{"id":3937,"date":"2018-04-06T18:12:08","date_gmt":"2018-04-06T21:12:08","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=3937"},"modified":"2018-09-30T11:26:06","modified_gmt":"2018-09-30T14:26:06","slug":"que-fazer-uma-historia-sobre-a-labuta-dos-imigrantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=3937","title":{"rendered":"QUEFAZER . uma hist\u00f3ria sobre a labuta dos imigrantes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/RymTEUC_Mag\" width=\"560\" height=\"314\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/reportagens-especiais\/painstaking-a-story-about-the-immigrants-toil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>English version<\/em><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem s\u00e3o esses homens nas cal\u00e7adas? Fa\u00e7o essa pergunta com certa frequ\u00eancia. Algumas vezes em voz alta. Quem s\u00e3o os homens nas cal\u00e7adas, vendendo tantas coisas? De onde vem? O que fazem? O que pensam? Alguns sorriem. Outros mal piscam. As p\u00e1lpebras que abrigam aquele olhar distante parecem im\u00f3veis. Tantos com jeito de solid\u00e3o. \u00c9 como se estivessem sozinhos em pleno centro da inquieta Porto Alegre. Quem s\u00e3o, de verdade, esses homens nas cal\u00e7adas? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">__ .\u00a0__<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele vestia camiseta e bermudas brancas, duas pe\u00e7as simples que cresciam em contraste com a pele retinta e a luz do final de tarde. N\u00e3o sei se posso dizer que eram bermudas, talvez fossem o que eu chamava de capri na adolesc\u00eancia, um tipo de cal\u00e7as curtas, abaixo do joelho. Usava chinelos, estava \u00e0 vontade com a areia entrando em contato com os p\u00e9s. Era estiloso. A roupa toda era parte de um costume que ele arrematava com uma fina jaqueta de uma conhecida marca esportiva. Tinha capuz. Adidas, talvez? Acho que lembro das listras confundindo-se com os dentes perfeitos que apareciam com o sorriso f\u00e1cil e aut\u00eantico, t\u00edpicos de algu\u00e9m que n\u00e3o conhece a timidez. Ele dava todos os ind\u00edcios de que queria conversar. De que precisava conversar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci-o na praia do Quint\u00e3o. Enquanto minha m\u00e3e negociava uma rede com seu Messias, distra\u00ed-me com as dezenas de \u00f3culos que esse imigrante vendia na cal\u00e7ada da esquina da farm\u00e1cia, pertinho do Asun. Tinha uma cole\u00e7\u00e3o incr\u00edvel. Ele sorria. Aquele mesmo riso f\u00e1cil e aut\u00eantico permanecia, inabal\u00e1vel. Enquanto eu experimentava alguns modelos e demonstrava uma extrema incapacidade de coloc\u00e1-los de volta no lugar apropriado, dona Gertrudes apareceu sem que eu percebesse e, com a nova rede em punho, recriminou meus impulsos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cMais \u00f3culos, Ge\u00f3rgia? Isso \u00e9 quase uma obsess\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cM\u00e3e, n\u00e3o \u00e9 tanto assim.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era tanto assim. Eu ria e tentava convencer a ela e a mim de que eu precisava realizar aquela compra. Afinal, o pre\u00e7o estava t\u00e3o bom e as arma\u00e7\u00f5es t\u00e3o bonitas e eu t\u00e3o afim. Ele tamb\u00e9m ria enquanto ela revirava os olhos e eu fingia que n\u00e3o era comigo. Despedi-me sem perguntar seu nome. Eu tinha pressa, o vento era intenso e eu oscilava entre quase quebrar os dentes ao mastigar gr\u00e3os de areia, tentar manter os olhos abertos e domar meu cabelo, que parecia preso em um v\u00f3rtice de redemoinho. Fui, mas determinada a voltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltei. No dia seguinte, parei na mesma esquina movimentada e ele sorriu novamente, novamente f\u00e1cil, novamente aut\u00eantico. Ele havia lembrado de mim. N\u00e3o s\u00f3 de mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cCad\u00ea a m\u00e3e? N\u00e3o veio hoje?\u201d, perguntou rindo, provavelmente revivendo na mem\u00f3ria a cena rid\u00edcula da qual fomos protagonistas no dia anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cHoje n\u00e3o. Fugi!\u201d, respondi brincando.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem t\u00e3o brincando assim. Aproveitei a companhia do marido pouco preocupado com o que eu fa\u00e7o com meu dinheiro e comprei os \u00f3culos sem os olhares maternos de desaprova\u00e7\u00e3o. Com mais calma e menos vento, perguntei seu nome.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cMamadou.