{"id":2107,"date":"2017-07-21T19:29:05","date_gmt":"2017-07-21T22:29:05","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2107"},"modified":"2017-07-21T19:29:05","modified_gmt":"2017-07-21T22:29:05","slug":"critica-central-o-filme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=2107","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Central &#8211; o Filme"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">As imagens de <em>Central \u2013 o Filme <\/em>carregam toda a carga de nossa rela\u00e7\u00e3o, \u201cnominal e real\u201d, com a viol\u00eancia. Sabemos que ela existe, isto \u00e9 um fato. Quando n\u00e3o a vemos nas ruas, o notici\u00e1rio (inclusive o impulsionado por n\u00f3s atrav\u00e9s das \u201credes\u201d) golpeia o nosso pensamento. A tend\u00eancia, mais \u00e0 esquerda, \u00e9 neg\u00e1-las e evit\u00e1-las para n\u00e3o alimentar a \u201cind\u00fastria do medo\u201d. S\u00e3o imagens obscenas, que instauram uma l\u00f3gica de rea\u00e7\u00e3o violenta. \u00c0 direita, a reprodu\u00e7\u00e3o dessas imagens incentiva capsularmente a repress\u00e3o e, <em>voil\u00e0<\/em>, a viol\u00eancia do Estado contra os indiv\u00edduos e da pr\u00f3pria sociedade contra ela mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas como, de fato, olhamos para tais imagens para compreend\u00ea-las fundamentalmente sem cair na nega\u00e7\u00e3o e no discurso repressivo? O sil\u00eancio ensurdecedor dessa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 o nosso paradoxo civilizacional. O document\u00e1rio de Tatiana Sager e Renato Dornelles coloca o dedo nessa ferida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Decerto a breve introdu\u00e7\u00e3o acima amplia o escopo daquilo que o pr\u00f3prio document\u00e1rio se prop\u00f5e a discutir, a saber, a situa\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel do pres\u00eddio central de Porto Alegre e, no limite, do sistema carcer\u00e1rio brasileiro, mas n\u00e3o consigo deixar de vincular os modos de aten\u00e7\u00e3o destinados aos s\u00edmbolos da viol\u00eancia \u00e0 tend\u00eancia autorit\u00e1ria tipicamente brasileira. Se \u00e9 verdade que a viol\u00eancia se constitui a partir de v\u00e1rios eixos que subtraem a humanidade de todas as partes envolvidas, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que possamos pensar em resolver a quest\u00e3o afastando-nos dela. Ser\u00e1 que vemos o que as imagens nos dizem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Blocos imensos superlotados de pessoas apartadas da sociedade parecem nos dizer pelo menos duas coisas: que a viol\u00eancia existe e que o pensamento sobre as suas causas ainda carecem de uma reflex\u00e3o intelectual profunda e sistem\u00e1tica. Pelo visto, a terceira via nos diz que n\u00e3o estamos agindo da melhor forma para lidar com o problema. O Brasil n\u00e3o \u00e9 para amadores, estava certo quem o disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O document\u00e1rio se faz entender: o confinamento, a sujeira, a superlota\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia, o perigo iminente, a incerteza, enfim, n\u00e3o h\u00e1 um lado bom em estar preso, nos confessam, pelas suas falas, os homens em c\u00e1rcere. As entrevistas com presos, policiais e especialistas em seguran\u00e7a p\u00fablica, al\u00e9m da c\u00e2mera que a produ\u00e7\u00e3o entregou aos presos para que eles filmassem a partir de dentro o cotidiano da pris\u00e3o t\u00eam o contrapeso desejado ao costurar os argumentos, as defesas, os entendimentos, as poss\u00edveis sa\u00eddas, as dificuldades e as tens\u00f5es em disputa. Se a cultura da imprensa brasileira opera num \u201csil\u00eancio visual\u201d (como disse Jo\u00e3o Moreira Salles) sobre a viol\u00eancia, <em>Central \u2013 o Filme<\/em> trata de fazer um pouco de barulho em torno da quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por outro lado, n\u00e3o sei se por estrat\u00e9gia narrativa ou por desaten\u00e7\u00e3o, <em>Central<\/em> apenas tangencia um tema que certamente infla essa dificuldade estrutural, e este tema \u00e9 a despenaliza\u00e7\u00e3o das drogas \u2013 embora enfoque no tr\u00e1fico, inclusive o tr\u00e1fico que circula no pres\u00eddio e que o excede, os usos das drogas n\u00e3o participam do debate. De todo modo, est\u00e1 claro que aquele que j\u00e1 foi tido como o pior pres\u00eddio do pa\u00eds ainda n\u00e3o oferece as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es de recupera\u00e7\u00e3o social aos condenados e tampouco dignidade aos que trabalham l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como vemos, o sistema judici\u00e1rio \u00e9 incapaz de lidar com problemas sociais, sendo meramente um agente regulador de penas. Ao mesmo tempo em que desumaniza os confinados, tamb\u00e9m o faz com todos os cidad\u00e3os. Entre n\u00f3s, \u00e9 mesmo um sistema falido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">Central \u2013 o Filme, Brasil, 2017. De Tatiana Sager e Renato Dornelles.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As imagens de Central \u2013 o Filme carregam toda a carga de nossa rela\u00e7\u00e3o, \u201cnominal e real\u201d, com a viol\u00eancia. 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