{"id":3647,"date":"2018-02-27T15:43:06","date_gmt":"2018-02-27T18:43:06","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=3647"},"modified":"2018-02-27T15:43:06","modified_gmt":"2018-02-27T18:43:06","slug":"22-anos-sem-caio-fernando-abreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=3647","title":{"rendered":"22 anos sem Caio Fernando Abreu"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em fevereiro de 1996, partia para outro plano o escritor da paix\u00e3o. <strong>Caio Fernando Abreu<\/strong> se foi, mas ficou a obra, o legado de escrita visceral que ganhou novo f\u00f4lego por meio das redes sociais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Caio F., como gostava de assinar em sua correspond\u00eancia a amigos, foi extremamente corajoso ao expor o diagn\u00f3stico de HIV positivo publicamente em uma \u00e9poca em que o assunto ainda era tabu. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Selecionei um trecho do livro <\/span><strong><i>Cartas<\/i><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>,<\/strong> organizado por Italo Moriconi e lan\u00e7ado em 2002. <strong>No texto escrito para Maria Augusta Antoun e datado de 1\u00ba de dezembro de 1995, Caio comenta sobre o pouco de tempo de vida que imagina ter, devido ao estado prec\u00e1rio de sa\u00fade:<\/strong><\/span><\/p>\n<p>.<\/p>\n<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c[&#8230;] e eu barganho com Deus o tempo todo pedindo tempo para escrever pelo menos mais uns seis livros. Estou escrevendo. Sei que o tempo que eu tiver ser\u00e1 exato. E sei tamb\u00e9m que pode acontecer n\u00e3o \u201cum milagre\u201d, mas uma sobreviv\u00eancia maior. H\u00e1 novos rem\u00e9dios e uma maladie muito recente. Talvez a cura esteja chegando? Sei que tenho tido uma f\u00e9 enorme. E me sinto um homem de sorte \u2014 estou protegido, cercado de amor. A dor, a morte, pouco importam (ou \u00e9 s\u00f3 o que importa), porque s\u00e3o parte da condi\u00e7\u00e3o humana. Mas que se tenha uma vida completa, que se possa passar por ela deixando algo bom para o planeta, para os outros. Vezenquando penso que, no que escrevo, quase consigo. E me sinto sereno. Mas quero fazer mais. N\u00e3o sinto culpa nem revolta, nem remorso, em nenhum momento algum sentimento escuro. Dores sim, f\u00edsicas. Mal-estares, fragilidades terr\u00edveis. [&#8230;] E descobri que somos muit\u00edssimo mais capazes de suportar a dor do que supomos. Vide Frida Kahlo.\u201d<\/span><\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Caio, que sempre foi uma pessoa angustiada, descobre no final da exist\u00eancia uma tranquilidade que n\u00e3o conhecia at\u00e9 ent\u00e3o. E tamb\u00e9m aproveita a carta para perguntar sobre Vera Antoun, a sua \u00fanica namorada \u201coficial\u201d, antes de decidir assumir sua homossexualidade:<\/span><\/p>\n<p>.<\/p>\n<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA gente se d\u00e1 conta tarde de que a felicidade \u00e9 f\u00e1cil, n\u00e3o? Gostaria de saber mais de voc\u00ea e de toda a fam\u00edlia. Sei que Vera formou-se em Medicina, encontrei-a certa vez (uns 15 anos?) na praia. No meu \u00faltimo livro, Ovelhas negras, tem um conto chamado Lixo &amp; purpurina em que ela \u00e9 personagem (com o nome de \u201cClara\u201d). Dificilmente poderei escrever assim longamente outra vez para voc\u00ea. Meu tempo \u00e9 medido \u2014 sa\u00fade, jardim, literatura. E h\u00e1 muita coisa profissional a ser tratada \u2014 tradu\u00e7\u00f5es, publica\u00e7\u00f5es no estrangeiro, cr\u00f4nicas para jornal. Estou pagando todo o meu tratamento (\u00e9 car\u00edssimo: acabo de sair de uma radioterapia de seis mil!), o que me deixa muito orgulhoso, mas tamb\u00e9m fatigado.\u201d<\/span><\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A vers\u00e3o impressa do livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cartas, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">uma preciosidade para os f\u00e3s da obra de Caio Fernando Abreu, est\u00e1 esgotada h\u00e1 alguns anos. O texto acima eu copiei do exemplar que tenho em casa.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Para quem ainda n\u00e3o leu a obra em quest\u00e3o, resta procurar em sebos a pre\u00e7os bastante altos &#8211; cheguei a ver por R$ 200,00 na Estante Virtual. Outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 a vers\u00e3o atualizada em e-book, dispon\u00edvel <a href=\"http:\/\/www.e-galaxia.com.br\/produto\/cartas\/\">aqui<\/a>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Por\u00e9m, para que os desavisados n\u00e3o imaginem que Caio Fernando Abreu sempre foi o cara zen da \u00e9poca p\u00f3s-diagn\u00f3stico, tamb\u00e9m selecionei um texto bem pol\u00eamico escrito por Caio durante a campanha para a elei\u00e7\u00e3o presidencial de 1989. Ele foi chamado pelo Jornal do Brasil para criar um texto sobre o ent\u00e3o candidato Fernando Collor de Mello.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Caio, no mais aut\u00eantico esp\u00edrito rebelde, oferece ao JB um conto\u00a0em que Fernando, ainda menino, faz um pacto com o diabo.\u00a0<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">O texto acabou censurado, como explica o autor no trecho abaixo:<\/span><\/p>\n<p>.<\/p>\n<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO jornal pediu para o M\u00e1rcio Souza escrever sobre o Lula e eu faria o mesmo com o Collor. Escrevi a hist\u00f3ria de <\/span><b>um menino que sonha com um garoto ruivo e manco<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. No dia seguinte, vai para as pedras do Arpoador, no Rio, e l\u00e1 aparece o garoto. Ele pergunta ao menino Collor se quer ser o dono de um pa\u00eds inteiro. Ele diz sim. E o garoto acaba comendo ele \u2013 era o dem\u00f4nio. O conto se chama <\/span><b>O Escolhido<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. O Jos\u00e9 Castello, que era o editor, disse que a c\u00fapula do jornal optou por n\u00e3o publicar. Quando o Collor ganhou, liguei e disse: \u201cPor causa de covardia como a de voc\u00eas \u00e9 que o cara foi eleito\u201d.<\/span><\/h3>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p>Voc\u00eas podem ler mais textos do blog Voos Liter\u00e1rios sobre Caio Fernando Abreu <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/sobre-crises-literatura-e-jornalismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>, <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/um-alento-em-meio-tormenta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a> e <a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/voos-literarios\/caio-f-como-inspiracao-para-sobrevivencia-diaria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>. Caio\u00a0uma vez falou: \u201cQueria tanto que algu\u00e9m me amasse por alguma coisa que eu\u00a0escrevi\u201d. Fa\u00e7amos sua vontade.<\/p>\n<p><em>A foto selecionada para esse post \u00e9 da exposi\u00e7\u00e3o Doces Mem\u00f3rias, realizada em homenagem a Caio F., h\u00e1 alguns anos, em cidades como Rio de Janeiro e Porto Alegre.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em fevereiro de 1996, partia para outro plano o escritor da paix\u00e3o. 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