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mamadou \u00e9 esse homem de 27 anos que est\u00e1 no Brasil h\u00e1 dois. Chegou \u00e0 procura de emprego, assim como a maioria dos 1,06 milh\u00e3o de estrangeiros que vivem no pa\u00eds, segundo dados do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Mais de 50 mil est\u00e3o no Rio Grande do Sul. A soci\u00f3loga Aline Passuelo, \u00e0 \u00e9poca da entrevista, trabalhava com Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados (GAIRE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), \u00a0que presta gratuitamente assessoria jur\u00eddica, psicol\u00f3gica e social. Ela explicou que os estrangeiros que chegam ao Rio Grande do Sul vem, principalmente, do Haiti, Senegal, Col\u00f4mbia e S\u00edria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">__ .\u00a0__<\/p>\n<blockquote>\n<pre style=\"text-align: center;\">\u201cSOU DO SENEGAL. J\u00c1 OUVIU FALAR NO SENEGAL?\u201d<\/pre>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cClaro, Mamadou.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cMesmo? Muita gente n\u00e3o sabe onde fica o Senegal.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_4106\" aria-describedby=\"caption-attachment-4106\" style=\"width: 5400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/shutterstock_410473000.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4106 size-full\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/shutterstock_410473000.jpg\" alt=\"\" width=\"5400\" height=\"3600\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4106\" class=\"wp-caption-text\">Senegal. Foto: Vladimir Zhoga \/ Shutterstock.com<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Senegal \u00e9 daqueles lugares em que a natureza hipnotiza. As cores s\u00e3o quentes, as roupas comp\u00f5em um mosaico em contraluz enquanto a terra e o pouco verde se encontram perto da \u00e1gua salgada. H\u00e1 muito tempo \u00e9 considerada uma democracia bem-sucedida da \u00c1frica Ocidental. Desde a independ\u00eancia da Fran\u00e7a em 4 de abril de 1960, j\u00e1 s\u00e3o d\u00e9cadas de tradi\u00e7\u00e3o de governos est\u00e1veis e comando civil. Tamb\u00e9m \u00e9 um pa\u00eds extremamente seguro. A capital Dakar \u00e9 ber\u00e7o de artes com sua <em>Village des Arts<\/em>, lar e galeria de cerca de 50 artistas. Tamb\u00e9m vem de l\u00e1 o primeiro filme do continente. Borom Sarret (1963), do diretor senegal\u00eas Ousmane Semb\u00e8ne, foi o primeiro filmado na \u00c1frica por um diretor africano e negro. \u00c9 de tirar o f\u00f4lego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 daqueles lugares que tira o f\u00f4lego e n\u00e3o devolve. O pa\u00eds \u00e9 um dos mais pobres do mundo. Na compara\u00e7\u00e3o com o Produto Interno Bruto (PIB) de outras na\u00e7\u00f5es, dados Banco Mundial mostram o Senegal na 154\u00ba posi\u00e7\u00e3o em uma lista de 185. O resultado \u00e9 um tamb\u00e9m baixo \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH), uma medida comparativa de fatores como riqueza, alfabetiza\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, expectativa de vida e natalidade. Na classifica\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), o Senegal ocupa a posi\u00e7\u00e3o de 162 em um rol com 168 pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com 15 milh\u00f5es de habitantes, a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por jovens que n\u00e3o tem emprego ou oportunidades em uma terra que sobrevive da agricultura e precisa enfrentar as secas cada vez piores. A nuvem de poeira pode ser bonita ao expectador do c\u00e9lebre Rally Dakar, mas na realidade \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da sede, da falta de ar, de um destino \u00e1rido. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 encontrar o futuro em outro lugar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4108\" aria-describedby=\"caption-attachment-4108\" style=\"width: 3000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/shutterstock_476324782.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4108 size-full\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/shutterstock_476324782.jpg\" alt=\"\" width=\"3000\" height=\"1997\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4108\" class=\"wp-caption-text\">Senegal. Vladimir Zhoga \/ Shutterstock.com<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A professora Juliana Rossa auxilia os imigrantes senegaleses em Caxias do Sul de diversas formas e, ap\u00f3s alguns anos de conv\u00edvio e uma longa visita ao pa\u00eds, percebe que h\u00e1 um padr\u00e3o no perfil do imigrante.