan\u00e7as assustadoras. A declara\u00e7\u00e3o de uma futura ministra de que\u00a0&#8220;as mulheres nasceram para serem m\u00e3es&#8221; \u00e9 o s\u00edmbolo do retrocesso que vivemos diariamente e conferimos nos notici\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pedido da coluna Voos Liter\u00e1rios, a escritora Maurem Kayna fez uma poderosa reflex\u00e3o sobre o livro\u00a0 da escritora canadense Margaret Atwood.\u00a0<em>O Conto da Aia<\/em>\u00a0tamb\u00e9m pode ser conferido em formato de s\u00e9rie, sucesso de p\u00fablico e cr\u00edtica. A segunda temporada estreou no segundo semestre de 2018 no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maurem define-se como &#8220;sempre curiosa, em geral um tanto perplexa com o mundo, permanece convicta de que a Literatura tem o poder de abastecer a Vida e mover rumos&#8221;. Para saber mais sobre a autora, acessem seu <a href=\"http:\/\/mauremkayna.com\">site<\/a>.<\/p>\n<p>Mas vamos ao texto. Boa leitura!<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\">&#8220;Uma distopia\u00a0<strong>presente&#8221;<\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A diferen\u00e7a entre distopias e utopias n\u00e3o tem a ver apenas com o car\u00e1ter negativo de um em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s expectativas positivas do outro. Tampouco com a suposta dist\u00e2ncia \u00e0 frente no tempo. O mais aterrador \u00e9 a diferen\u00e7a de probabilidade. Os fatos t\u00eam mostrado que as chances de concretiza\u00e7\u00e3o das distopias \u00e9 bem maior que o das utopias, pelo menos at\u00e9 esse ponto da hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Se pensarmos no tanto que h\u00e1 de <a href=\"https:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/detalhe.php?codigo=12562\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1984<\/a> (George Orwell), <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Admir%C3%A1vel-mundo-Aldous-Leonard-Huxley\/dp\/8525056006\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Admir\u00e1vel Mundo Novo<\/a> (Aldoux Huxley) \u00a0e <a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/livros\/anthony-burgess\/1985\/2566169135\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1985<\/a> (Anthony Burgess) no nosso cotidiano, o Conto da Aia fica ainda mais assustador. Ali\u00e1s, ele \u00e9 t\u00e3o estarrecedor n\u00e3o porque suscita o temor de que as situa\u00e7\u00f5es narradas nos assolem em um futuro indefinido, mas porque muitos dos absurdos vivenciados pela protagonista e por todas as mulheres do livro j\u00e1 acontecem hoje em alguma medida. Ditaduras vinculadas a correntes religiosas existem, pa\u00edses onde mulheres n\u00e3o tem nenhum direito tamb\u00e9m existem, a crueldade de mulheres com outras que vivem uma condi\u00e7\u00e3o distinta da sua tamb\u00e9m existe, e nem precisamos cruzar fronteiras para ver isso acontecendo. Se tudo no livro parecer exagerado, \u00e9 bom prestar aten\u00e7\u00e3o a um trecho dos primeiros cap\u00edtulos:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">As mat\u00e9rias de jornais eram como sonhos para n\u00f3s, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, diz\u00edamos, e eram, mas eram horrores sem ser cr\u00edveis. Eram demasiado melodram\u00e1ticas, tinham uma dimens\u00e3o que n\u00e3o era a dimens\u00e3o de nossas vidas.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9ramos as pessoas que n\u00e3o estavam nos jornais. Viv\u00edamos nos espa\u00e7os brancos n\u00e3o preenchidos nas margens da mat\u00e9ria impressa. Isso nos dava mais liberdade.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Viv\u00edamos nas lacunas entre as mat\u00e9rias.