{"id":4184,"date":"2018-04-22T10:59:39","date_gmt":"2018-04-22T13:59:39","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4184"},"modified":"2018-04-22T18:42:58","modified_gmt":"2018-04-22T21:42:58","slug":"arte-enfrentamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4184","title":{"rendered":"ARTE-ENFRENTAMENTO"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Ticiano Paludo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo sempre mudou r\u00e1pido. Hoje, essa rapidez parece hiper-acelerada. Nosso dia continua tendo 24 horas, a semana 7 dias. <strong>Gra\u00e7as \u00e0 hiper-conectividade dispon\u00edvel em nossos bolsos, um mundo t\u00e3o grande, t\u00e3o vibrante, escapa ao nosso olhar, e isso \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/strong> A economia da aten\u00e7\u00e3o cobra o seu pre\u00e7o. Sentimo-nos tontos diante de tantas op\u00e7\u00f5es. A distra\u00e7\u00e3o \u00e9 perversa. Uma ansiedade crescente assola a todos diante de uma mir\u00edade de est\u00edmulos que gritam por nosso envolvimento profundo. Essa aten\u00e7\u00e3o cada vez mais vol\u00e1til acelera nosso cora\u00e7\u00e3o e nos angustia. Se estou aqui, n\u00e3o estou l\u00e1, e nem acol\u00e1. E a grama do vizinho, mesmo que nem sempre seja t\u00e3o mais verde do que o nosso olhar d\u00e1 conta, nos deixa com a impress\u00e3o de que o momento passou, de que perdemos a oportunidade de ver mais, sempre mais.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>E uma pergunta brota: estamos mesmo vendo as coisas ou s\u00f3 zapeando atrav\u00e9s de nossos trai\u00e7oeiros sentidos, superficialmente, nesse mar t\u00e3o (des)interessante?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos dias, deparei com esses questionamentos num dos campos pelo qual sou apaixonado e vivo intensamente: a arte, mais especificamente, a arte musical. O nosso mundo interno parece t\u00e3o disposto e saud\u00e1vel em rapidamente deglutir o entretenimento, e t\u00e3o pregui\u00e7oso e resistente \u00e0 arte. Duchamp j\u00e1 colocou em xeque o significado da arte. Tentar la\u00e7\u00e1-la de um s\u00f3 golpe parece uma tarefa ingrata. E de fato \u00e9. Mas depois de d\u00e9cadas trabalhando com ela, lecionando sobre ela, me atrevo a dizer: a principal diferen\u00e7a entre a arte e o entretenimento \u00e9 que na arte existe um combate, um enfrentamento. <strong>No entretenimento, n\u00e3o. \u00c9 claro que o entretenimento pode levantar questionamentos, mas em um mundo cada vez mais hedonista e avesso aos questionamentos despolarizados, o entretenimento parece ofuscar e esmagar a arte, que luta heroicamente para se sobressair pelas beiradas.<\/strong> Afinal, em uma \u00e9poca em que os ansiol\u00edticos nos dizem que \u00e9 proibido sofrer, como pode um enfrentamento triunfar?<\/p>\n<p>.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Quando a obra de arte \u00e9 confundida com o lixo, e nele vai parar, me parece muito uma quest\u00e3o de que o combate foi aniquilado por ignor\u00e2ncia e por falta de preparo para a batalha.<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dita alta cultura deveria ser explanada como um territ\u00f3rio f\u00e9rtil a ser explorado, mas que exige preparo para seu entendimento e explora\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como um instrumento ideol\u00f3gico que coloca, de um lado, os iniciados, e de outro, a massa (in)capaz de compreende-la. Mesmo para quem est\u00e1 acostumado a entrar no di\u00e1logo reflexivo proposto pelos artistas, quanto mais provocativa e menos \u00f3bvia for a obra, mais ir\u00e1 exigir dos espectadores, mais tende \u00e0 fuga.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Entre fugir do combate e enfrentar a arte<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ouvi, recentemente, o novo \u00e1lbum de um dos maiores artistas de nosso tempo: Jack White.<\/strong> <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Boarding_House_Reach\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cBoarding House Reach\u201d<\/a> \u00e9, sem d\u00favida, a obra mais densa de White, at\u00e9 ent\u00e3o. Seus \u00e1lbuns anteriores, e seu trabalho com o White Stripes, sempre demonstraram um vigor e uma primazia assertivos, mas nessa nova incurs\u00e3o, ele parece ter se superado. Me dediquei a fazer uma primeira audi\u00e7\u00e3o imersiva, de cabo a rabo. Ao final, pensei: mas que diabos \u00e9 isso? As m\u00fasicas s\u00e3o de dif\u00edcil compreens\u00e3o. Estar\u00e1 ele promovendo uma overdose est\u00e9tica que simplesmente quer chocar pelo excesso e pela imprecis\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, me coloquei a pensar e vi que eu estava fugindo do combate, do enfrentamento, saindo pelo f\u00e1cil caminho da nega\u00e7\u00e3o, da rejei\u00e7\u00e3o, do desprezo. Muni-me de um esfor\u00e7o intelectual e ouvi, em sequ\u00eancia, novamente, todas as faixas, uma a uma, procurando imergir naquele espectro que me escapava \u00e0 audi\u00e7\u00e3o. O resultado? Como j\u00e1 inferi, consegui furar uma barreira recorrente e invis\u00edvel do preconceito (e \u00e9 isso que \u00e9 um preconceito, um conceito, muitas vezes mal lido, a priori) e me deixei levar pela obra. Corri para o combate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfrentei a obra e o artista, mesmo diante de sua incompreens\u00edvel magnitude. E me deliciei. E vi o que n\u00e3o havia visto, e senti o que n\u00e3o me permitira sentir. E por fim, compreendi a provoca\u00e7\u00e3o e me curvei diante dela. Adianto que a audi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, \u00e9 tensa, de uma densidade voraz em diversos momentos. N\u00e3o \u00e9 um \u00e1lbum de can\u00e7\u00f5es, e um discurso est\u00e9tico de enfrentamento, uma busca de novas narrativas. E, ao final, vi que a luta valeu a pena. E quem vence esse tipo de conflito? Ambos vencemos, eu por poder me permitir a ir al\u00e9m e mergulhar, despido de pudores, naquela salada sonora complexa e alucinante; e ele, por ter me mostrado que a arte mais profunda \u00e9 dolorosa, \u00e9 arte-enfrentamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Ticiano_Paludo_autoretrato.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4201 alignleft\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Ticiano_Paludo_autoretrato-e1524405475249.jpg\" alt=\"\" width=\"122\" height=\"108\" \/><\/a>Ticiano Paludo \u00e9 m\u00fasico, compositor e produtor musical. Doutor em Comunica\u00e7\u00e3o pela FAMECOS\/PUCRS, coordena a Especializa\u00e7\u00e3o em Produ\u00e7\u00e3o Musical: comunica\u00e7\u00e3o e entretenimento na mesma universidade. E gosta de um enfrentamento. Mail:\u00a0<\/em><a href=\"mailto:ticiano.paludo@gmail.com\">ticiano.paludo@gmail.com<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ticiano Paludo O mundo sempre mudou r\u00e1pido. Hoje, essa rapidez parece hiper-acelerada. 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