\u00a0\u201cA fam\u00edlia costuma escolher um representante para migrar, ele vai ter uma responsabilidade com a fam\u00edlia que ficou. Esse representante \u00e9 jovem, saud\u00e1vel, com muita vontade de trabalhar e, geralmente, instru\u00eddo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 do Senegal que v\u00eam os homens nas cal\u00e7adas. V\u00eam para trabalhar. Como diz a professora Juliana, \u201cse n\u00e3o fosse o trabalho, seria turismo\u201d. E com certeza n\u00e3o \u00e9 turismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imigra\u00e7\u00e3o do Senegal n\u00e3o \u00e9 um movimento recente. Ap\u00f3s a independ\u00eancia da Fran\u00e7a, em 1960, homens senegaleses migraram para os Estados Unidos e Europa \u00e0 procura de algo em que acreditar. O pai de Mor Ndiaye foi para a Espanha na d\u00e9cada de 80, mas ele resolveu vir para o Brasil, \u00e0 procura do lugar que aparecia nas hist\u00f3rias contadas por um amigo quando eram crian\u00e7as.\u00a0\u201cEu tinha um amigo de inf\u00e2ncia que passava as f\u00e9rias aqui, o pai dele trabalhava no consulado em S\u00e3o Paulo. Quanto ele voltava, ele s\u00f3 falava nisso. Ent\u00e3o eu cresci e escolhi o Brasil para viver.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mor chegou em 2008, quando ainda havia poucos compatriotas em Porto Alegre. Mas em 2014 o movimento migrat\u00f3rio aumentou quando uma terr\u00edvel estiagem acometeu o Senegal ao mesmo tempo em que o mercado brasileiro precisava de m\u00e3o de obra em fun\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo. Milhares de senegaleses decidiram procurar pelo futuro no Brasil.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3938\" aria-describedby=\"caption-attachment-3938\" style=\"width: 1365px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/reportagem-especial.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3938 size-full\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/reportagem-especial.jpg\" alt=\"\" width=\"1365\" height=\"767\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3938\" class=\"wp-caption-text\">Mor Ndiaye, Presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Imigrantes Senegaleses. Imagem: Catraca Filmes<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente sabia que o Brasil era muito violento e dif\u00edcil, mas tamb\u00e9m um pa\u00eds de alto crescimento. Quando eu cheguei, cheguei na \u00e9poca em que oportunidade estava sobrando.\u201d\u00a0Mor trabalha como Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas em uma grande empresa, encontrou a oportunidade que procurava. Mesmo privilegiado, por\u00e9m, ele sabe como \u00e9 dif\u00edcil despencar em um estado como o Rio Grande do Sul. Por isso, criou a Associa\u00e7\u00e3o dos Imigrantes Senegaleses para ajudar aos mais de 4,2 mil patr\u00edcios que vivem no Estado &#8211; 1200 somente na capital e em torno de 800 em Caxias do Sul.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cTu gostas de morar aqui, Mamadou?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 bom aqui, a gente consegue ganhar um dinheirinho para viver com dignidade e ajudar a fam\u00edlia. Mas tem que trabalhar bastante. Bom, em qualquer lugar do mundo tem que trabalhar bastante, n\u00e3o \u00e9 mesmo?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201c\u00c9 mesmo. Mas ainda \u00e9 bom?\u201d<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando cheguei, n\u00e3o demorei para conseguir trabalho. Trabalhei em muitas coisas, tinha emprego fixo. Mas agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim. Ent\u00e3o tive que procurar o que fazer.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">Mamadou n\u00e3o \u00e9 lac\u00f4nico, apesar do tom, tampouco \u00a0pessimista. Nada disso. Disse com o sorriso. Aquele f\u00e1cil e inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">__ .\u00a0__<\/p>\n<pre style=\"text-align: center;\"><strong>QUE FAZER? <\/strong>\r\n\r\n<strong>O BRASIL ENTRE OS DESEMPREGADOS E OS EXPLORADOS<\/strong>\r\n\r\n<\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">O otimismo n\u00e3o altera o fato de que a conjuntura mudou muito em menos de quatro anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) mostram que, no per\u00edodo de novembro a janeiro do ano passado, 12,7 milh\u00f5es de pessoas estavam desempregadas no Brasil. \u00c9 praticamente a popula\u00e7\u00e3o do Senegal inteira. E isso, obviamente, afeta os estrangeiros. A advogada M\u00e1rcia Abreu, do Servi\u00e7o de Assessoria Jur\u00eddica Universit\u00e1ria da UFRGS (Saju), esclarece que, em 2014, as principais dificuldades enfrentadas pelos imigrantes eram o idioma (os senegaleses falam franc\u00eas) e falta de moradia, al\u00e9m da quest\u00e3o da regulariza\u00e7\u00e3o de documenta\u00e7\u00e3o. Hoje, \u00e9 a falta de emprego.