{"id":1230,"date":"2017-03-31T20:16:27","date_gmt":"2017-03-31T23:16:27","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1230"},"modified":"2017-03-31T20:24:49","modified_gmt":"2017-03-31T23:24:49","slug":"michael-cimino-o-homem-que-pisou-na-cauda-do-tigre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1230","title":{"rendered":"Michael Cimino: o homem que pisou na cauda do tigre"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">A c\u00e9lebre cena da roleta russa em O Franco Atirador (1978), quando Robert De Niro tenta dissuadir o seu amigo Christopher Walken de continuar com o perigoso jogo \u00e9 a s\u00edntese do poder que as imagens, nos filmes de Michael Cimino (1939 &#8211; 2016), exprimem. Absolutamente todos seus filmes possu\u00edam certa lisura e not\u00e1vel efervesc\u00eancia algo raras. De O \u00daltimo Golpe (1974) a Na Trilha do Sol (1996), sua obra \u00e9 um prato cheio para entendermos um pouco da complexa hist\u00f3ria do cinema americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sua filmografia comporta um malgrado epis\u00f3dio, como uma por\u00e7\u00e3o de outros, no qual o protagonista \u00e9 um filme poderoso. O Portal do Para\u00edso (1980) n\u00e3o \u00e9 a &#8220;obra-prima incompreendida&#8221; que aniquilou a United Artists, pois n\u00e3o \u00e9 de compreens\u00e3o que se trata o cinema. O est\u00fadio, criado pelos pioneiros Chaplin, Griffith, Pickford e Fairbainks l\u00e1 nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado (e que tinha como prop\u00f3sito fortalecer a posi\u00e7\u00e3o dos diretores em uma ind\u00fastria crescente e vivendo modifica\u00e7\u00f5es que s\u00f3 viriam a se intensificar), teve ent\u00e3o o seu maior fracasso (no sentido hollywoodiano).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A hist\u00f3ria \u00e9 longa e n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para remont\u00e1-la, deixo portanto a recomenda\u00e7\u00e3o de um livro, bastante duro com Cimino, escrito por Steven Bach, um dos produtores do filme: Final Cut: Art, Money, and Ego in the Making of Heaven&#8217;s Gate, the Film that Sank United Artists.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A hist\u00f3ria deste filme custou caro n\u00e3o s\u00f3 ao est\u00fadio, mas ao pr\u00f3prio cinema americano da gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-cl\u00e1ssica. Cimino, \u00e9 claro, sabia, do auge de sua sensibilidade, que fazia um grande filme, donde a sua insist\u00eancia em manter a temperatura das cenas (a viol\u00eancia, f\u00edsica e psicol\u00f3gica, se \u00e9 que podemos as separar), a magnitude dos planos, a honesta e ambiciosa vontade de remeter ao tradicional, a pureza dos di\u00e1logos, a extens\u00e3o do tempo, a clareza de suas heran\u00e7as est\u00e9ticas e intelectuais. Est\u00e3o l\u00e1, por \u00f3bvio, os &#8220;seus cineastas&#8221;, John Ford (decerto em primeiro lugar), D.W. Griffith, King Vidor, Cecil B. DeMille; os seus literatos, Charles Dickens, Thomas Mann; os seus pintores, Caspar Friedrich, Kandinsky, Renoir (n\u00e3o possuem as cenas de dan\u00e7as do Portal do Para\u00edso e de O Franco Atirador (1978) alguma semelhan\u00e7a com O Baile no Moulin de la Galette?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Ele s\u00f3 queria filmar pessoas e sonhar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os personagens de Cimino n\u00e3o precisam falar muito: existem as imagens. Ali\u00e1s, a minha imagina\u00e7\u00e3o cin\u00e9fila sempre permitiu imaginar Griffith, cineasta do per\u00edodo silencioso, a falar cada vez menos em seus filmes se ainda os fizesse hoje. De fato, os seus dois filmes falados n\u00e3o possuem l\u00e1 muitos e extensos di\u00e1logos. Como Cimino, Griffith tamb\u00e9m viu sua carreira desandar com o aux\u00edlio perverso da mesma ind\u00fastria que ele, como nenhum outro, ajudou em seus primeiros passos. Cimino n\u00e3o teve melhor sorte, mas o seu legado \u00e9 imenso. Ele foi, sempre, entre os herdeiros de Griffith e Ford, provavelmente o maior, em quem as &#8220;evid\u00eancias&#8221; apareceram com mais for\u00e7a e vibra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao contr\u00e1rio de Griffith e mais pr\u00f3ximo de Ford, Cimino era um idealista cr\u00edtico. Temos um exemplo definitivo em seu \u00faltimo filme, Na Trilha do Sol, que coloca lado a lado a cren\u00e7a religiosa e a ci\u00eancia n\u00e3o para prov\u00e1-las verdadeiras, mas torn\u00e1-las poss\u00edveis. Pois \u00e9 disto mesmo que se trata: a linha do horizonte fordiana, mat\u00e9ria visual constituinte da hist\u00f3ria do western, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a cren\u00e7a na possibilidade do mundo e nesta possibilidade como ordem (moral) a ser restitu\u00edda pela e na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como aquele outro sonho que nunca se realizaria: a adapta\u00e7\u00e3o do livro de Ayn Rand, Vontade Ind\u00f4mita. King Vidor j\u00e1 havia lhe dado uma imagem cinematogr\u00e1fica em sua adapta\u00e7\u00e3o do livro hom\u00f4nimo. O Objetivismo, &#8220;a virtude do ego\u00edsmo&#8221;, a liberdade, a propriedade, na propalada ideia de Rand, ou seja, o laissez-faire ordenador da estrutura capitalista moderna, seriam seus materiais. Mas Cimino dizia n\u00e3o estar ligado em ideologias e pol\u00edtica. Ainda bem que, neste caso, ele sempre esteve errado. Pois o que seria de um filme como O Ano do Drag\u00e3o (1984) sem a violenta exposi\u00e7\u00e3o dos meandros da m\u00e1fia chinesa nos Estados Unidos (como se, naquele contexto, m\u00e1fia e pol\u00edtica n\u00e3o fossem partes de um mesmo processo) e O Siciliano (1987) &#8211; ou mesmo O Franco Atirador, filme antibelicista por excel\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o lhe importavam os motivos, mas as cren\u00e7as e o que elas mobilizavam nos homens que as carregavam. Era o que ele queria filmar, o que buscava mostrar. Ele queria poder imaginar e sonhar o mundo com seus personagens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A c\u00e9lebre cena da roleta russa em O Franco Atirador (1978), quando Robert De Niro tenta dissuadir o seu amigo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":1234,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-1230","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pedro-henrique-gomes"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1230","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1230"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1230\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}