{"id":1883,"date":"2017-06-20T18:57:31","date_gmt":"2017-06-20T21:57:31","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1883"},"modified":"2017-06-21T22:25:31","modified_gmt":"2017-06-22T01:25:31","slug":"meu-relato-sobre-kiss","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1883","title":{"rendered":"Meu relato sobre a Kiss"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Vejo nas redes sociais uma hashtag #somostodospaiskiss. N\u00e3o consegui ficar alheia, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me engajei. Minist\u00e9rio P\u00fablico est\u00e1 processando os pais das v\u00edtimas da trag\u00e9dia na boate Kiss. Processando a quem deviam defender. Alguma coisa est\u00e1 errada. Muito errada&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Naquele dia, em especial, tudo estava errado. Questionei mil vezes o que estava fazendo l\u00e1 e nesta profiss\u00e3o. Acho que pela primeira vez vou escrever sobre isso depois de quatro anos.<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu estava dormindo quando o telefone tocou. Meu plant\u00e3o era no domingo \u00e0 tarde, se n\u00e3o me engano. Fiquei em casa no s\u00e1bado \u00e0 noite e dormi cedo &#8211; Deus costuma iluminar os rep\u00f3rteres. No meu caso, ele come\u00e7ou sua tarefa cedo tamb\u00e9m &#8211; por volta das 4h da manh\u00e3, a chefe de reportagem da Ga\u00facha me liga:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Renata, preciso que tu v\u00e1 para Santa Maria, teve um inc\u00eandio, o motorista te pega em casa. \u00c9\u00a0grave. Ele j\u00e1 est\u00e1 chegando a\u00ed. Falamos no caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dei um pulo da cama, consegui lembrar de pegar uma muda de roupa e um protetor solar e desci. Passamos para pegar equipamento e sa\u00edmos de Porto Alegre sabendo que um inc\u00eandio havia atingido uma boate chamada Kiss, que universit\u00e1rios costumavam frequentar em Santa Maria, e que cerca de 20 pessoas tinham morrido na trag\u00e9dia.\u00a0Eu n\u00e3o fazia ideia do que estava por vir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As primeiras informa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caminho, r\u00e1dio ligado, as informa\u00e7\u00f5es come\u00e7avam a apavorar. Eu era rep\u00f3rter h\u00e1 sete anos, j\u00e1 tinha visto algumas coisas chocantes, mas nada se comparou a este dia at\u00e9 hoje. De 20 para 30 mortos. Mais alguns quil\u00f4metros de estrada, sem comer, sobe de 30 para 40. Foi assim por mais de 300Km. Cheguei na Boca do Monte com 140 jovens v\u00edtimas do fogo que consumiu a boate. Ainda no caminho, quando o cora\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a disparar, rezei. Pedi muito a Deus pra me ajudar a fazer o trabalho da forma mais digna que pudesse. Prometi que n\u00e3o faria nada que causasse ainda mais sofrimento \u00e0s fam\u00edlias. Meu microfone n\u00e3o ia mirar nenhum pai, nenhuma m\u00e3e. A promessa\u00a0seria cumprida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma opera\u00e7\u00e3o de guerra havia sido montada na cidade, que respirava tristeza. Estava calor, sol forte, mas meu protetor solar ficou na mochila. Nem passou na minha cabe\u00e7a que tinha levado um. Primeiro, militares do ex\u00e9rcito auxiliavam no transporte dos corpos que os bombeiros retiravam dos escombros da boate. Eles era levados para um gin\u00e1sio de esportes para a segunda fase da opera\u00e7\u00e3o. At\u00e9 remover todos, ningu\u00e9m informava nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema \u00e9 que em busca de informa\u00e7\u00f5es e do paradeiro de filhos, irm\u00e3os, amigos, as pessoas estavam muito nervosas, quase derrubaram o port\u00e3o que dava acesso ao gin\u00e1sio. A multid\u00e3o come\u00e7ou a crescer. Comecei a buscar informa\u00e7\u00f5es ainda preliminares e entrava no ar o tempo todo com o pouco que conseguia descobrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando vi, eu era naquele momento uma das poucas fontes\u00a0de informa\u00e7\u00e3o que as pessoas tinham em tempo real e in loco. Os r\u00e1dios dos carros estavam ligados na Ga\u00facha. O cora\u00e7\u00e3o disparou de novo. A responsabilidade era ainda maior. O respeito e a cautela tinham que ser tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O