{"id":2139,"date":"2017-07-27T09:34:45","date_gmt":"2017-07-27T12:34:45","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2139"},"modified":"2017-07-27T13:10:51","modified_gmt":"2017-07-27T16:10:51","slug":"esses-viados-matam-fascistas-resistencia-curda-aponta-o-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2139","title":{"rendered":"\u201cEsses viados matam fascistas\u201d: A resist\u00eancia curda aponta o caminho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A imagem de guerrilheiros sustentando uma bandeira LGBT e uma faixa com os dizeres \u201cEstes viados matam fascistas\u201d percorreu o mundo ao longo desta semana. Trata-se de uma coluna formada por LGBTs em combate direto contra o Daesh<strong>[1]<\/strong>, criada nas fileiras da resist\u00eancia curda na S\u00edria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong>O Ex\u00e9rcito de Insurrei\u00e7\u00e3o e Liberta\u00e7\u00e3o Queer[2] surgiu no \u00e2mbito das For\u00e7as Revolucion\u00e1rias Internacionais de Guerrilha do Povo, que s\u00e3o um batalh\u00e3o de combatentes do mundo inteiro ligados \u00e0s Unidades de Prote\u00e7\u00e3o do Povo no territ\u00f3rio curdo dentro da S\u00edria<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">S\u00e3o muitos nomes, siglas e jarg\u00f5es. O fundamental \u00e9 entendermos que existe um contingente consider\u00e1vel de pessoas lutando contra o Daesh e construindo uma alternativa em meio a uma regi\u00e3o conflagrada. \u00c9 a resist\u00eancia do povo curdo. E agora os LGBTs est\u00e3o na linha de frente deste combate.<\/p>\n<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: justify\"><strong>\u201cAs imagens de homossexuais sendo jogados de edif\u00edcios e apedrejados at\u00e9 a morte pelo Daesh s\u00e3o cenas que n\u00e3o podemos simplesmente assistir e n\u00e3o fazer nada a respeito\u201d, diz o grupo em seu manifesto<\/strong><\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Os curdos s\u00e3o a mais numerosa etnia do mundo sem um Estado. Representam mais de 26 milh\u00f5es de pessoas que vivem em regi\u00f5es do Ir\u00e3, do Iraque, da S\u00edria e da Turquia. \u00c9 evidente que nenhum destes pa\u00edses aceita ceder nacos de seus territ\u00f3rios nacionais para o povo curdo constituir um Estado independente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No Iraque existe um n\u00edvel maior de autonomia, com um governo regional formado dentro das fronteiras iraquianas. Na Turquia, a escalada autorit\u00e1ria do governo Erdogan desmantelou o HDP, o partido de esquerda pr\u00f3-curdos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na S\u00edria, os curdos do Norte do pa\u00eds t\u00eam se organizado para travar uma luta incans\u00e1vel de prote\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios contra o Daesh e tamb\u00e9m contra as for\u00e7as do regime de Bashar al-Assad. Representam um enclave importante de resist\u00eancia contra o avan\u00e7o da barb\u00e1rie expressa pelo Daesh. Foram os curdos que obtiveram as mais expressivas vit\u00f3rias militares contra os terroristas.<\/p>\n<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: center\"><strong>Mas existe uma diferen\u00e7a fundamental. Enquanto no Iraque o governo regional curdo adota uma linha pol\u00edtica conservadora e aliada \u00e0s grandes pot\u00eancias globais, na S\u00edria o povo curdo aposta na auto-organiza\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios por meio do confederalismo democr\u00e1tico<\/strong><\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Trata-se de um sistema de governo de inspira\u00e7\u00e3o anticapitalista, traduzido para a realidade curda atrav\u00e9s das formula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o. O PKK existe desde os anos 1970 e \u00e9 considerado uma organiza\u00e7\u00e3o \u201cterrorista\u201d pelos Estados Unidos, pela Uni\u00e3o Europeia e pela Turquia &#8211; pa\u00eds onde seu principal l\u00edder, Abdullah \u00d6calan, encontra-se em pris\u00e3o perp\u00e9tua desde a d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A premissa pol\u00edtica seguida pelo povo curdo na S\u00edria estabelece a igualdade total entre homens e mulheres. <strong>Em 2015 tive a oportunidade de conversar com Melike Yasar, do Movimento de Mulheres Livres do Curdist\u00e3o.