<\/span><\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Muito provavelmente a maior parte das leitoras (e digo assim no feminino porque mesmo que os leitores homens se sensibilizem com as desventuras das mulheres da narrativa, ter\u00e3o dificuldade de entender o que \u00e9 sentir na pele algumas das situa\u00e7\u00f5es narradas) \u00a0enfrentar\u00e1 uma leitura entrecortada de pausas e ang\u00fastia. O livro todo \u00e9 devastador, n\u00e3o porque apresente um cen\u00e1rio sanguin\u00e1rio\u00a0\u2013 ainda \u00a0que haja algumas cenas de viol\u00eancia. A fonte de agonia do leitor \u00e9 mais pulsante nos trechos onde o sil\u00eancio imposto molda os movimentos e decis\u00f5es das personagens.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A aia, cujo nome n\u00e3o saberemos porque todas as aias perderam o direito a um nome pr\u00f3prio para serem referidas como uma propriedade de seus comandantes, \u00e9 quieta e passa pela patrulha moral que qualquer mulher em nossa sociedade enfrenta.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Evito olhar para baixo, para meu corpo, n\u00e3o tanto porque seja vergonhoso ou impudico mas porque n\u00e3o quero v\u00ea-lo. N\u00e3o quero olhar para alguma coisa que me determine t\u00e3o completamente.<\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 um ponto da narrativa que me tocou fundo. Quando a aia recorda o momento chave em que as perdas de direito das mulheres se estabeleceu, a rea\u00e7\u00e3o do seu parceiro \u00e9 muito significativa. Ele lhe pede calma e promete cuidar dela, enquanto ela reconhece estar sendo tratada como crian\u00e7a, ao mesmo tempo em que se recrimina, acusando a si mesma de paranoica por sentir o desconforto que sente.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Houve passeatas, \u00e9 claro, muitas mulheres e alguns homens. Mas foram menores do que se teria imaginado. [&#8230;]<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Ele n\u00e3o se importa com isso, pensei. N\u00e3o se importa nem um pouco. Talvez at\u00e9 goste disso. N\u00e3o somos mais um do outro, n\u00e3o mais. Em vez disso, eu sou dele.<\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Os dois lampejos de esperan\u00e7a do livro, por\u00e9m, tem a ver com o poder da amizade \u00a0e com as v\u00e1rias e sutis resist\u00eancias \u00e0 norma vigente. A for\u00e7a que o afeto por algu\u00e9m pode nos insuflar \u00e9 um alento. Seja a amizade, seja o afeto que se entrela\u00e7a no corpo por conta da atra\u00e7\u00e3o sexual. A aia tem uma amiga ind\u00f3cil e deseja que ela n\u00e3o desista, que n\u00e3o se submeta, que consiga salvar a pr\u00f3pria pele ao mesmo tempo que deseja na amiga uma bravura que n\u00e3o consegue localizar em si mesma. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Sob o tecido coeso da tirania, tamb\u00e9m h\u00e1 o b\u00e1lsamo de uma rede de solidariedade, a forma mais robusta de resistir, que requer, algumas vezes, uma coragem quase.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Uma simbologia interessante do livro \u00e9 que dos dezesseis cap\u00edtulos, sete tem \u201cNoite\u201d como t\u00edtulo. S\u00e3o tempos escuros esses narrados por Atwood. E depois de tanta escurid\u00e3o, temos um ep\u00edlogo cuja fun\u00e7\u00e3o talvez seja nos fazer suportar a hist\u00f3ria pela certeza da sucess\u00e3o dos regimes, uma maneira de nos assegurar que o passar do tempo sempre desacomoda qualquer regime \u2013 para o bem e para o mal. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Quando terminei a leitura do Conto da Aia, estava em uma cidade com muitas mu\u00e7ulmanas e a cada uma que encontrava envolta em v\u00e9us e aquilo que minha viv\u00eancia ocidental s\u00f3 consegue nomear como aceita\u00e7\u00e3o, sentia recrudescer a ang\u00fastia da leitura. E ao revisitar os trechos sublinhados novas perguntas e novas esperan\u00e7as me invadem.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tenho o p\u00e3o suficiente de cada dia, ent\u00e3o n\u00e3o perderei tempo com isso. N\u00e3o \u00e9 o problema principal. O problema \u00e9 engoli-lo sem sufocar com ele. <\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<em>Foto: Site da autora<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil atual e O\u00a0Conto da Aia\u00a0\u00a0guardam semelhan\u00e7as assustadoras. 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