{"id":4443,"date":"2018-06-22T23:35:33","date_gmt":"2018-06-23T02:35:33","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4443"},"modified":"2018-06-22T23:35:33","modified_gmt":"2018-06-23T02:35:33","slug":"critica-as-boas-maneiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4443","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; As Boas Maneiras"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><em>As Boas Maneiras<\/em>, nova parceria de Juliana Rojas e Marco Dutra, assume a roupagem do filme de fantasia <em>dark<\/em>, repleto de motivos visuais fabulares, de imagina\u00e7\u00f5es que se tornam carne e sangue, de sonhos que s\u00e3o tamb\u00e9m outra coisa, de clara aposta est\u00e9tica em uma estrutura de resgate a partir de v\u00e1rias refer\u00eancias matriciais que percorrem e marcam a hist\u00f3ria das imagens (da pintura, do cinema: da luz). \u00c9 precisamente, paradoxal que seja, por se movimentar entre g\u00eaneros que o filme corrige sua postura narrativa com o contrapeso que um exige do outro, deslocando as sensibilidades do espectador para o interior de seu tecido narrativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O filme \u00e9 envolvido, em ess\u00eancia, pela atmosfera do horror, por seus elementos universais, mas \u00e9 embebido pelo musical, pelo drama social, assim como v\u00e1rios trabalhos anteriores tanto de Juliana (<em>Sinfonia da Necr\u00f3pole<\/em>) quanto de Marco (<em>Quando Eu Era Vivo<\/em>) tamb\u00e9m s\u00e3o. O pux\u00e3o de orelha sacana do musical, que acompanha o horror com frequ\u00eancia, por exemplo, nos cinemas americano e italiano, lan\u00e7a aqui os seus momentos de torpor: \u00e9 para ser visualmente belo e sensivelmente repugnante o desenrolar de toda narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A percep\u00e7\u00e3o do espectador, no entanto, aprecia sofrer e agonizar a partir do jogo que a hibridez de g\u00eaneros prop\u00f5e, onde sua conjuga\u00e7\u00e3o visual transita entre o prazer e a emo\u00e7\u00e3o mediadas pelo medo. Sofrer \u00e9 sentir a confus\u00e3o entre o realismo e a fantasia, entre uma S\u00e3o Paulo de formas e conte\u00fados enigm\u00e1ticos e fantasmag\u00f3ricos (mas que ainda \u00e9 a S\u00e3o Paulo que abriga muitas diferen\u00e7as e insiste em n\u00e3o corrigir suas dist\u00e2ncias de classe), que aparecem n\u00e3o somente como necessidade de \u201ccoment\u00e1rio social\u201d, mas como geografia de um mundo por um lado raro (de quem n\u00e3o precisa se preocupar com a crueldade desse mundo) e, por outro, muito constante (de quem articula sua exist\u00eancia na urg\u00eancia das coisas). Sabemos onde estamos, mas nem sempre sabemos onde fincamos nossos p\u00e9s (como em Jacques Tourneur ou em Dario Argento).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O tecido do filme, que se desdobra em dois tempos, tem Clara (Isab\u00e9l Zuaa) como personagem central. Clara fez um curso de enfermagem que n\u00e3o concluiu, mas mesmo assim conseguiu o emprego na casa da gestante Ana (Marjorie Estiano), quando l\u00e1 foi para uma entrevista. Com o tempo, ela percebe algo estranho no sonambulismo de Ana, passando a observar seu sono. Mesmo quando d\u00e1 o salto divis\u00f3rio, \u00e9 muito retil\u00ednea a trama do filme, que \u201cacontece\u201d rapidamente at\u00e9 criar o ch\u00e3o e os contornos dram\u00e1ticos para sua metarreflex\u00e3o ter in\u00edcio nas duas partes que o conectam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Isso pois os elementos narrativos e visuais de <em>As Boas Maneiras<\/em> s\u00e3o cativantes por seus aspectos ilus\u00f3rios, que solicitam um olhar atento e persistente a recepcionar e refletir o que v\u00ea. N\u00e3o pela vontade de atrair o olhar do espectador para um al\u00e7ap\u00e3o, mas para envolv\u00ea-lo por inteiro em seu pr\u00f3prio desejo inconsequente, como s\u00e3o os desejos maternos e o amor sobre os quais o filme tamb\u00e9m versa. O deslocamento entre g\u00eaneros que o filme prop\u00f5e \u00e9 recorrente em certo cinema de horror onde a encena\u00e7\u00e3o (o Giallo, por exemplo) tem grande explicitude e evid\u00eancia gr\u00e1fica. Jamais esqueceremos do rosto que reflete no instante de um segundo num espelho em <em>Prel\u00fadio para Matar<\/em> ou da apari\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica de Madeleine no Hotel Vertigo em <em>Um Corpo que Cai<\/em>. De certa maneira, quando Clara estende a m\u00e3o, na cena final, tomada por medo e confian\u00e7a, tamb\u00e9m este plano permanecer\u00e1 com toda sua for\u00e7a. Entranhados nas imagens, sucumbimos aos seus movimentos, mas os desejamos frontalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>As Boas Maneiras<\/em>, de Juliana Rojas e Marco Dutra, Brasil, 2018. Com Isab\u00e9l Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Gilda Nomacce, Hugo Villavicenzio, Andrea Marquee.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Boas Maneiras, nova parceria de Juliana Rojas e Marco Dutra, assume a roupagem do filme de fantasia dark, repleto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":4444,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-4443","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4443","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4443"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4443\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4444"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}