{"id":1168,"date":"2017-03-22T09:19:52","date_gmt":"2017-03-22T12:19:52","guid":{"rendered":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1168"},"modified":"2017-03-23T09:23:17","modified_gmt":"2017-03-23T12:23:17","slug":"a-duvida-e-a-humanidade-da-reportagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vos.homolog.arsnova.work\/?p=1168","title":{"rendered":"A d\u00favida \u00e9 a humanidade da reportagem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A ideia fixa \u00e9 a morte do jornalismo. Dar o passo e comprovar uma tese \u00e9 o pior caminho para a reportagem. O exerc\u00edcio da d\u00favida, o permitir-se titubear \u00e9 o que ainda nos mant\u00e9m no rumo certo. \u00c9 o exerc\u00edcio mais complexo a ser feito em momentos de ideias confort\u00e1veis. A d\u00favida \u00e9 a humanidade da reportagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de alguns anos contando hist\u00f3rias, encontrei uma que n\u00e3o queria contar. pelo menos n\u00e3o do jeito tradicional, desse jeito de r\u00e1dio que aprendi a fazer quase automaticamente. Sei reconhecer a melhor sonora em poucos minutos. edito, falo no improviso, sei o ponto certo de engatar outra. Assim, em um minuto e meio, resumo o mundo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Mas essa hist\u00f3ria n\u00e3o merecia uma sonora. Merecia horas do nosso mundo<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o juri de um caso complexo, mas sem pol\u00eamicas. N\u00e3o havia pol\u00eamica alguma, discord\u00e2ncia alguma nas imagens que mostravam tr\u00eas policiais militares assassinando a tiros um homem rendido, sentado no ch\u00e3o, em uma \u00e1rea nobre de S\u00e3o Paulo. O homem era um jovem de 18 anos e tinha roubado uma moto minutos antes. Provavelmente nem estaria naquele bairro cheio de condom\u00ednios fechados se n\u00e3o fosse a circunst\u00e2ncia. Foi perseguido, entregou-se e morreu. Assim, \u00e0s duas da tarde de um feriado de independ\u00eancia. O caso veio \u00e0 tona dias depois, quando as imagens das c\u00e2meras de seguran\u00e7a de uma dessas ilhas de sossego chegaram \u00e0 imprensa. Nem o notici\u00e1rio sangrento e gritado dos fins de tarde apedrejou &#8220;os bandidos&#8221; e, quase dois anos depois, veio o dia do veredicto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O julgamento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tribunal, os tr\u00eas Policiais em nada lembravam aqueles das imagens. Em suas fardas, tinham passos certos, quase ensaiados e um desfecho pronto. Em frente ao j\u00fari eram a imagem do achaque. &#8220;Sim senhor.&#8221; &#8220;N\u00e3o senhor&#8221;. &#8220;N\u00e3o fiz isso, n\u00e3o, senhor&#8221;. Eram jovens tamb\u00e9m. O mais velho n\u00e3o passava dos 30. Nossos olhares nunca se cruzaram. Eu olhava pra eles e eles olhavam pro ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto defesa e acusa\u00e7\u00e3o se enfrentavam numa esp\u00e9cie de festival de atua\u00e7\u00e3o, eu olhava para eles e buscava a humanidade que eu n\u00e3o queria encontrar. Eu queria que fossem condenados. Que pagassem pelo crime que cometeram. Eles n\u00e3o deveriam despertar em mim qualquer tra\u00e7o de piedade. &#8220;Mataram um homem sem chance de defesa&#8221; era o que dizia o promotor. &#8220;A sonora perfeita&#8221;, meu esp\u00edrito de r\u00e1dio. Mas eles precisavam ser julgados. Precisavam ter a chance da defesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os advogados<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao lado deles, cinco dos melhores advogados de S\u00e3o Paulo. Um deles, conhecido por defender Policiais Militares e conseguir bons resultados. Uma das \u00fanicas derrotas foi o caso Carandiru, que teve o julgamento anulado recentemente. N\u00e3o teve nenhuma grande derrota, ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O j\u00fari<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os jurados, cinco