{"id":4367,"date":"2018-06-02T00:54:22","date_gmt":"2018-06-02T03:54:22","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4367"},"modified":"2018-06-05T20:45:55","modified_gmt":"2018-06-05T23:45:55","slug":"licinio-azevedo-viver-para-narrar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4367","title":{"rendered":"Lic\u00ednio Azevedo: viver para narrar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A viol\u00eancia colonial nunca coube somente nos livros de Hist\u00f3ria. Antes da independ\u00eancia, os pa\u00edses africanos s\u00f3 viam a si mesmos atrav\u00e9s do olhar do colonizador, isto \u00e9, n\u00e3o produziam imagens sobre si. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, n\u00e3o viam a si mesmos nas imagens que eram feitas \u201csobre a \u00c1frica e os africanos\u201d. Em cada pa\u00eds <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">aos seus modos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, a experi\u00eancia de descoloniza\u00e7\u00e3o propiciou, com todas as dificuldades imagin\u00e1veis, por um lado, o fato de se come\u00e7ar do zero a construir um pensamento sobre a produ\u00e7\u00e3o de imagens (uma quest\u00e3o est\u00e9tica e cultural) e, por outro, a pr\u00f3pria inexist\u00eancia dos meios para tal (uma quest\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Independente de Portugal em 1975, assim como as outras ex-col\u00f4nias portuguesas na \u00c1frica (como a exce\u00e7\u00e3o da Guin\u00e9-Bissau, que conquistou a independ\u00eancia um ano antes), <strong>Mo\u00e7ambique<\/strong> logo criou o Instituto Nacional de Cinema e, com ele, o <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MhDTLXWbW9k\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Kuxa Kanema<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> (O Nascimento do Cinema), cinejornal de atualidades (e document\u00e1rio de mesmo nome dirigido pela cineasta Margarida Cardoso) cujo objetivo central consistia em<strong> \u201ccriar a imagem do povo e devolv\u00ea-la ao povo\u201d<\/strong>. Foi comum, ali\u00e1s, aos v\u00e1rios projetos socialistas que vigoraram na segunda metade do s\u00e9culo passado o \u00edmpeto de constituir (ou de reconstituir), pela via da cultura, suas fei\u00e7\u00f5es nacionais ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o do jugo colonialista ou de ditaduras. Era preciso participar, em fato, da \u201cbatalha da informa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Convidado por Ruy Guerra, depois de rodar a Am\u00e9rica Latina como jornalista, passar por Portugal e Guin\u00e9-Bissau, Lic\u00ednio Azevedo (nascido em Porto Alegre) chegou a Mo\u00e7ambique em 1977 para trabalhar no Instituto. E l\u00e1 ficou, tornando-se um dos principais realizadores do pa\u00eds em uma \u00e9poca em que, inflamado pelo projeto de transforma\u00e7\u00e3o socialista guiado pelo ent\u00e3o presidente Samora Machel (que via o cinema como ferramenta fundamental desse processo), havia not\u00e1vel interesse popular no cinema. Um inc\u00eandio e, claro, antes dele, a guerra civil (que seguiria at\u00e9 1992), deixaram a sede do Instituto em ru\u00ednas, minando a infraestrutura de produ\u00e7\u00e3o de filmes que o pa\u00eds havia criado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O fato \u00e9 que, do jornalismo de narrativa muito pr\u00f3xima da fic\u00e7\u00e3o (inspirada pelo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">New Jornalism<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">), Lic\u00ednio Azevedo foi da escrita jornal\u00edstica \u00e0 literatura, e desta para o cinema, sem nunca ter os abandonado para se refugiar em um s\u00f3 meio de express\u00e3o. Antes de uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d, Lic\u00ednio realizou (e realiza), uma obra de conflu\u00eancia, de atravessamentos e interesses que n\u00e3o cabem somente no cinema, nem na literatura e tampouco apenas no jornalismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Lic\u00ednio sempre parte de algo colhido do mundo, um acontecimento que virou not\u00edcia, um fato. Parte de algo \u201creal\u201d antes por seu esp\u00edrito de resist\u00eancia e de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica atrav\u00e9s do texto e da imagem. Resistir \u00e9: conservar, fazer durar, permanecer. No seu caso, contar hist\u00f3rias. Seu filme <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Desobi\u00eancia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, por exemplo, torna imagem aquilo que n\u00e3o pode ser outra coisa, numa verdadeira aula de como fazer document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o a um s\u00f3 tempo, se apropriando dos elementos narrativos e visuais dos dois formatos e os incorporando ao seu estilo. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Grande Bazar, H\u00f3spedes da Noite, A \u00c1rvore dos Antepassados, A Virgem Margarida <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">e, agora,<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> o Comboio de Sal e A\u00e7\u00facar<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, como outros, s\u00e3o todos c\u00famplices desse seu interesse narrativo, seja via escrita ou via cinema, seja na fic\u00e7\u00e3o ou no document\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Mas eu paro por aqui: a Cinemateca Capit\u00f3lio, em Porto Alegre, exibir\u00e1 o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Comboio de Sal e A\u00e7\u00facar<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, seu mais recente filme, segunda-feira, 19h30, com a presen\u00e7a do Lic\u00ednio em debate ap\u00f3s a sess\u00e3o &#8211; do qual este colunista tamb\u00e9m participar\u00e1, embora certamente, antes de tudo, pronto para ouvi-lo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-weight: 400;\">Detalhes sobre a sess\u00e3o (e sobre outras que tamb\u00e9m ser\u00e3o apresentadas pelo diretor no Rio de Janeiro): <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Livresdistribuidora\/photos\/a.538770539572266.1073741829.514279625354691\/1701764533272855\/?type=3&amp;theater\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A viol\u00eancia colonial nunca coube somente nos livros de Hist\u00f3ria. Antes da independ\u00eancia, os pa\u00edses africanos s\u00f3 viam a si [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":4368,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-4367","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4367"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4367\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4368"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}