{"id":5239,"date":"2018-10-24T21:55:46","date_gmt":"2018-10-25T00:55:46","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5239"},"modified":"2018-10-25T11:01:33","modified_gmt":"2018-10-25T14:01:33","slug":"entre-a-imparcialidade-e-a-conivencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=5239","title":{"rendered":"Entre a imparcialidade e a coniv\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A imparcialidade \u00e9 uma esp\u00e9cie de v\u00e9u que se espera que os jornalistas vistam, como aqueles v\u00e9us usados por carolas para ir \u00e0 igreja aos domingos &#8211; \u00a0nem transl\u00facido, nem opaco. \u00c9 poss\u00edvel enxergar a silhueta por baixo do pano, mas o tecido n\u00e3o \u00e9 transparente o suficiente para identificar as fei\u00e7\u00f5es de quem o veste. Assim \u00e9 a imparcialidade, um v\u00e9u que, de certa forma, protege o jornalista de se deixar levar por paix\u00f5es e afinidades que possam atrapalhar uma abordagem objetiva.\u00a0A ideia por tr\u00e1s do conceito de imparcialidade \u00e9 n\u00e3o privilegiar ningu\u00e9m ou nenhuma parte quando se aborda qualquer fato. \u00a0Mas esse v\u00e9u tamb\u00e9m est\u00e1 diante dos olhos. Esse v\u00e9u tamb\u00e9m nubla a vis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fa\u00e7o parte do grupo de pessoas que entende que a imparcialidade \u00e9 imposs\u00edvel de ser atingida. N\u00e3o acredito que seja poss\u00edvel para uma pessoa &#8211; mesmo que treinada para exercer o jornalismo &#8211; se despir totalmente de suas convic\u00e7\u00f5es ao escrever uma reportagem. Nossas prefer\u00eancias aparecem at\u00e9 mesmo na escolha das palavras. Em uma cobertura que envolva uma a\u00e7\u00e3o do Movimento dos Sem Terra (MST), por exemplo, a escolha entre &#8220;ocupa\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;invas\u00e3o&#8221; j\u00e1 \u00e9 suficiente para perceber a forma como o jornalista v\u00ea o movimento.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>O que n\u00e3o significa que o profissional n\u00e3o deva aspirar a imparcialidade. Podemos n\u00e3o ser imparciais, mas ainda devemos buscar a objetividade, a equidade e a verdade, obviamente. Essa \u00e9 uma busca que n\u00e3o termina.\u00a0<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o \u00e9 que aspirar ser imparcial e justo no exerc\u00edcio do jornalismo \u00e9 uma excelente forma de disciplina e uma \u00f3tima maneira de atingir excel\u00eancia no trabalho, mas a obsess\u00e3o com a imparcialidade pode transformar esse tra\u00e7o do jornalismo contempor\u00e2neo em coniv\u00eancia, especialmente quando se trata de pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil vive o que se pode chamar, com tranquilidade, de a elei\u00e7\u00e3o mais turbulenta da hist\u00f3ria democr\u00e1tica do pa\u00eds, que come\u00e7a em 1985, depois de duas d\u00e9cadas de Ditadura Militar. H\u00e1 in\u00fameros aspectos at\u00edpicos que envolvem esse pleito, desde a instabilidade pol\u00edtica que se desenhou com os protestos de 2013 e foi agravada com a sa\u00edda de Dilma Rousseff at\u00e9 a personalidade caricata de candidatos que, entre outras coisas, jejuam no monte. Mas h\u00e1 outras quest\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 14px; text-align: justify; letter-spacing: 0px;\">Pela primeira vez h\u00e1 um candidato que defende abertamente o regime militar e a tortura, a ponto de atestar que \u201co erro da ditadura foi torturar e n\u00e3o matar\u201d (entrevista \u00e0 r\u00e1dio Jovem Pan, junho de 2016). Pela primeira vez h\u00e1 um candidato declaradamente racista, que foi em um quilombo e disse que &#8220;<\/span>o afrodescendente mais leve l\u00e1 pesava sete arrobas. N\u00e3o fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais&#8221; (palestra no Clube Hebraica, abril de 2017). Ele ainda afirmou eu n\u00e3o &#8220;corria o risco&#8221; de um filho seu namorar uma mulher negra, porque, segundo ele, seus filhos foram &#8220;bem educados\u201d (entrevista ao CQC, mar\u00e7o de 2011). Pela primeira vez h\u00e1 um candidato claramente machista, que acredita que mulheres devem receber um sal\u00e1rio menor que os homens em fun\u00e7\u00e3o do risco da gravidez (entrevista ao jornal Zero Hora, dezembro de 2014; entrevista ao programa SuperPop,\u00a0\u00a0fevereiro de 2016). Pela primeira vez h\u00e1 um candidato assumidamente