{"id":1282,"date":"2017-04-07T18:04:35","date_gmt":"2017-04-07T21:04:35","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1282"},"modified":"2017-04-07T19:37:30","modified_gmt":"2017-04-07T22:37:30","slug":"critica-fragmentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1282","title":{"rendered":"Cr\u00edtica &#8211; Fragmentado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Duas amigas tentam convencer uma terceira a pegar carona com o pai de uma delas, ap\u00f3s pararem numa lanchonete. Os atrativos para a viagem giram em torno das piadas ruins que o motorista contar\u00e1 para as passageiras. Ap\u00f3s breve hesita\u00e7\u00e3o, a jovem aceita. Um homem misterioso entra no carro, no lugar do pai, e silencia as tr\u00eas. Ao acordarem, est\u00e3o presas e n\u00e3o fazem a m\u00ednima ideia do motivo. O mist\u00e9rio do sequestro, e do cativeiro, <em>Fragmentado<\/em> carregar\u00e1 at\u00e9 o final antes de completar. A descri\u00e7\u00e3o da cena \u00e9 incapaz de colocar a imagem, mas, como as personalidades que o personagem de James McAvoy interpreta, esse mist\u00e9rio assume muitos desdobramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O sequestrador sofre com o transtorno dissociativo de identidade e sua mente comporta mais de vinte personalidades, cada uma tomando o controle de seu corpo (<em>de sua mente<\/em>) a qualquer momento. Desnecess\u00e1rio dizer o quanto esta premissa \u00e9 explorada e incorporada ao universo do diretor de <em>Corpo Fechado<\/em> e <em>O Sexto Sentido <\/em>\u2013 como as armadilhas que ele cria jogando tanto com as cren\u00e7as dos espectadores quanto com suas expectativas. O seu racioc\u00ednio visual \u00e9 apurado e a inventividade que prop\u00f5e \u00e9 decisiva para apreens\u00e3o do espectador (que ele reconhece e manipula sorridente). O transtorno da m\u00faltipla personalidade est\u00e1 geralmente associado a um evento traumatizante, sendo uma forma de rea\u00e7\u00e3o \u00e0 ruptura do <em>ego<\/em>, a qual as v\u00e1rias vidas passam a tentar esquecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os admiradores de M. Night Shyamalan v\u00e3o recorrer, com boa raz\u00e3o, ao que \u00e9 regular em sua obra, ao que s\u00e3o as suas categorias universais, as reviravoltas, as quest\u00f5es de f\u00e9, os recursos estil\u00edsticos, a constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do medo, enfim, o que quisermos adicionar ao bojo do cineasta. Isto \u00e9, evidentemente, coisa de cada um. O essencial \u00e9 que Shyamalan est\u00e1 filiado a um g\u00eanero, o suspense, e que sua obra cont\u00e9m, em fato, uma amarra\u00e7\u00e3o espiritual com este g\u00eanero &#8211; de Hitchcock a John Carpenter \u2013 e tamb\u00e9m um estilo pr\u00f3prio. N\u00e3o s\u00f3 pelo que \u00e9 mental e da ordem do sobrenatural (e por isso nos lembramos de Hitchcock, por isso nos recordamos de Carpenter, de Polanski), mas principalmente pelo que \u00e9 f\u00edsico, material. <em>Fragmentado<\/em> \u00e9 mental e \u00e9 f\u00edsico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A sua metaf\u00edsica, bem entendida, n\u00e3o surge em oposi\u00e7\u00e3o ao f\u00edsico, mas como parte integrante dele, sua ontologia, seu alicerce memorial\u00edstico e visual. O aspecto fabular de sua obra, que tem seu auge em <em>A Dama na \u00c1gua<\/em>, n\u00e3o \u00e9 resultado de arbitrariedades: \u00e9 medo, tenta\u00e7\u00e3o, aventura, d\u00favida, morte, fantasia, em suma, \u00e9 constru\u00e7\u00e3o meticulosa das variantes da cren\u00e7a. Shyamalan \u00e9 um historiador de suas pr\u00f3prias imagens e, num s\u00f3 golpe, um escritor visual destas hist\u00f3rias (imagens). Aquilo que o cinema fant\u00e1stico de super-her\u00f3is encena com certa ironia ou \u201cansiedade realista\u201d, Shyamalan resolve como ritual absolutamente consciente dos seus encargos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 a\u00ed que ele ainda \u00e9 surpreendente. Como se as expectativas que depositamos se dissolvessem magicamente nas a\u00e7\u00f5es dos personagens, t\u00e3o fr\u00e1geis e t\u00e3o incapazes de agir diante do medo, que paralisa e torna inerte o movimento do pensamento. E ent\u00e3o a morte chega, decidida, a dar um fim e um recome\u00e7o <em>hiper-real<\/em>. Os que sobrevivem, agora aperfei\u00e7oados, s\u00e3o justamente aqueles que creem no poder da mente. Shyamalan \u00e9 um crente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Split, de M. Night Shyamalan, EUA, 2017. Com James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas amigas tentam convencer uma terceira a pegar carona com o pai de uma delas, ap\u00f3s pararem numa lanchonete. 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