{"id":2224,"date":"2017-08-19T20:14:20","date_gmt":"2017-08-19T23:14:20","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2224"},"modified":"2017-08-22T21:16:01","modified_gmt":"2017-08-23T00:16:01","slug":"critica-rifle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2224","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Rifle"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A alegoria caprichada da paisagem campeira \u00e9 um elemento sedutor de <em>Rifle<\/em>. Que tanto os elementos documentais se embaralhem com os ficcionais, assim como em <em>Castanha<\/em>, longa anterior de Davi Pretto, n\u00e3o chega a surpreender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong> \u00c9 a atmosfera de um registro, que \u00e9 a um s\u00f3 tempo puro e impuro, que <em>Rifle<\/em> busca captar<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho intelectual (for\u00e7a de conjunto) do filme \u00e9 claramente entendido, principalmente a partir das solu\u00e7\u00f5es sonoras e visuais, cujas imagens decisivas s\u00e3o marcadas por uma trilha sonora alucinante, que golpeia, com elegante viol\u00eancia, os sentidos de quem as v\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao combinar os elementos de uma tradi\u00e7\u00e3o de imagens que est\u00e1 rigorosamente assentada em outra cultura visual (a cultura heroica e \u00e9pica, da aventura e da trag\u00e9dia <em>dos desertos<\/em> norte-americanos, do <em>monument valley<\/em>; desnecess\u00e1rio dizer, da linha do horizonte conceituada por John Ford), apropriando-se, portanto, de seu imagin\u00e1rio (de sonho e viol\u00eancia), <em>Rifle<\/em> conecta a trajet\u00f3ria de seu personagem aos elementos constitutivos do faroeste cl\u00e1ssico americano, buscando, entre planos firmes do c\u00e9u e da terra, aludir a esse universo sem sequestrar os seus significados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das caracter\u00edsticas exemplares dessa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a disputa territorial. No <em>western<\/em>, essa disputa se articula a partir de uma s\u00e9rie de conflitos morais, econ\u00f4micos, familiares, amorosos e raciais. N\u00e3o que <em>Rifle<\/em> n\u00e3o os tenha, mas deles n\u00e3o se alimenta para que suas situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas se estabele\u00e7am, isto \u00e9, n\u00e3o temos a necessidade premente de um justi\u00e7amento \u00e9pico que, para o bem ou para o mal, viria postar o corol\u00e1rio sobre os bustos de seus homens combatentes. Justi\u00e7amento, nessa tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a. A atmosfera do filme, herdeira de uma cinefilia muito particular e h\u00edbrida, \u00e9 tamb\u00e9m dona do pensamento sobre a hist\u00f3ria das imagens que busca tanto resgatar quanto discutir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Filme pol\u00edtico, claro. Uma pol\u00edtica sangu\u00ednea, cuja amarra\u00e7\u00e3o, tens\u00e3o e conflito est\u00e3o projetados em torno de uma luta antiga, contra a qual \u00e9 muito dif\u00edcil triunfar<\/strong><\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Dione, o protagonista discreto do filme, arma em punho, dispara contra v\u00e1rios carros que amea\u00e7am se aproximar do espa\u00e7o que ele representa, ele est\u00e1 nos dizendo claramente ao menos uma coisa: n\u00f3s somos esta terra. Ex-militar, Dione trabalha para um fazendeiro de poucos recursos e o interesse de um grande propriet\u00e1rio naquelas terras surge como uma amea\u00e7a a qualquer coisa que eles possuam l\u00e1. Dione trabalha, ele tamb\u00e9m, para um propriet\u00e1rio, mas um decerto menos ambicioso \u2013 de acordo com a insinua\u00e7\u00e3o do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cotidiano muito tranquilo da fazenda se v\u00ea amea\u00e7ado pelo expansionismo comercial, descaracterizador das paisagens rurais desde sempre. O filme apenas incorpora os elementos simb\u00f3licos desse embate ao movimento interior de seu personagem central, que vaga solit\u00e1rio, centrado na atividade rural que lhe sustenta e, no limite, que lhe perturba, angustia e confunde. Dione e seu rifle respondem com disparos e estilha\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Rifle<\/em> n\u00e3o se furta inclusive a arroubos moderadamente fantasiosos e delirantes (uma sa\u00edda de roteiro ao psicologismo) que povoam a imagina\u00e7\u00e3o do protagonista. Para ele, malgrada a sua hist\u00f3ria militar, \u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o pensar em partir para a luta armada. Como filho da pen\u00ednsula, como <em>gaucho<\/em>, como parte dos mitos populares e da tradi\u00e7\u00e3o regional, Dione considera inaceit\u00e1vel sentar e negociar. Ele <em>acha melhor n\u00e3o <\/em>e por isso prop\u00f5e uma ruptura violenta. Entende, institivamente, que ceder ao dinheiro seria ceder tamb\u00e9m a domina\u00e7\u00e3o como instrumento de conquista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Rifle, de Davi Pretto, Brasil, 2017. Com Dione \u00c1vila De Oliveira, Francisco Fabr\u00edcio Dutra dos Santos, Sofia Ferreira, Evaristo Pimentel Goularte, Andressa Nogueira Goularte.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A alegoria caprichada da paisagem campeira \u00e9 um elemento sedutor de Rifle. 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