{"id":3019,"date":"2017-11-14T13:50:53","date_gmt":"2017-11-14T15:50:53","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=3019"},"modified":"2017-11-14T13:53:56","modified_gmt":"2017-11-14T15:53:56","slug":"racismo-e-coisa-de-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=3019","title":{"rendered":"Racismo \u00e9 coisa de branco\u00a0"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em um v\u00eddeo que vazou na semana passada, o jornalista William Waack condenou determinado comportamento como \u201ccoisa de preto\u201d, se referindo \u00e0 toda a comunidade negra com um desprezo que se nota tamb\u00e9m em seus olhos, na express\u00e3o corporal. Ele foi afastado de suas fun\u00e7\u00f5es pela Rede Globo e o epis\u00f3dio provocou, em um primeiro momento, a esperada e adequada indigna\u00e7\u00e3o. <strong>Mas os defensores n\u00e3o demoraram a aparecer, alegando que era uma frase fora de contexto, que foi um coment\u00e1rio inocente fora do ar<\/strong>, que ele \u00e9 o melhor jornalista do mundo &#8211; como se isso fosse relevante diante de um caso como esse. Ouviu-se, inclusive, que ele estava sendo perseguidos por abjetos da patrulha do politicamente correto. Que era coisa de esquerdopata.\u00a0Enfim, que n\u00e3o era racismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que a frase n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria e, assim como as defesas, revela muito sobre a forma como nossa sociedade \u00e9 constru\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>O que William Waack disse n\u00e3o \u00e9 deslize, \u00e9 racismo<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o mais cristalino reflexo de uma estrutura elitista e branca que invisibiliza os negros como ru\u00eddos de segunda categoria. O que William Waack disse tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 piada. \u00c9 o que pensam aqueles que acreditam estar na Casa Grande, acima daqueles que consideram estorvos se n\u00e3o est\u00e3o a seu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>E defender o que William Waack disse n\u00e3o \u00e9 solidariedade, \u00e9 dissimular o fato de que os brancos s\u00e3o o problema<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p><strong>A onipresen\u00e7a do racismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu nasci em uma cidade colonizada por italianos no interior do Rio Grande do Sul. Sou branca, assim como 99,9% da popula\u00e7\u00e3o de Para\u00ed. Ouvi que algo era \u201ccoisa de preto\u201d ainda quando crian\u00e7a. N\u00e3o entendi o sentido, mesmo assim, em algum momento, reproduzi a frase em casa. Imediatamente meus pais conversaram comigo sobre o problema do preconceito, lembrando inclusive que tenho dois primos negros. E somente no momento daquela conversa percebi o que aquilo realmente significava. Mas n\u00e3o parou por a\u00ed, a cantilena se renova com o passar dos anos, frequentemente resumida a um \u201cnigri, p\u00f3\u201d. Uma express\u00e3o que simplesmente explica um erro com a palavra \u201cnegro\u201d em italiano. E eu continuei testemunhando coisas do tipo em Porto Alegre, na faculdade, no trabalho, fora do Rio Grande do Sul, no exterior.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Sempre contado como piada, como algo engra\u00e7ado<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso mostra, mesmo que superficialmente, que as palavras de Waack n\u00e3o foram aleat\u00f3rias. S\u00e3o parte de uma estrutura muito maior que, historicamente, oprime os negros no Brasil. Como disse Juremir Machado da Silva de maneira brilhante no espa\u00e7o que ocupa no Correio do Povo, <a href=\"http:\/\/www.correiodopovo.com.br\/blogs\/juremirmachado\/2017\/11\/10390\/o-imaginario-de-william-waack-vazou\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201co imagin\u00e1rio de William Waack vazou\u201d<\/a>. E com ele vazou o imagin\u00e1rio do branco brasileiro. Afinal de contas, o racismo tamb\u00e9m se encontra no sil\u00eancio. Paulo Sotero, interlocutor de William Waack no momento do coment\u00e1rio, foi c\u00famplice. Riu. Ajudou a perpetuar um estere\u00f3tipo vil.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>E essa engrenagem cruel n\u00e3o vai parar a menos que cada um de n\u00f3s reconhe\u00e7a o seu papel nessa estrutura p\u00e9rfida e assuma que racismo \u00e9 coisa de branco\u00a0<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esse epis\u00f3dio, revisitei minha hist\u00f3ria apenas para concluir, dolorosamente, que eu fa\u00e7o parte dessa estrutura e que j\u00e1 me beneficiei dela in\u00fameras vezes. N\u00e3o mais. J\u00e1 passou da hora de o brasileiro admitir a exist\u00eancia do racismo e a sordidez da origem desse preconceito &#8211; assim como j\u00e1 passou da hora de fazer alguma coisa para mudar essa realidade. Afinal, n\u00e3o s\u00e3o os brancos desconfort\u00e1veis com o flagra que precisam ser respeitados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______________________________________________________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <strong>Justificand<\/strong>o convidou a mestre em Filosofia Djamila Ribeiro para falar sobre o caso de William Waack. A autora do livro &#8220;O Que \u00e9 Lugar de Fala&#8221; alerta para a import\u00e2ncia de se refletir de maneira cr\u00edtica sobre o <strong>racismo estrutural no Brasil<\/strong>, especialmente os brancos. Ela ressalta que \u00e9 fundamental compreender que o &#8220;racismo \u00e9 um sistema de opress\u00e3o que nega direitos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 210px;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/bfQ_qB6dGaQ\" width=\"560\" height=\"314\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um v\u00eddeo que vazou na semana passada, o jornalista William Waack condenou determinado comportamento como \u201ccoisa de preto\u201d, se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3020,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[277,289,11,873],"class_list":["post-3019","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-georgia-santos","tag-preconceito","tag-racismo","tag-vos","tag-william-waack"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3019","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3019"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3019\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}