{"id":2525,"date":"2017-09-18T11:06:02","date_gmt":"2017-09-18T14:06:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2525"},"modified":"2017-09-18T11:07:20","modified_gmt":"2017-09-18T14:07:20","slug":"pouca-vergonha-dos-postais-que-eu-trouxe-da-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2525","title":{"rendered":"A pouca-vergonha dos postais que eu trouxe da Europa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/alguma-coisa-esta-fora-da-ordem\/o-dia-em-que-mediocridade-calou-arte-e-alguns-esclarecimentos\/\">Esse epis\u00f3dio do fechamento da exposi\u00e7\u00e3o Queermuseu<\/a> (sim, ainda vou falar disso), me fez pensar em um h\u00e1bito de viagem que tenho. Eu n\u00e3o coleciono postais, mas sempre que visito um museu e deparo com uma obra da qual gosto muito, fa\u00e7o quest\u00e3o de comprar um postal desse quadro ou miniatura de uma determinada escultura. Diferente de outros souvenirs que fa\u00e7o quest\u00e3o de expor em um totem na sala do meu apartamento, os postais ficam guardados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Eles representam um momento \u00edntimo, em que uma obra de arte me tocou profundamente<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os motivos variam. Em Amsterdam, foras as cores de Van Gogh que me impressionaram \u2013 com o perd\u00e3o do trocadilho impressionista. Em Floren\u00e7a, fiquei hipnotizada com o realismo de David, de Michelangelo, governando o espa\u00e7o interno da Galleria dell\u00b4Accademia. Tamb\u00e9m me tocou a beleza crua da V\u00eanus de Botticelli, exposta na galeria Uffizi. Na minha diminuta cole\u00e7\u00e3o de postais tamb\u00e9m est\u00e1 um fragmento da Capela Sistina que me atraiu pelas cores j\u00e1 que, confesso, n\u00e3o fiquei t\u00e3o impressionada com o conjunto. Me julguem, acho que tem a ver com o fato de ficar olhando para cima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>E nessa jornada, h\u00e1 dois postais particularmente interessantes. Que, certamente, devem considerados DEGENERADOS por quem foi favor\u00e1vel ao fechamento da exposi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Isso se h\u00e1 l\u00f3gica nesse ato t\u00e3o tosco<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro eu encontrei em Paris, em janeiro de 2007. Fazia minha primeira viagem a Europa e o fazia sozinha. Fui ao Louvre, \u00e9 claro, que impressiona s\u00f3 pela exist\u00eancia, mas foi no Mus\u00e9e D\u00b4Orsay que encontrei algo que fez com que eu ficasse muito tempo olhando para o mesmo quadro. A obra em quest\u00e3o era A Origem do Mundo, do pintor realista Gustave Courbet, pintada em 1866. O que me chamou a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi o tra\u00e7o, somente, mas sua combina\u00e7\u00e3o com o nome. O desenho e o nome criavam uma rela\u00e7\u00e3o de cumplicidade em que o nu feminino em sua forma mais crua era a origem de tudo. Nada mais puro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/d0e7k3xhq2ci65sxomhvzwn4z.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-2527\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/d0e7k3xhq2ci65sxomhvzwn4z.jpg\" alt=\"\" width=\"906\" height=\"567\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Curioso \u00e9 que, segundo a Wikip\u00e9dia, \u00e9 o segundo postal mais vendido no museu. Atr\u00e1s somente do<\/em><em> <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Le_Moulin_de_la_Galette\">Le Moulin de la Galette<\/a><\/em><em>, de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Renoir\">Renoir<\/a> \u2013 do qual comprei um quebra-cabe\u00e7a, inclusive. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo a que me refiro encontrei em Madri, na Espanha, em 2011. Quando visitava o Museu do Prado e j\u00e1 estava relativamente entediada, dei de cara com O Jardim das Del\u00edcias Terrenas, um <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tr%C3%ADptico\">tr\u00edptico<\/a> de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hieronymus_Bosch\">Hieronymus Bosch<\/a>. Na tela, ele tamb\u00e9m descreve a cria\u00e7\u00e3o do Mundo, mas com uma perspectiva bastante diferente. Apresenta o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Para%C3%ADso_terrestre\">para\u00edso terrestre<\/a> e o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Inferno\">Inferno<\/a> nas laterais e, ao centro, celebra os prazeres da carne. O que vemos \u00e9 uma orgia quase l\u00fadica com cores vibrantes em que assistimos aos participantes desinibidos e sem culpa. S\u00e3o s\u00edmbolos e atividades sexuais retratados sem julgamento de valor. Uma representa\u00e7\u00e3o. Entre o bem e o mal, h\u00e1 o pecado. Esse quadro foi pintado em 1504.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/panel-painting-63066_1920.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2526\" src=\"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/panel-painting-63066_1920.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1027\" \/><\/a><\/p>\n<p>.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Quase tenho vontade de rir quando penso no retrocesso a que estamos testemunhando, de t\u00e3o esdr\u00faxulo<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A representa\u00e7\u00e3o das artes pl\u00e1sticas chocam as mentes fechadas e hip\u00f3critas. \u201cNudez n\u00e3o \u00e9 arte\u201d, dizia um. \u201cPouca vergonha\u201d, escrevia o outro. Me disseram inclusive que Michelangelo e Caravaggio n\u00e3o precisavam provocar ningu\u00e9m. \u201cSe tu \u00e9 pervertida, o problema \u00e9 teu, apologia \u00e0 zoofilia n\u00e3o \u00e9 arte\u201d, disse algu\u00e9m em algum momento daquele triste final de semana. N\u00e3o precisamos todos gostar ou apreciar, isso n\u00e3o torna menos arte.\u00a0Conseguimos perder, enfim, a capacidade de abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Assim estamos, perdidos em algum tempo da hist\u00f3ria<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito, O Jardim das Del\u00edcias Terrenas tamb\u00e9m \u00e9 um dos mais populares do museu. Tamb\u00e9m comprei um quebra-cabe\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse epis\u00f3dio do fechamento da exposi\u00e7\u00e3o Queermuseu (sim, ainda vou falar disso), me fez pensar em um h\u00e1bito de viagem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2526,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[748,9,759,653,758,745,11],"class_list":["post-2525","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-georgia-santos","tag-arte","tag-georgia-santos","tag-jardim-das-delicias-terrenas","tag-liberdade-de-expressao","tag-origem-do-mundo","tag-queermuseu","tag-vos"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2525","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2525"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2525\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2526"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2525"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2525"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2525"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}