homof\u00f3bico, que disse ser \u00a0&#8220;incapaz de amar um filho homossexual&#8221;, que prefere que um filho seu &#8220;morra num acidente do que apare\u00e7a com um bigodudo por a\u00ed&#8221; ( entrevista \u00e0 revista Playboy, \u00a0junho de 2011). Pela primeira vez h\u00e1 um candidato abertamente xen\u00f3fobo, que disse que os imigrantes haitianos, senegaleses, iranianos, bolivianos e s\u00edrios s\u00e3o a &#8220;esc\u00f3ria do mundo&#8221; (entrevista ao jornal Op\u00e7\u00e3o, setembro de 2015). Pela primeira vez h\u00e1 um candidato\u00a0<span style=\"font-size: 14px; text-align: justify; letter-spacing: 0px;\">\u00a0que flerta com o autoritarismo a ponto de dizer que vai &#8220;acabar com todo o tipo de ativismo&#8221; e que afirma, com todas as letras, que a oposi\u00e7\u00e3o &#8220;<\/span><i>se quiser ficar aqui, vai ter se colocar sob a lei de todos n\u00f3s. Ou v\u00e3o para fora ou v\u00e3o para cadeia.\u201d<\/i><\/p>\n<p>.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>Ainda assim, n\u00f3s, jornalistas, de maneira geral,\u00a0vestidos com o v\u00e9u da imparcialidade, hesitamos em dizer que se trata de um candidato de extrema-direita, racista,\u00a0mis\u00f3gino, xen\u00f3fobo e autorit\u00e1rio<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A busca pela imparcialidade, embora ut\u00f3pica, \u00e9 muito importante. Mas n\u00e3o pode ser desculpa para tratar essa candidatura com equival\u00eancia. N\u00e3o pode ser justificativa para n\u00e3o dar nome aos bois. N\u00e3o pode ser motivo para ignorar o fato de que esse comportamento \u00e9 inaceit\u00e1vel em uma democracia sadia.\u00a0At\u00e9 porque a excel\u00eancia profissional n\u00e3o se esgota na neutralidade. No C\u00f3digo de \u00c9tica dos Jornalistas Brasileiros est\u00e1 claro, no Artigo 6\u00ba, que \u00e9 dever do jornalista:<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;I &#8211; opor-se ao arb\u00edtrio, ao autoritarismo e \u00e0 opress\u00e3o, bem como defender os princ\u00edpios expressos na Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos; &#8220;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imparcialidade n\u00e3o pode, portanto, ser utilizada para\u00a0acobertar os riscos que uma candidatura desse tipo representa. Se a busca \u00e9 a objetividade, o p\u00fablico precisa ser informado sobre o significado do atual momento pol\u00edtico e a desinforma\u00e7\u00e3o precisa ser confrontada com jornalismo de qualidade.\u00a0J\u00e1 em 1947, a Hutchins Commission percebeu que n\u00e3o\u00a0\u00e9 suficiente relatar o fato, \u00e9 preciso relatar a verdade sobre o fato. E tratar essa candidatura como qualquer outra n\u00e3o \u00e9 imparcialidade, \u00e9 coniv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 crime um jornalista assumir como pensa, muito menos motivo para dem\u00e9rito ou descren\u00e7a.\u00a0O exemplo cl\u00e1ssico disso \u00e9 Homenagem \u00e0 Catalunha, de George Orwell, uma das maiores obras da reportagem pol\u00edtica. No \u00faltimo cap\u00edtulo, Orwell escreve: \u201cCaso eu n\u00e3o tenha dito isso em algum lugar no in\u00edcio do livro, direi agora: cuidado com meu partidarismo, meus erros factuais e a distor\u00e7\u00e3o inevitavelmente causada por ter visto os eventos de apenas um \u00e2ngulo&#8221;. Ele completa: &#8220;N\u00e3o acredite em mim.&#8221; E por causa de sua transpar\u00eancia, acreditamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imparcialidade \u00e9 uma esp\u00e9cie de v\u00e9u que se espera que os jornalistas vistam, como aqueles v\u00e9us usados por carolas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5274,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[870,800,925,464,1598,179],"class_list":["post-5239","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-georgia-santos","tag-bolsonaro","tag-brasil","tag-eleicoes","tag-eleicoes-2018","tag-imparcialidade","tag-jornalismo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5239","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5239"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5239\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5274"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5239"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5239"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5239"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}