{"id":2215,"date":"2017-08-08T13:39:41","date_gmt":"2017-08-08T16:39:41","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2215"},"modified":"2017-08-15T15:37:51","modified_gmt":"2017-08-15T18:37:51","slug":"um-alento-em-meio-tormenta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2215","title":{"rendered":"Um alento em meio \u00e0 tormenta"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Diante do cen\u00e1rio pol\u00edtico frustrante, em tantos sentidos, permito-me uma evas\u00e3o da realidade. Sonho, fantasia, idealiza\u00e7\u00e3o, a tal utopia? N\u00e3o sei. Talvez uma busca de f\u00e9 no futuro. E nada melhor para isso, na minha opini\u00e3o, do que recorrer ao escritor Caio Fernando Abreu. Ele, que tinha um profundo desgosto com o m\u00eas de agosto, escreveu bastante\u00a0a esse respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00f4nica a seguir \u00e9 do livro <em>Pequenas Epifanias<\/em>, uma sele\u00e7\u00e3o de textos publicados originalmente em jornais.\u00a0Um alento para os dias atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Sugest\u00f5es para Atravessar Agosto<\/strong><br \/>\n<em>Caio Fernando Abreu<\/em><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para atravessar agosto \u00e9 preciso antes de mais nada paci\u00eancia e f\u00e9. Paci\u00eancia para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconte\u00e7a de mau; f\u00e9 para estar seguro, o tempo todo, que chegar\u00e1 setembro\u00a0\u2014 e tamb\u00e9m certa n\u00e3o-f\u00e9, para n\u00e3o ligar a m\u00ednima \u00e0s negras lendas deste m\u00eas de cachorro louco. \u00c9 preciso quem sabe ficar-se distra\u00eddo, inconsciente de que \u00e9 agosto, e s\u00f3 lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Ent\u00e3o dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este \u00e9 um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para atravessar agosto tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de prefer\u00eancia tamb\u00e9m sem sonhos. S\u00e3o incontrol\u00e1veis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade imposs\u00edvel de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros aug\u00farios, premoni\u00e7\u00f5es. Armazenar v\u00edveres, como \u00e0s v\u00e9speras de um furac\u00e3o anunciado, mas v\u00edveres espirituais, intelectuais, e sem muito crit\u00e9rio de qualidade. Muitos v\u00eddeos, de chanchadas da Atl\u00e2ntida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na m\u00e3o e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou n\u00e3o, d\u00ea um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso tamb\u00e9m passar\u00e1. Zaps mentais, emocionais, psicol\u00f3gicos, n\u00e3o s\u00f3 eletr\u00f4nicos, s\u00e3o fundamentais para atravessar agostos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que falo em agostos burgueses, de m\u00e9dio ou alto poder aquisitivo. N\u00e3o me critiquem por isso, ang\u00fastias agostianas s\u00e3o mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem n\u00f3s. Para quem toma trem de sub\u00farbio \u00e0s cinco da manh\u00e3 todo dia, pouca diferen\u00e7a faz abril, dezembro ou, justamente agosto. Ang\u00fastia agostiana \u00e9 coisa cultural, sim. E econ\u00f4mica. Mas pobres ou ricos, h\u00e1 conselhos\u00a0\u2014 ou precau\u00e7\u00f5es\u00a0\u2014 \u00fateis a todos. O mais dif\u00edcil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou v\u00eddeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chap\u00e9us de desfile \u00e0 fantasia, categoria originalidade\u2026 Esquec\u00ea-lo t\u00e3o completamente quanto poss\u00edvel (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso \u00e9 t\u00e3o grave que vou mudar de assunto j\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se voc\u00ea n\u00e3o conseguiu, se a vida n\u00e3o deu, ou ele partiu\u00a0\u2014 sem o menor pudor, invente um. Pode ser Nat\u00e1lia Lage, Ant\u00f4nio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acess\u00edvel, que voc\u00ea possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pac\u00edfico Sul, Gr\u00e9cia, Canc\u00fan, ou Miami, ao gosto do fregu\u00eas. Que se possa sonhar, isso \u00e9 que conta, com m\u00e3os dadas, suspiros, juras, projetos, abra\u00e7os no conv\u00e9s \u00e0 luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o lembrar dos que se foram, n\u00e3o desejar o que n\u00e3o se tem e talvez nem se ter\u00e1, n\u00e3o discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com ch\u00e1s, de prefer\u00eancia ingleses, cristais de gengibre, gotas de code\u00edna, se a barra pesar, vinhos, conhaques\u00a0\u2014 tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informa\u00e7\u00e3o para que as desgra\u00e7as sociais ou pessoais n\u00e3o deem a impress\u00e3o de serem maiores do que s\u00e3o. Esquecer o Zaire, a ex-Iugosl\u00e1via, passar por cima das p\u00e1ginas policiais. Aprender decora\u00e7\u00e3o, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas\u00a0\u2014 coisas assim s\u00e3o eficient\u00edssimas, pouco me importa ser acusado de aliena\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso mesmo; evas\u00e3o, escapismos. Assumidos, expl\u00edcitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas para atravessar agosto, pensei agora, \u00e9 preciso principalmente n\u00e3o se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar r\u00e1pido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante do cen\u00e1rio pol\u00edtico frustrante, em tantos sentidos, permito-me uma evas\u00e3o da realidade. Sonho, fantasia, idealiza\u00e7\u00e3o, a tal utopia? 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