\u00a0\u201cAntes j\u00e1 era um problema. Em qualquer entrevista de emprego, inclusive no Sine, quando viam que era imigrante, nem olhavam o curr\u00edculo, j\u00e1 davam subemprego. E agora mudou bastante, a gente t\u00e1 vivendo um momento\u00a0muito diferente, n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o com anos atr\u00e1s.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mamadou n\u00e3o me disse o sobrenome, mas contou que est\u00e1 feliz por poder trabalhar de forma tranquila, alimentar-se, dormir bem. Ele sabe que \u00e9, de certa forma, privilegiado. A maioria demora para conseguir uma vida est\u00e1vel e isso faz com que perdure uma condi\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade. E os problemas que se acumulam com a falta de emprego s\u00e3o in\u00fameros e imensos e desumanos.\u00a0\u201cA maior preocupa\u00e7\u00e3o do imigrante \u00e9 trabalhar, para dar um come\u00e7o e se regularizar. Ele n\u00e3o vai se preocupar tanto com o tipo de servi\u00e7o que ele tem escolher, qual sal\u00e1rio vai receber e onde trabalhar. Muitas vezes, imigrantes trabalham em servi\u00e7os que os brasileiros n\u00e3o trabalham, mas isso n\u00e3o deixa de ser um servi\u00e7o digno.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mor conversava comigo em uma sala que fica no quarto andar de um pr\u00e9dio no centro de Porto Alegre. Na Rua dos Andradas, antes e sempre Rua da Praia. Enquanto ele fala sobre a procura de servi\u00e7o, da janela eu avisto os homens nas cal\u00e7adas. N\u00e3o vejo Mamadou. Mas vejo Mohammed, cujo nome ainda n\u00e3o sei mas com quem prometo conversar. N\u00e3o consigo parar de pensar no qu\u00e3o vulner\u00e1veis eles est\u00e3o. E eles est\u00e3o. Nossa conversa \u00e9 interrompida por um rapaz que preferiu n\u00e3o divulgar o nome.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cEsse rapaz aqui \u00e9 um exemplo do que eu estava te falando.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cEle sofreu algum tipo de explora\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSim. Ele estava trabalhando num local e foi demitido meses depois sem justa causa. <strong>N\u00e3o recebeu direitos, n\u00e3o recebeu sal\u00e1rio, n\u00e3o sabe a quem recorrer e vai acabar entrando numa vida vulner\u00e1vel.<\/strong> Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ele. Isso mostra que uma grade quantidade de imigrantes vive nessa situa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E bastou falar da primeira hist\u00f3ria para os relatos de opress\u00e3o brotarem na mem\u00f3ria dolorida de quem v\u00ea as consequ\u00eancias da escravid\u00e3o entranhadas no racismo estrutural do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cTem outro caso de tr\u00eas imigrantes que estavam trabalhando e foram demitidos. <strong>Tr\u00eas meses sem receber sal\u00e1rio, mais de tr\u00eas anos sem f\u00e9rias.<\/strong>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUma menina trabalhava de empregada em uma casa, se acidentou dentro do servi\u00e7o porque ela trabalhava mais do que deveria. Trabalhava quase 24 horas por dia. Ela morava no servi\u00e7o. Ela n\u00e3o tinha hor\u00e1rio pra come\u00e7ar e terminar. Acordava antes de todos, ia dormir depois de todo mundo. Ent\u00e3o ela caiu, fora do hor\u00e1rio que deveria ser o servi\u00e7o, mas estava trabalhando. Quebrou o bra\u00e7o. S\u00f3 que a empregadora disse pra ela n\u00e3o falar que estava trabalhando. <strong>No final das contas, ela foi mandada embora, n\u00e3o recebeu sal\u00e1rio, n\u00e3o tinha onde morar e ainda ficou sem poder trabalhar<\/strong>.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O procurador Luiz Alessandro Machado, do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho do Rio Grande do Sul (MPT-RS), conta que, h\u00e1 dois anos, foi instaurado um procedimento promocional (3124\/2016) para tratar dos imigrantes que vivem no Estado. <strong>Principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho escravo, tr\u00e1fico de pessoas e discrimina\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/strong>\u201cOs imigrantes muitas vezes n\u00e3o sabem aonde denunciar, n\u00e3o tem em quem confiar, tem dificuldade em se comunicar, isso faz com quem fiquem muito mais vulner\u00e1veis \u00e0 explora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 in\u00fameros registros de caso de explora\u00e7\u00e3o e\/ou racismo no interior do Estado envolvendo senegaleses e haitianos. E h\u00e1 casos envolvendo pessoas de outras nacionalidades. Na regi\u00e3o de Passo Fundo, nos munic\u00edpios de Arvorezinha e Doutor Ricardo, o MPT desvelou um esquema de aliciamento de trabalhadores uruguaios, paraguaios e argentinos para a produ\u00e7\u00e3o de erva-mate. Inclusive com interven\u00e7\u00e3o dos chamados atravessadores \u2013 ou coiotes. Eles eram mantidos em condi\u00e7\u00f5es degradantes e an\u00e1logas ao trabalho escravo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00f3rg\u00e3o esbarra na resist\u00eancia dos imigrantes em levar adiante as den\u00fancias de abuso. \u201cA maioria s\u00f3 \u00a0vem em situa\u00e7\u00e3o extrema, quando n\u00e3o recebe o dinheiro e quer ir embora.