{"id":4193,"date":"2018-04-28T22:39:35","date_gmt":"2018-04-29T01:39:35","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4193"},"modified":"2018-04-30T11:39:58","modified_gmt":"2018-04-30T14:39:58","slug":"critica-imagens-do-estado-novo-1937-1945","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4193","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Imagens do Estado Novo 1937-45"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Imagens do Estado Novo<\/em> <em>1937-1945<\/em><\/strong> entra deliberadamente num vespeiro ao vasculhar materiais hist\u00f3ricos, tais como imagens, can\u00e7\u00f5es populares, discursos radiof\u00f4nicos, mat\u00e9rias em jornais, livros, filmes e, em ess\u00eancia, o di\u00e1rio mantido pelo pr\u00f3prio presidente Get\u00falio Vargas no intuito de oferecer sua narra\u00e7\u00e3o sobre tudo isso.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/vFsJYGypFG8\" width=\"560\" height=\"314\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As imagens s\u00e3o mesmo abundantes e preenchem todo o filme. \u00a0E o <em>off<\/em>, narrado pelo pr\u00f3prio diretor Eduardo Escorel, acompanha, dando-lhes contexto e, claro, uma leitura particular (a do narrador) respons\u00e1vel por organizar, sistematicamente, todo o per\u00edodo do Estado Novo nas quatro horas de dura\u00e7\u00e3o do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Get\u00falio Vargas, claro, \u00e9 o personagem central, por onde se embaralham e percorrem todas as intrigas palacianas, tramas pol\u00edticas, influ\u00eancias familiares, <em>amea\u00e7as<\/em> comunistas<em>,<\/em> com\u00edcios populares, oposi\u00e7\u00f5es olig\u00e1rquicas e toda sorte de rela\u00e7\u00f5es que o seu governo produzia com o estrangeiro.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escorel come\u00e7a, em fato, antes do Estado Novo (1937-45). Come\u00e7a quando o movimento de 1930 (<em>aka<\/em> Revolu\u00e7\u00e3o de 30) dep\u00f4s Washington Lu\u00eds da Presid\u00eancia, dando fim a Primeira Rep\u00fablica. Ainda que breve, a narrativa inicia, nem que seja para fins contextuais, quando da chegada de Get\u00falio \u00e0 presid\u00eancia, em 1930, e vai terminar, ap\u00f3s longos 34 anos, com o golpe de 1964 que dep\u00f4s o ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Goulart. <strong>A narra\u00e7\u00e3o permite, no entanto, que a hist\u00f3ria se demonstre invariavelmente interconectada, comportando avan\u00e7os e recuos no tempo da a\u00e7\u00e3o para indagar seja uma forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, um gesto ou uma reviravolta na trama que conduz o filme.<\/strong> Os fatos n\u00e3o est\u00e3o dados de antem\u00e3o para o documentarista e pesquisador que \u00e9 Escorel, ele ir\u00e1 percorr\u00ea-los, question\u00e1-los, desconfiar das imagens que ele pr\u00f3prio mostra. <em>Imagens do Estado Novo<\/em> \u00e9 resultado de uma pesquisa de muitos anos e que se traduz, como vemos, num panorama hist\u00f3rico ao qual podemos voltar v\u00e1rias e v\u00e1rias vezes, a depender das inst\u00e2ncias do nosso interesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo a n\u00e3o perder o movimento dos eventos, Escorel prefere o estilo cl\u00e1ssico do document\u00e1rio, como quem assume que a distin\u00e7\u00e3o de seus temas e n\u00e3o permite incorre\u00e7\u00f5es derivadas de leituras \u201cemancipadas\u201d da materialidade da hist\u00f3ria que narra. <strong>Apesar do eloquente racionalismo da narra\u00e7\u00e3o, que busca se esquivar de subjetividades interpretativas, o filme prop\u00f5e v\u00e1rios caminhos para nos aproximarmos do Brasil varguista e de todas as suas variadas formas e contradi\u00e7\u00f5es.<\/strong> Seu objetivo, mais do que fazer mem\u00f3ria com o processo hist\u00f3rico brasileiro que convulsionou a primeira metade s\u00e9culo XX, consistiu precisamente em dar relevo a fragiliza\u00e7\u00e3o institucional do pa\u00eds, sua regular instabilidade pol\u00edtica e seu <em>baixo teor de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica<\/em>, tendo como nervo da a\u00e7\u00e3o o presidente Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Para contar essa hist\u00f3ria tendo Vargas como eixo \u00e9 preciso ir longe sem sair do lugar<\/h3>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As elites olig\u00e1rquicas nacionais, saudosas do nacionalismo, est\u00e3o a\u00ed desde a g\u00eanese do Brasil, maculadas nos sorrisos que desfilam nos banquetes palacianos, nas marchas autorit\u00e1rias destituidoras e que provocam constantes abalos s\u00edsmicos na estrutura das institui\u00e7\u00f5es brasileiras.