<\/strong> Cansada de explicar qual o papel das mulheres curdas na luta travada no Norte da S\u00edria, ela disparou: \u201cAs mulheres n\u00e3o t\u00eam papel nenhum na revolu\u00e7\u00e3o. Elas s\u00e3o as que fazem a revolu\u00e7\u00e3o. Os homens \u00e9 que t\u00eam um papel nela e precisam aprender que sem a autoliberta\u00e7\u00e3o feminina eles tamb\u00e9m n\u00e3o ir\u00e3o se libertar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 2013, os curdos na S\u00edria anunciaram a organiza\u00e7\u00e3o de tr\u00eas regi\u00f5es administrativas no Norte do pa\u00eds. S\u00e3o os chamados \u201ccant\u00f5es\u201d: Afrin, Jazira e Kobani. Localizados\u00a0em meio a um territ\u00f3rio conflagrado pela guerra, os cant\u00f5es formam a regi\u00e3o de Rojava \u2013 palavra que, em curdo, significa \u201coeste\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Rojava possui uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 3 milh\u00f5es de pessoas. Enquanto se mobilizam\u00a0para lutar contra o Daesh\u00a0e conquistar independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao governo S\u00edrio, os curdos est\u00e3o criando uma pr\u00f3pria forma de organiza\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong>Os cant\u00f5es s\u00e3o governados pelo povo atrav\u00e9s de assembleias populares. Cada regi\u00e3o possui uma co-presid\u00eancia composta por um homem e uma mulher. O car\u00e1ter anti-capitalista e anti-Estado do processo curdo em Rojava n\u00e3o pode ser ignorado<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 por isso que a resist\u00eancia curda na S\u00edria \u00e9 t\u00e3o invisibilizada na m\u00eddia, que prefere destacar os combatentes do governo regional curdo no Iraque ou a disputa entre o regime de Bashar al-Assad e o Daesh \u2013 acompanhada com uma lupa por grandes pot\u00eancias mundiais, especialmente pelos Estados Unidos e a R\u00fassia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O destaque mais comum dado \u00e0 resist\u00eancia curda em Rojava \u00e9 atrav\u00e9s de fotos das combatentes mulheres, que possuem seu pr\u00f3prio ex\u00e9rcito e est\u00e3o emparedando os fan\u00e1ticos do Daesh na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Agora o mundo volta mais uma vez seus olhos para a luta do povo curdo na S\u00edria ao contemplar a cria\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito formado por LGBTs. Homossexuais est\u00e3o na linha de frente do combate contra os comensais da barb\u00e1rie. Sinal de que a esquerda inteira se move neste avan\u00e7o, especialmente se considerarmos que nos anos 1960 e 1970 os LGBTs n\u00e3o eram respeitados dentro das fileiras dos grupos guerrilheiros que lutavam contra as ditaduras na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 in\u00fameros relatos de ex-combatentes que demonstram a mentalidade machista e homof\u00f3bica dominante na \u00e9poca, mesmo nos c\u00edrculos mais avan\u00e7ados da esquerda revolucion\u00e1ria. Uma tradi\u00e7\u00e3o que felizmente j\u00e1 foi superada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Agora, do outro lado do mundo, os LGBTs e as mulheres est\u00e3o liderando a constru\u00e7\u00e3o de um outro tipo de organiza\u00e7\u00e3o social nos cant\u00f5es de Rojava. Contra poderosos interesses geopol\u00edticos, a resist\u00eancia curda se soma ao rol de experi\u00eancias hist\u00f3ricas que apontam o caminho para a liberta\u00e7\u00e3o contra todas as formas de opress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Manifesto do Ex\u00e9rcito de Insurrei\u00e7\u00e3o e Liberta\u00e7\u00e3o Queer[3]<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>N\u00f3s, as For\u00e7as Internacionais de Guerrilha do Povo (IRPGF), formalmente anunciamos a cria\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito de Insurrei\u00e7\u00e3o e Liberta\u00e7\u00e3o Queer (TQILA), um subgrupo da IRPGF formado por camaradas LGBT*QI+ e tamb\u00e9m por outros companheiros que buscam esmagar o binarismo de g\u00eanero e avan\u00e7ar na revolu\u00e7\u00e3o das mulheres ao mesmo tempo em que ampliamos a revolu\u00e7\u00e3o sexual e de g\u00eanero.