\u201d Ele lembra, por\u00e9m, que os imigrantes podem se sentir seguros ao conduzir qualquer den\u00fancia ao MPT, que pode ajudar, inclusive, na produ\u00e7\u00e3o de novos documentos. A aprova\u00e7\u00e3o da resolu\u00e7\u00e3o normativa 122 d\u00e1 aos procuradores a atribui\u00e7\u00e3o para requerer o visto a quem foi v\u00edtima de explora\u00e7\u00e3o ou tr\u00e1fico de pessoas. Com isso, podem permanecer no Brasil por at\u00e9 cinco anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o procurador admite que h\u00e1 falhas na verifica\u00e7\u00e3o dos problemas. \u201cA gente t\u00e1 fazendo um mapeamento da situa\u00e7\u00e3o e abriu um procedimento investigat\u00f3rio para cada uma das empresas que empregam trabalhadores imigrantes e pedimos fiscaliza\u00e7\u00f5es para o Minist\u00e9rio do Trabalho.\u201d At\u00e9 o momento, os maiores problemas est\u00e3o vinculados ao ass\u00e9dio moral e discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A limita\u00e7\u00e3o maior est\u00e1 na verifica\u00e7\u00e3o do trabalho informal, no qual o procurador Luiz Alessandro Machado reconhece haver espa\u00e7o para atua\u00e7\u00e3o. O RS \u00e9 o terceiro estado que mais emprega imigrantes no pa\u00eds (10%), mesmo assim, cada vez menos os senegaleses conseguem emprego com carteira assinada. Em 2014, o mercado formal absorvia os rec\u00e9m chegados na constru\u00e7\u00e3o civil, em grandes f\u00e1bricas, empresas de limpeza e servi\u00e7os gerais e, principalmente, em frigor\u00edficos. Com o crescimento da exporta\u00e7\u00e3o de carne para pa\u00edses \u00e1rabes, cresceu a demanda de m\u00e3o-de-obra mu\u00e7ulmana para executar o abate halal, que \u00e9 a forma como um animal deve ser abatido de acordo com as leis do Alcor\u00e3o. Mas com a crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social que o Brasil enfrenta, os imigrantes foram os primeiros demitidos. E se j\u00e1 era raro que algu\u00e9m valorizasse sua capacidade intelectual, a conjuntura pol\u00edtica brasileiro dificultou isso ainda mais. A professora Juliana Rossa contou que at\u00e9 o curr\u00edculo pode ser um problema. As documenta\u00e7\u00f5es s\u00e3o diferentes, os endere\u00e7os fluidos e comprovantes s\u00e3o dif\u00edceis de apresentar.\u00a0\u201cTem muitas particularidades no mundo do trabalho, e esse mercado n\u00e3o se abre pra eles.\u201d<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong>OU\u00c7A OS RELATOS DE EXPLORA\u00c7\u00c3O \u00a0E A ATUA\u00c7\u00c3O DO MINIST\u00c9RIO P\u00daBLICO DO TRABALHO<\/strong><\/h5>\n<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-3937-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Mor-e-MPT.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Mor-e-MPT.mp3\">https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Mor-e-MPT.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Mamadou, ent\u00e3o, recorreu ao que sabe.<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cEu gosto de vender. No Senegal, a maior parte das pessoas trabalha na agricultura, mas n\u00e3o tem espa\u00e7o pra todo mundo. Ent\u00e3o o jovem vende. A gente come\u00e7a a vender cedo.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">__ . __<\/p>\n<pre style=\"text-align: center;\"><strong>QUEFAZER <\/strong>\r\n\r\n<strong>O SENEGAL E UMA POPULA\u00c7\u00c3O MOLDADA PARA O COM\u00c9RCIO<\/strong><\/pre>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um erro de digita\u00e7\u00e3o, descobri a exist\u00eancia da palavra \u201cquefazer\u201d. Assim mesmo, tudo junto. Minha ignor\u00e2ncia me impedia de saber que significa ocupa\u00e7\u00e3o. Conforme o dicion\u00e1rio, \u00e9 um voc\u00e1bulo descrito como o trabalho que se faz por h\u00e1bito, costume. Imediatamente pensei nos homens nas cal\u00e7adas. N\u00e3o \u00e9 por acaso que eles optam pelo com\u00e9rcio ambulante. No Senegal, 70% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por jovens que n\u00e3o tem onde trabalhar em um pa\u00eds que sobrevive da agricultura e sofre com as estiagens. Como consequ\u00eancia, eles migram para as grandes cidades na esperan\u00e7a de serem absorvidos pelo com\u00e9rcio, uma arte que se n\u00e3o \u00e9 inata os acompanha desde muito cedo e