{"id":3705,"date":"2018-03-10T02:16:55","date_gmt":"2018-03-10T05:16:55","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=3705"},"modified":"2018-03-10T19:30:59","modified_gmt":"2018-03-10T22:30:59","slug":"critica-trama-fantasma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=3705","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Trama Fantasma"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 melhor dizer logo de cara que <strong><em>Trama Fantasma<\/em><\/strong> \u00e9 o filme de melhor execu\u00e7\u00e3o que Paul Thomas Anderson j\u00e1 realizou. A confus\u00e3o de valores narrativos e tem\u00e1ticos que antes lhe afetavam, neste filme o enriquecem. Em primeiro lugar, <em>Trama Fantasma <\/em>assume os monstros de sua fic\u00e7\u00e3o ao abra\u00e7ar de vez o realismo em um sentido muito evidente, qual seja, o de capturar e sublinhar certas caracter\u00edsticas do tempo e do espa\u00e7o sem as decora\u00e7\u00f5es narrativas que estavam l\u00e1 em <em>Magn\u00f3lia, Embriagado de Amor, Sangue Negro <\/em>e outros de seus filmes. <strong>Pois o realismo \u00e9 justamente essa clareza com que as formas se apresentam, construindo e destruindo as emo\u00e7\u00f5es do espectador conforme avan\u00e7am.<\/strong> Suas raz\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o simplesmente t\u00e9cnicas (como em <em>Boogie Nights<\/em>), mas possuem agora um senso de propor\u00e7\u00e3o temporal e uma franja emocional muito sutil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A epifania egoc\u00eantrica d\u00e1 lugar a um olhar paciente e autocontido sem perder seu car\u00e1ter sistem\u00e1tico de grande melodrama que o filme quer ser. \u00c9 necess\u00e1rio encarar a imagem de maneira frontal e isto quer dizer limitar as interrup\u00e7\u00f5es visuais que sua c\u00e2mera sempre pareceu desrespeitar em nome de virtuosismos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>O pr\u00f3prio espa\u00e7o constitui um entrave positivo, pois o filme se passa praticamente todo em loca\u00e7\u00e3o interna \u2013 o que aumenta a press\u00e3o sob suas personagens, quase que exigindo delas nada menos que a vida em sacrif\u00edcio, em troca da liberdade<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>Trama Fantasma <\/em>tudo \u00e9 essencial para a partitura do filme, para seu desenvolvimento e frui\u00e7\u00e3o: o ritmo condensado de sua a\u00e7\u00e3o, a longa introdu\u00e7\u00e3o ao cen\u00e1rio central do filme, sua atmosfera de ambienta\u00e7\u00e3o tipicamente aristocr\u00e1tica (estamos na Inglaterra da metade do s\u00e9culo XX), a mans\u00e3o gigante que \u00e9 tanto local de trabalho quanto morada do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e de sua irm\u00e3 e gestora imperial Cyril (Lesley Manville). Mr. Woodcock constura para a realeza brit\u00e2nica e para nomes fortes da alta sociedade inglesa. O filme \u00e9 a hist\u00f3ria de obsess\u00f5es: do estilista por sua modelo e m\u00e9todos de rotina intoc\u00e1veis, da irm\u00e3 pelo controle e pelo poder, da jovem Alma (Vicky Krieps) por Woodcock, de Paul Thomas Anderson pela depura\u00e7\u00e3o perfeccionista de seus motivos visuais que, neste filme como em nenhum outro, est\u00e3o plenamente justificados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alma, trabalhando ent\u00e3o como gar\u00e7onete, recebe Woodcock e o serve no estabelecimento de beira de estrada. O flerte rapidamente se traduz num convite para que o estilista tire as medidas da mo\u00e7a. Ela vira sua modelo, sendo seu corpo o corpo <em>ideal<\/em>, figura que d\u00e1 forma a sua cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. O tema da obsess\u00e3o pela forma (forma do corpo, <em>forma das formas<\/em>) inicia. Alma logo est\u00e1 trabalhando para Woodcock, isto \u00e9, vendendo a mercadoria mais valiosa que h\u00e1, sua for\u00e7a de trabalho. Na casa, o trabalho e o descanso se misturam at\u00e9 que as diferen\u00e7as se apaguem (\u00e9 a isto, afinal, que o t\u00edtulo do filme alude; a linha fantasma), para