contato com os familiares<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andava pela rua que contornava o gin\u00e1sio, quando veio o primeiro baque: um pai pergunta onde estavam cadastrando familiares que buscavam v\u00edtimas. Eu respondi onde era e que estava indo at\u00e9 l\u00e1. Perguntei quem ele procurava, disse que podia me acompanhar. Ele respondeu que procurava os dois tesouros: suas duas filhas tinham ido \u00e0 boate naquela noite. Fui eu que n\u00e3o o acompanhei. Achei que seria poss\u00edvel me controlar. S\u00f3 achei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo baque foi quando o meu pai me ligou. Quando ouvi &#8220;R\u00ea, como tu t\u00e1, mana?&#8221;, comecei um ciclo que duraria dias e eu demoraria a sair dele: chorava, respirava fundo, entrava no ar&#8230; chorava, respirava fundo, entrava no ar. Foi assim por um bom tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Vi pais descobrindo que tinham perdido filhos. Vi pessoas desmaiando de dor no cora\u00e7\u00e3o. Vi sonhos destru\u00eddos. Vi colegas abalados. Vi solidariedade. Vi injusti\u00e7as. Vi tristeza.<\/strong><\/h2>\n<p>.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tudo relatei. Contava tudo o que via, mas nunca consegui sentir orgulho de ter feito aquele trabalho, de contar aquela hist\u00f3ria. Nem mesmo quando tive retornos de ouvintes que me confirmavam que a promessa que fiz l\u00e1 no in\u00edcio havia sido cumprida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E entre tudo o que vi naqueles dias, duas imagens ficaram na minha mem\u00f3ria e mudaram um pouco a cabe\u00e7a desta rep\u00f3rter.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrei onde n\u00e3o devia. Me infiltrei no grupo do minist\u00e9rio da sa\u00fade\u00a0que faria uma inspe\u00e7\u00e3o no pavilh\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o dos corpos das v\u00edtimas. Passei despercebida. Fui. Nem pensei. Tive vontade de dar meia volta, mas fiquei. Meu relato durou 10 minutos. Mais de 240 corpos alinhados delicadamente no ch\u00e3o. Da cintura para baixo cobertos de lona. Um n\u00famero identificava cada um. Parte de cima com roupas sujas de fuligem e cinza. Rostos jovens e tranquilos lembravam que a trag\u00e9dia interrompeu a vida cedo demais. Passei este relato e sa\u00ed correndo de l\u00e1. Voltei ao ciclo, a come\u00e7ar pelas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia estava terminando e a lista oficial das v\u00edtimas foi divulgada. Dividi a pior das tarefas com meu chefe na \u00e9poca, o jornalista Andr\u00e9 Machado, que segurou minha m\u00e3o. Cada um lia um nome. Voz tr\u00eamula. Guardei, mas n\u00e3o consigo ouvir aquela grava\u00e7\u00e3o. A \u00faltima imagem do dia e a segunda que ficou na minha mem\u00f3ria: quando ouviu da minha boca o nome de uma das v\u00edtimas, uma menina magrinha, cabelo liso, blusa vermelha, que tinha parado do outro lado da rua para prestar aten\u00e7\u00e3o nos nomes, desabou no ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa hora n\u00e3o chorei. N\u00e3o podia. Estava na fase do ciclo de cumprir com meu papel. Cumpri. Cresci. Amadureci. Reconhe\u00e7o que n\u00e3o perdi o foco e nem o respeito. Mas n\u00e3o me orgulho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pronto. Consegui escrever. E n\u00e3o chorei.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vejo nas redes sociais uma hashtag #somostodospaiskiss. N\u00e3o consegui ficar alheia, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me engajei. Minist\u00e9rio P\u00fablico est\u00e1 processando [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":1884,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[580,582,581],"class_list":["post-1883","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reporteando","tag-kiss","tag-santa-maria","tag-tragedia"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1883","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1883"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1883\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1884"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1883"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1883"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1883"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}