faz parte da cultura do pa\u00eds de maioria mu\u00e7ulmana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juliana Rossa \u00e9 jornalista e professora da Faculdade Murialdo de Caxias do Sul. H\u00e1 mais de cinco anos convive com os imigrantes e pesquisa sobre aspectos culturais espec\u00edficos do Senegal. No doutorado em Letras pela UCS\/UniRitter, centrou o estudo na poesia oral e na performance dos cantos religiosos. A caxiense viajou ao pa\u00eds, onde p\u00f4de n\u00e3o apenas aprofundar a investiga\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m desvendar um v\u00ednculo fort\u00edssimo entre a religiosidade e a habilidade comercial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estima-se que 94% dos senegaleses sejam mu\u00e7ulmanos. O islamismo praticado no pa\u00eds \u00e9 influenciado pelo Sufismo, conhecido como uma corrente m\u00edstica que tem no Muridismo uma das fraternidades mais expressivas na etnia Wolof (que abrange quase metade da popula\u00e7\u00e3o do Senegal). O aspecto religioso \u00e9 t\u00e3o importante na sociedade que as crian\u00e7as s\u00e3o encaminhadas para uma escola \u00e1rabe desde muito cedo. Geralmente, os meninos passam a frequentar a escola cor\u00e2nica a partir dos cinco anos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEles aprendem \u00e1rabe e decoram o Alcor\u00e3o. Dependendo da fam\u00edlia, a crian\u00e7a fica mais ou menos tempo. Essas escolas cor\u00e2nicas s\u00e3o mantidas com doa\u00e7\u00f5es, s\u00e3o espa\u00e7os em que as crian\u00e7as passam o dia relativamente sozinhas e precisam aprender a \u201cse virar\u201d, com pouqu\u00edssimo tempo para brincar. Essa escola caleja a personalidade deles. Por exemplo, \u00e0s vezes, para almo\u00e7ar, eles precisam pedir comida nas casas dos vizinhos. Ao fazer esse gesto, eles se colocam humildes. \u00c9 como uma troca. Ao pedir ajuda, eles tamb\u00e9m se disp\u00f5em a ajudar, a tratar a todos muito bem e com muito respeito. Ent\u00e3o, porque eles vendem muito bem? Porque eles retornam a essa forma\u00e7\u00e3o inicial.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um professor senegal\u00eas foi quem explicou a rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Juliana. \u00c9 uma esp\u00e9cie de solicitude que se aprende desde muito cedo, como uma permuta de gentilezas. Algo que \u00e9 refor\u00e7ado nas pessoas que, dentro do Muridismo, praticam a corrente <em>Baye Fall<\/em>, facilmente identific\u00e1veis pelas roupas coloridas e os <em>dreadlocks<\/em> \u2013 \u00e0s vezes confundidos com os Rastafari.\u00a0\u201cSe tu encontrares um Baye Fall e tu estiveres com frio, ele vai tirar a roupa que tem para que tu n\u00e3o sintas frio. Se h\u00e1 uma festa religiosa, ele vai cozinhar, ele vai fazer, ele que vai ajudar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato da professora Juliana Rossa mostra como a negocia\u00e7\u00e3o faz parte de quem eles s\u00e3o. Eles vendem, vendem, vendem eletr\u00f4nicos, vendem comida, vendem arte, vendem roupas, vendem.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4107\" aria-describedby=\"caption-attachment-4107\" style=\"width: 3000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/shutterstock_374141092.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4107 size-full\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/shutterstock_374141092.jpg\" alt=\"\" width=\"3000\" height=\"2000\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4107\" class=\"wp-caption-text\">Senegal. Vladimir Zhoga \/ Shutterstock.com<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente nasce naquele ambiente em que as pessoas vendem na rua. Muitas pessoas que est\u00e3o aqui, j\u00e1 vendiam l\u00e1.\u201d\u00a0Mor n\u00e3o \u00e9 vendedor, mas confirma que h\u00e1 essa prepara\u00e7\u00e3o. As cidades est\u00e3o envoltas na atmosfera das transa\u00e7\u00f5es comerciais. Por isso, diante da crise no mercado formal brasileiro, recorrer ao com\u00e9rcio ambulante e informal \u00e9 uma escolha natural para os senegaleses. Natural, mas n\u00e3o significa uma alternativa f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">__ . __<\/p>\n<blockquote>\n<pre style=\"text-align: center;\"><strong>\u201cO IMIGRANTE, QUANDO DECIDE SAIR, J\u00c1 EST\u00c1 PREPARADO. TU T\u00c1 INDO PRA OUTRO PA\u00cdS, TEM QUE TOLERAR CERTAS COISAS.\u201d<\/strong><\/pre>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso coragem para enfrentar as ruas na branca Porto Alegre. As certas coisas a que o Mor se refere em tolerar s\u00e3o pesadas. N\u00e3o demoro para perceber que ele est\u00e1 falando de racismo, xenofobia, intoler\u00e2ncia em todas as formas, preconceito de todos os jeitos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cSe eu saio na rua e paro ali no menino que t\u00e1 vendendo, em dez minutos eu vou reparar em alguma coisa preconceituosa que ele n\u00e3o vai perceber.