{"id":365,"date":"2017-01-18T13:53:45","date_gmt":"2017-01-18T15:53:45","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=365"},"modified":"2017-02-10T15:23:01","modified_gmt":"2017-02-10T17:23:01","slug":"eu-daniel-blake","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=365","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Eu, Daniel Blake"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><em>Por Pedro Henrique Gomes<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Daniel Blake sofreu um ataque card\u00edaco. Segundo recomenda\u00e7\u00f5es de seus m\u00e9dicos, est\u00e1 impossibilitado de trabalhar. Ele entra com um pedido de aux\u00edlio financeiro, que lhe \u00e9 devido, junto ao \u00f3rg\u00e3o de Seguridade Social ingl\u00eas, mas tem seu pedido negado: o Estado alega que ele est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Tenta recurso, desiste, encontra com as dificuldades impostas pela falta de dinheiro, conhece pessoas em situa\u00e7\u00f5es semelhantes, ajuda como pode.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Eu, Daniel Blake<\/em>, o novo filme de Ken Loach, Palma de Ouro no \u00faltimo Festival de Cannes, pretende que o espectador se indigne diante das dificuldades impostas pelo Estado para que um cidad\u00e3o consiga ter direito a um benef\u00edcio previdenci\u00e1rio b\u00e1sico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Loach \u00e9 daqueles cineastas que n\u00e3o abre m\u00e3o do estilo e da determina\u00e7\u00e3o de sua milit\u00e2ncia. De suas imagens, a tradi\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito oper\u00e1rio resplandece. A mira, no entanto, nem sempre acerta o alvo. A sua <em>agenda <\/em>pol\u00edtica (que em linhas gerais s\u00e3o just\u00edssimas e compreens\u00edveis) coloca seus filmes dentro de uma norma que ele pr\u00f3prio n\u00e3o consegue transpor para al\u00e9m de certo engessamento narrativo. Seus filmes, mesmos os melhores (<em>Os Ferrovi\u00e1rios<\/em>, de 2002, por exemplo), travam na unilateralidade de suas observa\u00e7\u00f5es, destituindo-nos daquele mist\u00e9rio contradit\u00f3rio e das tens\u00f5es que prop\u00f5em os grandes filmes baseados no \u201crealismo social\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Loach condena o cinema hollywoodiano (este dos grandes espet\u00e1culos) por seus esquemas est\u00e9ticos e pol\u00edticos, todavia permite que seus filmes se embriaguem em um n\u00edvel de chantagem emocional estranho para um cineasta do seu timbre. <em>Eu, Daniel Blake<\/em> n\u00e3o foge ao riscado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda que engessado, ainda que repleto de atalhos discursivos e adapta\u00e7\u00f5es absurdamente pesadas para passar a <em>mensagem necess\u00e1ria, Eu, Daniel Blake<\/em> d\u00e1 ind\u00edcios, logo em seu in\u00edcio, de que Loach tentar\u00e1 olhar a complexidade do mundo (mesmo que seja do mundo em que ele se insere, ideologicamente falando) sem suas certezas habituais que resultam num enquadramento sociol\u00f3gico severamente limitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Que numa modernidade capitalista as individualidades sejam al\u00e7adas a um patamar primordial, que a competitividade do mercado e o alargamento dos espa\u00e7os privados sobre os p\u00fablicos sejam sintomas, que o Estado burocratizado em cons\u00f3rcio p\u00fatrido com o mercado seja um convite ao abandono dos populares, isto parece sensato dizer \u2013 e a obra de Loach nos diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas o filme n\u00e3o precisa necessariamente que o espectador compartilhe de suas cren\u00e7as, pois nada muda: o seu prato j\u00e1 vem servido e n\u00e3o podemos acrescentar temperos. Resta observar a degrada\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria da qual seu filme provavelmente se alimentar\u00e1. A burocracia vence, derrotando a esperan\u00e7a. H\u00e1 como reergu\u00ea-la?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Henrique Gomes Daniel Blake sofreu um ataque card\u00edaco. Segundo recomenda\u00e7\u00f5es de seus m\u00e9dicos, est\u00e1 impossibilitado de trabalhar. 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