{"id":534,"date":"2017-02-06T01:11:06","date_gmt":"2017-02-06T03:11:06","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=534"},"modified":"2017-02-07T17:13:15","modified_gmt":"2017-02-07T19:13:15","slug":"precisamos-falar-sobre-pinkwashing","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=534","title":{"rendered":"Precisamos falar sobre Pinkwashing"},"content":{"rendered":"<p>Igualmente. Um nome bem sugestivo para uma coluna que vai falar sobre cultura, pol\u00edtica, sociedade e viv\u00eancias atravessadas pela tem\u00e1tica LGBT. Que vai se debru\u00e7ar sobre uma comunidade que \u00e9 diversa e que reproduz, dentro dela pr\u00f3pria, mecanismos de opress\u00e3o que seus indiv\u00edduos experimentam todos os dias quando saem de suas bolhas de conviv\u00eancia. \u00c9 sobre isso que vou falar neste primeiro texto. Especificamente, sobre como existe toda uma popula\u00e7\u00e3o duplamente estigmatizada, utilizada de forma perversa em um jogo de interesses: os LGBTs palestinos, espremidos entre a maior empreitada colonial dos nossos tempos e o discurso islamof\u00f3bico, que infantiliza suas lutas e introduz modelos ocidentais de \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Perdoem-me por trazer um assunto t\u00e3o pesado para inaugurar este espa\u00e7o, mas as brechas para falar sobre este tema n\u00e3o se apresentam com frequ\u00eancia na esfera p\u00fablica. Como internacionalista e gay, n\u00e3o poderia come\u00e7ar esta coluna de outra forma.<\/p>\n<p>O ano de 2012 foi crucial para mim. Eu estava cobrindo o F\u00f3rum Social Mundial em Porto Alegre, que ocorria sob a tem\u00e1tica \u201cPalestina Livre\u201d. Qual foi minha surpresa quando, na marcha de abertura, percebi um cartaz carregado por jovens que dizia: \u201cQueers against israeli apartheid\u201d. Em uma tradu\u00e7\u00e3o livre: \u201cLGBTs contra o apartheid israelense\u201d.<\/p>\n<p>Meu faro de rep\u00f3rter e minha nada objetiva necessidade pessoal me empurraram rapidamente em dire\u00e7\u00e3o aqueles jovens. Eu precisava saber o que estavam fazendo, em plena marcha pela liberta\u00e7\u00e3o palestina, um bando de militantes transexuais, l\u00e9sbicas, bissexuais e gays. Afinal, o que uma coisa poderia ter a ver com a outra? Absolutamente tudo.<\/p>\n<p>Descobri que aqueles jovens estavam denunciando a pr\u00e1tica de um aparato discursivo e ideol\u00f3gico em Israel que utiliza a exist\u00eancia de relativos direitos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT naquele pa\u00eds como cortina de fuma\u00e7a para mascarar a situa\u00e7\u00e3o de verdadeiro apartheid imposto ao povo palestino. Naquele dia eu conheci o termo \u201cPinkwashing\u201d, que designa exatamente o sistema que tentei descrever na frase anterior. Israel tenta \u201cpintar de rosa\u201d seu regime racista e colonialista, utilizando os direitos LGBTs como uma esp\u00e9cie de atestado civilizat\u00f3rio para ofuscar as viola\u00e7\u00f5es di\u00e1rias que comete contra o povo palestino.<\/p>\n<p>O pinkwashing \u00e9 baseado em duas mentiras: uma, a de que a popula\u00e7\u00e3o LGBT em Israel vive em plena liberdade, livre de preconceitos; outra, a de que a popula\u00e7\u00e3o LGBT na Palestina e no mundo \u00e1rabe em geral vive subjugada e perseguida.