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cComo assim?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cPorque eu estou aqui h\u00e1 mais tempo. Sou mais ligado.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cTu falas de racismo velado?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cIsso, s\u00e3o pequenas coisas que eu percebo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cE coisas nem t\u00e3o pequenas, acontecem?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSim. Na semana passada, por exemplo, eu fui no tabelionato acompanhar algu\u00e9m que precisava da minha ajuda para autenticar um documento. Quando a gente chegou o cara falou que n\u00e3o ia autenticar porque n\u00e3o era um documento oficial. S\u00f3 que era um documento da Pol\u00edcia Federal. O menino ficou arrasado.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Eu recebo a informa\u00e7\u00e3o com assombro. \u00c9 o tipo de hist\u00f3ria que todos sabemos que existe, mas envergonha a confirma\u00e7\u00e3o. Acho que n\u00e3o consigo esconder o constrangimento e o rubor que toma conta do meu rosto. Mor se apressa em explicar que a maioria dos ga\u00fachos trata os imigrantes com respeito, mas insisto que ele fale de quem n\u00e3o o faz. Superada a resist\u00eancia inicial, ele emenda um desabafo no suspiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA palavra \u201cracismo\u201d. Eu conheci o significado dessa palavra na pr\u00e1tica h\u00e1 pouco tempo. N\u00e3o \u00e9 um problema no Senegal, mas aqui parece que vai ser sempre. Agora h\u00e1 pouco eu conversava com algu\u00e9m que foi contratado em uma grande empresa, com carteira assinada, para um bom cargo de n\u00edvel superior. Ele foi l\u00e1 hoje e foi apresentado \u00e0 pessoa que seria sua chefe. Ela olhou pra ele e disse: \u201ceu n\u00e3o quero esse cara.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cPor causa da cor.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSim, por causa da cor. O racismo no Brasil existe e os imigrantes sofrem diariamente. E o problema n\u00e3o \u00e9 ser imigrante, \u00e9 ser imigrante africano e negro. O imigrante europeu com a mesma forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontra as mesmas dificuldades. O negro brasileiro sofre e o negro africano sofre.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme ele fala, meus ombros pesam com a vergonha que todo brasileiro deveria carregar. Imediatamente me lembro de uma frase da soci\u00f3loga Aline Passuelo, com quem eu havia conversado muito tempo antes.\u00a0\u201cJamais vou esquecer de um imigrante que me disse que descobriu que era negro no Brasil. Ele descobriu que ser negro era um problema no Brasil.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tamb\u00e9m jamais vou esquecer do que a Aline me contou. Em pleno s\u00e9culo XXI, o negro africano atravessa o oceano para descobrir um pa\u00eds que n\u00e3o se permite livrar da cruel e torpe tradi\u00e7\u00e3o escravagista. E esse comportamento social tem um impacto devastador no imagin\u00e1rio dos imigrantes senegaleses, que aguentam em sil\u00eancio e sozinhos. N\u00e3o s\u00e3o poucos os que apresentam transtornos psicol\u00f3gicos, geralmente relacionados \u00e0 depress\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cSofrem calados porque todos os dias acontecem pequenas coisas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cTipo o que, Mor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO imigrante vai na farm\u00e1cia e \u00e9 ignorado. Vai na padaria e algu\u00e9m repara na cor, que tem sotaque diferente, e n\u00e3o \u00e9 atendido. Come\u00e7a a ser tratado de forma diferente.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cE como ele reage a essas coisas?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEle n\u00e3o tem com quem reclamar, geralmente passa por tudo isso sem reclamar. Isso choca.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como. E acabam se fechando. Quando conheci o Mamadou, percebi que havia algo diferente. Ele queria conversar, precisava conversar e assim o fez. Abertamente. Com aquele sorriso f\u00e1cil e inabal\u00e1vel. Isso era incomum. Nas outras vezes em que abordei um imigrante, fosse para uma conversa, fosse para uma entrevista, a resposta era amig\u00e1vel mas monossil\u00e1bica. Mor me disse que era medo de ser julgado e maltratado. Fazia sentido. As palavras vinham carregadas de desconfian\u00e7a, de receio. Foi assim com Mohammed, o menino que eu avistei da janela enquanto falava com Mor. Desligado o gravador, fui at\u00e9 ele. Comprei um cabo para o carregador do meu celular por quinze reais e perguntei seu nome. Ele me olhou com surpresa. Respondeu, mas cabreiro. Foi quando lembrei de algo que poderia quebrar o gelo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cTu foste levar uma chave a pedido do Mor para a senhora da portaria, n\u00e3o \u00e9 mesmo?