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em> Os integrantes do TQILA assistiram horrorizados aos ataques de for\u00e7as fascistas e extremistas ao redor do mundo contra a popula\u00e7\u00e3o LGBT, que assassinaram incont\u00e1veis membros de nossa comunidade, argumentando que somos doentes e antinaturais. As imagens de homossexuais\u00a0 sendo jogados de edif\u00edcios e apedrejados at\u00e9 a morte pelo Daesh s\u00e3o cenas que n\u00e3o podemos simplesmente assistir e n\u00e3o fazer nada a respeito. N\u00e3o \u00e9 apenas o Daesh que espalha o \u00f3dio contra a popula\u00e7\u00e3o LGBT baseado em motivos religiosos. Crist\u00e3os conservadores no Ocidente tamb\u00e9m atacam a comunidade LGBT numa tentativa de silenciar e apagar sua exist\u00eancia. N\u00f3s queremos enfatizar que a homofobia e a transfobia n\u00e3o s\u00e3o caracter\u00edsticas do Isl\u00e3 ou de qualquer religi\u00e3o. Na verdade, conhecemos muitos mu\u00e7ulmanos, judeus, crist\u00e3os, hindus, budistas etc. que aceitam e acolhem as pessoas em suas singularidades, inclusive LGBTs. Somos solid\u00e1rios a essas pessoas contra o fascismo, a tirania e a opress\u00e3o. Al\u00e9m disso, criticamos e lutamos contra o pensamento conservador e feudal a respeito da popula\u00e7\u00e3o LGBT na esquerda revolucion\u00e1ria aqui e no mundo inteiro.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em> Nosso compromisso de luta contra o autoritarismo, o patriarcado, a heteronormatividade opressiva e a LGBTfobia \u00e9 refor\u00e7ado pelos avan\u00e7os revolucion\u00e1rios conquistados pela luta das mulheres curdas. O fato de as aulas de Jineologia<strong>[4]<\/strong> debaterem constru\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade d\u00e1 visibilidade aos avan\u00e7os da revolu\u00e7\u00e3o em Rojava e em todo o Curdist\u00e3o, com as mulheres na linha de frente deste processo revolucion\u00e1rio. \u00c9 necess\u00e1rio fortalecer estas conquistas enquanto avan\u00e7amos na luta LGBT, que motivou os camaradas a criarem o TQILA.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em> LIBERTA\u00c7\u00c3O LGBT! MORTE AO ARCO-\u00cdRIS CAPITALISTA!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>CONTRA-ATAQUEM! ESSES VIADOS MATAM FASCISTAS!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em> COMUNIDADES E COLETIVOS MILITANTES HORIZONTAIS E AUTO-ORGANIZADOS PELA REVOLU\u00c7\u00c3O E PELO ANARQUISMO LGBT!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>[1]<\/strong>Neste texto irei me referir ao autoproclamado Estado Isl\u00e2mico como \u201cDaesh\u201d \u2013 a forma como a sigla de \u201cEstado Isl\u00e2mico no Iraque e na S\u00edria\u201d \u00e9 pronunciada em \u00e1rabe. O som tamb\u00e9m lembra o de outra palavra em \u00e1rabe, \u201cDahes\u201d, que significa \u201caquele que semeia a desordem\u201d. Os fan\u00e1ticos do Daesh detestam ser chamados assim. Mais um motivo para usar este termo. Al\u00e9m de ser uma maneira de n\u00e3o oferecer a este grupo o status de Estado e muito menos o de representante da religi\u00e3o isl\u00e2mica.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>[2]<\/strong> O nome original em ingl\u00eas \u00e9 The Queer Insurrection and Liberation Army, formando a sigla TQILA. Como a palavra \u201cqueer\u201d \u00e9 de dif\u00edcil tradu\u00e7\u00e3o no contexto da popula\u00e7\u00e3o LGBT brasileira, acabei optando por preserv\u00e1-la ao me referir ao grupo em portugu\u00eas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>[3]<\/strong> O manifesto foi <a href=\"https:\/\/twitter.com\/IRPGF\/status\/889460892450115588\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">originalmente publicado na conta das For\u00e7as Revolucion\u00e1rias Internacionais de Guerrilha do Povo no Twitter (@IRPGF)<\/a> no dia 24 de julho de 2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 livre e de minha pr\u00f3pria autoria.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>[4]<\/strong> Jineologia \u00e9 uma filosofia de vida formulada pelo povo curdo em Rojava. Conforme explicou Melike Yassar, a express\u00e3o significa, em curdo, \u201cmulher\u201d e \u201cvida\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Foto: <a href=\"https:\/\/twitter.com\/IRPGF\/status\/889445690656608256\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Twitter\/IRPGF<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imagem de guerrilheiros sustentando uma bandeira LGBT e uma faixa com os dizeres \u201cEstes viados matam fascistas\u201d percorreu o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":2142,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"class_list":["post-2139","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-samir-oliveira"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2139","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2139"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2139\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2142"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2139"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2139"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2139"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}