{"id":1931,"date":"2017-06-25T19:20:02","date_gmt":"2017-06-25T22:20:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1931"},"modified":"2017-06-26T14:31:04","modified_gmt":"2017-06-26T17:31:04","slug":"critica-z-cidade-perdida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1931","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Z &#8211; A Cidade Perdida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Quem espera, atrav\u00e9s das imagens de <em>Z \u2013 A Cidade Perdida<\/em>, chegar \u00e0 Amaz\u00f4nia e ver o verde exuberante exaltado plano a plano estar\u00e1 pisando em falso. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de diferen\u00e7a est\u00e9tica. Prescinde uma experi\u00eancia de conex\u00e3o, de imagina\u00e7\u00e3o e, claro, tamb\u00e9m de interesse visual. O filme de James Gray (o seu sexto) parte da terra e nela se det\u00e9m, dela se energiza e busca todos os caminhos para a sua explora\u00e7\u00e3o visual a partir deste espa\u00e7o maravilhoso que \u00e9 o mundo. Logo percebemos que n\u00e3o h\u00e1 planos a\u00e9reos caracter\u00edsticos do filme de guerra e de explora\u00e7\u00e3o e descoberta: estamos no n\u00edvel da terra o tempo inteiro. N\u00e3o sabemos, junto com o protagonista, o que h\u00e1 para descobrir. A aventura \u00e9, portanto, substancialmente outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cineasta at\u00e9 aqui conectado ao espa\u00e7o urbano nova iorquino (<em>Fuga para Odessa, Caminho sem Volta, Os Donos da Noite, Amantes e Era Uma Vez em Nova York<\/em>), geograficamente muito determinado, Gray vai encontrar na Amaz\u00f4nia brasileira as suas obsess\u00f5es. No in\u00edcio do s\u00e9culo passado, o explorador brit\u00e2nico Percy Fawcett \u00e9 convocado a viajar a uma regi\u00e3o amaz\u00f4nica localizada na fronteira entre a Bol\u00edvia e o Brasil. H\u00e1 interesse, da parte do governo, em explorar a regi\u00e3o. Ao chegar l\u00e1, Fawcett se nutre de outra seiva: volta convicto de ter chegado muito pr\u00f3ximo de descobrir uma antiga cidade local, que ele chama de Z, mas que ele n\u00e3o tocou. Ele precisa regressar a sua odisseia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na Amaz\u00f4nia, o que trazem os europeus liderados por Fawcett, em busca da cidade perdida, \u00e9 uma c\u00e2mera fotogr\u00e1fica e os materiais de medi\u00e7\u00e3o e mapeamento territorial. \u00c9 o espa\u00e7o a descobrir para dar-lhe uma forma e uma exist\u00eancia vivida; ele j\u00e1 existe na imagina\u00e7\u00e3o (assim como o cinema existia na imagina\u00e7\u00e3o dos pioneiros muito antes da tecnologia torn\u00e1-lo poss\u00edvel, como defendia Andr\u00e9 Bazin) e vai sempre existir enquanto nos interessarmos por seus mist\u00e9rios, pelo que lhe \u00e9 intoc\u00e1vel sen\u00e3o pelo pensamento abstrato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Gray tem l\u00e1 seus desejos e os transforma em imagens: as pretende suntuosas em sua materialidade, em sua textura e investe, por isso, na expressividade de cada plano e nas transi\u00e7\u00f5es entre eles. A s\u00edncope el\u00edptica de seus cortes nos transporta com absoluta fluidez para a pr\u00f3xima aventura \u2013 a mesma sensibilidade nos entrega coisas que s\u00f3 os personagens podem saber, o que Gray nos mostra sem pestanejar: <em>para saber \u00e9 preciso imaginar<\/em>. Essa montagem nos coloca sempre a um passo do abismo. N\u00e3o lembro de filme recente a convocar t\u00e3o profundamente o espectador a uma experi\u00eancia de imers\u00e3o como este filme. Gray tem amor pela emo\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ada, \u00e9 claro, com a beleza de sua fotografia (Andrew Wyeth seria uma refer\u00eancia na pintura?) e com a integridade de sua narrativa, nessa esp\u00e9cie de filme-di\u00e1rio hiper fragmentado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como