<\/p>\n<p>Ambos os discursos precisam ser analisados com mais aten\u00e7\u00e3o. Em Israel, h\u00e1 uma cena LGBT bastante movimentada, sim. Tel Aviv \u00e9 uma cidade din\u00e2mica, com uma Parada LGBT multitudin\u00e1ria. Mas a menos de 40 km ergue-se uma muralha de 760 km de extens\u00e3o e 8 metros de altura, que transforma a Cisjord\u00e2nia em uma pris\u00e3o a c\u00e9u aberto. Por outro lado, sim, h\u00e1 LGBTfobia na sociedade palestina e muito tabu em torno do tema. Mas em qual sociedade n\u00e3o h\u00e1? O Brasil, um pa\u00eds de ampla maioria crist\u00e3, \u00e9 reconhecidamente o que mais mata transexuais no mundo. <\/p>\n<p>Antes de serem LGBTs, os gays, l\u00e9sbicas, bissexuais e transexuais palestinos s\u00e3o, sobretudo, cidad\u00e3os palestinos. E como tais est\u00e3o sujeitos a toda carga discriminat\u00f3ria do regime israelense, tanto quanto qualquer outro compatriota. As balas e m\u00edsseis da IDF &#8211; as Israeli Defense Forces &#8211; n\u00e3o distinguem seus alvos por identidade de g\u00eanero ou orienta\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o importa o quanto Israel diga que est\u00e1 preocupado com o bem estar da popula\u00e7\u00e3o LGBT. Tampouco o fato de gays e l\u00e9sbicas poderem servir livremente no ex\u00e9rcito israelense atenua a repress\u00e3o causada por seus soldados.<\/p>\n<p>Engana-se quem pensa que os LGBTs palestinos teriam uma vida livre e plena em Israel. Em primeiro lugar, Israel n\u00e3o concede asilo ou ref\u00fagio a palestinos. Os que conseguem cruzar a fronteira, permanecem ilegais no pa\u00eds, sujeitos \u00e0 deporta\u00e7\u00e3o e sem acesso a qualquer servi\u00e7o p\u00fablico b\u00e1sico ou emprego de qualidade. E os LGBTs palestinos que est\u00e3o ilegais em Israel &#8211; estima-se que somente em Tel Aviv sejam 2 mil &#8211; ainda podem ser for\u00e7ados pelas ag\u00eancias de intelig\u00eancia a atuarem como espi\u00f5es, sob pena de serem mandados de volta \u00e0 suas comunidades com sua sexualidade plenamente revelada, acusados ainda de serem colaboradores do regime israelense. Logo se v\u00ea que Israel n\u00e3o est\u00e1 preocupada com a popula\u00e7\u00e3o LGBT, mas sim com a legitima\u00e7\u00e3o de seu sistema de apartheid. <\/p>\n<p>Para se libertar das armadilhas postas pelo pinkwashing, \u00e9 preciso reconhecer que a popula\u00e7\u00e3o palestina \u00e9 diversa. \u00c9 preciso entender que os LGBTs palestinos travam sua pr\u00f3pria luta contra o preconceito de uma forma indissoci\u00e1vel da causa da liberta\u00e7\u00e3o nacional. Que existem organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais trabalhando com todos estes aspectos dentro da sociedade palestina de uma forma corajosa e pedag\u00f3gica, como a <a href=\"http:\/\/alqaws.org\/siteEn\/index\" target=\"_blank\">Al Qaws<\/a> &#8211; que, em \u00e1rabe, significa arco-\u00edris &#8211; e a <a href=\"http:\/\/www.aswatgroup.org\/en\" target=\"_blank\">Aswat<\/a>, que significa \u201cvozes\u201d. Entidades que n\u00e3o colocam os LGBTs palestinos na encruzilhada de terem que decidir entre suas comunidades e seus la\u00e7os identit\u00e1rios e sua sexualidade ou identidade de g\u00eanero. <\/p>\n<p>Encerro este texto com as <a href=\"http:\/\/honisoit.com\/2014\/09\/i-am-a-palestinian-i-am-gay\/\" target=\"_blank\">palavras de Fahad Ali<\/a>: \u201cEu sou \u00e1rabe. Eu sou palestino. Eu sou gay. Meu para\u00edso n\u00e3o \u00e9 uma parada cheia de glitter em Tel Aviv. \u00c9 uma Palestina livre\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu precisava saber o que estavam fazendo, em plena marcha pela liberta\u00e7\u00e3o palestina, um bando de militantes transexuais, l\u00e9sbicas, bissexuais e gays. Afinal, o que uma coisa poderia ter a ver com a outra? 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