homens e duas mulheres, olhavam atentamente para os gestos daquele homem que esvoa\u00e7ava a toga preta aberta. Parecia um corvo, curvo. Gritava o mantra dos tempos obscuros. A cada &#8220;bandido bom \u00e9 bandido morto&#8221;, me contorcia na cadeira, sempre sob o olhar de um policial militar que fazia a seguran\u00e7a do f\u00f3rum. Levantei duas vezes durante as oito horas de debate para passar informa\u00e7\u00f5es \u00e0 reda\u00e7\u00e3o. Do outro lado da linha, pouco importava o embate. Queriam a senten\u00e7a. Aceitei a minha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o atendi a alguns telefonemas que mostravam no visor &#8220;Est\u00fadio do Ar&#8221;. Se era a senten\u00e7a o interesse, n\u00e3o podia\u00a0resumir o mundo todo naqueles &#8220;voc\u00ea tem quarenta segundos, flor!&#8221;. Como n\u00e3o podia usar o celular no tribunal, me dediquei como a uma aula de hist\u00f3ria. Maldita tecnologia que me tirou a mania de andar com cadernos e canetas marca texto!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O processo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem o peso da ansiedade das sonoras, resolvi ouvir com aten\u00e7\u00e3o a todos os argumentos dos advogados, que alegavam leg\u00edtima defesa dos policiais. Sim, eles estavam se defendendo de um homem rendido, sentado no ch\u00e3o e sem camisa. E se estivessem? Me permiti fazer essa pergunta em sil\u00eancio. E se aqueles homens, que ganham pouco e n\u00e3o t\u00eam preparo algum para a rua tivessem, realmente, se assustado com um movimento brusco do suspeito (como dizia o advogado) e tivessem atirado por reflexo? Ent\u00e3o talvez o r\u00e9u devesse ser outro. Quem deveria responder pela morte do jovem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O promotor tamb\u00e9m prendeu minha aten\u00e7\u00e3o quando perguntou o que diferenciava aqueles homens &#8220;da lei&#8221; dos homens &#8220;fora da lei&#8221;, que matam &#8220;por susto&#8221; em latroc\u00ednios? O que transformava os \u00faltimos em bandidos bons e mortos e os primeiros em her\u00f3is condecorados? Por que a vida de uns vale menos que uma moto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A senten\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram mais de duas horas de sala secreta, quando os jurados se re\u00fanem para determinar a senten\u00e7a. Na sala de imprensa a opini\u00e3o era quase un\u00e2nime: &#8220;V\u00e3o ser absolvidos&#8221;. O que nos levava a tal conclus\u00e3o era um v\u00eddeo exibido pela defesa nos 10 minutos finais, com imagens de policiais sendo rendidos e mortos por &#8220;bandidos maus e vivos&#8221;. Cada imagem era narrada aos gritos pelo advogado. Ex-policial, engasgou o pedido de absolvi\u00e7\u00e3o num in\u00edcio de choro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na leitura da senten\u00e7a, todos os textos prontos, com alguns espa\u00e7os para trocar as palavras &#8220;absolvidos&#8221; por &#8220;condenados&#8221;. Lacunas vazias esperando os anos de pena, caso a segunda alternativa se comprovasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ju\u00edza, terceira mulher no meio de tantos homens julgadores, decidiu que a diferen\u00e7a entre os policiais e o ladr\u00e3o de moto \u00e9 tudo o que separa os dois mundos. Os homens da lei n\u00e3o tinham aquele passo ensaiado por acaso. Ele era ensaiado, de fato. Sabiam usar as permiss\u00f5es da lei a seu favor. O ladr\u00e3o de moto n\u00e3o tinha nada por si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Homic\u00eddio simples para um dos PMs. Doze anos e cinco meses. Bem menos que os 26 que a acusa\u00e7\u00e3o queria, com todos os agravantes. Absolvi\u00e7\u00e3o para os outros dois.<\/p>\n<p>Vitoria da defesa. Satisfa\u00e7\u00e3o da promotoria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ideia fixa \u00e9 a morte do jornalismo. 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