Indiana Jones, Fawcett estava em busca da cidade perdida quando Machu Pichu foi anunciada precisamente pelo explorador que viria, como dizem, a inspirar o filme de Steven Spielberg. A forma do an\u00fancio, que Gray faz seus personagens apenas comentarem, \u00e9 um exemplo de como \u201co contexto\u201d se inscreve no filme: importante e lateral a um s\u00f3 tempo. Assim como o Atentado de Sarajevo (o assassinato do arquiduque <em>Franz Ferdinand<\/em>), cujo epis\u00f3dio deflagraria, poucas semanas depois, o in\u00edcio da Primeira Guerra, \u00e9 comentado sutilmente. Os detalhes menores cativam mais, os pequenos di\u00e1logos refor\u00e7am mais a unidade psicol\u00f3gica buscada peplo filme. O grande tema do cinema de James Gray continua sendo a fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em \u00faltima inst\u00e2ncia, mesmo que inscrito no universo dos filmes de explora\u00e7\u00e3o e descoberta (o filme de aventura na selva), Gray mant\u00e9m os seus interesses e os amplia. A dist\u00e2ncia, a chegada a um territ\u00f3rio diferente para tentar ganhar a vida, a exemplo de todos os seus filmes anteriores, cujos personagens eram essencialmente imigrantes, d\u00e1 tamb\u00e9m a t\u00f4nica em <em>Z<\/em>. Persiste o drama, insistem as dificuldades. At\u00e9 o final, a trajet\u00f3ria de Fawcett institui o dilema cl\u00e1ssico que remonta ao filme anterior do cineasta e que modela a sobriedade de seu drama: n\u00e3o h\u00e1 condena\u00e7\u00f5es perempt\u00f3rias em sua obra, mas penetra\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Resgatado <em>de Era Uma Vez em Nova York<\/em>, e que, como este, cont\u00e9m um <em>split screen<\/em> dentro dele a dividir a tela, as temporalidades, os sonhos, a esperan\u00e7a, enfim, o plano final de Z \u00e9 coerente com as imagens anteriores e as ilumina. Que tenha inscrito o seu desfecho assim, em aberto, em continuidade, em exerc\u00edcio de descoberta, \u00e9 certamente um sinal dessa reflex\u00e3o, desse acordo com a hist\u00f3ria das imagens, que Gray muito bem conhece. Nos dois casos, al\u00e9m da proximidade de localiza\u00e7\u00e3o no tempo, seus personagens alimentam esperan\u00e7as de descobrir e encontrar, noutro local, um sentido e uma forma para as suas vidas. No filme anterior, no \u00e2mbito mais preciso das individualidades dos imigrantes; neste, num contexto em que, embora mantido o ponto de vista do explorador, a sua aventura se pretende hist\u00f3rica, portanto \u00e9pica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na longa tradi\u00e7\u00e3o do romance de expedi\u00e7\u00e3o, tal qual um Robinson Crusoe e um Robert Scott, Fawcett tem o seu esp\u00edrito idealista, como muitos homens que se lan\u00e7aram ao mar e n\u00e3o mais regressaram, generosamente filmado por Gray. Alma de lugar nenhum, Fawcett escreve seu destino na eternidade, como mem\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o, como hist\u00f3ria e mitologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">The Lost City of Z, James Gray, EUA, 2017. Com\u00a0Charlie Hunnam, Sienna Miller, Tom Holland, Robert Pattinson.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem espera, atrav\u00e9s das imagens de Z \u2013 A Cidade Perdida, chegar \u00e0 Amaz\u00f4nia e ver o verde exuberante exaltado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":1934,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-1931","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1931","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1931"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1931\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1934"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1931"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1931"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1931"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}