depois voltarem marcantes e venenosas, salientando os aspectos do suspense que o filme tamb\u00e9m instaura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>O ganha p\u00e3o e o tes\u00e3o acentuam o melodrama, embaralham a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de Alma com Woodcock, mas dele com Cyril. Anderson acertou de vez a m\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trilha sonora \u00e9 precisa ao criar a press\u00e3o atmosf\u00e9rica desejada e as m\u00fasicas se repetem para refor\u00e7ar o pr\u00f3prio looping da vida que se organiza dentro da mans\u00e3o. <strong>H\u00e1, claro que h\u00e1, um corte de classe subsumido na a\u00e7\u00e3o coordenada do filme.<\/strong> As senhoras que trabalham silenciosas e competentes e todas as outras personagens do filme, mulheres ou homens, cujo roteiro n\u00e3o deu mais que meia d\u00fazia de frases, quando muito, demonstram isso. A obsess\u00e3o do cineasta est\u00e1 muito bem focada naquela paix\u00e3o pela forma e pelo contorno que se traduz em seus personagens, em especial na rela\u00e7\u00e3o do Mr. Woodcock com Alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Obsess\u00f5es s\u00e3o coisas naturais dos cineastas: Griffith, Eisenstein, Hitchcock, Preminger, Bergman, Tarkovski, Almod\u00f3var, entre muitos outros.<\/strong> Falamos, isto parece claro, de um cineasta que se move calculadamente entre o rigorismo extremo (kubrickiano) e o ceticismo moderado (que ele herda, muito j\u00e1 se disse, de Robert Altman). A trama fantasma \u00e9 resultado tamb\u00e9m dessa correla\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias e estilos narrativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma dificuldade (<em>cr\u00edtica<\/em> e essencialmente dos cr\u00edticos que escrevem sobre seus filmes), na nossa cr\u00edtica bem como na estrangeira, em estabelecer os elementos formais que comp\u00f5em sua obra sem cair em pedantismos ou divaga\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias sobre o \u201capuro formal\u201d, a &#8220;eleg\u00e2ncia da montagem\u201d, \u201ca sagacidade do roteiro\u201d, enfim, todo um repert\u00f3rio de afirma\u00e7\u00f5es que podem ser aplicadas a qualquer cineasta com tra\u00e7os mais ou menos recorrentes. Uma esp\u00e9cie de pesadelo descritivo ronda nossa escrita. Ademais insuficiente, essa confus\u00e3o, se ela existe e n\u00e3o \u00e9 somente coisa da minha cabe\u00e7a, mant\u00e9m inexplorada a rela\u00e7\u00e3o controversa entre suas obsess\u00f5es tem\u00e1ticas e suas obsess\u00f5es est\u00e9ticas. <strong>H\u00e1 um paradoxal mal estar na leitura dos filmes de PTA e que <em>Trama Fantasma<\/em> ajuda a dissipar, pois trata-se, agora podemos dizer, de um filme de afirma\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez de fato ainda exista espa\u00e7o para um pensamento conceitual sobre cinema nos pr\u00f3prios filmes. Da parte de Paul Thomas Anderson, este \u00e9 sem d\u00favida o exemplar mais completo. Um filme realista que livra o cineasta da zona de sombras.<\/p>\n<p><em>Phantom Thread, de Paul Thomas Anderson, EUA, 2017. Com Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 melhor dizer logo de cara que Trama Fantasma \u00e9 o filme de melhor execu\u00e7\u00e3o que Paul Thomas Anderson j\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":3706,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[1137,1136,542,1135,1134,1133,1138,395,1132],"class_list":["post-3705","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes","tag-almodovar","tag-bresson","tag-critica","tag-griffith","tag-hitchcock","tag-paul-thomas-anderson","tag-robert-altman","tag-stanley-kubrick","tag-trama-fantasma"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3705","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3705"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3705\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3706"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3705"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}