<\/strong> Ora, legitimidade para governar nunca foi permitida por muito tempo neste pa\u00eds que tanta vezes golpeou a si pr\u00f3prio e aos seus. Tomar o risco de buscar capturar as varia\u00e7\u00f5es e dimens\u00f5es da trama pol\u00edtica nacional \u00e9, por si s\u00f3, um desafio not\u00e1vel. Escorel acredita na for\u00e7a do documento. A natureza imponente da pesquisa contribui para que sua narrativa n\u00e3o disperse o interesse do espectador. A trama \u00e9 complexa e recheada de contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A simpatia de Vargas pelo nazi-fascismo \u00e9 motivo de escrut\u00ednio por Escorel. A legisla\u00e7\u00e3o trabalhista inaugurada pelo presidente e cujas fontes de inspira\u00e7\u00e3o s\u00e3o conhecidas ganham significativo destaque: tanto o malgrado populismo varguista quanto as suas reformas nos direitos sociais comp\u00f5em diferentes faces de uma mesma moeda, basta vermos como a progressiva expans\u00e3o dos direitos sociais n\u00e3o foi acompanhada pela expans\u00e3o dos direitos pol\u00edticos, antes pelo contr\u00e1rio. O nacionalismo econ\u00f4mico que sustentou o Estado Novo e rendeu ao governo o apoio dos integralistas liderados por Pl\u00ednio Salgado \u2013 o anticomunismo os unia; da Alemanha hitlerista e de uma popula\u00e7\u00e3o majoritariamente cat\u00f3lica, que decerto n\u00e3o podia ouvir falar em comunismo, Mao e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica &#8211; foi poss\u00edvel atrav\u00e9s de uma bem difundida rede de censura da imprensa e das atividades pol\u00edticas da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">O car\u00e1ter autorit\u00e1rio do Estado Novo era evidente no modo paternalista com que tratava o povo (a ideia de povo, pelo menos).<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filho do positivismo, n\u00e3o interessava ao governo do \u201cpai dos pobres\u201d ter o povo nas ruas sen\u00e3o como figurantes de seus desfiles e eventos propagand\u00edsticos. Ele queria a concilia\u00e7\u00e3o do patr\u00e3o e do empregado. Mas como a pol\u00edtica n\u00e3o comporta sentimentalismos, Vargas seria eleito pelo voto em 1950, mesmo ap\u00f3s ter sido golpeado e apeado do poder pelos militares em 1945, quando se encerrava, tradicionalmente pela for\u00e7a, o Estado Novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Imagens do\u00a0 Estado Novo<\/em><\/strong> conecta v\u00e1rias pontas dessa trama, deixa pontos de fuga e desafios reflexivos para o espectador realizar. Afora sua grandiosa empreitada intelectual, de estudo e pesquisa, h\u00e1 um car\u00e1ter de exegese de certa sensa\u00e7\u00e3o de democracia que o Brasil poucas vezes teve ou teve com baixa intensidade. A experi\u00eancia de um golpe militar, t\u00e3o recorrente na hist\u00f3ria brasileira, \u00e9 ainda muito viva. Escorel faz jorrar a sangria para explorar, nos detalhes, as tens\u00f5es do Estado Novo e o quanto ele ainda pode ser representativo para pensarmos os desdobramentos da pol\u00edtica atual pela via da constru\u00e7\u00e3o de discursos, tal como o seu pr\u00f3prio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagens do Estado Novo 1937-1945 entra deliberadamente num vespeiro ao vasculhar materiais hist\u00f3ricos, tais como imagens, can\u00e7\u00f5es populares, discursos radiof\u00f4nicos, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":4240,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[151,542,1247,1245,774,1246],"class_list":["post-4193","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes","tag-cinema","tag-critica","tag-eduardo-escorel","tag-estado-novo","tag-filme","tag-getulio-vargas"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4193"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4193\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4240"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}