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cSim, como voc\u00ea sabe?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cEu estava sentada nas cadeiras que ficam na entrada.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cAh, sim. Agora eu me lembro.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEstava justamente aguardando para conversar com o Mor, estou fazendo uma reportagem sobre a vida dos imigrantes senegaleses aqui no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. \u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cQue bom.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cTu vives aqui h\u00e1 quanto tempo?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cH\u00e1 dois anos. Eu tenho 22 anos, cheguei aqui com 20.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cVende bastante?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cN\u00e3o posso me queixar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cE gosta de morar aqui?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201c\u00c9 bom, eu consigo ajudar minha fam\u00edlia. Mas quero voltar.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando ele encolheu os ombros e desviou o olhos, as palavras do Mor ecoaram nos meus ouvidos. Sorrio. Ele sorri de volta. Desejo sorte a ele e sigo meu rumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">__ . __<\/p>\n<pre style=\"text-align: center;\"><strong>FAZER O QUE? <\/strong><\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu av\u00f4 fala muito isso. Seu Orozimbo \u00e9 neto de imigrantes italianos. A fam\u00edlia Pellizzaro chegou no Rio Grande do Sul no final do s\u00e9culo XIX. Esqu\u00e1lidos de fome, p\u00e1lidos de frio e vestindo farrapos. Chegaram aqui, h\u00e1 mais de cem anos, em busca de uma oportunidade, por menor que fosse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das hist\u00f3rias que o nono Giuseppe contava, creio que n\u00e3o figuravam relatos de preconceito. Em nenhum momento surgia a dor de ouvir de um brasileiro que eles estavam ali para roubar empregos ou para trazer doen\u00e7as. Pelo contr\u00e1rio, eles inclusive foram incentivados pelo governo brasileiro. Ganharam terrenos para colonizar. E prosperaram. Algu\u00e9m acreditou neles e eles tiveram a chance de prosperar.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cA gente s\u00f3 precisa de uma m\u00ednima oportunidade. De considera\u00e7\u00e3o e respeito.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_4136\" aria-describedby=\"caption-attachment-4136\" style=\"width: 3646px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/IMG_9653.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4136 size-full\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/IMG_9653.jpg\" alt=\"\" width=\"3646\" height=\"2592\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4136\" class=\"wp-caption-text\">Imigrantes senegaleses trabalhando nas ruas de Porto Alegre. Foto: Ge\u00f3rgia Santos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o jovens. Est\u00e3o batalhando, trabalhando, vivendo longe dos pais, longe da fam\u00edlia, longe de tudo o que conhecem. Longe de festas em que toca <em>mbalakh<\/em>. Longe da voz de <em>Youssou N\u00b4Dur<\/em>. Longe das planta\u00e7\u00f5es de <em>mil<\/em> e dos pratos de <em>diakhout\u00e9<\/em>. Fazer o que?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">__ . __<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cPrazer em te conhecer, Mamadou.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cTamb\u00e9m, Ge\u00f3rgia.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era uma entrevista. Era apenas uma conversa, eu s\u00f3 queria saber quem ele era, de verdade. Fiquei feliz em ver que era um cara cheio de sonhos, feliz, que corre atr\u00e1s daquilo que acredita. Foi assim que conheci um dos homens nas cal\u00e7adas. Espero que o sorriso continue f\u00e1cil e inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p><em>Reportagem: Ge\u00f3rgia Santos<\/em><\/p>\n<p><em>V\u00eddeo: Catraca Filmes<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>English version Quem s\u00e3o esses homens nas cal\u00e7adas? 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