{"id":4169,"date":"2018-04-13T23:48:45","date_gmt":"2018-04-14T02:48:45","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4169"},"modified":"2018-04-13T23:48:45","modified_gmt":"2018-04-14T02:48:45","slug":"critica-arabia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=4169","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Ar\u00e1bia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">S\u00f3 existe \u201ctiro e mata\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o h\u00e1 milagre no mundo. A constata\u00e7\u00e3o \u00e9 de um menino, uma crian\u00e7a, personagem de <em>Ar\u00e1bia<\/em>. Seu irm\u00e3o mais velho, Andr\u00e9 (Murilo Caliari), \u00e9 quem participa do di\u00e1logo. Cena aparentemente lateral em Ar\u00e1bia, o filme de Affonso Uchoa e Jo\u00e3o Dumans organiza com precis\u00e3o o seu desenvolvimento. Ela indica tamb\u00e9m um dos temas do filme, que \u00e9 a viol\u00eancia e suas variadas formas de express\u00e3o. O mais substantivo em <em>Ar\u00e1bia<\/em> \u00e9 a recusa do sociologismo e sua pretens\u00e3o ret\u00f3rica baseada no senso comum, vide outros exemplares do cinema brasileiro recente (<em>Que Horas Ela Volta?<\/em>, <em>Aquarius<\/em>) que n\u00e3o o quiseram evitar. Seu compromisso (pol\u00edtico que seja) \u00e9 com a dramatiza\u00e7\u00e3o interna, com os motivos de seu protagonista, com a rede de rela\u00e7\u00f5es que ele cria e vivencia. H\u00e1 (pelo menos) um modo de mostrar isso e o filme o percebe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Brasil de hoje \u00e9 um pa\u00eds no qual persistem os tra\u00e7os do autoritarismo fundador, que n\u00e3o \u00e9 um tra\u00e7o ontol\u00f3gico \u201cdo povo\u201d, mas cultivado <em>por cima<\/em> e que tornou hegem\u00f4nico o grupo pol\u00edtico-econ\u00f4mico que o agencia. H\u00e1 um obsceno rombo entre as classes em disputa. A classe trabalhadora, que Cristiano (Aristides de Sousa) \u00e9 express\u00e3o rigorosa, est\u00e1 em desvantagem dada a assimetria das for\u00e7as em luta. O que <em>Ar\u00e1bia<\/em> prop\u00f5e, no entanto, n\u00e3o \u00e9 um invent\u00e1rio da luta de classes brasileira, ao modo de um S\u00e9rgio Bianchi, por exemplo. N\u00e3o h\u00e1 o binarismo centro-periferia como estrat\u00e9gia de representa\u00e7\u00e3o, tampouco como \u201cno\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cconceito\u201d. \u00c9 mais sutil e, de certo modo, revigorante a hist\u00f3ria dessa desigualdade que a voz e o corpo ferido e esperan\u00e7oso de Cristiano verbaliza e torna imagem. Imagem que a invers\u00e3o valorativa da televis\u00e3o e da publicidade (e tamb\u00e9m do cinema, da literatura&#8230;) j\u00e1 vulgarizou, tornou natural, incapaz de demonstrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O jovem Andr\u00e9 l\u00ea um di\u00e1rio deixado por Cristiano ap\u00f3s este sofrer um acidente na f\u00e1brica de alum\u00ednio em que trabalha, em Ouro Preto, Minas Gerais. Cristiano relata boa parte de sua vida neste caderno p\u00f3s-pris\u00e3o, sua voz narrando desde o dia em que saiu do c\u00e1rcere at\u00e9 dias antes do acidente. A leitura de suas notas de vida pelo jovem Andr\u00e9 acena para o narrador que interpreta aquilo que l\u00ea, como n\u00f3s, espectadores, o fazemos com o filme. \u00c9 dupla a narra\u00e7\u00e3o pois <em>Ar\u00e1bia<\/em> assume a ambiguidade daquele universo, suas contradi\u00e7\u00f5es e conflitos, as camadas do esquema de produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do que \u00e9 o Brasil e o brasileiro trabalhador neste s\u00e9culo. Cristiano, apesar de sua voz cansada, tem a auto-estima que esperam (esperamos?) que ele tenha. Ele cr\u00ea, como sempre, na possibilidade de vencer a assimetria que o criou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao sair da pris\u00e3o, sua condi\u00e7\u00e3o o faz saltar de trabalho em trabalho em busca do seu sustento, em busca, \u00e9 claro, de uma vida melhor. Dar a volta por cima e recome\u00e7ar ap\u00f3s perder a liberdade com o tempo mantido encarcerado, como diz a m\u00fasica dos Racionais que ele canta, n\u00e3o ser\u00e1 sem suor e sangue. Com ele, temos a representa\u00e7\u00e3o secular do trabalhador-oper\u00e1rio no cinema brasileiro: no campo, na cidade, na estrada, na f\u00e1brica, seja onde for o precariado brasileiro \u00e9 cena, \u00e9 personagem, \u00e9 modo de ver e de construir (e destruir) imagens e narra\u00e7\u00e3o. \u00c9 Cristiano quem narra, ainda que em segunda inst\u00e2ncia (\u00e9 uma carta sua que \u00e9 lida por Andr\u00e9), \u00e9 ele quem define o ponto de partida da leitura e escolhe um lugar para come\u00e7ar. Esse in\u00edcio \u00e9 inst\u00e1vel e conduz o espectador a abra\u00e7ar essa instabilidade da narra\u00e7\u00e3o, tal e qual a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria errante do personagem precipita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">At\u00e9 alcan\u00e7ar a \u201cmaturidade\u201d do entendimento de sua real condi\u00e7\u00e3o e, modestamente, num grito n\u00e3o vocalizado, se imaginar conclamando todos os oper\u00e1rios a interromperem os trabalhos e deixar incendiar a f\u00e1brica, Cristiano ter\u00e1 passado por muita coisa tentando preencher sua vida de sentido, ter\u00e1 conhecido, amado e perdido a mulher da sua vida, rodado Minas Gerais em busca de trabalho, se encantado e se desiludido com a perspectiva de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Ar\u00e1bia<\/em> \u00e9 resultado de um esfor\u00e7o not\u00e1vel em considerar as circunst\u00e2ncias sofridas que comp\u00f5em a realidade nacional, que atravessa o Brasil inteiro e que o filme denuncia, esteticamente, com rigor e coer\u00eancia formal. Ele parte, pois, do princ\u00edpio n\u00e3o meritocr\u00e1tico de uma sociedade desigual para compreender a subjetividade a partir do trabalho objetivo, do material. No processo, encaminha finalmente (com um plano muito duro) o abalo mental e a resigna\u00e7\u00e3o desse personagem n\u00e3o como algu\u00e9m que desiste de tentar superar e vencer a instabilidade da vida, mas como quem simplesmente n\u00e3o deseja mais jogar seu jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ar\u00e1bia, de Affonso Uchoa e Jo\u00e3o Dumans, Brasil, 2017. Com Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Renata Cabral, Renan Rovida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3 existe \u201ctiro e mata\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o h\u00e1 milagre no mundo. 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